Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 12
Capítulo 11 — Babel, a construção da Torre




 

 

 

 

“Aquilo que não puderes controlar, não ordenes”. – Sócrates.

 

 

 

New Orleans, aeroporto

 

Fico no ponto de encontro, Manson virá me buscar, estou cansada e pensativa. Atear fogo e explodir o que restara do Castelo de Bran foi a melhor coisa que fiz por anos. Aquele lugar leva as pessoas à loucura, já foi cenário de muitas guerras, traições e massacres. Ninguém mais será rei de nada, não existe coroa, muito menos um reino. Os vampiros fugiram, sorte a deles. Eu sei que provavelmente alguns tentarão restabelecer algum tipo de tola hierarquia. Mas quando o fizerem, eu irei caçá-los se necessário. Basta de malditos nesse mundo, eles são os últimos que deveriam ter algum poder.

O calor do sol agride meus olhos, mas ainda me agrada, é melhor do que o frio do coração de Dorian, Drácula e Shiva. Eu lamento pela morte de Jekyll, ele fora a maior vítima disso tudo, talvez, maior que eu mesma. Afinal, ambos fomos manipulados, tivemos famílias destruídas, mas com ele, foi muito cruel.

Acho que Dorian conseguiu ser mais macabro do que Drácula. É claro, ele teve mais tempo também. Mas não devo me esquecer do que posso me tornar, a sede é algo a ser controlada ainda, e agora, é uma retomada. Um novo momento de desintoxicação.

Após uma bela pira funerária, levei as cinzas de Jekyll para seu resto de humanidade, o robô de seu filho, Thomas. É claro que ele não entendeu exatamente do que se tratava. Ele não é como Moira, não possui um cérebro, é apenas um computador com braços. Mas isso pouco importa, após comprar a casa, a loja e o robô Thomas, o local será tombado como museu. Ele merece ter a sua memória viva, o seu legado. Eu trouxe comigo os frascos que sobraram, não que eu tenha alguma ideia ainda do que fazer com eles.

Fico pensando no que aconteceu com Moira, quando desci nas catacumbas para fazer o enterro dela, não a encontrei. Segui seus rastros de líquido branco até a saída, acredito que tenha fugido pela cozinha. Pensei em segui-la, mas depois percebi que é provável que queria sair de todo esse caos. Dorian parecia ter muita certeza de que ela tinha sobrevivido, e agora, não faço ideia de onde ela esteja. Ela é minha mente, minhas memórias, mas ao mesmo tempo é uma versão distorcida de mim. Suas lembranças foram modificadas, seu entendimento do mundo é algo completamente imprevisível.

Carrego a Sedenta na mala, consegui passar pela alfândega por ser um “artefato de antiguidade”. É claro que alguns dólares no bolso de pessoas certas também ajudaram. Acho que Manson é como um cachorro correndo atrás de um carro em alta velocidade. Ele luta contra a corrupção, contra bandidos e insanos, mas está completamente rodeado deles. O que ele fará quando finalmente alcançar o carro? Talvez ele veja como uma obra acabada, ou até como uma vida sem sentido. Eu quero que ele alcance o carro, farei o que puder para isso, nem que eu tenha que matar o motorista para ele.

Manson chega, finalmente, o sol já quase me bronzeara. Ele estaciona o seu calhambeque, sai, dá a volta em seu sujo paletó marrom, com um rasgo no bolso esquerdo, é o mesmo de quando tentou me prender.

— O que aconteceu? — pergunto, observando o seu rosto com pontos novos na testa, um leve inchaço no rosto e profundas olheiras.

Ele não responde, apenas me abraça e me beija. Mais quente do que deveria ser em público, eu adoro o seu cheiro, o seu suor. As pessoas olham ao redor, eu não me importo, não mais.

— Estou com saudades. — falo, ainda abraçada.

— Eu também. Conseguiu resolver...

— Finalmente acabou. Shiva inclusive.

— Nossa, o velhinho deve estar aliviado. — fala ele, levantando as sobrancelhas.

— Sim, estava.

— O que foi?

— Vamos, eu te conto no caminho. Está tudo bem aqui? Estou estranhando ter tantos policiais no aeroporto.

