Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 13
Epílogo


Notas iniciais do capítulo

Agradeço muito a todos que leram, apreciaram e comentaram (aqui ou particularmente).

Agora vamos ao final tão aguardado.



 

 

 

“Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses. ” — Sócrates.

 

 

 

New Orleans, esconderijo de Nikolai

 

Às vezes um som pode mudar tudo, um sinal, uma profecia. Foram três tiros, eu o puxei. Mas não foi o suficiente, dois deles atravessaram o peito de Manson, que cai de costas. Eu o seguro para que não se machuque ainda mais, o deixo no chão e vou direto para o seu algoz. Não devo matá-lo, mas minha gana é pelo seu sangue. Eu não devo ceder ao meu capricho. Não devo, é algo diferente de dizer que não quero, que não irei. Eu me abaixo, seguro sua pistola e ele atira em meus dedos, atinge meu ombro no segundo tiro.

Lembro de meu sonho, o sonho que tive com Manson, era essa mesma posição, o mesmo movimento. Ele atirava em minha mão destruindo meus dedos e depois me esfaqueava. Nikolai tira um canivete do bolso, me acerta duas vezes na lateral do abdômen. Na terceira, assim como no sonho, ele torce com a faca cravada me fazendo urrar. No sonho eu arranco a arma e corto o peito do homem, me alimento dele. Agora, eu arranco a arma, mas dessa vez eu seguro a sua cabeça.

— Vai decepcionar o cadáver. — fala ele, em um tolo desdém.

— Vá pro inferno.

Quebro o seu pescoço. Assim, sem mais nada dizer, não quero mais perder meu tempo com esse maldito russo. Era desprezível quando criança, assim como sua família, a morte de mais um deles não me tirará o sono. Solto-o e vou para Manson caído atrás de mim, ele geme de dor.

— A propósito, eu também te amo. — fala ele rindo com dentes vermelhos para mim.

— Fica quieto. Para de se mexer. — Eu pressiono o ferimento com seu paletó amassado em mãos. Mas muito sangue está escorrendo por minha perna, preciso pensar em algo para estancar.

— Tudo bem, você sabia que eu não ia durar muito mesmo.

— Manson. Confie em mim. Eu só preciso que você diga “sim”.

— Sim para o que?

Coloco uma de minhas mãos no chão, fecho os olhos e chamo O Maldito.

— Mefistófeles.

Os pés imundos aparecem ao lado de Manson, o policial não pode vê-lo ainda, ao longe a menina está se levantando em câmera lenta. Mefisto está de camisa preta entreaberta, se agacha ao lado de meu moribundo companheiro.

— Não pode negociar pela alma dele. — alerta o elegante demônio.

— Eu sei. Mas, preciso que faça isso.

— Certo, então me mostrarei a ele e faremos o trato.

— Não, espera. Não quero transformá-lo em vampiro, não quero que ele sofra com a “sede”.

— O que quer então?

Eu levo minha mão a boca, mordendo um dedo para transformá-lo em um servo.

— Que romântico. Ele só morreria com a decapitação dele ou com a sua morte. Mas ainda não resolve a questão de que eu preciso de uma alma para negociar, ele precisa dizer SIM a mim. — fala Mefisto, ironicamente.

— Eu conheço o contrato, nele é preciso de uma alma pelos poderes. Não especifica exatamente qual.

Ele franze a testa a mim, cerra parcialmente os olhos.

— Está tentando me enganar, Lucy? Sabe que isso não...

— Eu nunca te enganei. — falo categoricamente, ele não gosta muito de minha resposta.

— O que propõe, então?

— Eu lhe darei a minha alma. Dê a regeneração a Manson e minha alma sofrerá a penitência pelo tempo que eu ficar nos Círculos.

Ele levanta o rosto surpreso. Olha novamente para o homem ferido em meus braços.

— Vai entregar sua alma por um primata? Já não tentou casar o suficiente?

— Mefisto...

— Tem ideia do que está me pedindo? Não será mais a mesma coisa lá! Não poderemos mais... — ele baixa os olhos para mim, vê o homem ferido em meus braços. Eu não quero perder Manson, eu não quero mais perder mais um amor.

Ele leva a mão na cabeça, afastando suas madeixas encaracoladas.

— Parece que isso não importa muito agora. — fala em tom visivelmente aborrecido.

— Me desculpe. Por favor.

Mefisto se curva novamente, eu levo a minha mão em sangue para a boca de Manson mas Mefisto a segura.

