Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 3
Capítulo 2 — Mascarada




 

 

 

“Relacionamento a distância é como amor de onça e lobo no zoológico, cada animal em sua jaula.” — Sócrates.

 

 

 

Madri, 1575

 

Eu seguro a mão de Laura enquanto andamos pela feira, ela já tem sete anos. Antônio está comprando os cereais enquanto eu observo os cortes de carne. O mercante estranha uma mulher comprar as carnes, aqui eles não sabem que eu era uma caçadora. E espero que continuem sem saber. Olho para os animais abatidos na barraca, vejo uma bela corça com quatro furos de flechas, não consigo conter meu olhar de desaprovação. Então volto a me concentrar e peço dois coelhos.

Enquanto o mercante solta os animais pendurados percebo que todos a volta se viram e começam a ajoelhar. O som de cavalos me avisa da presença de alguém importante, eu me viro junto de minha filha e já nos ajoelhamos em respeito a quem quer que seja. Levanto os olhos e observo o bispo parado em seu cavalo à minha frente, ele desce de seu frondoso animal e se aproxima. Estende sua mão direita e eu rapidamente beijo seu anel de pedra vermelha, suas vestes longas de tecido vinho e branco, muito bem cortadas formando uma figura imponente.

— A senhora é a parteira?

— Sim, eminência.

— E onde está seu esposo? — fala ele se virando, procurando ao redor.

Vejo Antônio se aproximar rapidamente, ele carrega o saco de cevada e aveia nas mãos ao parar de frente ao religioso.

— Boa tarde, eminência. Vejo que encontrou minha esposa.

O Bispo me olha por cima novamente, ele faz um gesto permitindo que eu levante. Laura olha diretamente ao rosto do Bispo, muitas rugas no rosto levemente gordo, sobrancelhas grossas e brancas marcam sua fronte de barba muito bem aparada.

— Qual o seu nome, mulher?

— Catarina, senhor.

— Ótimo, eu mandarei uma menina a você. Quero que a acompanhe, prefiro uma parteira com prática maior que as freiras, até porque, gostaria de discrição.

— Ela é especial?

— Como? Não, ela não minha parente. A conheço apenas da congregação.

— Não, digo... a gestante, possui alguma fraqueza?

— Não, mas é uma pobre pecadora, não é casada e se reusa a dizer o nome do pai. Provavelmente é um homem casado e ela, depois de entregar a criança, se entregará para a igreja também.

Fico atônita com ele me contando tal tragédia, nem conheço a menina e já tenho pena de sua condição. Ele percebe minha reação e questiona se há algum problema com isso:

— Não. Não, senhor. Só preocupada pela menina e a criança.

— Será paga para cuidar do parto, não para se preocupar com isso.

— Sim, senhor.

 

 

 

New Orleans, 2017

 

Acordo com um rato mordiscando meus dedos da mão direita, estou em algum lugar fechado, escuro, com um cheiro terrível. Tenho que virar o corpo para alcançar minha bota, a tiro e de dentro de minha meia pego o localizador. Quando o aciono uma luz verde passa a piscar e um sinal de minha posição é enviado. Mais uma das engenhocas de Hidekki, ele ou Manson devem me encontrar logo.

Estou em algum lugar fechado, escuro, iluminado apenas por um pequeno feixe de luz, que penetra no recinto apertado. Quando tento me levantar, bato a cabeça na tampa da caçamba de lixo, assim que abro percebo que o odor vinha de uma fralda suja jogada num canto. Ainda bem que não teve lixeiro pelo menos, ou estaria compactada agora. O meu companheiro de lixo sai balançando seu rabo pelado, ele para a minha frente me farejando.

— Não vire um monstrinho, hein. — digo para o roedor.

Saio da caçamba, tento me limpar antes de caminhar para uma praça. Um mendigo se levanta do chão e sai de perto de mim, eu não estou muito apresentável com restos de alimentos e excrementos de bebês em minhas roupas. É de manhã e alguns pássaros cantam ao longe, algum tempo depois ouço o carro velho do Manson virar a esquina.

— Você est... merda! Tem certeza que você está viva? — fala Manson, da janela do carro velho.

— Obrigado por vir me buscar. — Entro no carro rapidamente.

— Então. Além de uma nova fragrância, o que você conseguiu? — fala Manson dirigindo e abrindo a outra janela do carro.