— Ah! Sim... aconteceram algumas coisas. Também tenho que te deixar à par de tudo.

No caminho para casa, Manson me contou de tudo o que ocorrera, do ataque no metrô, da explosão na casa da estudante. Eu, contara do inferno que encontrei no Castelo de Bran, é claro que não detalhei o cenário macabro. Manson ficou um tanto aliviado com o final de Dorian e emocionado com a morte de Jekyll, acho que por essa, nem ele esperava.

— Eu lamento pelo seu amigo. Me desculpe se eu fui... inconveniente. Acho que tive uma ideia errada dele.

— Tudo bem, Manson. Você não é obrigado a gostar de todos que me rodeiam.

— A propósito, estou preocupado com o Hidekki. — fala ele acendendo um cigarro, pende a mão esquerda do lado de fora do carro, solta a fumaça pela janela.

— Não consigo acreditar que ele tenha machucado Demócrito. — falo balançando a cabeça em desilusão, me viro para Manson novamente.

— Ou foi ele, ou o hotel para animais. — Manson é categórico.

— Eu sempre deixo lá, não podem ser eles.

— Quando o busquei, Demócrito estava no colo da atendente. Ele mostrou os dentes para Hidekki. Fora que você viu que o garoto mudou.

— Sim, eu sei, mas ele...

— Ele passou dias com Clinton, sabe-se lá o que aconteceu, o que viu...

— Sim. — Faço uma longa pausa, pensativa. — Tem razão, eu vou falar com ele.

Volto a olhar o rosto cansado de Manson, o sol ilumina parcialmente sua face e uma gota de suor escorre próximo a orelha, perto de sua cicatriz. Sua mão desliza para a minha coxa, apertando um pouco, tateando de forma sensual, ele sorri, ainda que olhando para o trânsito. Seu celular toca, parece que seu aparelho tem o dom de interromper momentos íntimos, é o toque de Diego. Pego para ele no seu apertado bolso da calça, ele sorri com o toque, e rapidamente coloco o aparelho no viva voz.

— Fala, Diego.

— Babel está no zoológico!

Manson olha para mim, eu rapidamente pego minha bolsa e mostro minha máscara, pronta para uso.

— Eu estou indo! — Manson responde virando o carro rapidamente que grita derrapando na curva.

— Diego, você tem notícias do hospital? Falaram dos feridos?

— O com traumatismo craniano morreu, o que tinha perfurado os pulmões com as costelas está fora de perigo já. Foi é muita sorte da explosão da casa não ter afetado mais gente. — Diego fala ofegante, parece estar correndo em algum ambiente fechado. — Estou saindo do necrotério, a garota que estava morta no armário não era a estudante Daniele. Parece que era uma amiga, elas dividiam a casa.

— Algum sinal de Daniele? Ela está com Babel no Zoo?

— Se está, não temos notícias. Só sabemos, pois, um balconista o reconheceu da televisão quando ele começou a fazer bagunça por lá, mas parece que ele está cercado pelas pessoas locais.

— Onde você está? — Manson questiona enquanto corre com o carro, eu troco os sapatos da forma que posso no banco do passageiro.

— A vinte minutos do Zoo. Conseguem chegar lá antes?

— Em mais dois minutos, onde exatamente no zoológico?

 

 

 

Audubon Zoo, New Orleans

— Cerca de vinte minutos antes -

 

Pessoas andam de um lado a outro tentando observar os animais, no Cypress Knee Café há diversos jovens, mulheres, homens e crianças que comem seus gordurosos lanches nas mesas a céu aberto. No parapeito de madeira, uma adolescente se equilibra sentada enquanto as amigas tiram fotos. Outros se debruçam para observar ao longe o lago artificial, um deles bebe o refrigerante pelo canudo enquanto repara na garota que se balança na madeira. Babel está de óculos escuros, uma camisa polo branca e calças jeans e, como sempre, com sua bolsa carteira de couro castanho claro.

A adolescente é retirada por um segurança, avisando que não deve subir no corrimão de madeira. Babel assiste à cena, termina o seu refrigerante e o joga na lixeira de resíduos recicláveis. Se vira e caminha assobiando Hey Jude, a passos vagarosos enquanto o vento balança seus lisos cabelos louros. As pessoas passam, ninguém nota um rapaz magro e feliz que caminha ao sol, ninguém liga para aquele que cantarola com mãos nos bolsos.

