Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 6
Capítulo 5 — Convites




 

 

 

“O homem faz o mal, porque não sabe o que é o bem. ”— Sócrates.

 

 

 

Londres

 

Manson beija o meu corpo descendo entre meus seios, suas mãos me seguram firmemente ainda que de forma gentil. Adoro quando suas costas ficam arqueadas, a pouca luz penetra no quarto definindo seus ombros largos de pele escura. Então ele sobe em mim, segurando minhas mãos afastadas e depois puxando o meu braço direito para minhas costas, ele me imobiliza. Ele é o único que permito fazer tal coisa, ele gosta disso, brinca com o perigo.

— Não se acostume, não vou deixar você me amarrar. — aviso meu companheiro.

— Eu não preciso. — responde Dorian, sobre mim.

Assim que o vejo, sinto o cheiro de sangue e viro o rosto para o lado. Manson está caído no chão, aos braços de Shiva e outros dois vampiros que devoram seus órgãos internos de seu abdome. Ele ainda tosse um pouco de sangue quando Shiva crava seus dentes em seu pulso, a poça vermelha avança no chão. Tento me mover, mas é como se a cama tivesse engolido meus braços e pernas, estou presa embaixo do corpo de Dorian que ainda respira em meu ouvido. Ele segura o meu rosto e sussurra.

— Achou mesmo que eu não encontraria o seu policial? Achou que ele seria poupado?

— Maldito!!! — Eu grito tentando me mover, ele apenas ri de meus tolos movimentos.

— Eu disse Lucy. Eu avisei. Tudo me pertence, tudo que você tocar irá apodrecer. — fala enquanto se levanta ajoelhado em mim. Ele alcança a Sedenta com a mão direita entre os lençóis, enquanto a ponta de seu pulso esquerdo toca em meu peito. — Quando você cortou a minha mão, eu avisei. Eu te avisei muitas vezes Lucy.

Seu braço sem a mão percorre o meu corpo, eu faço muita força para me libertar, mas a posição apenas faz meu cotovelo estalar. Shiva e os vampiros urram enquanto posso ouvir um último suspiro de Manson, seu fraco coração batendo.

 

 

Batendo.

 

 

E bate pela última vez.

 

 

O silêncio de seu peito me avisa que não mais motivo para eu lutar.

 

 

Seu corpo rasgado é como uma neblina em minha mente, todos os outros sons ficam entorpecidos, afinal, nenhum deles me interessa. Não tem mais razão de eu fazer força. Eu paro de me mexer com Dorian armado sobre mim. Ele percebe que eu não vou reagir, isso o irrita ainda mais, em um único movimento ele crava a Sedenta em meu peito.

Permaneço parada. Sinto a dor do rasgo em meu peito, o sangue preenchendo meus pulmões, a bombeada em vão de meu coração perfurado.

 

 

Permaneço imóvel.

 

 

Dorian grita algo indecifrável.

 

 

Nenhum som me interessa.

 

 

O coração de Manson está parado, e logo, o meu também estará.

 

 

E imóvel eu acordo, abro os olhos, viro o rosto e vejo Manson deitado ao meu lado olhando para o teto.

— Foi outro pesadelo? — Seu braço esquerdo apoia a cabeça no travesseiro, sua mão direita leva o cigarro novamente à boca e depois, devolve no cinzeiro de vidro apoiado em sua barriga.

— Foi.

— Estou me acostumando aos seus pesadelos. Quando começa a suar, ranger os dentes, faz movimentos de luta. Sempre estão te atacando ou você atacando pessoas?

— Os dois.

— Hum... — Ele dá outra tragada profunda, eu fico ouvindo o seu coração, ouvindo ele bater, bater e continuar batendo.

— Não dormiu até agora?

Manson permanece em silêncio. É estranho quando respondem com silêncio para mim, normalmente sou eu a fazer isso.

— Que horas são? — pergunto.

Ele apaga o cigarro no cinzeiro sobre a barriga, pega o recipiente e vira o seu corpo de lado. Coloca o cinzeiro no criado-mudo e alcança o celular.