— Confia em mim? — pergunta ele, com seu olhar malandro e sereno.

— Confio.

Ele lambe o meu sangue, levanta a sua outra mão, e com as unhas perfura a própria palma. Então derrama o sangue demoníaco em minha mão.

— O que é isso, Mefisto?

— Ele não será um servo. Considere isso um presente, ele terá a força, a regeneração, mas se você morrer, ele permanecerá.

Eu sorrio a ele, grata pelo que nem teria coragem de lhe pedir.

— Você sabe que a penitência não será branda, não é? — completa ele, já de costas a mim.

— Eu sei. Acho que agora vou evitar morrer.

— Você já estava evitando, eu sei.

Mefisto levanta as sobrancelhas quase em desdém, olha para Manson e depois me faz um gesto, me indicando que devo continuar. Eu levo minha mão, com o sangue de Mefisto até os lábios de Manson.

 

 

 

Penitenciária Estadual da Luisiana

— três dias depois -

 

Babel caminha devagar pelo corredor tilintando as algemas de mãos e pés que nunca lhe são tiradas quando está fora de sua cela. Ele se senta na cadeira metálica fria, seu macacão laranja combina com o profundo mal gosto do número que aparece em seu ombro esquerdo. Assim que a garota do outro lado do vidro se senta eles se olham, sorriem discretamente e, ao mesmo tempo, pegam o telefone.

— É incrível como tudo aconteceu como você imaginou. Quer dizer, quase tudo. — fala ele enquanto levanta o braço engessado para Daniele.

— Sim. Não achei que a vampira estaria lá. Todas as vezes que ela apareceu sempre foram à noite, com bandidos grandes, tráfico. — Ela fala calma, em poucos momentos pisca de forma devagar.

— É sinal então que chamamos a atenção.

— Provavelmente pela casa. Eu quase lamento por minha amiga, mas ela não entendia a perfeição de nosso ideal. Foi bem recepcionado?

— Assim que cheguei, eles estavam ansiosos me aguardando. Pode anotar que temos mais 45 homens. Serão grandes soldados para a nova Era. A Nova Gênesis. — Seus olhos estão vidrados, em um êxtase doentio de superioridade.

— Serão um bom acréscimo para aqueles que já temos aqui. Ao todo, somos 125, estou treinando aqueles da fazenda.

Ele se aproxima e coloca a mão no vidro, olha para ela com certa admiração.

— Seu método é incrível, Daniele. Eu achei que sempre seria um lobo solitário. Agora, finalmente, me sinto completo.

— Será completo só quando expurgarmos esse mundo de fraquezas e tolas crenças. Quanto aos que estão aí, eles têm potencial como disseram?

— Sim, surpreendente.

— Eu disse que eram fiéis. Estou preparando-os há muito tempo. Te encontrar, no puro acaso no metrô, foi...

— Foi destino. — completa ele.

Ela sorri, eles dobram os dedos deixando o indicador e médio esticados, tocam no peito como se estivessem apontando para o coração. Baixam suas cabeças em uma longa reverência e falam ao mesmo tempo.

À Nova Gênesis! — sussurram sua reverência, claramente religiosa.

Ninguém nota um homem louro, magro e de aparência simples. Ninguém irá notar uma moça de aparência jovem e elegante. Os soldados da Nova Gênesis são assim, são jovens bonitos, educados, perfeitos e eficientes. Quando você perceber, será tarde demais. Há muitos deles na prisão, há mais ainda, fora dela.

 

 

 

Minha casa

— uma semana após a prisão de Babel -

 

 

I put a spell on you — Eu coloquei um feitiço em você

Because you're mine — Porque você é meu

You're mine — Você é meu

 

 

Nina Simone canta enquanto o quarto está fechado, o cheiro dele é muito agradável em uma mistura do meu. Estamos sentados de frente, um para o outro. Sua mão percorre minhas costas, subindo até minha nuca, segura meu pescoço e seu polegar levanta o meu queixo. Ele me beija o pescoço e se aninha em meu colo, repousa profundamente relaxado. Nossas pernas entrelaçadas em nosso abraço carnal ficam relaxadas nos lençóis.

Eu, ouço o seu coração pulsar, pulsar, e permanecer pulsando. Minha mão desliza em seu dorso agora sem nenhuma cicatriz, Manson não carrega mais marcas de sua humanidade, ele não sente a sede, mas é como eu.