— Dá um tempo Manson, ainda estou com dor de cabeça. Eu havia conseguido evidências para você, mas acabei perdendo a briga.

— Eram muitos? Que armas eles usaram?

— Górki.

— Isso é uma arma?

— Sim, é um cara.

Uou, tempo! Um cara fez isso com você?

— Ele era grande, tá legal? Daqueles que não passam da porta.

— Um vampiro?

— Não, acho que não.

— Um lobisomem?

Olho para ele com desdém, é sério mesmo isso?

— Que foi? Depois de vampiros e homens-imortais, pensei direto em lobisomens. Afinal, não me disse porque acha que ele não é normal.

— Porque ele deu um soco que fez um buraco no chão, depois outro que arrancou a minha mandíbula fora. — Ele faz uma careta ao ouvir isso. — Acho que era um daqueles corruptos.

— Corrompidos. — corrige ele.

— É, isso mesmo.

— Certo, vai planejar alguma forma de pegar evidências sem enfrentá-lo?

— Tá brincando? É uma questão de honra agora, preciso manter minha reputação.

— Alguma ideia em mente?

— Algumas.

— Então tudo o que conseguiu acabou perdendo?

— Ah, não. Estava me esquecendo, me dê o seu canivete.

Ele tira o canivete do bolso e me entrega, eu puxo a blusa até o alto do peito, limpo a barriga com a mão e corto na altura do fígado. Enfio minha mão e puxo entre meu estômago e meu fígado um pacote plástico. Nele o caderno com as anotações, nomes, datas, produtos, pagamentos e locais de troca. Dou o pacote ensanguentado a Manson que ainda dirigindo apoia na perna do jeans. Ele olha pra mim um pouco abismado e irritado.

— Que foi? — pergunto, enquanto abaixo a blusa no corte já fechado.

— Precisava mesmo fazer isso dentro do meu carro?

— Desculpe.

 

 

 

*********

 

Em casa me preparo para o banho, Mefisto está me esperando na banheira, passando hidratante nos braços.

— Ainda está chateada comigo?

Olho para ele irritada, tiro a roupa e ligo a ducha. Rapidamente o vapor sobe deixando todo o ambiente em neblina, puxo a cortina para me dar privacidade enquanto tento recuperar a minha dignidade.

— Você ficou quieta o tempo todo comigo, agora vai fazer tratamento de silêncio aqui também?

Passo duplo xampu, duplo sabonete, duplo condicionador, mas ainda sinto algum cheiro rançoso.

— Você sabe, eu não resisto ao David Bowie.

— Ele era seu amiguinho?

— O quê? Não me ofenda, seu talento era genuíno, impecável. Quebrou o silêncio... estou perdoado?

— Apenas não se divirta enquanto sou espancada, isso não é legal.

Saio do chuveiro, vou para o quarto e coloco roupas limpas, vou para o porão e conto as unidades de sangue. Fecho a geladeira e paro no armário, fico olhando com as portas abertas, preciso escolher o que usar na próxima noite. Dessa vez minha dúvida não é entre Galiano e Paco Rabani, estou pensando em espadas, cimitarra, correntes, arpão, bastão polonês, maça ou machado.

— Caramba, não conhecia o seu arsenal medieval. — fala Hidekki na escadaria do porão.

— O que está fazendo aqui ainda?

— Só fazendo algumas pesquisas com o caderninho que você traduziu, não sabia que você fala russo.

— Russo, árabe, italiano, espanhol, português, cantonês, polonês, ucraniano e obviamente Romeno. Encontrou algo que me seja útil?

— Apenas que as mulheres compradas vão para um cara no Leste Europeu.

— É exatamente isso que me interessa, qual o nome?

— É algum ricaço que paga em diamantes, não tem nome, só D.

— Endereço?

— Essa é a parte interessante, parece que após embarcarem no porto de New Orleans vão até a Albânia, de lá “a carga” é levada de trem pela Sérvia até a...

— Romênia. — completo.

— Sabe quem é esse cara?

— Provavelmente.

— Porque estou com a sensação que você nem liga para o russo?

— Porque você está certo, mas mesmo assim preciso remover um lixo de cada vez.

— Certo... isso é aquelas tramas de prostituição escrava né?

— Eu... acho que sim.

— Isso não foi muito convincente. — Hidekki fala em um tom irônico.