Então ele para e olha de lado para a área pantanosa, dois jacarés estão parados na terra, tomam sol, um deles com sua boca aberta e pássaros fazem a limpeza dos dentes. Eles estão de olhos fechados, confortáveis com as tartarugas que andam ao redor e se aquecem também no brilho da estrela. Babel abaixa os óculos e observa o verde ao longo do dorso do animal, são duas pequenas bestas que assustam apesar do pequeno tamanho.

— São filhotes. — fala um garoto com óculos de aros plásticos. O menino carrega um caderno pequeno na mão e panfletos do Zoológico.

— É mesmo? — responde Babel, interessado.

— Jacarés americanos, chegam até a três metros e podem pesar até 230 quilos. — fala o garoto em tom decorado. — Eles comem crustáceos, animais mortos e os adultos podem pegar até veados que estão perto da água.

— Nossa, que legal. — Babel sorri para o menino com interesses nos animais, se abaixa apoiando a mão na coxa. — Sabe tudo isso lendo nos panfletos?

O garoto se vira, com o indicador empurra os pesados óculos para cima no nariz antes de responder.

— Eu aprendi, tenho cinco livros que ganhei da minha mãe. — O menino olha ao longe, Babel segue o olhar do garoto até ver a mãe conversando com um rapaz forte.

A mulher enrola os cabelos nas mãos se insinuando para o rapaz, ela está distraída e não parece ser o tipo de mãe cuidadosa com o menino inteligente. Babel volta o rosto para o garoto de cabelos tigelinha.

— Ela gosta de animais?

— Não, ela traz esses livros para eu ler enquanto ela trabalha. Tá sempre trabalhando no telefone.

Babel fica pensativo com o garoto que só indica o péssimo zelo familiar, talvez a mãe tenha tido o garoto muito jovem. A falta de estrutura é evidente por ela sequer estar olhando onde ele está, com quem e como.

— Os jacarés não comem gente, não é? — fala Babel, para o menino.

— Só se eles estiverem com muita fome, se for alguém ferido. Acho que não pegam um adulto.

— Entendi. — Babel se curva e olha os animais no fosso. — Eles me parecem bem alimentados.

O garoto se vira para a cerca, Babel rapidamente o carrega e joga o menino por cima da cerca. Ele cai e rola na terra até o fundo do fosso de animais, para de girar com as mãos no chão, levanta seus olhos assustados olhando diretamente os grandes répteis. Uma mulher grita, outros adolescentes apontam para o garoto dentro do recinto de animais aos berros. Vários saem correndo e a distraída mãe finalmente se aproxima da cerca de madeira, gritando, ela dá tapas no rosto e peito de Babel que a olha com tranquilidade.

Um segurança chama pelo rádio por reforço, o homem grande que estava cortejando a mãe se aproxima de Babel. Tranquilo, ele pega de sua bolsa-carteiro uma pistola plástica e esguicha um líquido transparente no rosto do segurança e do homem que está muito próximo. Eles gritam, caem no chão com as mãos no rosto, os outros seguranças que chegam falam em seus rádios.

— É o terrorista que apareceu na televisão! É o homem que explodiu a casa! Chamem a polícia!

Eles acodem o colega ferido e o grande homem treme de costas, o ácido corroera completamente seu rosto, é possível ver parte de seu crânio e maxilar. Babel segura a mãe com o braço esquerdo e ameaça matá-la com a pistola vermelha em mãos.

 

 

 

Agora

 

Manson para o carro na entrada do zoológico, assim que saio me embrenho na mata para entrar lateralmente no local. Coloco a máscara e ligo o comunicador para ficar em contato direto ao celular de Manson.

— Está me ouvindo bem?

— Sim, ele está em frente à área das raposas, mas tem um garoto que foi jogado no fosso de jacarés! — Manson fala enquanto mostra o seu distintivo e entra no Zoo, muitas pessoas correm para fora, algumas nem sabem do que estão fugindo.

— Eu vou para lá primeiro.