— São duas da manhã.

Eu levanto da cama, começo a me vestir.

— Onde vai?

— Se não me engano, tem um parque aqui próximo.

— Por quê?

— Pois não vou dormir mais. Você vai?

Ele se levanta e começa a se vestir.

— Se você quiser, pode deixar sua mala já pronta também, o seu voo de volta a New Orleans vai ser as duas da tarde.

— Eu já arrumei.

 

 

 

Madri, 1571

 

A barulhenta feira de alimentos anuncia grãos, peixes, carnes, tecidos e todos os tipos de produtos. Alguns árabes aparecem trazendo condimentos exóticos como canela e anis, sempre que os vejo, lembro de Perseu, o primeiro que me amou verdadeiramente. Ele me mostrou o que era realmente o amor, fico preocupada por um momento, sei que sendo uma vampira é possível que eu viva muito tempo.

Tenho medo de me esquecer do que vivi, medo de perder a memória daqueles que realmente importaram. E, pensando bem, tenho medo de perder todos os que eu amar, é muito provável que eu vá assistir a morte de cada um deles. Só de pensar nisso... meus pensamentos são interrompidos pela chegada do Bispo.

— Comprando ameixas novamente?

Eu me viro rapidamente já me ajoelhando para fazer a devida reverência. Ele faz um gesto me indicando para levantar.

— Não precisa disso, mulher. Sei que tem respeito é isso o que importa.

Grande cortesia de sua parte, afinal, me ajoelhar agora me deixaria toda suja de lama.

— Apenas cereais. — digo levantando o saco de pano.

— Sempre a vejo no mercado, dificilmente vejo o seu esposo.

— Ele está trabalhando no cais.

— Eu não sabia que ele era navegante.

— É marceneiro.

— É uma profissão humilde, ambos são.

— Obrigada, senhor.

Ele anda a passos lentos e largos, segura uma sacola de tecido na mão esquerda e a balança levemente com alguns pêssegos e verduras. Duvido muito que ele tenha pago por alguma delas. Ele começa a recitar alguma coisa religiosa, sobre o trabalho de carpinteiro de São José. Eu não presto muita atenção, estou mais preocupada em chegar a tempo de comprar sardinhas para o jantar.

Mas então ele para, começa a coçar o seu pescoço e vejo um grande arranhão próximo a sua orelha esquerda. Eu paro por um instante, lembrando da unha suja da menina, suja de sangue e pele, era sua mão direita...

— Algum problema, senhora?

Rapidamente eu saio de meu transe para lhe questionar.

— Não. É que eu estava pensando na última menina que morreu no convento.

— Oh! Sim, uma penúria. — Já voltando a caminhar.

— Houveram muitas?

— Como?

Assim que falo, ele para de andar e se vira lentamente a mim.

— Muitas lástimas ultimamente. Sempre no mesmo convento.

— Estamos em um período de crise, muitas meninas se entregam jovens demais, doentes demais.

— Ela morreu sem respirar.

— É mesmo? Como sabe?

— Eu vi o corpo. Seus lábios estavam roxos.

— Ela deve ter morrido de pneumonia. — fala sem demonstrar feição alguma, porém, o seu coração denuncia sua blasfêmia.

— Sim, deve ter sido...

Ele se dá por satisfeito com minha fala e se vira para caminhar novamente, eu passo a segui-lo até a igreja. Normalmente eu frequento outra mais próxima de minha casa com Antônio e Laura, a dele fica no centro. O sino toca avisando da próxima missa, ele entrega a sacola de frutas e verduras para um padre, outros cercam o importante homem para os preparativos do sermão.

Eu cubro meus cabelos com o lenço, amarro minha saca de cereais e entro na grande igreja. Lá eu vejo o bispo cumprimentar pessoalmente as meninas do coral, ele estende a mão com anel para que cada uma se ajoelhe e o reverencie. Em todas, ele repete o movimento, uma delas, jovem, loura de cabelos longos, ele passa a mão em seu rosto e cabelos. Gentilmente. Para os outros é um gesto quase paternal, para mim que posso ver o pulsar de seus corações, não.

