WSU's Aradia - Sangue de Vilão escrita por Leanan Moriartti, WSUniverse, Lex Luthor


Capítulo 3
Capítulo 2 - Migalhas




Anos mais tarde

Nova Orleans, 2017

O gosto do uísque amargo e barato permeava a boca de Aradia que bebericava em um pequeno copo de vidro, batendo o mesmo na superfície de madeira enquanto o conteúdo acabava, um sinal que pedia outra dose. Fez isso repetida vezes até perder a noção do tempo, bebia como se o gosto não influenciasse. O barulho de batidas eletrônicas era intenso, a bruxa sentia tremores por todo seu corpo, vibrações que palpitavam suas têmporas e causavam certo tremor no coração. Ouvia as conversas ao seu redor, conversas que ela queria estar tendo, normais. Sem se preocupar com seres estranhos, ou qualquer outra merda que não fosse se preparar para… nada.

A sexta-feira noturna era movimentada, pessoas dançavam conforme o ritmo das batidas e riam sem nem saber o motivo, divertiam-se para passar vergonha mais tarde, estava claro para Aradia. A bruxa não fez questão de misturar-se com a normalidade. Seu cabelo formado com tranças raiz descia por suas costas e misturava-se com o tecido escuro de seu vestido, um tecido que lembrava penas de corvo. O corte no dorso do vestido formava um “U” delineando suas clavículas aparentes, mas nenhuma sombra se formava, dando a impressão que estava colado nela. O traje estendia-se até seus joelhos e estranhamente mesclava-se com a pele escura de seus braços, como se fizesse parte dela. Os olhos gélidos moviam-se com cautela, percorrendo o lugar e decorando os rostos.

Quando por fim cansou de beber, levantou-se cadeira em frente ao balcão e virou seu corpo esguio para sair, quando o barman achou que fosse uma boa ideia cobrar as doses. A mulher não se deu o trabalho de irritar-se e começou a andar. O homem intrigado ficou olhando-a pelas costas, a bruxa sorriu enquanto ele reclamava, mas riu, ao perceber, ele deu um passo para segui-la, insinuando ser uma ameaça, bastou um simples movimento do dedo indicador dela e o barman sentiu seus dentes caírem, um a um, ele olhou incrédulo para o sangue escorrendo de sua boca. O barulho e as luzes azuladas disfarçaram a cena saída de um pesadelo.

E, como uma sombra que ninguém liga, a bruxa passou despercebida.

Nas ruas daquela cidade Aradia caminhava sem pressa, os pés descalços sentiam o chão gelado em passos arrastados, olhando para o nada. Os ouvidos atentos para tudo que se mexia ao seu redor. Andou por quarteirões inteiros, e nada havia despertado seu interesse. Refletia sobre sua existência forçada e sobre tudo o que teve de passar. Tentando descobrir porque ainda estava ali se já havia matado todas as bruxas que lhe traíram junto com a linhagem que tinham deixado. Tentava descobrir quem havia sobrevivido. Irritava-se com o fato de ter deixado alguém para trás. Isso a fazia ter vontade de queimar tudo e todos, fazê-los sentir a dor que ela sentiu.

Seus punhos estavam cerrados quando sussurros baixos de surpresa somados com palmas quebraram a inquietude de sua mente. Vinham de um lugar que brilhava em luzes coloridas piscantes, irritando a visão de qualquer um que olhasse por mais de dois segundos. Aradia esgueirou-se nas sombras para fazer uma visita discreta. Sentiu seus ossos estalarem e encolherem, os olhos passando a ver o mundo de outra forma, os braços tomando forma de pequenas asas e sua garganta grasnar, a mulher fazia juz ao seu apelido de “Bruxa Corvo”. Não maior que um gato, o corvo planou para dentro do lugar, desviando das pessoas que por estarem totalmente hipnotizadas pela música, não repararam na sua presença.

Era um bar parecido com o anterior, mas esse tinha um toque mais agradável… e música ao vivo, sem luzes ofuscando a visão.