— É porquê também não estou totalmente convencida disso. — percebo que ele continua olhando para meu armário de armas, fixamente. Eu fecho e não o deixo ver o código da senha.

— Então, quando Vendetta vai atacar novamente?

— Vendetta?

— É, você é vigilante agora, precisa de um nome.

— É mesmo? E como os bandidos saberão desse nome? Quer que eu use um uniforme também?

— Não seria má ideia, poderia inclusive te proteger melhor, um colante iria cair bem.

— Primeiro lugar, eu não preciso dessa proteção, eu me regenero. Em segundo lugar, eu não uso lycra.

— Tá legal, mas seria legal, fica a dica. — Ele se vira e posso ver seu gancho coçando a cicatriz do ombro sob a camisa. Ele se senta na mesa cheia de fios e aparelhos, se ajeita para trabalhar enquanto Demócrito pula em seu colo. Ele responde com um tapa derrubando o gato no chão, o peludo mia um pouco, estranhando meu amigo asiático. Eu também o estranho.

— Está vendo alguém?

— Eu vejo muitas pessoas, Lucy. Todos os dias. — Ele responde de cabeça baixa para o eletrônico à frente.

— Eu digo, um psicólogo? Um terapeuta?

— Para quê? Ele me falaria que sou louco por achar que conheço uma vampira a mais de três anos? Quer dizer, isso se eu realmente a conhecesse.

— Do que está falando, Hidekki? — ele se vira lateralmente para mim antes de responder.

— Sabe Lucy, eu nunca tive medo de você. Quer dizer, eu me apavorei no começo, no dia que descobri. Mas depois você sempre foi mais que uma amiga.

— E qual é o problema nisso?

— Nisso, nenhum. Mas desde o ano passado... antes éramos nós dois, eu era o único que sabia de você. EU não sentia medo, pelo contrário, me sentia seguro. Teve aquela vez que me defendeu de meu tio, você protegeu a minha mãe. E depois...

— Depois?

— Depois eu não era mais sua prioridade.

— Você está bravo... por causa de Manson?

— Não se preocupe, Lucy. Clinton está morto, você não terá que arrancar um braço por mim. Não que você tenha feito isso antes. — fala balançando a cabeça e voltando para a mesa de itens eletrônicos.

— Na hora que ele te atacou Hidekki, eu estava muito ferida, drogada ainda e...

— Eu sei. Deixa, Lucy. Só estou cansado, só isso. — Ele se levanta, vai até a geladeira e pega um energético, abre e bebe em grandes goladas. Coloca a lata na mesa e se apronta para fazer algum trabalho de sua faculdade. Já concentrado nos chips ele fala.

— Não quero te chatear, mas você ainda está cheirando mal.

Fico em silêncio olhando o futuro engenheiro eletricista a minha frente, cada vez mais frio e distante daquele garoto que conheci. Eu me viro e vou até o computador, faço uma pesquisa de algo que possa animá-lo.

 

 

 

*********

 

Manson termina de preencher uma ficha com os dados do que coletaram até agora do assassino do martelo. Cris entrega também algumas fichas para completar todo o arquivo.

— Conseguiu pegar tudo? — pergunta Manson, enquanto coloca as fichas de Cris na pasta.

— Passei a noite com isso, consegui transcrever todas as gravações da entrevista do maluco e testemunhas.

— Falando nisso, como está a Senhora Shelby?

— A cunhada veio buscá-la, desde aquele dia está na casa da mãe, eu liguei e parece que ela está tendo uma semana difícil. — Cris tem sua famosa corrente dourada em torno de seu pescoço, ela aparece pela abertura da camisa branca com finas listras rosadas. Seu cabelo louro cacheado e rosto robusto o torna uma figura agradável, apesar do grande relógio dourado que completa o seu visual de cafetão.

Manson coça a barba mal feita enquanto mexe na gaveta em busca do maço de cigarros. Acaba encontrando a cartela de chicletes de nicotina, Cris percebe e logo completa.

— Se não vai mais tentar parar, pode me dar os chicletes pelo menos, isso aí é caro.

— Não sabia que fumava, Cris.

— Não fumo, mas posso revender.

— Claro... claro... então vai acompanhar o maluco até a Penitenciária Estadual da Louisiana?

— Vai ficar me devendo essa! — fala Cris, enquanto bate um tapa na mesa. Ele se apoia e se curva antes de falar mais próximo ao amigo. — E aí? Vai mesmo juntar as escovas?