 

 

I love ya — Eu te amo

I love you — Eu te amo

I love you — Eu te amo

I love you anyhow — Eu te amo de qualquer maneira

And I don't care — E eu não me importo

if you don't want me — Se você não me quer

I'm yours right now — Eu sou sua agora

 

 

Não estou mais sozinha, não quero mais ficar desacompanhada. Ele também está aliviado, não só por não ter mais que se preocupar com seu pulmão, agora curado. Não precisará mais usar dois coletes à prova de balas, não precisa pensar no que ocorrerá quando morrer e voltar. Para ele, será como era para mim, um período de conversas com Mefisto. Porém eu, não estou ansiosa para descobrir como será minha recepção nos círculos.

Ficamos alguns instantes nessa posição, eu penso na morte de Hidekki, de Jekyll, nas traficadas que morreram com Babel. Todo esse caos se iniciou há pouco tempo aqui, o alívio da destruição de Dorian e Shiva não torna as coisas exatamente melhores. É como se fosse uma penumbra branca, que paira nos iludindo de um período de calmaria.

Essa quietude nunca dura para sempre, eu sei que não posso baixar a guarda, nunca mais baixarei a guarda completamente. Há poucas semanas atrás uma bomba nuclear explodiu, as pessoas falam cada vez mais de corrompidos, de um grupo de heróis. Um dos jornalistas me batizou de “demônio de New Orleans”, outros falam que a polícia deveria me impedir. É estranha essa sensação, de que algo está por vir, algo macabro que possa afetar a todos no mundo. Mas não quero pensar nisso, prefiro ficar aqui, na cama com meu querido, acariciando suas costas.

— O que foi? Não me diga que está sentindo falta de minhas cicatrizes? — fala ele quebrando o nosso silêncio.

— Sim. Vou te deixar por causa disso. — falo ironicamente, ele ri.

Se vira para mim e me beija, o som do meu telefone toca de forma estridente. Eu me desato de seus braços devagar para levantar. Ele se ajeita na cama puxando um cigarro do maço na mesa lateral. Desligo o som antes de atender o número privado.

— Alô.

— Lucy? — fala a voz do outro lado da linha.

— Eu mesma. Quem fala?

— É Moira.

Eu visto meu hobby de seda branca e caminho pelo corredor.

— Onde você está? Eu não a encontrei nas catacumbas.

— Eu já tinha saído daquele antro de podridão. Devo sair logo daqui, mas antes queria falar com você.

— Se você precisar de alguma ajuda, eu poss...

— Eu não quero a sua ajuda. — fala ela, mudando completamente seu tom de voz. — Você me falou que eu não precisava obedecer a ninguém. E eu farei isso.

— Aconteceu alguma coisa que...

— Naquele dia, por que me atacou? — Ela fala em tom incisivo.

— Não fui eu, foi Shiva.

— Tudo bem, não faz muita diferença. Shiva me odiava, pois eu me parecia com você, Dorian queria que eu fosse como você. E de verdade, não acho que você também tenha ficado feliz ao me ver.

Manson se levanta atrás de mim, observa meu jeito receoso ao telefone.

— Não fiquei feliz, mas não por você existir. Fiquei horrorizada com o que Dorian fez a você, Moira. Por favor, me diga onde você está e podemos...

— Lucy. Nós sabemos que não era só isso. — Ela me interrompe com certa malícia na entonação. — Você viu o que eu posso ser, eu não sou fraca como você, eu aprendo muito mais, cada vez mais. Sou muito melhor do que você.

— Eu não me importo com isso, Moira. Não é uma competição, espero que você seja feliz.

Ela ri do outro lado da linha, posso ouvir um grito masculino e um som metálico de batida.

— Você não entendeu. Eu sou melhor, sou aprimorada, não é justo que você fique com o dinheiro, o poder. Não é algo pessoal, é uma questão de justiça, o que é certo. Os mais fortes sobrevivem.

— Isso é uma ameaça? — Assim que falo, Manson se aproxima e toca em meu ombro. Eu deito o celular colocando no viva voz.

— Não, Lucy. Só seria uma ameaça se você tivesse alguma chance de vitória. Isso é um aviso. Você pode não ter quisto um reino, mas esse lugar — tiros e gritos são ouvidos do outro lado da linha, ela parece não se abalar e continua — precisa de um comando. Não um reino de vampiros, mas um reino dos que são realmente fortes. Corrompidos, amaldiçoados, somente aqueles que podem moldar esse monte de lixo asqueroso que chamam de humanidade.