Tratava-se de uma apresentação fútil de uma mulher cantando no meio de um palco pequeno. Obviamente a beleza da mulher era o que mais atraía os ali presentes. Mas havia algo de mágico na sua voz, que Aradia pôde reconhecer rapidamente. A loira no palco, mesmo sentada, aparentava ser de estatura baixa, curvas marcantes e o famoso rosto angelical. Para impressionar ainda mais, ela cantava com os olhos fechados, fazendo todos acreditarem que vinha de seu coração.

Aradia riu com escárnio em seus pensamentos, foi para a madeira à vista do telhado, observando todos dali de cima. A música era até agradável, algo parecido com música country, mas era difícil identificar com tanta gente cantando junto. A bruxa empoleirou-se em suas próprias penas e esperou que as coisas acontecerem, sabia que a voz descompassada era de uma sirena caçando sem nem sequer disfarçar.

Foram longos minutos de cantoria embriagada, brigas que logo eram impedidas, conversas sem nexo e vômitos nos pés de alguém, até que por fim a música terminou. A loira agradeceu a todos pela presença. O som do que parecia ser um aplauso fora do ritmo tomou conta do lugar junto com assobios estranhos e logo a conversa voltou.

Aradia comemorou mentalmente, afinal queria descobrir logo qual seria seu próximo passo, ficou de tocaia pelo resto da noite, esperando pelo movimento da criatura.

A loira conversava amigavelmente com todos que iam lhe cumprimentar, o sorriso marcante enganaria qualquer um. Foi quase uma hora de espera para que a sirena fingisse ser uma presa, para que algum homem achasse que estava conquistando-a. Aradia estava quase dormindo quando percebeu, instantaneamente revirou os olhos enquanto assistia a cena. Esticou as costas quando reparou os dois saindo, aguentou alguns segundos e logo seguiu-os com as asas abertas sob a cabeça de todos.

Nada melhor do que um beco do lado de um bar para atrair a morte. O homem insistia em querer beijar a sirena que cada vez mais fazia charme, deixando-o fora de si. Ele agarrava e apalpava a mesma, e ela suportava cada encosto, mesmo que sentisse nojo, precisava da carne dele. Gemidos de insatisfação saíam dela mas o homem confundia-os com prazer e, nesse rebuliço de pele e suor, a sirena finalmente mostrou os dentes quando não conteve sua irritação, chegou a centímetros de estraçalhar o pescoço da presa quando o corvo se jogou no meio deles, seguido de uma explosão de penas e sombras. Não demorou para que a figura da bruxa ficasse nítida em meio às gavinhas escuras, Aradia estava com seu braço entre os dentes da sirena, seu sangue preto escorria da boca da criatura que gritou e se desvencilhou logo em seguida. O homem olhou sem acreditar, mas foi esperto o suficiente para sair correndo sem fazer perguntas.

Aradia ficou na frente da sirena, bloqueando sua saída, era pelo menos dez centímetros mais alta que a mesma.

— Oi, peixinho — cumprimentou a bruxa à criatura.

— Você precisa estudar mais. — disse a sirena, retomando sua postura e abrindo suas asas de penugem dourada, bem como as penas que começaram a aparecer em seu rosto, eriçadas, olhando com certa irritação para Aradia.

— É, é, não tô nem ai. O que me interessa é seu paradeiro por aqui…

— Eu? Você acabou de invadir minha àrea de caça! — Ao terminar a frase a sirena, fez um barulho similar ao grito de um pássaro, como se estivesse ameaçando.

— Diga-me onde estão as bruxas — ordenou Aradia.

— Claro que não, você é louca? Afinal quem é você?

— Não foi uma pergunta. — Os olhos da bruxa, que antes eram claros como a tempestade, ficaram totalmente escuros e essa decide acariciar o rosto da sirena.

Aradia mirou seus olhos nos da sirena, apreciando a cor dourada da íris, tal como uma águia.

— Não pode ser! — gritou a loira com os olhos arregalados e praticamente colando-se na parede de concreto gelado para tentar se desvencilhar.

Só então Aradia percebe as garras da sirena que substituíam as unhas e curvavam-se para baixo. As garras acertam o rosto da bruxa que sibilou algumas palavras e voltou a olhar a criatura, que não conseguira sair do lugar. O rosto de Aradia pingava o sangue escuro que lhe foi arrancado.