Corro por entre as árvores que rodeiam o Zoo, vou buscando com meu olfato o cheiro de jacarés. Não foi muito divertido quando conheci um de perto, nunca esqueci do cheiro. Rapidamente encontro o fosso e vejo que há dois tratadores tentando entrar. Eles estão do outro lado do portão com grades, há jacarés logo à frente da porta como que vigiando que eles não tirem a caça que está sendo rodeada. Vejo que outros animais mergulham na água para buscar a presa fácil do outro lado do lago artificial.

Um dos tratadores está com uma pistola tranquilizadora, o problema é que essas drogas demoram a fazer efeito. Pessoas estão na beirada da jaula, algumas jogam pedras nos animais tentando afastá-los do garoto. Outro se debruça na cerca e estende uma mochila para que o garoto alcance a alça e possa ser levantado.

A mochila é curta, mesmo que o garoto conseguisse se segurar, provavelmente ela rasgaria. Ele pula duas vezes tentando alcançar a salvação mas cai e fica paralisado com a aproximação dos animais. Eu corro dando a volta, os animais, estressados estão confusos e alguns dispersam quando jogo uma grande pedra na água.

Vou o mais rápido que posso até o menino e o agarro puxando a mim, no exato momento que um tentara morder sua perna. Eu respondo com um chute em seu focinho.

— Se segura! — aviso ao menino.

Ele agarra o meu dorso de frente, seus braços e pernas se cruzam em minhas costas quando sinto ouro animal se aproximar. O seguro pela garganta, o corto com as garras e o jogo na água com seus colegas, espero que eles não estejam em extinção. Vejo que um dos tratadores atirou um tranquilizante em um perto de mim, o animal não parou, mas correu em outra direção. É tempo suficiente para que eu possa escalar o fosso de pedras até o alto.

Seguranças do parque se aproximam e me ajudam a desatar os braços do garoto, ouço um deles gritar no rádio que conseguimos resgatá-lo e chama por enfermeiros. Eu fico olhando o menino e vejo que ele mal teve um arranhão, mas seu rosto é de terror e choro antes de se aninhar nos braços do grande homem de uniforme.

Ouço cochichos falando de mim, “é a mulher da televisão”, “é demônio, pois anda nas paredes”, “falam que é vampira”. Me levanto e não respondo as perguntas que fazem, na verdade eu sequer prestei atenção, reparo em outras pessoas fugindo de outra área. Eu vou na direção do tumulto, provavelmente Manson já está lá.

São apenas dois corredores até ver policiais acuando o assassino com a refém, ele caminha de costas puxando a jovem mulher presa e ameaçada pela pistola plástica. Diego e outro policial tentam chegar mais perto, pelas laterais. Babel se esquiva diversas vezes atrás do rosto dela, impedindo que os policiais tenham uma boa chance de tiro. Manson toma a frente, grita avisando para se entregar, mas Babel responde.

— Não! Eu ainda não terminei!

Um policial corre para desarmá-lo, mas seu rosto é atingido em cheio pelo jato de ácido, Babel solta a mulher e a empurra esguichando ácido em suas costas. Ela grita ao chão enquanto Babel pega a arma do policial e entra no recinto de répteis. Vejo que Manson e Diego foram atrás de Babel, eu entro pelo lado oposto.

O corredor tem vidros em ambos os lados, aranhas, serpentes e outros animais peçonhentos estão em seus respectivos viveiros. Manson entrou com Diego e eles tentam rastrear e cercar Babel, que se espreita com uma pistola roubada. Ele comete o maior erro que poderia, atira no disjuntor, acredita que se dará bem no breu, mas andar pelas sombras é a minha especialidade.

Na verdade, agora que me alimentei recentemente posso ver ainda melhor. Um corredor divide o caminho, cada policial para um lado, eu observo tudo de cima, engatinhando pelo teto e vejo que Babel se prepara para atirar nas costas de Diego. Eu salto no corredor lateral puxando o policial a tempo.

— Mas que diabos é isso? — resmunga Babel.

— Exatamente. — respondo, enquanto escapo pelas paredes.

Ele atira tentando me acertar, mas consegue denunciar a sua posição para Manson. Porém, quando ele chega, Babel já aponta a sua arma novamente para Diego, que mal se levantara.

