Hearts Of Sapphire escrita por Emmy Alden


Capítulo 11
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Notas iniciais do capítulo

Aqui vai mais um capítulo!! Não esqueçam de comentar o que estão achando ♥



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Era como se ela tivesse saído do próprio corpo e apenas observava enquanto outra pessoa assumia o controle.

Corinna ainda sentia tudo, mas não controlava nada. Mal percebeu quantas pessoas havia empurrado no meio do caminho ou que tom Kallien tinha usado para chamá-la quando passou por ele.

O formigamento acontecia da cabeça aos pés. A temperatura do seu corpo subiu tanto que com poucos passos, o suor já pingava incessantemente de sua testa.

Havia sentido isso antes, porém em menor intensidade. Quando materializara aquela caneta. Quando acordara daquele pesadelo.

As leis previam dez chicotadas para resistência de primeiro grau. Era acrescentada mais dez a cada grau.

Seu pai havia cometido resistência de terceiro grau. Danificar propositalmente equipamentos oficiais.

O joelho da menina acertou o chão quando ouvira o guarda gritar a vigésima segunda chicotada.

Algo nela doía como se clamasse para ser libertado de alguma forma. Era como se seu sangue pulsasse tão intensamente que chegava a dilatar veias e artérias.

Sangue. Sangue de seu pai formava uma pequena poça no chão, corria por cada dilaceração aberta nas costas.

Corinna tinha certeza que gritava, pois sentia sua garganta queimar. Eram os únicos som audíveis: seu grito e a contagem do guarda. A jovem tentou fazer menção de ir até seu pai, que a essa altura estava desacordado. Ela se rastejaria se fosse preciso.

E foi o que começou a fazer até que duas mãos a seguraram no lugar impedindo que se movesse.

Não era Kallien ou Callandrea, mas um dos guardas mascarados. A garota se contorceu sob o toque dele sem sucesso. Não era um toque bruto ou grosseiro, contudo era firme. Suficiente para mantê-la no lugar.

Finalmente, a trigésima chicotada foi realizada e soltaram o corpo do homem desfalecido do poste.

Os gritos de Corinna se transformaram num choro lamurioso.

O guarda ainda a segurava quando a visão embaçada da moça distinguiu Laeni. A expressão dela era severa, mas seus olhos estavam calmos como de costume.

—Pare de chamar atenção.—a mulher disse baixinho movendo minimamente os lábios. —Levaremos seu pai até em casa, porém você precisa parar com isso, vamos.

Ela fez um gesto para que o guarda recuasse lentamente com a menina nos braços.

O Examinador que comandara aquele terrorismo retomou a palavra:

—Que isso sirva de exemplo para qualquer um de vocês, idiotas.—ele quase se retirou quando o olhar se encontrou com o de Corinna. O desgraçado estreitou os olhos e deu um sorriso doentio.

Uma onda de receio passou pela garota.

—Quase ia me esquecendo. Você e você, —A menina poderia jurar que o guarda que a segurava congelou tanto quanto ela quando o deorum apontou diretamente para Corinna e então aleatoriamente para um garoto que ela lembrava ter uns dezenove anos, mas tinha o tamanho de uma criança de treze.— Bem-vindos ao Sacrifício graças à Maré de Azar, garotas.

Não foi permitido que ela visse o pai até depois do Pronunciamento.

Kallien tinha tentado fazer com que falasse, mas era como se a garota estivesse vidrada. Presa em seu mundo particular. O rapaz não forçou e nem poderia já que não demorou muito para que os dois fossem separados. Cada Escolhido tinha o seu próprio cômodo no andar de cima da Casa Central.

Os Escolhidos da Maré de Azar dividiam o mesmo espaço visto que eram exceções à regra.

Corinna lembrou que o menino que estava ali se chamava Bastian. A garota evitou olhar para ele o máximo que pôde e quando o fez ficou surpresa ao notar que o olhar que ele lançara a ela não era de hostilidade, como esperava.

Afinal, o jovem estava ali por causa do pai dela. Entretanto, o sorriso simples que se formou em seus lábios era repleto de compaixão.

A menina teria se sentido agradecida se não estivesse num estado profundo de estupor.

Não teve nenhum sinal de Laeni ou do guarda — que, de certa forma, a protegera de fazer alguma besteira— desde quando foi arrastada por outros dois guardas carrascos no momento em que aquele deorum escolhera a moça e Bastian para ser os Escolhidos da Maré de Azar.