— Parece que sim.

— Não acha que está meio rápido? Sei lá, vocês se conhecem à nem um ano...

— Eu não quero perder tempo.

Cris levanta os braços como quem não quer discutir, mas ainda sorri para Manson andando de costas.

— Ela deve ter um baita talento para te fisgar assim. — Cris fala com um sorriso maroto.

Manson olha para Cris, recriminando o comentário, mas ri em seguida.

— Tá certo, quem sou eu pra julgar né?! Mulher é um negócio tão bom que sustentando três agora. — fala Cris.

— É, mas é diferente. Tua mulher não sabe das outras namoradas.

É o suficiente para o policial louro sair do escritório do sargento com a ficha em mãos. Atravessa o Departamento de Polícia até o outro lado, chegando até a pequena cadeia ao encontro do assassino leitor.

— Dormiu bem? — fala Cris enfiando o rosto entre as grades, o rapaz se levanta na cama de cimento tentando esticar o corpo dolorido.

— Para onde vamos?

— Para sua casa, a Estadual da Pensilvânia vai te abrigar enquanto aguarda o julgamento. Agora venha até aqui e coloque as mãos nesse cantinho para eu te por a minha aliança.

O guarda ao lado de Cris segura o cassetete enquanto o assassino caminha devagar se aproximando das grades. Passa os punhos fechados pela abertura para que Cris o algeme, o guarda abre a cela e o louro detetive conduz o prisioneiro pelo corredor.

Enquanto isso, Manson vai até a porta de seu escritório e chama a Detetive Dolores. Ela levanta o rosto ao ser chamada e rapidamente pega uma pilha de papéis de sua mesa antes de se levantar. Vem até a porta com sua camisa branca levemente amassada nas costas por se sentar no encosto da cadeira. Seu cabelo penteado e preso em um coque alto é volumoso e muito escuro, sua pele morena e lábios grossos reforçam sua aparência latina muito bonita.

Ela entra na sala de Manson e coloca a pilha de papéis na mesa, começa a espalhar fichas e fotografias.

— Isso é dessa semana? — pergunta Manson, enquanto vai ao lado dela para ver o material.

— Sim, cada visita que Nikolai teve no White Cat.

Manson pega uma das fotos com Nikolai andando em seu terno branco acompanhado de vários capangas. Um deles é muito grande, usa calças listradas e suspensórios, a regata deixa mostrar seus braços muito fortes.

— Esse mamute branco aí é o Górki.

— Ah... é esse. Então deve ser assim que acabam matando os informantes, todos que encontramos tão destruídos.

— Provavelmente.

— E as ligações?

— As negociações estão intensas, ele deve fazer uma outra venda em breve. Conseguimos decodificar com os dados do caderno que trouxe, o seu infiltrado ainda está lá?

— Não, ele sumiu.

— Quando quer fazer a apreensão?

— Quando eu tiver um modo que garanta que Nikolai seja pego, se fizermos uma invasão e ele escapar não nos adiantará de nada.

— Será que a mascarada vai atacar novamente? A que se regenera?

— Eu não sei. Mas é melhor não contarmos com isso. Termine o relatório, Dolores. Deixe tudo pronto para quando conseguirmos armar uma tocaia.

— Sim, senhor. — Ela une novamente as fichas da mesa para se retirar da sala de Manson. Ele pega o celular e começa a escrever uma mensagem à mim.

 

 

 

M: Seria bom se conseguíssemos pegar Nikolai logo, não posso segurar o D.P. por muito tempo.

L: Faremos hoje à noite então.

M: Ótimo.

 

 

 

Em casa, após trocar mensagens com Manson desço novamente ao porão. Pego minha maça do armário, a pesada bola de ferro é atada a uma longa corrente, na outra ponta possui uma garra. Pego também uma máscara e coloco em cima da mesa junto de minha arma medieval.

Vou até a geladeira e penso um pouco antes de tomar a decisão.

 “Se eu fizer isso, preciso me manter no controle. Se algo der errado pode ter graves consequências... sim, eu posso. ”

Pego duas unidades de sangue. Uma arma e uma alimentação generosa devem dar conta de Górki.

 

 

 

*********

 

Quando chego no White Cat, tudo está fechado novamente. Dessa vez não tentarei entrar pela surdina, isso não é necessário, o caderno de anotações é o suficiente para a prisão de Nikolai. Mas antes eu preciso resolver um código de honra e capturar o russo para Manson, pois eu duvido muito que a polícia tenha condições de fazer uma apreensão sem perder muitos policiais para Górki.