— Moira, isso que está dizendo é uma abominação.

— Lucy, estou apenas te explicando porque deve se entregar sem lutar. Eu achei que você merecia ser avisada inicialmente, em consideração ao cérebro que você me deu.

— Eu pude notar que sua fala está muito diferente, antes ela era um pouco travada... mecânica. — Fico tentando entender no que Moira se tornara.

— Sim, eu aprimorei todos meus softwares, cada vez que me conecto, aprendo mais e mais. Você sabe muito da humanidade, viveu a história e conhece várias versões e pontos de vista. Eu, me atualizo a cada instante, eu sei onde você mora, sei dos cigarros, vinhos e queijos que comprou essa tarde usando seu cartão de crédito. Sei de atentados terroristas que estão sendo elaborados nesse instante, de vídeos pornográficos sendo enviados para a casa presidencial da Suécia. Aprimorar a minha mente foi só o primeiro passo, meu corpo agora precisa ficar melhor para a guerra que está por vir.

— Guerra?

— Sim, há várias guerras por vir, Lucy. Está mais próximo do que imagina.

Uma pausa entre nós, ouço o som de uma serra elétrica no metal do outro lado da linha, novamente o som é de tiros, posso identificar alguém dizer “mãos ao alto!”. Mas ela permanece calma do outro lado.

— Se importa de eu te perguntar uma coisa, Moira?

— Diga.

— Quando quis escolher seu nome, por quê Moira?

Ela para por dois segundos antes de responder, é quase como se sorrisse para mim.

— Moiras são deusas primordiais, elas determinavam o destino tecendo o passado, o presente e o futuro na Roda da Fortuna.

— Eu sei disso. Conheço a mitologia. Quando você escolheu, achei que você queria tecer o seu próprio destino, por isso da escolha. Estou errada?

— Não. Mas agora, quero tecer o futuro. Boa noite, Lucy.

Ela desliga do outro lado. Eu olho para o rosto de Manson, suas sobrancelhas arqueadas me indicam sua preocupação, ele me abraça naquele nosso silêncio que nos diz tanto. “Sim, eu estarei com você, vou te ajudar no que for preciso”.

Do outro lado da linha, os olhos de Moira param de brilhar, seu dedo desconecta da plataforma de comunicação e na tela o comando de autodestruição está acionado. Os números diminuem devagar enquanto ela desconecta um cabo de outra mão, na tela brilha a informação de “download concluído”. Ela pega um carrinho e começa a empurrá-lo com grandes quantidades de titânio e partes de uma impressora 3D.

Começa a sair do local, corpos dos cientistas e seguranças estão espalhados por todo o grande saguão. O Centro de Pesquisa Ames (ARC) NASA fica na Califórnia, ela está conectada, não apenas com a internet, mas com tudo que a cerca.

Para por um instante e olha para um segurança que tentara atirar nela, ele ainda está ao lado do braço decepado e da serra elétrica usada por Moira. Ela olha para ele profundamente em seus olhos, ele treme pausadamente e pálido, Seu corpo tem mais alguns espasmos antes de morrer, ela assiste e nada sente, fica pensando por que ela deveria sentir pesar pela morte de alguém tão primitivo e fraco. “Deve ser realmente um defeito de Lucy”, pensa ela, ainda bem que sou mais aprimorada. Mas não quer dizer que eles não sejam úteis, serão excelentes mão de obra para sua morada.

Então ela se vira novamente e continua empurrando o seu carrinho, deixa para trás as linhas de sangue feitas pelas rodinhas do acessório e as pegadas vermelhas no chão branco. Em sua mente, ela pensa em Sócrates, em como ele não se via restrito a apenas uma cidade, em como ele não era compreendido pelos tolos que o cercavam. Ela não é mais as sombras da caverna, não é mais moldada por ninguém. Agora, ela transformará a caverna, a fogueira, os prisioneiros, e fará sua morada, nem que para isso tenha que matar cada ser fraco que se colocar em seu caminho.

 

 

“Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo. ”  - Sócrates.

 

 



Notas finais do capítulo

As citações do filósofo são sempre os questionamentos de uma personagem, neste caso, não é a Lucy, mas sim Moira.

Lucy, Mefisto e Manson irão voltar em Frente Unida Extraordinária.

Este livro faz parte do WSU, para maiores detalhes do universo compartilhado de escritores entrar na página do facebook.com/wsuniverse



Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2)" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.