Fico lembrando das outras meninas, sempre louras, sempre jovens, pessoas pobres que ninguém se importa quando desaparecem. Ainda mais quando são mulheres, “deve ter fugido com um homem”, a “pecadora que se entregou antes do casamento”... ninguém liga muito ou relaciona que se entregou a alguém, que fugiu com alguém. Os homens sempre são poupados, e alguns, reverenciados.

Me dou por satisfeita com o que vejo, me levanto antes que a missa comece. Ando lateralmente e minha saca acaba batendo em um candelabro na lateral do banco. O som ressoa na igreja, me sinto observada, não me viro e sigo direto para a saída.

Dois dias se passaram, nada mudou na vila ou em minha vida. Na próxima vez que eu for chamada pelo Bispo não irei aceitar o trabalho, é melhor que eu me afaste de pessoas assim. Acordo na fresca manhã em minha casa, os feixes de luz penetram pela janela no quarto ainda fechado. Estou deitada junto a Antônio, seus cabelos castanhos encaracolados fazem cócegas em meu queixo enquanto me abraça.

— Bom dia, meu amor. — fala ele, passando a mão em minhas costas tentando me fazer acordar.

— Hummmm... bom dia, meu amor.

— Sabe que dia é hoje?

Ainda acordando, eu esfrego um pouco os olhos antes de abrir para meu esposo.

— É o nosso dia, meu querido.

Ele sorri, me beija docemente e levanta rapidamente para ir até a mesa. Volta com as mãos atrás do corpo.

— Espero que goste.

— Minha nossa. Sabe que não precisav...

— Vamos, eu preciso agradecer por me colocar em seu caminho, Catarina. — Eu me levanto me sentando na cama. — Feche os olhos.

Sorrindo, eu cerro meus olhos, sinto algo me envolver os ombros sutilmente e a voz de Antônio me avisando novamente.

— Pode abrir agora.

Abro, e vejo um gracioso lenço verde me envolvendo, o tecido sereno e colorido mal toca a minha pele, de tamanha leveza. É um linho muito bem cortado e deve ter custado muito caro.

— Santo Deus.

— Gostou?

— Adorei, Antônio. É verde-esmeralda.

Assim que falo percebo minha falha. Afinal, eu conheci a pedra esmeralda com o Drácula, o que me amaldiçoara nessa hedionda condição.

— Esme...?

— É uma pedra, eu conheci com um viajante. A muito tempo atrás. É lindo, mas deve ter custad...

— É o nosso dia, minha querida. Eu trabalhei dobrado no cais por essa razão.

— Estou maravilhada. Mas eu não pude comprar algo para...

— Não se preocupe com isso.

Ouço batidas curtas na porta, Laura se anuncia.

— Ele já te deu o lenço?

— Ainda bem que já. Não é, filha? — responde Antônio, rindo junto comigo.

Ela corre para os nossos braços na cama, em um pulo quase me deixa sem ar abraçando nós dois ao mesmo tempo.

— Foi eu que escolhi. — fala ela, em sua vozinha fina, já no meu colo.

— É mesmo? — falo, olhando para Antônio ao meu lado.

— Temo que seja verdade.

— Feliz anos de casamento mamãe, papai.

Assim que ela fala, três batidas fortes na porta da rua estremecem a casa. Laura se assusta com o barulho e Antônio e eu ficamos em silêncio.

— SENHORA CATARINA!

— Que susto. Deve ser uma parturiente. — respondo, acalmando minha família.

— Esses maridos de primeiro parto sempre me deixam assustados. — fala Antônio, ele se levanta rapidamente para abrir a porta, eu jogo o lenço em seu pescoço para cobrir sua camisa parcialmente aberta.

— Vou me vestir e já desço, tenho que pegar minha trouxa de lenços e tesoura.