— Está na escuta? — fala Manson pelo comunicador.

— Sim, vai ficar esperando aí embaixo?

— É claro, quero assistir ao show, até porque algum pode tentar escapar por baixo. Estou vendo alguns carros e uma garagem.

— Não estou preocupada com os inúmeros capangas, apenas Nikolai e Górki.

— Se capangas menores escaparem por aqui eu cuido deles.

— Que romântico. Acabei de avistar Nikolai, estou entrando.

Nikolai está na mesa no meio do salão, a mesma mesa que assistiu eu ser surrada por Górki. Ele anota algumas coisas em um caderno e usa um notebook, enquanto fala em russo pelo celular. Eu salto quebrando o alçapão e caio com elegância no meio do salão, no canto ainda há um baixo relevo no chão feito por Górki dias antes.

— MAS QUE PORRA É ESSA? — Nikolai grita com seus homens.

— Nikolai, esse é o único aviso. Entregue-se pacificamente.

Ele olha para mim, quase que rindo de minha ousadia de avisar alguma coisa.

— Aviso? Quem você acha que é para me avisar de alguma coisa? Estou sem tempo para brincadeiras hoje, cuidem dela.

Vejo os homens em volta prepararem suas armas, fuzis e pistolas. Eu corro pelas paredes até o mais próximo, atrás dele o seguro quebrando o seu pescoço. Alimentada dessa forma, posso correr muito mais rápido, eles percebem o problema que se meteram. O lugar vira um caos de tiros que eu desvio correndo e saltando entre paredes, chutes e socos são o suficiente para os que não conseguem me acompanhar. Eles mal me veem quando chego, eu uso o fuzil de um deles o espancando com o cabo da arma.

Faz tempo que não uso armas russas, vou matar a saudade hoje nesses animais de péssima pontaria. Um, dois, três no balcão, quatro nas mesas, cinco no palco, seis e sete na varanda de cima. Do alto da varanda interna eu me apoio no parapeito e aviso.

— Nikolai, chega de brincadeiras.

Salto no chão ao ver Górki correndo, ele grita como um bruto monstruoso.

— VOU GARANTIR QUE FIQUE MORTA AGORA!

Eu pego a corrente que trouxe comigo. Faço uma alça e laço seu pescoço, como em um balanço deslizo por entre suas pernas chegando em suas costas. Ele se vira tentando me acertar com o taco metálico de beisebol, eu me esquivo de um lado a outro, enrolo a corrente em seu taco e o arranco de suas mãos. Acerto a maça em seu rosto, ele titubeia para trás com o impacto no centro de sua testa.

Giro a outra ponta e acerto seu rosto com a garra da corrente. Ele ganhara uma nova cicatriz, uma entre as várias de seu rosto meio queimado e meio feio mesmo. Ele então levanta o antebraço fazendo com que a ponta da corrente gire e fique presa. Ele me puxa, me lançando contra a parede, eu caio de pé, me segurando mais firmemente, lanço a maça novamente em seu rosto, corro contra a parede me dando impulso para chutar a sua nuca. Finalmente está zonzo, lento o suficiente para eu subir em suas costas dar duas voltas com a corrente em seu pescoço.

Minhas pernas estão presas a suas axilas, ele soca minhas coxas, mas dessa vez nada se quebra. Ele balança com falta de ar, me bate contra a parede tentando se libertar, mas permaneço firme segurando com tranquilidade as correntes. Dessa vez minha força é tão grande quanto a dele que aos poucos para de balançar e cai de joelhos. Antes de cair no chão eu apoio um de meus pés e docilmente deixo sua cabeça deitar no piso frio.

Um tiro corta o silêncio e vejo Nikolai fugindo pelos fundos com o notebook, enquanto um último homem atira com duas pistolas. Eu recebo os tiros, caminho até ele irritada, ele continua me acertando, uma bala atrás da outra. Mas a regeneração é quase instantânea, e estou cansada de comprar camisas novas. Ao chegar nele, eu paro a menos de um braço de distância, ele atira em meu rosto, eu pendo a cabeça para trás e ele olha a bala cair de minha bochecha. Fazendo clics diversos em sua arma descarregada, ele treme para mim, dou um murro o fazendo cair para trás.