Bastian até que estava bem calmo considerando que alguém da família dele deveria estar sendo castigado fisicamente enquanto eles estavam ali. Aquilo também estava previsto nas Novas Leis.

Não se incomodou em se esconder quando seu vestido fora arrancado sem muita cerimônia de seu corpo e a menina fora empurrada para uma chuveirada congelante.

Não conseguia nem ao menos tremer de frio, na verdade, era como se a água estivesse agindo como uma espécie de anestesiante. Se fechasse os olhos, por alguns instantes, poderia imaginar que tudo aquilo era mentira.

Que abriria os olhos e estaria no lago da floresta, que seu pai estaria em casa são e salvo.

Porém, a jovem os mantivera bem abertos. Não poderia fugir de seu destino naquele momento.

Não fora aquilo que sempre pediu? Quisera ter uma oportunidade dentro do Sacrifício, certo?

Apesar das circunstâncias, Corinna estava ali, não estava?

Era uma Escolhida.

Não poderia recuar agora. Tarde demais.

Marjorie esperava a irmã do lado de dentro da Casa Central.

—Pretende me contar o que veio fazer aqui, de verdade?— a ruiva perguntou enquanto tentava resgatar algo útil do desastre que aquele humano idiota tinha causado ao usar benzan para causar aquele pequeno incêndio. Muito material de informação sobre aqueles humanos foram destruídos, o que daria um trabalho extra para os Examinadores na próxima Audição.

Laeni apenas amarrou os longos cabelos em um coque antes de dizer:

—Não sei o que você quer que eu responda. Não tem nenhum motivo especial para eu estar aqui. Vim porque queria.— a mulher caminhou até Marjorie.

—Eu vi você indo até a garota — Corinna— no meio da confusão. Se você não está preocupada em perder ou vencer como Examinadora, você está aqui para quê? Para proteger os humanos? Ou proteger a menina em específico?

A morena apenas gargalhou durante alguns segundos.

—Você está ouvindo o que está falando? Proteger humanos? Nunca pensei que você se tornaria paranoica.

Marjorie fechou a expressão e se virou para a irmã:

—Estou falando sério. Podemos viver em Ordens diferentes agora. Podemos servir pessoas diferentes, mas ainda compartilhamos o mesmo sangue. Se você cair, me leva junto e nem o seu Governantezinho poderoso seria capaz fazer algo a respeito.

—Por um momento, achei que você poderia estar preocupada de verdade comigo.— a mais velha zombou sorrindo.—Mas não se preocupe, não estou arriscando minha reputação, a sua ou a de nossa família. Sei o que estou fazendo.

A mais nova apenas entregou os papéis que tinha resgatado na mão da irmã para que Laeni continuasse a partir dali:

—Espero que sim.

Corinna só sabia quantos minutos faltavam para as quatro horas porque havia um relógio enorme preso à parede.

Tinham esfregado seu corpo até que seu suor exalasse o cheiro do sabonete cítrico que usaram.

Colocaram-na em calças folgadas e numa regata pequena demais. Fizeram uma trança única em seu longo cabelo castanho, passaram rouge em suas bochechas e, em sua boca, um líquido viscoso que faziam seus lábios grudarem de hora em hora.

Sentia-se menos preparada para estar ali do que um dia antes. Contudo, sabia que o receio devia-se às circunstâncias.

Pensara em ser Escolhida, mas não pensara em algum dia ver seu pai ser chicoteado publicamente. Pensara em ir ao Sacrifício, mas não pensara materializar objetos quando bem quisesse.

A situação estava, no mínimo, delicada.

Levaram-na junto com Bastian para a sala do Pronunciamento. Era a sala mais estranha que já vira.

Das quatro paredes, duas tinham espelhos que iam do chão ao teto. Sem janelas.

Telas e Monitores enormes preenchiam a parede à sua frente.

Porém, o que assustava mesmo era uns equipamentos que lembravam vagamente olhos gigantes.

Câmeras. A menina lembrou de ter visto em algum livro que tinham escondido dentro de casa.

Não demorou muito para que Kallien adentrasse o recinto seguido do Escolhido restante, que Corinna encontrara poucas vezes em sua vida.

Seu amigo era um destaque entre os quatro. Era forte e robusto. Tinha uma boa aparência e uma boa postura. Era um concorrente à altura do Sacrifício.

A garota só se dera conta daquilo naquele momento.

