Allons-y, Winchester! escrita por Hunter Pri Rosen


Capítulo 5
O aliado


Notas iniciais do capítulo

Hello, Sweeties!

Só vim deixar o capítulo de hoje porque tô muito na correria.

Ainda não respondi alguns comentários, mas farei isso mais tarde.

Lá vai o disco voador...




Depois que usei um celular reserva para ligar para o hotel de Lawrence, fazendo-me passar por um funcionário da companhia de gás e orientando a desocupação imediata do local devido a um vazamento, pude relaxar um pouco na viagem de volta para o bunker. 

Duvido muito que o Anjo Lamentador bizarro estará no mesmo lugar quando eu e Sammy voltarmos para a nossa cidade natal a fim de resolvermos o caso — ainda não sei como, mas iremos dar um jeito. De qualquer forma, eu não podia deixar que outros hóspedes ou funcionários do estabelecimento fossem bisbilhotar aquele quarto e se deparassem com algo perturbador que os colocaria em risco iminente. Afinal, poderia ser fatal para qualquer um deles, assim como poderia ter sido para mim ou — Chuck me livre — para o meu irmão mais novo. 

Toda essa situação ainda é bem surreal. Admitir que o Doutor nunca foi uma ameaça, é mesmo um alienígena e viajante do tempo ainda parece ficção científica das mais questionáveis e baratas para mim. Some-se a isso a revelação sobre o verdadeiro inimigo — também de outro mundo — e você tem dois caçadores experientes mais perdidos do que cego em tiroteio por aqui. 

Uma parte de mim ainda se pergunta se eu não poderia ter vencido o Anjo Lamentador atirando ou quebrando a maldita estátua em mil pedacinhos. Seria um prazer despachar a criatura assim, aliás. Ou quem sabe atear fogo em tudo? Fogo costuma resolver muitos problemas no meu ramo. 

Porém, cada vez que lembro do avanço rápido do Anjo Lamentador em minha direção quando eu me distraía e piscava, ou de sua estagnação quando eu mantinha os olhos bem abertos, sou obrigado a reconhecer que nessa caçada o buraco parece ser mesmo mais embaixo. Odeio admitir, mas... acho que precisamos do Doutor. Sammy e eu não estamos lidando com uma criatura sobrenatural qualquer, mas sim com uma raça alienígena extremamente perigosa e desconhecida para nós até hoje. 

Aliás, até poucas horas eu nem acreditava na existência de vida em outros pontos do universo. E agora vejo-me obrigado a lidar com a revelação de que a humanidade não está mesmo sozinha e de que somos apenas mais uma raça numa galáxia tão tão distante. Isso mesmo, só um frágil grão de areia no meio de um leque de seres ainda desconhecidos para nós, mas que de fato estão espalhados por toda a parte. 

Tantos cientistas e astrônomos querendo provas, ansiando pela descoberta oficial, por reconhecimento; e eu não posso nem sair por aí gritando que tem um espécime extraterrestre bem no meu porão e algo muito bizarro e perigoso em Lawrence. 

Pensei sobre tudo isso durante a viagem de volta a Lebanon. E ainda estou absorvendo essa história maluca e meio inacreditável, quando Sam faz menção de finalmente destrancar a porta do nosso calabouço particular.  

Lembrando-me de algo importante, toco seu ombro, fazendo-o parar e voltar o olhar para mim. Meu irmão arqueia as sobrancelhas, esperando que eu diga logo o que tenho a falar. Então, solto o ar preso em minha garganta e desembucho de uma vez: 

— Olha, eu acho que te devo desculpas por ter... Você sabe, duvidado do seu sexto sentido sobre o Doutor. Foi mal. — Diante de um sorrisinho cretino que ele esboça, questiono um pouco irritado: — O que foi? 

— Você admitindo que eu tinha razão? Da próxima vez me avisa porque eu preciso registrar para a posteridade. 

— Se arrependimento matasse... — resmungo, incomodado. — Abre logo isso. 

Sam ainda dá mais um risinho antes de empurrar a porta dupla da masmorra, revelando o nosso peculiar hóspede.  

