He Was Born to Blow Your Mind escrita por Lux Noctis


Capítulo 1
Capítulo 1


Notas iniciais do capítulo

Muito provavelmente terá um segundo capítulo (90% de certeza)



Mais uma noite, como as últimas anteriores. Se os shows não ocupassem suas agendas, eventos ocupavam o lugar. Shows, entrevistas nas rádios, encontro com fãs. Eles quase não tinham tempo de conversar, de sentar e realmente entender tudo o que havia acontecido.

Miles caminhava de um lado ao outro, o chá começava a encorpar-se com a água na xícara. E entrevista da vez seria novamente na rádio, e apenas ele estava ali naquele camarim. A janela dava para um pequeno jardim, e prédios altos. A chuva havia começado sorrateiramente, levando-o a fechar a janela apenas quando a brisa fria tocou-lhe o rosto.

O barulho da chuva abafava qualquer outro som, forçando-o a olhar pela janela fechada, encarando uma mescla de seu reflexo e os prédios a frente. Estava cansado, sem sono, entediado. O chá começava a esfriar, e ele nem havia levado-o aos lábios para saboreá-lo enquanto quente. Seu foco parecia à quilômetros de distância, mas tão próximo em sua mente.

—  Cinco minutos, ainda está aí?

A jovem chamou-o enquanto batia na porta, por mera formalidade.

—  Sim. —  respondeu finalmente levando a xícara aos lábios, tomando o chá morno, fazendo uma breve careta ao finalizar a bebida.

Estava sozinho novamente, olhando para a xícara vazia em sua mão. Apoiando-a na mesa de vidro ao lado da janela.







—  Então, você foi nossa premiada da noite. Poderá fazer algumas perguntas ao seu ídolo. —  o locutor falava com uma ouvinte da rádio, que parecia eufórica com a possibilidade de falar com alguém que ela admirava.

Na sala do apartamento, Alex ouvia a rádio com atenção. A agenda cheia havia impossibilitado-o de participar do programa. Os pés sobre o braço do sofá, bailavam num ritmo único. Por vezes parando, como se apenas sofresse algum espasmo muscular.

—  Boa noite. —  a ouvinte evidenciava o nervosismo em sua voz. —  Quase não vemos mais você ao lado do Alex, e hoje mesmo ele não está na entrevista com você. Aconteceu alguma coisa?

—  Boa noite. —  Miles respondeu arrumando o fone nos ouvidos, diminuindo a pressão imposta por eles. —  Nada aconteceu. Ao menos nada além de uma agenda lotada de compromissos. —  ele sorriu, embora ninguém além da equipe da rádio pudesse ver.

Alex não estava mais sentado despojadamente em seu sofá. Uma onda de euforia o impeliu a sentar-se de forma a curvar-se sobre o próprio corpo, apoiando os cotovelos nas pernas. Cruzando os dedos, formando a base necessária para apoiar seu queixo e olhar fixamente para o rádio, como se pudesse enxergar o outro ali. Estava atento a cada palavra que o outro pudesse falar.

—  Então a amizade de vocês continua inabalável? —  a jovem continuou, e uma risada baixa fora ouvida.

Miles engoliu o seco, levando a destra até os fones novamente, sorriu de lado ao sentir os olhares curiosos quase queimarem sua pele. Uma parte dele torcia para que Alex estivesse ocupado demais para ouvir a programação da rádio, muito embora a outra parte torcesse piamente para que ele estivesse acompanhando.

—  Sim. —  a resposta monossilábica fora tudo o que ele conseguiu dizer antes do locutor interromper a entrevista, avisando que restavam apenas mais alguns minutos, voltando ele mesmo a entrevistar o convidado.

—  Bem, vamos terminando por aqui, mas você ouvinte que nos acompanha sempre, nos falamos amanhã no horário de sempre, com aquelas músicas e entrevistas que vocês mais gostam. Hoje tivemos a ilustre participação de Miles Kane, da banda The Last Shadow Puppets. Vamos encerrar a noite com uma música da banda, para você que assim como eu, é fã.

Os ouvintes foram embalados com as notas de Aviation, enquanto a equipe cumprimentava Kane, alguns tirando fotos, outros fazendo perguntas que não foram feitas durante a entrevista.

—  Obrigado por dispor de tempo para vir aqui. A audiência agradece. —  estendeu a mão para que o cantar a apertasse.

—  Garanto que se o Alex pudesse, estaria aqui também. —  acostumado a falar por dois. A responder por eles como uma equipe, raramente por si só. —  Vou indo, o caminho com chuva fica mais distante.

Acenou para todos, caminhando apressadamente para seu camarim improvisado, recolhendo os objetos pessoais que alí havia deixado. Na jaqueta o celular, na tela uma única mensagem recebida. Não fora necessário desbloquear a tela para ver o remetente. O nome ALEX em letras maiúsculas já deixava claro.