Ele sai do quarto, anda rapidamente até a porta que continua sendo cruelmente esmurrada. Ele avisa que já vai abrir, assim que levanta o trinco de ferro a porta é empurrada com força em seu rosto. Um dos homens entra, veste uma túnica vermelho rubro com um grande crucifixo pendendo na frente. Mais dois usam a mesma veste, outros estão de armadura de escudeiro.

— Onde está a Senhora Catarina?!

Antônio, caído no chão tem o rosto sangrando, a porta atingira o seu nariz e ele mal pode falar.

— O que vocês querem?

Eu apareço na porta do quarto, Laura abraça minhas pernas se colocando atrás de mim, está apavorada. O homem da frente, mais alto e calvo levanta um papel enrolado e anuncia.

— A Santa Igreja Católica convoca a Senhora Catarina De Miranda para prestar esclarecimentos ao Tribunal de Santo ofício da Inquisição, por crime de heresia e bruxaria.

Fico paralisada diante de tal acusação, olho para o meu esposo ferido se levantando rapidamente e tentando falar com o homem a frente de tudo. Os de armadura o seguram contra a parede da cozinha. Eles gritam e eu nada ouço, vejo apenas os seus movimentos, os escudeiros se aproximando de mim tentando puxar Laura agarrada em minha saia.

Por um momento lembro de meu pai lutando contra os homens que chamaram minha mãe de bruxa. Lembro de como cortaram o meu rosto, enquanto sinto minha filha chorando lutando para não nos separar. Lembro de minha mãe morta no chão, cheio de panelas quebradas e comidas no chão, meu pai ferido. Eu não quero que isso aconteça. Eu caminho até os homens que seguram Antônio e digo.

— Parem. Eu vou com vocês.

Antônio grita, ainda é contido pelos homens, mas agora eles o seguram sem violência. Eu abraço minha filha e a faço soltar suas mãozinhas de minhas costas, ela agarra a manga de meu vestido e acaba rasgando uma delas ao ser puxada por um dos homens. Eu falo a ela, eu falo algo para meu esposo.

Mas estranhamente eu não consigo me lembrar. Não consigo lembrar do que disse quando me despedi. Eu sei que ele gritava e Laura chorava, que o calvo de vestes vermelhas vociferava alguma coisa, mas eu também não lembro. Só lembro de tudo em imagem, as sardas de Laura, seus cabelos louros e cacheados, a face de Antônio em desespero, seus olhos negros em inconsolável dor de abandono.

 

 

 

Londres, atualmente

 

Acompanhada de Manson, encontro Jekyll em sua casa, ele irá nos acompanhar no aeroporto e depois iremos resolver algumas coisas para a viajem. Jekyll cumprimenta Manson de forma gentil, meu ferido policial não responde de forma tão cordial. Eu preciso entrar para usar o banheiro rapidamente enquanto os dois aguardam no carro. Passo rapidamente pela loja, onde o Pinóquio mecânico me cumprimenta cordialmente.

— Posso ajudar em alguma coisa, senhora?

Eu não respondo ao robô, me causa arrepios de vê-lo e lembrar da macabra cena de quando vi o seu verdadeiro rosto. Jekyll me causa arrepios também, acho que ambos temos essa versão animal a ser controlada, mas no meu caso, eu nunca ataquei alguém que eu amasse. Jekyll fez algo que não consegue se perdoar, acho que eu também não me perdoaria.

Enquanto isso, no carro, Manson está sentado na frente olhando para meu idoso aliado pelo espelho retrovisor. Ele bate freneticamente no volante fazendo um ritmo ansioso e descompassado, Jekyll percebe o nervosismo do policial.

— Ela me contou que você teve uma perda recentemente. Meus pêsames.

Manson para de bater no volante, continua olhando pelo retrovisor.

— Obrigado. — logo após, ele volta a bater no volante, começando devagar e acelerando aos poucos.

— Você não precisa ficar preocupado com Lucy, acredito que vamos resolver isso rapidamente. Juntos podemos fazer frente à Dorian. Logo ela volta para casa.

Manson para de bater novamente no volante, dessa vez ele fecha os olhos abaixando a cabeça e se vira para trás, se apoiando no banco.