A bruxa posicionou sua mão direita em torno do pescoço da mulher mais baixa, o contato fez com que a sirena virasse cinzas que logo se espalharam no vento gélido.

Aradia apertou as cinzas que restaram em sua mão, olhando irritada. O ferimento em seu rosto ardia e ela tinha a leve impressão de que a pele estava caída. Novamente tomou a forma de corvo, ignorando a dor em seus ossos.

 

***

Nova Orleans, 2017

O barulho alto do liquidificador ligado tomava conta de vários cômodos da casa, no seu comando, uma moça, não mais que dezessete anos, apertava os botões aleatoriamente até que o conteúdo do mesmo ficasse totalmente líquido, olhava desanimada a sua imagem refletida e distorcida pelo vidro do recipiente mostrando os cabelos curtos que tentavam se manter presos em um pequeno rabo de cavalo baixo. Com um breve suspiro a moça desligou o liquidificador, trazendo total quietude ao lugar. Segurou a taça que já havia pego para evitar andar sem sua muleta, serviu-se e escorou o quadril na bancada da cozinha, enquanto bebia de sua taça.

Quebrando o silêncio, dois jovens entraram pela cozinha, um mais moreno, o irmão da moça, outro tão branco que chegava a refletir a luz, um vampiro. Ambos mais novos que agarota . Sem cumprimentar, ambos parecem continuar uma conversa, como se ela não estivesse ali.

— E o que faremos agora, chamamos a polícia? — perguntou o vampiro.

— Claro que não, deixe que descubram sozinhos. Temos de achar que bruxa fez aquilo — disse o caçador, que parecia o mais sensato, ainda com a mochila, andou até a bancada do liquidificador e bebeu o que sobrou ali.

— Olha… estou te falando, não parece o trabalho de uma bruxa, pode ter sido qualquer coisa. Um lobo por exemplo. — tentou explicar o vampiro.

— Bruxas são perigosas — disse a irmã do caçador, intrometendo-se na conversa. Dando sinal de existência.

— Era uma bruxa morta, no meio da floresta. Poderia ter se defendido muito bem se fosse um lobo que tivesse a atacado, mas pelo jeito, foi pega desprevenida, e só há um cheiro de magia lá,não vinham da bruxa morta. Você sabe que eu não estou errado. — insistiu o caçador e então olhou para a irmã, clamando por apoio, mas essa apenas deu de ombros.

Silêncio se pôs entre os três, o vampiro pareceu aceitar o fato, apesar de estar negando por medo, era nítido que sabia o que estava acontecendo. Era claro que sabia de algo maior. A irmã dele ficou por alguns segundos encarando-o, não demorou para que um brilho passasse pelos olhos castanhos dela, a mesma escorou-se em sua muleta para caminhar dar a volta na bancada.

— Pode ser uma briga entre covens — começou ela.

— Bruxas andam morrendo em sequência de uns dias para cá…  — disse o vampiro.

— Ainda assim, devemos impedir. Você sabe. — O caçador replica.

Mais uma vez o silêncio caiu sobre o grupo, até que por fim o vampiro pareceu entender a insinuação e logo mostrou-se indignado.

— Espera… você quer que eu ajude vocês? É diferente de tudo que já enfrentamos — o vampiro tentou explicar.

— Ah, qual é?! Você conhece elas mais do que nós. — justifica o moreno.

— Mas esse é o trabalho de vocês! Vocês é quem têm que manter a ordem entre os planos… — Ele faz uma pausa. —  Olha… eu nem poderia estar ajudando, se meus pais descobrirem eles me matam.

— Como se você gostasse dos seus pais. — O caçador revira os olhos.

— Essa não é a questão. Bruxas são perigosas, e se for uma guerra entre elas… Acho bom não nos metermos nisso — rebate o branquelo.

