Flor do Deserto escrita por senhorasolo


Capítulo 1
Capítulo 1: Espelho


Notas iniciais do capítulo

Eu imaginei essa situação e pode até parecer algo trivial, mas eu vejo muita profundidade nisso. Então, não deixe de ler até o final.
Os capítulos não seguem uma ordem cronológica, mas não é nada que atrapalhe o raciocínio.

Boa leitura ;)



O maçante sol do meio-dia refletido pelas areias claras e escaldantes, somado ao cenário monótono e inóspito, aflorava em Rey o sentimento de solidão. Não havia uma alma viva em quilômetros, nada brotava do chão infértil. Ela estava sozinha na vastidão daquele deserto.

Conseguiu consertar o motor do Deluxe B3676, seu veículo de transporte, e assim regressar ao entreposto Niima; não aguentava mais estar no meio daquele nada – não aguentava mais estar em Jakku, para ser sincera. Não foram poucas as oportunidades que tivera de partir, ir embora para sempre daquele lugar horrível, no entanto, algo a mantinha ali. Tinha de esperar mais tempo em Jakku, onde a vida era sofrida, os recursos eram poucos e as alegrias praticamente nulas.

Contudo, não deixaria que isso enfraquecesse o seu humor, pois naquele dia em especial, tinha um motivo para estar contente. Recolhendo sucata num dos grandes cruzadores estelares, que outrora demonstraram todo o poderio do Império Galáctico, encontrou uma peça de maior valor, algo que renderia bastantes porções. A sorte sorriu para ela, como há muito tempo não sorria.

Montou no veículo, mas antes de dar a partida, cobriu novamente o rosto com o véu; sentia que a pele das maçãs do rosto já estava avermelhada com a ligeira exposição ao sol. Atravessou o deserto rumo ao entreposto. Por um tempo, a paisagem não mudou, apenas as mesmas dunas de areia, até que os primeiros sinais de que ela não era único ser vivo habitando naquele planeta apareceram. Recolheu as peças que juntou, limpou-as, com especial cuidado a mais valiosa, então as levou ao alienígena patrono dali, Unkar Plutt. Esboçou um sorriso quando o alien parrudo de nariz achatado lhe entregou as oito porções de comida. Como já estava acostumada a racionar tudo, tinha alimento garantido para alguns dias.

Foi até um outro comerciante, trocaria uma das porções por uma determinada quantidade de água, que também seria racionada. E assim se fez, já ia embora, porém, algo chamou a sua atenção.

Feixes de luz foram refletidos em seu rosto. Virou-se para o lado e viu em uma das bancas um objeto brilhante, que refletia luz pelo ângulo em que estava posicionado. Aproximou-se curiosa.

Num lugar como Jakku, onde o que abundava eram unicamente areia e ferrugem, coisas diferentes, que nunca ou raramente tinha visto, despertavam a sua curiosidade. Queria ver de perto, saber sobre, tocar, conhecer...

Veio à banca. O comerciante logo notou o seu interesse pelo espelho. Ela o pegou, fitou-o em suas mãos. Era esférico, tinha um cabo marrom e estava sujo. Tinha uma pequena rachadura na extremidade. Ela sabia o que era um espelho, sabia para o que servia, mas nunca teve um. Nele ela viu com mais nitidez o seu próprio rosto. Sabia como era, conhecia que cor tinha seus olhos, viu-se algumas vezes refletida em água e em metal polido, mas nunca tivera o objeto cuja única finalidade é o ato da autocontemplação.

Estava ali, nele, o seu rosto jovial, os olhos expressivos e amendoados, a boca pequena e bem desenhada, o nariz de ponta arrebitada, as sardas em volta dele, a pele estava suja de poeira, o que a fez querer limpá-la. Passou a mão no rosto, mas apenas removeu parte do pó, ainda estava com o rosto sujo.

— Gostou do espelho moça?

A voz do velho comerciante a fez retornar à realidade. Olhou-o depressa.

— Hã?

— Gostou do espelho? – ele repetiu.

— Quanto custa? – quis saber.

— Meia porção – respondeu.

Créditos não são tão importantes ali, o comércio funcionava quase integralmente por meio de escambo, e as principais moedas de troca são comida e água. E meia porção era caro. Teria que racionar ainda mais se quisesse levar o espelho.

Era uma futilidade. Não era sábio trocar comida por um objeto que só serve para mostrar a própria imagem.

Nunca teve um espelho. Nunca teve muitas coisas, mas queria por demasiado aquele espelho. Embora simples, achou-o muito gracioso. Que custava ter algo para poder se ver? Pensou que, quando chegasse ao AT-AT derrubado onde morava, poderia limpar melhor o rosto, arrumar os três coques frouxos do penteado, talvez seu reflexo melhorasse.

Sentiu-se encorajada em levar o artigo de beleza, mas a razão dizia que não era coerente. Se levar o espelho, falta comida, se falta comida, precisa trabalhar em dobro.

— Vai levar? – o comerciante perguntou.

— N-não – a voz saiu mais vacilante do que pretendia.

Devolveu o objeto ao seu lugar. Meneou a cabeça num cumprimento e começou a andar, com o intuito de ir embora.

Enquanto caminhava, não parava de pensar que jamais tivera um espelho. Lembrou-se do seu rosto refletivo nele. Em tempo algum foi vaidosa, nem tinha como ser, comprar tal espelho seria apenas para atender a um capricho, e isso não fazia parte de sua vida nem condizia com sua personalidade. Mas a vida já a tinha privado de tantas coisas, que custava ter um espelho? Traria um pouco de realização a sua vida penosa.

Deu mais um motivo para comprá-lo: o velho comerciante era tão necessitado quanto ela. Vendia coisas que achava, barganhava ou conseguia de viajantes. Também passava necessidade, pois arrecadava pouco. Comprando o espelho, estaria o ajudando.

Não podia ser egoísta com quem um dia pode vir a lhe estender a mão. Então voltou e comprou o espelho. Estava exultante, agora tinha seu precioso objeto de autocontemplação. Caminhou depressa, mas com cuidado, até seu veículo. Guardou o espelho junto da água e da comida e foi para casa.

O céu estava pintado de laranja no ocidente, logo escureceria. Dentro do AT-AT abatido estava o seu lar. Entrou, guardou as coisas que trouxe consigo e fez um risco na parede. Mais um dia naquele lugar, mais um dia de espera...

Preparou sua refeição diária, tomou água, e depois do jantar, fez o que tanto desejava. Limpou melhor o rosto, arrumou os cabelos e conferiu sua imagem em seu espelho.

Estava realmente melhor. Naquele momento achou-se bonita, pela primeira vez. Sorriu, e ainda mais bela ficou.

E o espelho foi sua primeira vaidade.



Notas finais do capítulo

Um espelho, um simples espelho, para alguns símbolo de vaidade e, para os mais exagerados, narcisismo. Mas o espelho também representa a verdade, a sinceridade e a pureza.

Obrigada por terem lido ♥



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