— Deixa eu te deixar claro uma coisa, Senhor. Eu não gosto nada da ideia dela ficar aqui com você, ela é forte o suficiente para lutar com quem quiser sozinha.

— Dorian é um homem poderoso. Além disso, ele está com a Ordem que...

— Ela já me contou da Ordem. Não me preocupo com a luta, não me preocupo com a Sedenta, mas com você que age como se...

— Escolha com cuidado as palavras, filho. — Jekyll fala, segurando sua bengala.

— Ou o quê? Vai me espancar com a bengala e me queimar com o chá? Ou virar um monstro gigante e me esmagar?

— Não. Eu não digo isso por mim. Mas pelo bem de vocês dois.

— Fala como se a conhecesse, intimamente.

— E é íntimo, garoto. Mas não da forma que você pensa. Nem tudo se trata apenas de sexo e amor. Ainda mais no nosso caso, em que temos tantas coisas que nos diferenciam de pessoas comuns.

— Ela é diferente. No começo me assustava.

— Eu imagino. Mulheres fortes assustam meninos.

Antes que Manson possa responder eu abro a porta do carro e entro rapidamente. Jekyll se ajeita no banco de trás, Manson rapidamente volta o corpo para frente pronto para sair com o carro.

— Obrigada por me deixar usar o seu banheiro, Jekyll... está tudo bem com vocês?

Jekyll balança a cabeça sorridente para mim com suas mãos apoiadas na bengala entre suas pernas.

— Vamos indo. — fala Manson, já baixando o freio de mão.

No aeroporto, Manson se despede de mim em um longo abraço, sinto ele cheirar o meu pescoço antes de se desatar de mim.

— Não demore. — fala ele, um pouco melancólico por ir direto ao enterro de Cris.

— Não vou demorar. Não esqueça de fazer a entrega para Hidekki por mim, caso já tenha chego o meu pacote.

Ele acena com a cabeça, me beija mais uma vez e se vira de costas. Eu o vejo ir embora e sinto Jekyll se aproximar lento e manco atrás de mim.

— Está aliviada agora?

— Muito.

— Ele não devia ter vindo, se tivesse acontecido alguma coisa...

— Foi um imprevisto, ainda bem que ele está indo embora agora.

— Pode me mostrar?

Eu tiro do bolso a carta em papel texturizado que recebi no saguão do hotel. Ele pega com a mão livre da bengala e com seus dedos um pouco trêmulos tenta abrir.

— Está com problemas. Não tomou a dose de hoje?

— Não tive tempo.

Ele oscila um pouco e quase cai no chão com uma de suas pernas fraquejando. Eu o seguro e o ajudo a sentar em uma cadeira.

— Você é louco Jekyll! Quanto tempo você precisa para fazer a dosagem?

— Eu preciso de pouco, mas tenho uma reserva guardada no cofre.

— E porque não a tomou logo?

— Não achei que fôssemos demorar.

Ele se ajeita no banco, eu quero levantá-lo para levar de volta ao seu tônico. Ele me segura me pedindo que eu abra a carta para ele.

— Posso esperar alguns minutos.

Eu abro a carta e a posiciono em suas mãos, ele afasta um pouco para que possa ler sem seus óculos.

 

 

 

“Querida Lucy, que bom que está a caminho, espero que Clinton tenha lhe feito um bom prato. A família a aguarda, ansiosos por uma reunião.

 

Beijos do Sempre seu, D.”

 

 

— Ele deixou isso no Hotel?

— Sim.

— Pessoalmente?

— O atendente disse que um rapaz entregou, indicada a mim. Mas não sabia dizer como era. Podia ser outra pessoa, um vampiro da Ordem, talvez.

— Então ele sabe que está aqui, sabe que se encontrou comigo.

— Ele vai estar nos esperando. É por isso que eu queria Manson fora daqui. De certa forma, essa tragédia veio em boa hora para que ele saísse de perigo.

— Sim, sim... aliás. Você tem um dedo torto para homens. Escolhe cada um...