— Solte a arma! — grita Manson para o maníaco, mas ele parece não se importar com isso, aponta a arma diretamente para o rosto do policial novato.

— Vão ter que escolher. Quem vai atirar primeiro? As câmeras desse local só vão mostrar o quanto a polícia é bruta, que não sabe como agir no caso de reféns.

— Ninguém vai atirar, filho. Hoje você vai dormir na prisão e, dessa vez, não vai sair. — fala Manson com certa tranquilidade, ele já notou onde estou.

Babel para sem entender, ele está quase encostado na vitrine do aquário de serpentes. Eu salto quebrando o vidro e o agarrando por trás, seguro a sua mão para baixo que atira no chão. Eu o arrasto para o viveiro com um pequeno lago e pedras, ele atira no meu baixo ventre, mas quebro o seu braço o desarmando. Ele berra com os olhos estatelados, não acho que ele já tenha apanhado alguma vez na vida antes.

— Isso não... não é justo, você não é uma policial!

— É mesmo?! Dá pra notar? — falo através da máscara.

Chuto o seu rosto uma vez para que fique desacordado. Isso é o suficiente, me viro e vejo que Diego está parado com sua arma voltada para mim.

— Você é a vampira? A do cais, que pegou os homens de Nikolai?

Eu confirmo com a cabeça devagar, em silêncio. Manson está apreensivo e nada fala.

— Sargento, tem alguma... — fala Diego para Manson.

— Oficialmente, não emitiram nada contra a vigilante. — esclarece Manson, de forma calma e já com a arma guardada.

Diego volta olhar para mim, ele abaixa a arma e a coloca travada novamente no coldre.

— Eu achava que você só trabalhava de noite. — fala ainda um pouco nervoso, já pegando as algemas para Babel.

— Está escuro aqui. — falo com a voz distorcida enquanto saio do nicho de vidro, vou embora o mais rápido possível.

Diego me observa enquanto se abaixa para algemar Babel, acho que ele fica em dúvida de quem ele deve manter os olhos atentos. Horas depois, Manson finalmente me liga no celular, me pergunta onde pode me buscar e aviso que estou no café, em frente a saída do Zoológico. Ele novamente me busca, e dessa vez, acho que vamos para casa.

— Obrigado. — fala ele enquanto entro no carro.

— Por nada. — Já me sento, coloco devagar o cinto de segurança. — Seus colegas não mataram ele a caminho da delegacia?

— Ainda não, mas tenho certeza que isso passa pela cabeça de muitos. Afinal, ele não é mais apenas um assassino, já é considerado um terrorista.

— É por isso que haviam tantos policiais no aeroporto?

— De certa forma. São 25 pessoas mortas no total, fora aqueles com danos permanentes, para sempre em estado vegetativo ou respirando com aparelhos.

— Sarin, Nitro, ácido do que quer que seja que ele usou hoje... tudo isso dá pra fazer com um bom conhecimento químico e muito fertilizante. É só questão de ter tempo suficiente e empenho em matar pessoas.

— Sim. Ele é “talentoso” nisso. — fala ele com uma ponta de raiva enquanto me aninho na poltrona, quase dormindo. — Está cansada?

— Exausta, talvez seja pela viajem de avião, o fuso horário, pela correria, ou por estar sem dormir há quase 40 horas.

— Huuu! — responde ele imitando o som de alguma assombração genérica. — Pensei que você era as trevas! Você não disse que agora estou dirigindo do lado da mulher mais perigosa entre os vampiros. — fala ele, irônico enquanto faz a curva com o carro.

— Sim. Sinta o perigo. — digo fazendo uma voz mais grave, rimos.

— Sabe, no começo eu senti medo. Mas agora, é até como se eu tivesse uma segurança particular.

— Eu sei. Se tivesse medo de mim, não me beijaria. Ou... dormiria ao meu lado.

— E quem disse que eu durmo? Fico a noite toda acordada com uma Bíblia na mão.

Rimos, ficamos em silêncio antes dele voltar a falar.

— Eu preciso te contar uma coisa. — fala ele ressabiado, como se estivesse apreensivo com minha reação. — Eu tenho feito um tratament...

