Flor do Deserto escrita por senhorasolo


Capítulo 3
Capítulo 3: Estrelas de Jakku


Notas iniciais do capítulo

Último capítulo dessa minha trilogia, muito obrigada aos que acompanharam até aqui. E esse capítulo é especial pois ele se passa alguns dias antes dos eventos de O Despertar da Força.

"O que você procura não está atrás de você, mas à sua frente."
— Maz Kanata



O dia já tinha começado ruim. Acordara por um pesadelo, antes de o sol nascer, e não dormiu mais. Todos os dias eram enfadonhos, mas aquele conseguiu se superar. Não tinha encontrado nada que valesse muito, apenas mais lixo para reciclagem, o suficiente apenas para um quarto de porção, o que para alguém que fazia apenas uma refeição por dia, não era muito bom. Contudo, ela era obrigada a contentar-se. Não costumava reclamar, e nem faria. Guardava todas as suas frustações para si, pois sabia que reclamações não iriam resolver absolutamente nada.

Passou a alça do bastão pela cabeça, acomodando-o atrás das costas, e fez o procedimento padrão: passar no guichê de Plutt e trocar a sucata por uma porção de alimento. Voltou ao Deluxe rapidamente, desesperada para estar em casa. Retirou o cajado, guardou-o no veículo e já se preparava para montá-lo quando algo chamou a sua atenção: gritos de uma criança.

Levantou os olhos e viu a cena que a deixou irritadíssima. Dois homens adultos tentando roubar um menino. O rapazinho chorava e gritava, segurava com as forças que tinha a bolsa que um dos bandidos puxava, enquanto que o outro o segurava pelo braço.

— Ei! – ela gritou, pegou novamente seu cajado e correu até eles. – Ei! Soltem-no!

Os dois homens, movidos de má fé, soltaram o garotinho, como Rey tinha mandado, mas o menino caiu quando fizeram isso. Um deles aproveitou para pegar a bolsa.

— Mar'e! – gritou um deles e correu, sendo seguido pelo outro.

Ver injustiça sendo cometida contra uma criança fez com que ela se esquecesse de seu cansaço e de seus problemas. Corria rapidamente para alcançá-los, mas não conseguiu. Eles alcançaram um speeder e fugiram nele.

Ela parou quando percebeu que não podia mais alcançá-los, que escaparam deixando um rastro de poeira por todo lado. Ela suspirou, frustrada com o fracasso. Quando se virou para voltar, viu o garoto correr até ela – tinha a seguido.

— O que aconteceu?! – ele perguntou, arfando.

Ela agachou-se para fitá-lo na mesma altura que ele. Olhou-o, no seu rosto sujo havia duas linhas verticais feitas pelas lágrimas. Ele era pequeno e franzino, os seus cabelos bagunçados e ensebados, era sofrido e subdesenvolvido. Moveu-se de íntima compaixão por ele, lembrou-se dela mesma naquela idade, então o puxou para um abraço.

— Sinto muito – ela disse. – Sinto muito, eu não consegui.

O menininho desatou a chorar novamente. E ela sentiu-se inútil por isso. De algum modo, ela identificou-se com ele. Desde tão cedo, lutando pela sobrevivência, sofrendo por um pedaço de pão.

— Onde está a sua mãe? – Rey perguntou, afastando-se do abraço.

— Minha mãe morreu ano passado, moça – ele respondeu, enquanto ela limpava as lágrimas de seu rosto.

— Desculpe-me, não deveria ter perguntado.

— Não tem problema. – Ele demonstrou estar menos abalado que aquilo do que ela. – Eles levaram o meu jantar, moça. O que eu vou comer agora? Passei dois catando sucata para conseguir um jantar, e agora?

Aquilo cortou o seu coração. Por quê? Por que tanto sofrimento e tantas injustiças? Aquilo fazia perguntar-se se realmente o amor existia, se podia continuar confiando na esperança, se um dia teria felicidade se nem uma criança escapava das maldades desse mundo. Abraçou-o outra vez e ao afastar-se, ofereceu a ele um sorriso.

— Tenho algo para você. – Rey retirou de sua pochete a porção de alimento que conseguiu naquele dia.

— Mas é seu! – ele disse com os olhos arregalados.

— Não se preocupe, eu tenho mais – ela mentiu.

— Obrigado! – disse sorrindo. Abraçou-a e saiu correndo.

Ela o acompanhou com os olhos até ele sumir de vista. Ver o sorriso daquele menino melhorou, de certo modo, o seu dia. Mesmo que não comesse nada, ela sentiu-se obrigada em ajudá-lo, pois ninguém tinha a ajudado e não desejava a ninguém o sofrimento que ela passou. Voltou para casa, riscou a parede e ignorou a fome. Amanhã levantaria mais cedo ainda e trabalharia mais.

Ela não iria queixar-se de nada. Não sabia o que era ter fartura, nem sabia como era ter abundância de qualquer coisa, mas com o pouco que conseguia, era satisfeita. Ela já tinha tido dias piores que aquele, já passou fome antes e não morreu. Poderia aguentar. A sorte fora boa com ela muitas vezes, apegava-se a certeza de que seria outra vez.