Eu reviro os olhos antes de forçá-lo a se levantar.

— Com todo respeito, Jekyll. Mas quem eu escolho, não é da sua conta.

 

 

 

Moscou, 1979

 

Faz muito frio na Rússia no outono e inverno, estamos com sorte pois está com apenas 27 graus, negativos é claro. No galpão está bem quente, aqui ninguém sente o frio de fora, já que há muita vodka e suor. Quando meu oponente tenta me atingir com uma faca, acaba apenas golpeando o ar a minha frente. Eu desvio duas vezes antes de segurar seu punho e bater em sua mão, ele solta a faca gritando de dor e eu o empurro para o engradado. Ele se segura na grade de arame trançado, se apoia para se levantar novamente e grita com o homem barbudo na porta.

— Me dá mais uma!

— Seu dinheiro acabou. Agora só os acessórios.

Ele grita com o organizador enquanto a plateia começa a vaiar, eles detestam um lutador indeciso, que demore a voltar para apanhar em minhas mãos. Eu fico apoiada do outro lado, estou um pouco zonza, mas tomo mais um pouco de vodka barata da garrafa transparente ao lado do meu banco.

Minhas mãos estão enfaixadas e na esquerda as faixas são tingidas de sangue. Não é meu sangue. Minha camiseta preta e larga tem alguns rasgos de facadas que levei essa semana. O chefe já me mandou usar algo mais curto, acha que a plateia irá ao delírio em ver eu me cicatrizar. Eu sou um animal na jaula, mas não quero os cretinos se masturbando enquanto pensam em mim. Não que eles já não o façam de qualquer forma. Eu ouço o chefe bater na grade me avisando que o gordo entrou no ringe novamente.

Eu me viro e só dá tempo de ver o branco da cadeira metálica se aproximando rapidamente da minha cara. Ele me atinge em cheio o rosto me fazendo bater de costas na grade. Sinto alguém me apalpar pela grade antes de eu me virar e ser atingida novamente na cabeça. Caio no chão com o balofo urrando de alegria.

A plateia começa a vaiar, acho que tenho mais fãs que o idiota. Sempre há muitos homens, um deles, muito bem vestido, está sentado com um garoto louro ao lado. O menino vibra a cada golpe, o homem apenas olha enquanto traga o charuto. Eu me levanto atrás do balofo, minha cabeça e rosto sangrando, se regenerando rapidamente.

Ele tenta me atingir novamente com a cadeira, mas dessa vez eu me abaixo e o soco com força em sua barriga. Ele se curva vomitando seu jantar no chão, eu o soco em seu queixo, um gancho na têmpora esquerda, seguido por outro na direita. Ele cai apagado em sua própria poça de miséria e podridão.

Meus fãs deliram, inclusive o moleque, os apostadores gostam e vejo o chefe na porta da gaiola colocando mais algumas notas em minha lata. Eu, volto para o meu canto, sento no meu banquinho e mato minha sede na vodka.

— Quando terminar essa noite, que tal a ferinha vir se divertir comigo essa noite? — fala um apostador atrás de mim, se esfregando na grade.

— Não estou interessada. — respondo sem olhar para trás.

— Se você quiser, eu posso te pagar bem até.

Eu me viro, olho para o homem até muito bem afeiçoado, se não fossem a falta de dentes, deformidades faciais e uma orelha meio mastigada.

— Sabia que ia se interessar, eu gosto de aberrações bonitas. — fala meu corajoso pretendente.

— Aberração? Como você?

Os amigos ao lado riem, apesar dele parecer não se abalar.

— Faz o seguinte bonitão, paga a luta e vem pra cá. Se você ganhar eu dou de graça pra você. Se perder, vou arrancar as suas bolas com meus dentes e pendurar aqui na grade. — Depois de gesticular sobre seus testículos presos na grade, ainda dou uma lambida no arame de forma sensual.