O Doutor, que parecia bem compenetrado em fitar um ponto qualquer do chão com uma expressão distraída e cansada, ergue a cabeça automaticamente ao nos ver. Como um cachorrinho quando o dono chega em casa. Ele abre um largo sorriso, iluminando seu rosto com um ânimo súbito e inacreditável, e exclama com muita — eu disse muita — empolgação: 

— Oh, os irmãos Winchester! Vocês voltaram! E são e salvos, veja só! Não me entendam mal, mas, por um momento, eu pensei que tivessem esbarrado com aquela criatura de novo e que tudo estava perdido. Que bom que me enganei! Bom trabalho, rapazes! Vocês são fantásticos! Molto bene

Antes que Sam dê o primeiro passo rumo ao interior do calabouço, começo a fechar a porta de novo ao mesmo tempo em que balbucio: 

— Pensando bem, que tal nós deixarmos o Doutor exatamente onde está? Só por mais algumas horas? Eu tô cheio de fome. Nós podíamos dar uma olhada na geladeira antes. 

— Dean — meu irmão me repreende, soltando um suspiro incrédulo e tornando a empurrar a porta com uma expressão carrancuda. 

Dou de ombros e, enquanto o sigo, reclamo baixinho: 

— Cruzes... Não posso nem brincar. 

Instantes depois, observo-o desamarrando as mãos do Senhor do Tempo, que ao que tudo indica não tentou mesmo fugir em nenhum momento do cativeiro no qual o metemos. Tenho que admitir, podemos confiar nele. 

Assim que é oficialmente libertado das amarras, o Doutor se põe de pé e troca um olhar significativo com Sam. 

— Eu disse que só sairia daqui quando vocês me soltassem por livre e espontânea vontade. Quando confiassem em mim.  

É, definitivamente meu irmão teve uma conversa particular com ele antes de pegarmos a estrada para Lawrence. Estou convencido disso quando Sam estende a mão para o Doutor e assente: 

— E você cumpriu. Sinto muito por ter duvidado da sua história, mas, convenhamos, era uma história e tanto. 

O Senhor do Tempo dá um leve sorriso, que se estende a mim, e aperta a mão de Sammy por um longo momento. 

Em seguida, meu irmão me encara insistentemente, como se eu tivesse que dizer alguma coisa também. O problema é que eu já pedi desculpas oficiais ao Doutor, e Sam não tem conhecimento disso. Sem querer me expor de novo, limito-me a justificar: 

— Foi mal, sabe como é? Não era nada pessoal, mas o seguro morreu de velho. E na minha experiência de vida, o lema é atirar primeiro e perguntar depois. Você até saiu no lucro, já que eu não levei isso tão ao pé da letra. 

Para minha surpresa e alívio, o Senhor do Tempo não faz nenhuma menção à nossa conversa anterior para me constranger ou confrontar. Ao invés disso, apenas aceita minha explicação de bom grado e sem ressentimentos ao que tudo indica, arrematando com uma discreta piscadela. 

Quando dou por mim, retribuo com um meio sorriso e um olhar amigável. Acho que estou começando a gostar desse desgraçado. 

Desperto desse pensamento esquisito quando Sammy lhe devolve a chave de fenda sônica e diz: 

— Acho que isso te pertence. 

De pronto, o Doutor coloca a estranha e compacta ferramenta no bolso e agradece: 

— Obrigado. — Animado de novo, ruma na direção da saída, passando por nós feito um foguete, e exclama: — Allons-y, Winchester! Os dois, é claro! 

Troco um rápido olhar com meu irmão e, na sequência, seguimos nosso mais novo aliado. 

— O que significa Allons-y, afinal, hein? — indago já no corredor. 

— É “Vamos lá!” em francês — ele esclarece, soando bem feliz por eu ter perguntado enquanto segue com passos ligeiros, balançando o sobretudo no corpo franzino. 

— Francês? — Sammy parece estranhar. — Você fala francês? E inglês? 

Achando o questionamento bem pertinente, acrescento com curiosidade: 

— Um ET que fala a nossa língua? Como diabos isso é possível? 

O Doutor só responde ao chegar à sala principal e quando nós dois olhamos para a mesma direção que ele. Ou seja, para sua misteriosa cabine azul.  

— Graças a TARDIS. Ela torna a nossa comunicação possível. — Ele faz uma pausa e se aproxima da nave. Passa as mãos por sua porta, como se estivesse matando a saudade do tempo em que ficaram separados, e prossegue com a explicação: — Ela torna qualquer comunicação, em qualquer tempo e lugar desse enorme e fascinante universo, possível. A grosso modo, funciona como um Google Tradutor, só que muito mais avançado. É por isso que vocês me ouvem desse jeito que estão ouvindo, falando no seu idioma nativo. 