Pensou que se dormisse, poderia calar o estômago. Porém, para Rey, dormir era a sua mais sofrida batalha.

Todas as noites, desesperada para dormir. Por isso que trabalhava arduamente o dia inteiro, para que a noite estivesse cansada e assim o sono viesse rápido. Sua mente era agitada, tinha mil pensamentos, a imaginação era tão livre que era indomável. Rolava de um lado para o outro na esteira que usava como cama, espantava pensamentos, mas o efeito era o oposto.

Lembrou-se do garotinho, será que ele também tinha dificuldades para dormir? Será que passava frio? Esperava que a sua porção tivesse saciado a fome dele, entretanto, Rey sabia que fome era um dor diária. Todos os dias ela vinha incomodar, todos os dias era preciso matá-la e no dia seguinte ressuscitava outra vez.

Tentou pegar no sono outra vez, mas o sono não vinha, escapava de suas mãos e a mente agitada já sobrepujava a imagem do garotinho com outros pensamentos. Como corda, um pensamento puxava o outro.

Como era o oceano? Disseram que era azul, mas que tom de azul? Seria o azul das manhãs ou o azul escuro de quando anoitecia? Decerto que o mar, por ser azul, não faria contraste com o céu, assim como as areias claras do deserto contrastavam com o firmamento. O céu e o mar, ela pensava, misturavam-se e ninguém conseguia distinguir quem era quem.

Sonhava com uma ilha, e por mais que tentasse, era praticamente impossível construir em sua mente o retrato de tanta água junta num só lugar. Aquele líquido vital era tão raro onde vivia, era surreal para ela que milhões de litros daquela preciosidade ficassem em torno de uma ilha.

Mas o oceano existia, e era azul. Outra dúvida: como pode ser azul se a água é incolor?

Desistiu de tentar dormir. Calçou as botas surradas, pegou o cajado e saiu para observar as estrelas, que era o que fazia quando tinha insônia. Fitar o firmamento tão pintado de estrelas reluzentes era o que mais gostava de fazer, pois traziam paz ao seu espírito. As estrelas eram a única beleza contemplativa que havia naquele mundo; foi nelas que Rey entendeu o significado de beleza.

Lembrou-se das histórias que ouvia de viajantes, ou de quem já tinha estado fora de Jakku. Contavam as belezas da galáxia, sobre planetas exóticos, cheios de vida e plantas gigantescas em cores vibrantes; sobre lugares com árvores altíssimas; grandes cidades que nunca dormiam; até lugares onde só havia imensos oceanos e que chovia constantemente; sobre cometas e nebulosas. Tudo isso era surreal para Rey, não conseguia ser capaz de imaginar tais coisas. Como é uma nebulosa? O que é a chuva?

Tinha um desejo que reprimia: viajar entre as estrelas, conhecer todas elas, ver esses lugares e não dar limites a sua curiosidade. Contudo, ela não podia ir. Se fosse embora hoje e sua família voltasse amanhã? Ela iria voltar. Um dia.

No entanto, à medida que os anos passavam e a cada anoitecer ela ainda estava sozinha ali, sentia como se aquela espera fosse irrelevante. Dezenove anos tinham se passado e o desespero já estava às portas.

Sortudo era aquele garoto, que sabia onde sua mãe estava, ao contrário dela, que não fazia ideia de onde estava sua família, do que tinha acontecido com eles, poderiam estar mortos e ela nunca saberia. E se nunca tivessem a amado? Se a abandonaram ali para livrarem-se dela?

Só queria sentir-se parte de alguma coisa, pertencer a alguém, amar e ser amada, ter quem lhe empreste o ombro para deitar a cabeça e que a noite lhe desejasse bons sonhos, que a fizesse sentir que é importante.

— Por quê?... Por quê? – perguntava-se, olhando para o céu. – Por quê? – colocou a cabeça sobre os braços repousados sobre os joelhos, aos prantos.

Recusou todas as oportunidades que tivera de ir embora só para permanecer à espera deles. Precisava espantar os pensamentos pessimistas, tinha de ter fé e coragem.

Levantou os olhos ao céu e limpou as lágrimas. Pôs-me a murmurar uma cantiga, uma que a lembrava da família, que falava sobre ter fé e altruísmo.

Uma estrela cadente cortou o céu no horizonte. Rey acreditava em estrelas cadentes e no seu poder de realizar pedidos. Mas como nenhum de seus pedidos anteriores tinha sido realizado, resolveu mudar a frase para algo menos específico, mas que lhe servia bem:

— Desejo encontrar tudo o que procuro.

E dessa vez, ela sentiu que realmente iria acontecer.



Notas finais do capítulo

* "Mar'e", gritado pelo bandido, é uma expressão de uma das línguas fictícias de Star Wars, a Mando'a. Ele disse algo como "até que enfim" ou "finalmente".

E assim se encerra esse ciclo. Obrigada por terem lido a minha história.
Beijos!



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