Inabalável SARA escrita por tsubasataty


Capítulo 5
4.




Ainda de pijama, Sara saiu correndo casa afora. Desceu a escada do segundo andar às pressas, o coração batendo forte no peito. A cada passo que dava, a gritaria do lado de fora se tornava cada vez maior. Na garagem aberta, ela parou subitamente. O que Sara poderia fazer agora?! Tudo estava trancado. Olhou desesperada para todos os lados. Deveria haver alguma solução.

Foi então que sua mente teve um estalo. Seus olhos miraram diretamente para a solitária árvore que ficava na extrema ponta direita da garagem. Não, Sara não estava encarando diretamente a árvore, mas sim algo que estava escondido nela. A mulher aproximou-se em silêncio da pomposa árvore de troncos robustos e, pouco a pouco, o contorno de uma casa na árvore brilhou à luz do luar.

Sara engoliu em seco. Ela não se aproximava daquela casa na árvore havia 2 anos. Alex a havia construído no aniversário de 7 anos de Scott. Lembrar-se dos dois era sempre doloroso para ela, e aquela casa na árvore, tão amada por seu filho, era uma das coisas que mais doía seu coração.

Outro tiro e grunhidos estranhos vindos da rua tiraram Sara de seus devaneios. Ela sabia que ali era o único lugar da casa que mostraria a rua melhor – era, portanto, sua única escolha. Chegou perto da escada feita de madeira e tocou levemente os degraus, analisando-os. A madeira não estava podre ou quebradiça, continuava forte como dois anos antes. Sara respirou fundo e subiu o primeiro degrau, depois outro e mais outro.

Quando atingiu a entrada, teve que fazer força com o braço para a porta abrir. Demorou alguns minutos para que ela conseguisse entrar na preciosa casa na árvore que fora de seu filho. O cheiro ali dentro entupiu suas narinas por um instante. Toda a construção estava completamente fechada havia 2 anos, afinal.

Sara esperou seus olhos se acostumarem com a escuridão e tateou a janela que mirava a rua. Tentou forçar a janela, mas ela estava emperrada. Tentou outra vez, com mais força dessa vez, e apenas uma fresta da janela se abriu. Mas isso foi o suficiente para Sara já conseguir ver minimamente o caos que se instalava ali fora. Havia um grupo de pessoas apontando e mirando uma arma de verdade para algo que estava fora do alcance da visão de Sara. Duas pessoas mais novas choravam e outras 3 tinham os olhos fixos numa figura que Sara não conseguia ver.

“Zumbi, só pode ser. Mas quantos?!”, a mulher pensou consigo mesma, uma veia de preocupação brotando em sua testa.

Desesperada por mais informação, ela usou as duas mãos para abrir o restante da janela e com muito esforço, ela finalmente conseguiu.

Os primeiros raios de sol nasciam no horizonte e ela pôde ver, enfim, a silhueta daqueles seres. Eram 3 zumbis de roupas esfarrapadas, um deles com diversos furos pelo corpo e outro sem o braço esquerdo. O trio caminhava na direção dos humanos, mantendo os braços esticados e as bocas completamente escancaradas.

Um calafrio certeiro percorreu todo o corpo de Sara.

— Vamos embora! – um dos mais jovens gritou – Esses monstros não morrem!

— Eu mirei no coração deles, mas os 3 continuam de pé – uma voz rouca, desesperada, falou em resposta. – Vamos sair daqui.

— Espera, temos mais 2 balas e vou tentar uma coisa – o homem mais velho do grupo disse, arrancando a arma do sujeito trêmulo ao seu lado.

O homem mirou no zumbi mais próximo e apertou o gatilho. A bala acertou o crânio do zumbi e ele caiu morto no chão, não se mexendo mais. Pedaços de cérebro se espalharam por todos os lados.

— ISSO! – o mais velho berrou – Temos que mirar sempre na cabeça.

Sara viu em seguida o homem, agora com mais confiança, apertar o gatilho de novo e acertar o cérebro do segundo zumbi, que também caiu imóvel no chão, com a cabeça completamente em frangalhos.

Não mataram o último zumbi, o que andava cambaleando e não tinha um dos braços; simplesmente saíram correndo para longe dali, em direção à avenida mais próxima. O zumbi claramente seguiu aquele grupo, grunhido seu sussurro dos mortos.

Dentro da casinha da árvore, Sara não ousou se mexer. Temia que o menor de seus movimentos atraísse a atenção daquele zumbi; e a última coisa que ela precisava era de um morto vivo tentando entrar em sua casa para devorá-la viva.

Voltando sua atenção àqueles indivíduos, o grupo tinha em mãos algo que Sara necessitava urgentemente. Algo que poderia salvar a sua vida caso houvesse uma emergência extrema.

Sara precisava de uma arma.

**

No 18º dia, a mulher havia tomado uma decisão.

Ela não poderia mais se manter apenas fechada dentro de casa, sem se preocupar com o mundo que desabou ao seu redor. Sua ideia não era sair de sua residência, mas pelo menos encontrar um ponto de vigília, algum lugar em que ela pudesse ficar de olho em tudo que acontecia ao seu redor. E aquele lugar seria, claro, a casa na árvore.

Sara pensou um instante em seu filho, se ele ainda estivesse ali com ela. O garoto iria delirar de emoção se recebesse a notícia de que sua casa na árvore seria a base secreta de Sara para vigiar os zumbis – Scott seria a própria definição de felicidade em pessoa.  No entanto, seu amado filho tinha morrido, juntamente com Alex, seu grande amor.

Somente Sara havia restado naquele mundo que agora beirava à podridão.

Tentando afastar esses pensamentos, Sara começou a manhã seguinte cuidando da casa na árvore. O espaço era apertado, ela precisava manter a cabeça ligeiramente abaixada para não encostar no teto, mas fora isso não havia problemas. A mulher poliu a madeira, tirou a poeira acumulada e jogou um produto perfumado no chão. Depois de um par de horas de trabalho, a casa na árvore ganhou vida outra vez.

Ela conseguiu abrir todas as janelas e decidiu checar as gavetas para retirar o que havia de sujeira ali. Encontrou algumas folhas de papel encardidas, lápis de cor, um estilingue e o boné azul do filho.

A imagem de Scott sorrindo usando aquele boné inundou seus pensamentos de repente, numa lembrança tão acolhedora que Sara não conseguiu resistir. Desceu da casinha na árvore com o coração aquecido, levando consigo tudo aquilo que ela encontrou.

Sara foi preparar o almoço e comeu um pedaço de carne de sol e macarrão com tomate, cebolinha e manjericão. A mulher sabia que seu fogão a gás duraria ainda uns 45 dias, no entanto tentaria ao máximo estender a durabilidade dele. Almoçou na mesa da cozinha em silêncio, o pensamento longe, ganhando asas.

As folhas de papel encardidas, encontradas há pouco, Sara deixara no fundo da casa, para se livrar delas depois. A sua frente agora estavam o boné que fora de Scott e seu estilingue. Ela estava dando a última garfada no seu almoço quando uma ideia louca veio subitamente a sua mente.

— Será que isso funciona? Isso daria certo?! – Sara pensou em voz alta, levantando-se depressa da mesa.

Ela correu para os fundos da casa, o pensamento subitamente trabalhando a mil. Ela entrou no quarto dos fundos e vasculhou as prateleiras e os sacos amontoados num canto. Demorou alguns minutos até Sara enfim encontrar o que tanto procurava.

— Posso estar louca, – ela murmurou consigo mesma, encarando com brilho nos olhos aqueles pequenos objetos a sua frente – mas pelo menos preciso tentar.





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