Sammy pigarreia um pouco, refletindo, e resume: 

— Então você não está se comunicando em inglês com a gente? É isso? 

Antes que o Doutor confirme, emendo em tom de deboche: 

— E por que o seu inglês é mais britânico? Saiba que eu acho bem ridículo e desnecessário. 

— Minha nave tem a aparência de uma cabine da polícia de Londres, eu sempre estou por lá, acho que o sotaque foi incorporado pela TARDIS eventualmente. Além disso, eu acho bem charmoso. 

Solto um riso descrente sobre a última parte e, antes que ele tente me convencer que faz sucesso com as terráqueas falando desse jeito fresco e afetado, decido retomar o assunto que realmente interessa: 

— Então... Sobre aquela criatura angelical super fofa e bonitinha, só que não, como nós podemos destruí-la? 

— Com a minha ajuda, é claro. Eu tenho um plano — o Doutor responde de forma evasiva, abrindo a porta da TARDIS e voltando-se para nós com um sorriso que transparece um genuíno e inconveniente espírito aventureiro: — Shall we

Não consigo ver o interior da minúscula e apertada cabine azul de onde estou, já que ele fica estagnado bem na entrada com uma expressão enigmática. Mas não importa, não tenho a menor intenção de aceitar tal convite. Não tem o menor cabimento — literalmente. Então faço uma contra-proposta: 

— Por que nós não vamos no meu carro? Acredite, a Baby é o melhor meio de transporte que existe. 

O Doutor faz uma careta e tem o atrevimento de dispensar minha oferta: 

— Nah! Com todo o respeito, carros são lentos. Nós temos que chegar em Lawrence o mais rápido possível e não existe melhor meio para isso do que a minha amada TARDIS. 

Enquanto me arrependo amargamente por ter convidado o viajante do tempo falador e mal agradecido para sentar o seu traseiro alienígena no banco de couro da minha inestimável e insubstituível Baby, ele adentra a cabine e deixa a porta quase fechada, impossibilitando, mais uma vez, que eu espie com clareza o seu interior. 

— Sem chance — resmungo para Sam, ao meu lado. — Eu não vou entrar nessa coisa minúscula e compacta com esse daí. 

Em resposta, Sammy simplesmente revira os olhos e segue até a TARDIS determinado, deixando claro que, de sua parte, o convite está mais do que aceito. 

Ainda hesito um pouco, mas acabo percebendo que não tenho escolha. Então, por mais que me custe deixar o Impala aqui e entrar nessa nave estranha com um extraterrestre oficial e metido, expiro com força e sigo no encalço de Sam.  

Assim que ele empurra a porta e dá alguns passos a frente, entro também. Surpreendido e chocado pela imensidão que toma conta das minhas retinas, deixo escapar: 

— Caramba... 

Se eu não estivesse vendo isso e convencido de que o Doutor não é mesmo desse planeta, diria que estou imaginando coisas e relutaria em crer nos meus próprios olhos. Mas cada parte de mim sabe que isso é real. Insano e difícil de engolir, mas real. 

Chocado, passo os olhos pelo enorme salão circular diante de mim e onde caberia ao menos uma biblioteca do bunker com folga. 

— Vamos, Winchesters. Eu sei exatamente o que vocês estão pensando — o Doutor nos incita, visivelmente ansioso. — Acabem com o suspense. Apenas digam de uma vez. 

Engulo em seco, ainda bem aturdido. Assim como Sammy, boquiaberto ao meu lado. Então, como se tivéssemos ensaiado, falamos em uníssono como dois idiotas embasbacados: 

— Ela é maior por dentro do que por fora.  

Exalando satisfação e orgulhoso, ele sorri. Ao estalar os dedos, a porta de entrada se fecha atrás de nós, deixando-me surpreso e com certa inveja. 

Dou alguns passos e observo o cenário surreal mais uma vez. As paredes erguem-se uns dez metros acima da minha cabeça e se unem a um teto curvado, formando um tipo de redoma a minha volta. Apesar do tom marrom meio escuro e predominante, o lugar é bem iluminado e possui uma atmosfera leve de filme sci-fi. Há cabos e circuitos visíveis por toda a parte, pilastras que estruturam o ambiente e, no centro de tudo, um tipo de disco enorme com o que parece ser o painel de navegação dessa coisa. 