Ele fica um pouco enojado ao ouvir isso, eu mal posso me manter em pé de tão bêbada. Me divertindo com a cena, ouço o meu chefe batendo na grade novamente, um novo oponente. Me viro e vejo Jekyll do outro lado do ringue, ele tira o paletó calmamente e pede que o chefe o carregue. Mal posso acreditar no que vejo, ele está muito velho já e fazia mais de cem anos que não o via.

— Eu paguei por esse tempo aqui, então você vai me ouvir. — diz ele, enquanto tira o colete.

— Quando eu disse que não queria nada com você e com Dorian, eu não estava brincando Jekyll.

Ele entregou o colete e termina de arregaçar as mangas antes de me encarar com sua pose mais arqueada possível. A plateia inicialmente tinha vaiado com a entrada do velho, mas agora, percebe que eu recuo e não vou simplesmente atacá-lo.

— Está tudo bem, Vanessa? Quer que interrompa? — fala meu chefe, que normalmente segura a porta da jaula.

— Não tem problema. Eu mesma coloco o lixo lá fora.

Eu corro até ele o socando no rosto, ele recebe três golpes em sequência e não cai, permanece em pé. Eu paro ao ver que ele nem se moveu, agora percebo que ele não entraria na jaula se não tivesse tomado a fórmula, mesmo que pouco. Ele me soca, eu recuo. Soca novamente e no terceiro golpe me acerta o nariz e eu bato de costas na jaula. Dessa vez as pessoas se afastam, eles percebem que o forasteiro só pode ser uma “aberração” como eu.

Eu corro para ele, que me segura pela cintura e camisa, me ergue do chão e me joga com o rosto no cimento de uma vez. O mesmo chão imundo do oponente anterior.

— Me escuta! Eu vou te pagar se quiser!

Eu o chuto, ele segura a minha perna e me joga na grade. Puxa pelo pé novamente para me lançar ao chão, mas eu chuto o seu rosto com o outro pé. Uso minhas garras para cortar seu tornozelo soltando pouco de seu sangue no chão, ele grita e soca minha cabeça direto no chão de cimento.

— Nós podemos vencer se trabalharmos juntos! Chega de se esconder! Eu tenho uma família agora e quero que eles fiquem seguros!

Levanto devagar o meu corpo do chão, assim que meu rosto se regenera o suficiente falo em inglês para que os russos não possam me ouvir.

— Eu também tive. E ele sempre fez questão de destruir.

— Não foi culpa dele na última vez. Eu soube de Mirian. Eu sinto muito.

— Mirian foi morta por animais como esses à nossa volta. E me pagam para te socar, não para combinar um ataque suicida.

Ele me segura pelo pescoço, me levanta e bate na parede do fundo. Posso sentir minhas costelas sendo esmagadas no concreto.

— Qual é, Lucy! Você pode ter muito mais que isso.

— Eu sou livre. E vou continuar assim.

Eu lhe dou um soco na garganta, o fazendo perder o ar. O chuto no rosto para que finalmente me solte e agora livre, o soco várias vezes. Ele recua e o continuo socando, o deixo encurralado na grade e o soco ainda mais, no rosto, estômago e rosto novamente. Ele finalmente deixa as mãos caírem de lado. O efeito do tônico passara e eu percebo quando seu rosto está sangrando. Finalmente ele está sangrando.

Eu paro, ele cai no chão e é carregado para fora. A plateia está em silêncio, com poderes ou não, para todos os efeitos, eu soquei um idoso. Eu me sento novamente no banquinho e vejo que o chefe não colocou notas em minha lata dessa vez.

Encerrando a noite, eu finalmente pego o meu casaco, ganho a quantia e percebo ser uma parte consideravelmente menor.

— Algum problema, chefe?

— Suas lutas estão rápidas demais Vanessa. E fora que o velho não deu boa sorte. Ele ainda está lá, no bar. Disse que não sairia daqui sem falar com você.

Eu me inclino e o vejo, de paletó e cara inchada tomando conhaque quente.

— Tá, eu vou falar com ele.

— Não quebre nada.

— Não vou. Só quebro quando me pagam pra isso.

Me aproximo de Jekyll que está curvado, tentando se aquecer, eu sento na sua frente com o meu casaco no colo, coloco a minha companheira garrafa na mesa. Ele olha, tremendo me indaga.