—Começaremos em vinte minutos— uma voz oculta anunciou quando a porta se fechara atrás dos recém chegados, deixando o quarteto de Escolhidos sozinhos naquela sala peculiar.

Kallien se apressou em tomar Corinna nos braços. Apertava o corpo da menina numa familiaridade que doía nela. Ainda estava em choque, apesar de retribuir a ação.

—Eu sinto muito.—o menino disse contra o ombro da jovem.—Por tudo.

A garota se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto do amigo entre as mãos.

Não era para ser assim. Não devia estar indo para um Sacrifício junto com Kallien. Não quando poderia chegar o momento que eles teriam de fazer uma escolha que talvez nunca estivesse pronta para fazer.

Nada estava acontecendo como a menina imaginara tantas vezes que fosse acontecer.

Temia não estar preparada para nada daquilo.

O abraço enfim acabou; Kallien e Corinna não trocaram nenhuma palavra.

Logo Marjorie e Laeni entraram no cômodo junto com outros Examinadores. As telas se acenderam ao mesmo tempo, cada uma mostrava paisagens diferentes e no canto era identificado o nome do vilarejo humano que a imagen transmitia.

Corinna só vira aqueles lugares em ilustrações dos livros da escola. Vê-las sendo mostradas ao vivo a deixava sem fôlego.

O seu mundo era tão grande, belo e abundante, ainda assim grande parte do seu povo nunca teria noção ou desfrutaria daquilo. Nunca teria a oportunidade de andar livremente pelo seu próprio mundo.

Não foi surpreendente quando Laeni e Marjorie disseram a jovem que haviam sido designadas como suas Examinadoras.

Teve que se segurar, no entanto, quando o deorum, que a escolhera e que ordenara a punição de seu pai, entrou na sala.

Kallien empalideceu um pouco ao ver parar com mais um outro deorum ao seu lado.

Aquela sensação de querer explodir, destruir tudo, reconstruir apenas para explodir tudo novamente zumbia ao seu ouvido enquanto a menina tentava ignorar.

 

—Você só precisa olhar para a câmera quando anunciarem o seu nome.—Laeni explicou o procedimento para Corinna.

—Tente dar um simples sorriso simpático, pelo menos. Carrancas não vencem competições. —Marjorie comentou casualmente enquanto tentava ajustar a calça da menina para que ela parasse de descer a cada movimento.

Excelsior inteira estaria a observando, assim como ela também teria a oportunidade de observar todos os seus oponentes pela primeira vez. Os Governantes também estariam assistindo a tudo.

O que será que pensariam dela num primeiro momento?

Os boatos diziam que eles eram tão poderosos, será que captariam apenas por olhar em seus olhos o quanto a garota queria destruí-los?

Um por um, cada monitor mudava a paisagem para uma dupla de Escolhidos.

Apenas em Fortuna acontecera uma Maré de Azar, então eles seriam vinte dois dessa vez.

Vinte uma pessoas que ela teria de enfrentar se quisesse vencer. Era, de fato, um pensamento doentio.

Fortuna era o antepenúltimo, logo, teoricamente, ela teria uma chance de observar como mais que a maioria se comportaria.

Porém, sua visão embaçada pelas luzes que era ajustadas em sua frente e o coração disparado no peito, não a deixavam se concentrar em muita coisa além de si mesma.

Não ouvia nada além de vozes ao fundo, suspiros de admiração e ruídos. Mais parecia que a sua audição estava tentando captar todas essas coisas com clareza, ao mesmo tempo. Aquilo estava a deixando louca.

Quando começaram a anunciar os nomes de seu vilarejo, a moça nem mesmo conseguia focar nos rostos dos concorrentes, mas tinha certeza que eles analisavam cada espasmo dela.

Deveria estar patética. Os olhos pareciam agora estar marejados devido as luzes ofuscantes, e Corinna parecia internamente mais pesada.

Os Governantes também eram mostrados em uma das telas mas a garota não conseguia distinguir nenhum deles.

Os Governantes, os Deuses, alguns provavelmente Simpatizantes em potencial, assistindo a todos eles e ela se sentia completamente patética. Pequena.

Todos deveriam estar caçoando da menina por dentro.

Lembrou da voz de Marjorie instruindo-a a sorrir um pouco. Corinna tentou —não tinha certeza do resultado daquilo—, mas era capaz de sentir os tremores nas extremidades dos lábios.

Não, aquilo não estava sendo nem um pouco como planejara.

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Notas finais do capítulo

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