 

“Bela entrevista.”

 

Nada além. Duas únicas palavras que ele leu e releu até entrar no táxi que o aguardava no térreo daquele prédio. A chuva havia diminuído, deixando apenas que gotículas fossem liberadas das densas nuvens no céu. A testa colada à janela do carro, deixando que sua mente vagasse livremente por memórias que normalmente ele tentava deixar de lado.





O ensaio, como todo outro, exigia bastante deles. Alex por vezes esquecia de se hidratar, o que maltratava suas cordas vocais. Miles sempre levava duas garrafas, uma para ele, a outra para o amigo.

Naquela pausa para reporem a água nos organismos e descansarem por alguns minutos sempre vinha a calhar. Estavam sentados no palco, com as pernas esticadas ao chão e as costas apoiadas nas treliças de ferro.

Aquele, como muitos outros ensaios e shows, deixava-os mais próximos. Fosse para cantar dividindo o microfone, ou apenas aqueles abraços compartilhados que ambos juravam não passar de carinho entre amigos.

Estavam próximos um do outro, e sozinhos. Talvez Alex não tivesse notado que seu braço estava apoiado na perna recém erguida de Miles. Colocando seu cotovelo sobre o joelho alheio. Levou a garrafa aos lábios, tomando um gole, fechando-a em seguida.

—  Deixou entornar. —  Miles comentou levando o polegar a secar a gota de água que havia escapado por entre os lábios entreabertos do amigo. Um gesto tão automático quanto compartilhar o microfone, ou abraçá-lo após uma música, ou até mesmo aqueles tapinhas quando se afastavam.

—  Não deixei entornar, estava hidratando os lábios. —  a desculpa esfarrapada fez com que Miles sorrisse. Balançando a cabeça em negação, declarando assim, não acreditar no amigo.

—  Claro. —  o tom de sua voz havia mudado, dando lugar à uma mescla de sarcasmo e falsa aceitação.

Levantou-se, apoiando a mão na coxa alheia, apertando-a suavemente antes de cessar o toque. Estendendo a mesma mão para que o amigo a segurasse, para servir de apoio para que ele também pudesse se levantar.

—  Mais uma? —  perguntou já caminhando para o meio do palco, pegando o microfone na banqueta que ali havia, arrumando-o na base de apoio.

—  Acústico? —  Miles aproximou-se, sem nem ao menos se dar ao trabalho de pegar o próprio microfone. Nem mesmo chamou os demais membros. Se ainda não voltaram, é porque não estavam aptos para tal.

A música, à capela, estava tão suave quanto possível. O tom de voz mantinha a melodia agradável e Alex empenhava-se sempre para que cada vez ficasse melhor.

Estavam focados apenas na música, sem notar a aproximação, que aquela altura já era costumeira.

—  Tell him what you want and baby he can find you anything you need… —  em uníssono cantaram o refrão, deixando a frase morrer ao sentir seus lábios, não mais resvalarem no microfone, e sim nos lábios alheios.

Embora não mais deixassem que as palavras rompessem por seus lábios, não se afastaram. A destra de Miles estava, como inúmeras vezes, na nuca do companheiro de banda. E ali ela permaneceu. Alex finalmente notou que estava mudo, e sem reação. A mão ainda apoiada no microfone, afastou-se poucos centímetros, apenas o suficiente para não mais ter seus lábios resvalando nos do amigo.

—  Começaram sem nós, que pressa!

No susto afastaram-se ainda mais, olhando ao redor, evitando olhar um para o outro.

O restante do ensaio fora sem tanta conexão entre eles, como se estivessem em sintonias diferentes, e as pessoas ali presentes conseguiram notar isso.

Saíram sem se despedir, suas mentes estavam longe demais, presas no espaço-tempo. Recordando com riqueza de detalhes o toque suave, os olhares, a cumplicidade.





—  Troque a rota, por favor. —  falou para o taxista, saindo da transe na qual se encontrava. —  Tenho um novo endereço em mente.




O táxi parou, e como se o timer estivesse perfeito, a chuva voltou a cair um pouco mais forte, obrigando-o a sair do táxi às pressas e seguir para frente do apartamento, abrigando-se da chuva.

—  Boa noite, senhor. —  o porteiro o cumprimentou, enquanto abria a porta, dando passagem. Não seria necessário se apresentar, não por ser uma celebridade, ele não usava isso a seu favor. Mas já havia passado por aquela porta várias e várias vezes. O porteiro nem mais o anunciava para o morador do apartamento 18b.

—  Boa noite. —  cunprimentou, como manda a etiqueta, os bons modos.