É lá que o Doutor está. É de lá que nos encara com uma expressão, de repente, indecifrável. Bem diante de um cilindro fluorescente que se eleva do coração da nave e faz um ruído meio mecânico, movendo uma engrenagem para cima e para baixo de forma contínua. 

Caramba! A TARDIS é mesmo uma nave... Eu estou dentro de uma nave! 

O fascínio me domina diante dessa constatação óbvia e não consigo conter um sorriso empolgado. 

— Awesome

Também não consigo conter essa palavra que, simplesmente, escapa da minha garganta quando estou maravilhado com alguma coisa. 

Entretanto, tudo isso perde a importância quando noto que o Doutor continua com um semblante esquisito enquanto nos observa. Com um olhar vazio, eu diria. 

— Algum problema? — Sam pergunta. 

Parecendo despertar de um tipo de transe, o Senhor do Tempo se explica: 

— Não, é apenas... nostalgia, acho. Eu tenho viajado sozinho há algum tempo, desde que Martha Jones seguiu o seu caminho. É bom ter companhia de novo. 

— Você viajava com uma garota? Uma humana? — questiono. 

— O que aconteceu? — Sam indaga também e, com uma nuance de preocupação, emenda: — O que aconteceu com ela? 

Pensativo, o Doutor explica melhor: 

— Martha está viva e bem, não se preocupem. Ela só... me abandonou, percebeu que não podia mais fazer isso ao meu lado. — Depois de expirar com força, ele admite: — Não dá para culpá-la; eu fui meio que um idiota. 

Há um longo e estranho momento de silêncio, até que Sam diz com cautela: 

— E por que você foi um idiota? 

O Senhor do Tempo ergue o olhar em nossa direção, mas parece mergulhado em pensamentos e lembranças. Fica cada vez mais distante. 

Sua expressão, antes tão irritantemente animada, agora está turva, como se a menção ao assunto lhe causasse uma dor emocional muito forte, que ele luta para conter.  

Em outras palavras, o Doutor parece desolado e bem mais do que nostálgico. E apenas uma coisa no universo é capaz de deixar um homem — independentemente de quantos corações ele tenha — com essa cara de enterro. 

Convencido de que matei a charada, deduzo: 

— Porque você perdeu alguém muito importante. 

O Doutor me encara de imediato. Parece que acertei na mosca. 

— É a loira, certo? — Sammy supõe, fazendo-me lembrar da foto que encontrou em sua pesquisa sobre o nosso, outrora, prisioneiro, na qual o viajante do tempo aparecia ao lado de uma garota muito gata num registro de relance. 

Parecendo não se importar sobre como meu irmão descobriu isso, ele apenas esclarece: 

— Seu nome era Rose. — Um leve sorriso surge em seu rosto, mas não consegue transpor a tristeza sob a superfície e se esvai. — Rose Tyler. Ela era brilhante. 

— Era? — Sam frisa o verbo no passado. 

Então ele se apressa em corrigir: 

— Ainda é.  

Ficamos em silêncio de novo. Embora esteja curioso para saber o que aconteceu e por que Rose não viaja mais ao lado do Doutor, espero que ele revele isso por si só. Mas não é o que acontece. 

Quando se dá conta que estamos esperando um pronunciamento a respeito, ele simplesmente concentra o olhar no painel de navegação e desconversa: 

— Longa história. Fica para outro dia, rapazes. Agora nós temos algo mais urgente para resolver. Então... Allons-y. 

Desta vez, o Doutor pronuncia sua expressão de praxe sem o menor pingo de empolgação. 

Estou quase sentindo pena do pobre diabo quando seus dedos trabalham no painel, apertando botões e puxando outros, o que faz a TARDIS sacudir consideravelmente e me desequilibra um bocado. Não só eu; Sammy quase sai rolando pelo chão como uma fruta madura, mas consegue alcançar uma pilastra no último instante e se recompõe. 

— Son of a bitch... — xingo o Doutor, enquanto procuro algo para me segurar também e luto para permanecer de pé. 

De repente, não estou mais com pena dele.  



Notas finais do capítulo

O disco voador já foi embora...

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