Escuto o acelerar do carro do lado de fora, corro para a garagem e vejo Nikolai derrapando com o automóvel enquanto faz a curva para a esquerda, Manson segura dois capangas no chão, algemados enquanto corro atrás do carro ainda desviando de tiros que Nikolai dá para trás. Salto em cima do capô do carro, ele faz curvas que me empurram de um lado a outro, ele atira diversas vezes para o teto.

Os projéteis acertam meu cotovelo, ombro, ouvido, mas a minha regeneração faz com que os tiros sejam inúteis. Com um braço apoio na lateral da porta e entro pela janela, ele atira em mim, eu o abraço protegendo sua cabeça com meu tronco e com o pé viro o volante de uma vez.

 

 

 

O carro capota.

 

 

Uma.

 

 

Duas.

 

 

Três, quicando.

 

 

Vira pela última vez e para encostando na parede, em diagonal.

 

 

Se eu não tivesse envolvido a cabeça de Nikolai seu pescoço teria quebrado, algumas vezes. Com o carro virado na beira da via e apoiado no muro eu arranco o que restara da porta e tiro Nikolai do veículo retorcido. Os faróis me avisam da chegada de Manson em seu calhambeque.

— Acho que foi a maior prisão que conseguimos nos últimos anos, a polícia já está lá, eu peguei a sua corrente. Prenderam doze, alguns que estavam escondidos também.

Eu me levanto ofegante, viro para Manson muito irritada, ele vê meus olhos sedentos por mais terror.

— Lucy?

Um animal fareja o robusto policial negro, se aproxima de Manson mostrando suas presas, sem nenhum controle, sem ser cativa. Manson recua, chamando pela amiga.

— Lucy, pare! — Ele fala recuando, levanta a arma apontada a mim.

A fera não escuta, Manson atira duas vezes em seu peito mas a besta segura sua arma, ele atira em sua mão. Os dedos quebrados se regeneram instantaneamente, o monstro colérico quebra o braço do policial. Manson está de joelhos, ele grita e a esfaqueia com o canivete do bolso, na terceira vez que a perfura torce a lâmina fazendo o animal urrar. Eu o atinjo com um golpe no ombro, no chão ele tenta alcançar o rádio quando eu corto seu braço com as garras.

Ele não grita, apenas olha para mim com seus grandes olhos negros quando eu corto seu peito em uma fatia de carne. De seu dorso, me curvo e me alimento, com ele ainda vivo no asfalto, agonizando pela dor, seus braços e pernas um pouco trêmulos batendo no asfalto. A fera se alimenta e ruge como o monstro que é.

 

 

 

 

— MANSON!!! — Eu grito ao acordar em minha cama, estou coberta de sangue e minhas roupas rasgadas, Manson entra pela porta do quarto.

— Acho que foi a maior prisão que conseguimos nos últimos anos, a polícia já está lá, eu peguei a sua corrente. Prenderam doze, alguns que estavam escondidos também. Nikolai ficou muito chateado ao ser algemado na cama do hospital, Górki precisou de uma cela especial e ser carregado por uma empilhadeira... — Ele vê a minha face de surpresa. — Você está bem?

— Sim, eu... só estou um pouco confusa.

— Esqueci que você acorda meio desorientada quando volta.

— Não é isso... você já tinha me dito isso antes?

— Isso o que?

— Da prisão.

— Não poderia... você estava morta, Lucy.

Fico pensando que está acontecendo novamente, esses sonhos premonitórios, não é bom sinal.

— Mas te digo que é um pouco perturbador pra mim ainda ter que carregar o seu cadáver e saber que vai voltar como se nada tivesse acontecido.

— Foi no carro?

— Sim, mas você protegeu Nikolai. Posso perguntar uma coisa? — ele fala sentando ao meu lado na cama, está um pouco reticente.

— Sim, claro.

— Como é?

— Como é o quê?

— Do outro lado? São anjos e harpas, ou algo mais simples?

— Eu não sei, eu nunca fui pro céu.

— Mas você disse...

— Eu sou amaldiçoada Manson, não sou bem-vinda no Reino Dele.

Ceeerto. Então como é o inferno?

— Não é muito diferente daqui.

Demócrito pula em meu colo lambendo os meus dedos das mãos, olho para os lençóis sujos de sangue enquanto Manson ainda está pensativo com minhas respostas.

 

 





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