Seguiu até o elevador, apertando o botão do andar desejado. As mãos já suavam, prova desnecessária do seu nervosismo latente Embora o cabelo fosse curto, em nada isso o impedia de passar as mãos pelos fios, como se realmente estivesse colocando-os no lugar.

Quando por fim as portas metálicas se abriram revelando um corredor bem iluminado, ele respirou fundo antes de abandonar o recinto, não sem antes verificar seu reflexo na parede espelhada à direita.

Campainha raramente era tocada, sempre achou um barulho desnecessário, e por vezes incômodo e assustador. Quatro batidas seguidas, e mais uma fora do ritmo. Seu toque costumeiro.

Alex parou com um dos pés ainda sem tocar o chão. Havia sido pego de surpresa no meio do caminho para a cozinha, a fim de pegar para si um copo de água. Desde a entrevista, estava na sala, pensando e repensando no último ensaio.

Correu até o espelho que adornava a parede ao lado da porta, verificando se os fios estavam ao menos apresentáveis antes de abrir a porta.

—  Que surpresa! —  comentou abrindo espaço para que Miles pudesse entrar, mas ele permaneceu imóvel. —  Esperando um convite formal?

—  Somos amigos há um bom tempo, certo? —  começou, sem mover um músculo sequer. Indicando que muito provavelmente permaneceria ali, do lado de fora.

—  Sim, por que?

—  Todas as vezes que estamos juntos, ensaiando ou em shows… quando você se aproxima, é apenas para… —  as palavras morreram no silêncio que havia entre eles.

—  Aonde quer chegar?

Miles moveu-se, mas ao contrário do esperado por Alex, moveu-se de um lado ao outro no corredor.

—  Miles! —  tocou-lhe o braço, olhando-o diretamente nos olhos. Ganhando assim a atenção do amigo. —  Não é nada calculado. Nunca foi, nunca pensei nisso, não antes do último ensaio. Se é o que quer saber.

—  Nada apenas pela mídia? —  ainda tinha um vestígio de dúvida, apesar de saber que Alex não se importava em como seus atos fossem vistos pela mídia. Ele era o que era, sem se importar com os pensamentos e críticas alheias.

—  Nunca fiz nada pela mídia. Tudo o que faço, faço porque me sinto bem, porque gosto. Você deveria saber disso.

Estavam em choque, embora nenhum deles tivesse admitido, ou talvez notado. Eram amigos há muito tempo, e nunca antes imaginaram dar um passo além naquela amizade. Eram companheiros de banda, amigos… e só. Embora se fossem realmente reparar, pareciam mais que apenas bons amigos. Havia toque, havia olhar cúmplice, havia aquelas letras que Alex só conseguia escrever quando pensava em Miles.

Novamente estavam em silêncio por tempo demais. Próximos demais. Distraídos demais em seus próprios pensamentos que nem notaram que pensavam o mesmo.

Miles fora o primeiro a sair do transe no qual se encontravam. Olhou bem para cada traço do rosto do amigo. Notou as finas linhas de expressão que se formavam em sua testa, os fios bagunçados, o olhar perdido, os lábios entreabertos. Notou o peito subir e descer lentamente, como se a respiração lhe fosse falha. Perguntou-se o porquê de não ter notado antes. O porquê de não ter notado que sentia-se sempre mais eufórico na presença do amigo, mais feliz, tranquilo, apesar de qualquer coisa. E quando cantavam juntos, naqueles ínfimos momentos de uma intimidade que não compartilhava com mais ninguém além dele. Quando estavam tão entregues à música, ao ritmo, ao companheirismo, que por vezes pareciam até próximos demais. Sorriu, despertando a curiosidade de Alex.

—  O que foi?

—  É engraçado como a gente não percebe nada, até estar na nossa cara.

Turner chegou a abrir a boca para perguntar, mas a única resposta - para as perguntas que nem teve tempo de fazer - fora um beijo. Um beijo de verdade, com direito a mão na nuca, puxando-o para mais perto, ao mesmo tempo que Kane caminhava para dentro do apartamento, fechando a porta atrás de si.

Estava estampado para eles e quem mais quisesse ver, mas eles estavam perto demais para conseguir enxergar. Fora preciso se afastar um pouco para conseguir ver. Alex deixava-o confuso, enquanto também era a resposta para suas perguntas. Estava ali para enlouquecê-lo, nascido para mexer com sua cabeça, ou algo do tipo, naquela noite.

Não haviam mais dúvidas, mesmo que intencionalmente, Alex definitivamente havia escrito Miracle Aligner por causa de Miles. E ali, naquele apartamento reviveriam a letra com riqueza de detalhes. As trocas à luz de velas, os desejos que apenas um poderia realizar para o outro. Eram como a letra e melodia. E encaixavam-se perfeitamente.





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