— Isso é um inferno frio.

— Depois de um tempo, você se acostuma.

— Lucy. Dorian está sempre de olho, ele não te encontrou agora, mas você sabe que é uma questão de tempo.

— Mas ele não me encontrou Jekyll. Se eu fizer alguma coisa, aí sim ele saberá onde estou. Ele não me afeta mais desde Roma, faz mais de cem anos.

— Desde Roma. Ele não te ataca sempre, mas quando o faz mata todos, é verdade que ele cortou a sua cabeça lá?

— Que foi? Está curioso da sensação? — Ele não responde, apenas toma mais um gole do conhaque a frente. — Apenas saia de Londres.

— Eu não quero sair de Londres, não posso. Minha família e meu trabalho...

— Deixa de ser idiota Jekyll. Trabalho você acha em outro lugar, pegue sua família e vá embora. Pare de insistir em uma forma fácil dele te achar.

— Eu não...

— Eles não sabem? É isso?

Jekyll balança a cabeça negando, percebo que ele ainda finge ser um “cara normal” para eles. Quanto tempo ele acha que pode enganá-los.

— Lucy, por favor. Se formos juntos podemos...

— Chega Jekyll. Saia daqui, ou eu vou te socar de graça para que me deixe em paz.

Ele percebe que não vai me convencer, se levanta abrindo o paletó, do bolso interno pega um cartão, coloca na mesa e o desliza na madeira até mim.

— É o endereço de minha loja e casa. É no mesmo lugar, mas caso você tenha esquecido. — Fico olhando para ele, em negação. — Caso você mude de ideia, eu preciso de sua ajuda, nem que seja não lutando.

Eu não respondo, finalmente ele se vira, fico sentada vendo ele caminhar até o portão. Na rápida abertura da porta metálica pode-se ver a neve caindo lá fora. Permaneço sentada ainda enquanto tomo mais um gole de minha garrafa quase vazia, fico lembrando de Dorian. Fico lembrando de Antônio e Laura, do lenço verde na mão dele, daquela tarde escabrosa. Seguro o cartão e o coloco no bolso. Meus pensamentos melancólicos são interrompidos por um outro homem se sentando a mesa. Antes que eu possa mandar o pervertido para aquele lugar eu levanto o rosto e vejo o seu terno cinza escuro. Ele está muito bem vestido para um apostador.

— Senhora Vanessa Korolenko.

— Sim.

— Precisamos conversar.

— É sobre o carro da frente? Eu posso pagar o concerto se quiser.

O homem de terno permanece estático, sem nenhuma reação facial, isso é muito bizarro. Eu definitivamente estou ficando zonza demais.

— Não é sobre o carro. Vim aqui lhe fazer uma proposta.

— Eu não sou puta. — respondo um pouco esganiçado enquanto levanto a garrafa novamente. Mas um outro homem de terno pega a garrafa de minha mão e um terceiro segura o meu ombro, me mantendo sentada. Eu olho para eles e percebo que cheiram diferente, definitivamente não são pessoas normais.

— É claro que não. Estou interessado em outras habilidades. As que mostrou nas lutas nessas últimas semanas.

— Ah... tá, entendi. Quem você quer que eu mate e quanto vai pagar?

O homem a minha frente finalmente sorri, elegantemente ele se curva na mesa para que possa sussurrar a mim.

— Se tudo der certo, será apenas investigação. Mas mortes podem estar envolvidas. Já pensou em trabalhar como policial, ou para o governo?

— Se decida, ou é um dos mocinhos ou mata pessoas. Não dá pra ser os dois.

— As coisas não são tão simples Senhora Korolenko. Mas talvez se interesse em trabalhar conosco, em um serviço de inteligência, que exige muitas habilidades. E no seu caso, suas habilidades seriam muito apreciadas.

— E caso eu me interesse, como devo encontrar as pessoas responsáveis para negociar?

— Não se preocupe, a KGB sempre encontra você.

 

 





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