A moça então passou a ligar os fatos com as curtas histórias que havia lido nos livros de seus avós, murmurando palavras consigo mesma, alto para que os rapazes ouvissem, mas não tão claro para que entendessem. Ela começou a andar com sua muleta pelos corredores luxuosos da casa, por vezes os inúmeros tapetes a atrapalhavam, ainda assim sua avó não se importou em tirá-los.

Seguia para onde se encontrava o porão da casa, no qual o vampiro ali presente, carinhosamente chamava de “Santuário dos Caçadores”.

— Ju, se você sabe de algo é melhor compartilhar logo, sabe, fica mais fácil — pediu o irmão.

— Lembro de ter lido sobre uma bruxa que caçava outras bruxas. — começou June, enquanto descia os degraus da escada com certa dificuldade. O irmão tentou ajudá-la, mas ela balançou a cabeça negando qualquer apoio.

— Existem muitas do tipo na história das bruxas… — observou o vampiro.

— Mas nem todas viveram até os dias de hoje, é muito tempo, até para uma bruxa.

June acendeu as luzes do lugar, revelando um espaço amplo com inúmeras estantes em fileiras, que formavam corredores estreitos entre a colocação de uma e outra, tudo organizado simetricamente. As estantes eram carregadas de livros grossos encapados com couro tingido, a maioria estava com a lombada desgastada e as cores desbotadas, mas todos inteiros, organizados por assunto e título. Ela deu-se o trabalho de ler cada livro e catalogar nas estantes, tinha muito tempo livre, uma vez que o dom da caçada fora lhe dado, embora sua questão física a deixasse inabilitada.

Andou reto até a sessão das bruxas, ignorando qualquer outra coisa ali. A moça passa seu indicador pelas laterais, acompanhando com seus olhos até puxar um livro não muito grande que os outros, o couro desse era preto e parecia mais intacto que os outros, na lombada do livro estava gravado “O Evangelho das bruxas - Aradia”. A garota segura-o em um dos braços com delicadeza, enquanto se apoia na muleta com o outro.

— Aqui, pelo que me lembro, diz que originalmente, Aradia era uma deusa lunar, uma das filha de Diana, que guiava a caçada. Antigamente, para vingar as almas inocentes, as bruxas invocavam Aradia. — June fez uma pausa e entregou o livro para o irmão, que sem demora abriu o mesmo.

A irmã começou a folhear o livro nas mãos do irmão, até parar na gravura de uma mulher com chifres espirais saindo das laterais da cabeça; o pescoço era envolto por um colar que trazia um grande pingente vermelho.

— Em 1676, Eleanor Matsdotte, foi acusada de bruxaria pelas próprias filhas. Considerada culpada, foi condenada à morte na fogueira, as próprias filhas conduziram. Dizem as lendas, que enquanto queimava, Eleanor jurou se vingar de todas as bruxas envolvidas. E quando uma série de bruxas começou a morrer após o falecimento de Matsdotte, os covens começaram a chamar o espírito vingativo de Aradia, homenageando a lenda da filha da Deusa Diana.

Novamente as páginas do livro foram folheadas, dessa vez parando na foto de Eleanor, uma mulher ruiva com traços marcantes, um rosto impossível de esquecer. No longo pescoço da mulher estava o mesmo colar de antes, o pingente brilhando em um vermelho intenso.

June volta para as páginas iniciais até e ver cores de gravura, a página que se abre traz a imagem de uma mulher com vestes egípcias; as madeixas de ébano emoldurando o rosto simétrico de olhos marcantes. Os olhos eram azuis, delineados com linhas firmes e espessas, destacando ainda mais o azul deles, dando a leve impressão de olhar felino. Jóias douradas adornavam as orelhas e as mãos posicionadas em seu colo; mas em seu pescoço, somente o colar de pingente vermelho reinava.

June traçou com delicadeza a imagem da Cleópatra na página amarelada.

— Tá viajando, Ju? — perguntou Charles.

— Não é Aradia que caçaremos — falou ela quase que hipnotizada pela imagem.

— Hã? — pronuncia o vampiro.

— Vejam bem —  June aponta para o colar da Cleópatra, avança outras páginas e novamente o colar no pescoço de várias mulheres, repetidas vezes em épocas diferentes.

— Vamos caçar o Colar Maternal.





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