— Eu sei.

— Sabe? — fala ele virando rapidamente de lado.

— Você está com câncer. E tem pouco tempo.

Ele olha repedidas vezes, fica confuso tentando entender como eu saberia.

— Você me farejou, ou algo do tipo?

— Não. Mas sei ler os prontuários médicos que você deixou largado em casa.

Ele fecha os olhos, talvez lembrando de como deixa as coisas largadas em casa, ele não conseguiria esconder nada de mim, nem se tentasse.

— Também preciso te contar uma coisa.

— O que foi? — questiona ele, ressabiado.

— Eu te amo, Manson.

Ele olha de lado para mim e sorri, percebi que ele ia falar alguma coisa, mas logo em seguida seu rosto fica pálido. Ele pôde ver o caminhão se aproximando em alta velocidade, bater na lateral, fazendo o nosso carro girar no ar. Eu corto meu cinto de segurança e agarro Manson, fico em volta de sua cabeça para que não se machuque. O carro capota duas vezes antes de parar no chão de ponta cabeça.

Pedaços do carro são visíveis ao longe, alguma coisa goteja do motor para o asfalto. Estou zonza e meus olhos tentam se manter abertos, eu vejo os sapatos de homens saindo do caminhão e de outro carro grande. Eles se colocam em volta de nós, logo posso ver Górki puxando Manson e eu para fora do carro.

 

 

 

*********

 

Minha cabeça está pendendo para frente, sinto um vento frio batendo na nuca, que finalmente me faz acordar. Três huskys siberianos latem constantemente, um é albino, o segundo com manchas cinzas e o terceiro de manchas negras. Um homem se aproxima dos adestrados animais, faz um gesto, diz “silêncio” em russo e os animais obedecem.

Levanto a cabeça e vejo Manson, amarrado em uma cadeira de madeira, seu rosto está inchado. Um homem soca seu queixo fazendo o policial salivar vermelho, escorrendo em sua camisa cinza clara. Outro se aproxima com um teaser encostando o aparelho em sua jugular. Ele treme o corpo todo ao som do zumbido, grita após o choque.

— Filhos da puta. Me soltem e lutem como homens. Covardes canalhas!

O galpão é bem iluminado, muitas caixas de madeira estão a nossa volta, é semelhante a um dos depósitos que ataquei os homens de Nikolai. Olho em volta e vejo que há muitos homens armados, fuzis, metralhadoras, facas, pistolas. Górki está lá, alguns homens mexem em minhas malas, jogando as coisas no chão e se chafurdando em objetos pessoais como porcos que são.

Encontram minha máscara e entregam nas mãos de Nikolai, que pega e olha para mim. Meus braços para trás estão me segurando pela viga, no chão de cimento minhas pernas estão amarradas com cordas.

— Agora que ambos acordaram, podemos conversar! — fala Nikolai, em tom de grandeza.

Olho para cima e vejo as correntes de carregamento penduradas e sinto as algemas de minhas mãos.

— Não vai escapar por cima dessa vez, essa viga não é solta. — fala Nikolai a mim, enquanto derruba minha máscara no chão, pisando e quebrando-a, ele se vira para Manson.

Ele anda com sua camisa entreaberta, exibe suas muitas tatuagens, olho atentamente para o russo que brinca na beira do precipício.

— Confesso que no começo eu não imaginava que uma vigilante estaria trabalhando junto de um policial. Fiquei surpreso, de verdade. — Ele fala segurando uma faca na mão direita, a leva ao peito e gesticula com a lâmina brilhante enquanto anda.

— É mesmo? Eu fiquei é surpreso com as mãos macias de seus homens. Não conseguiriam lutar comigo se eu não estivesse preso. — Manson fala com seus dentes vermelhos de sangue, ri provocativo.

— Olha, nigga, você tem o meu respeito. — Nikolai se aproxima. — É sério, você tem bolas. Mais do que muitos dos que estão a nossa volta, sabe?

Manson cospe um pouco de sangue no chão. Uma garota ruiva de no máximo catorze anos se aproxima e traz uma bandeja, serve o Blood Mary para Nikolai, que a olha com malícia. Manson apenas segue com o olhar a menina de roupas curtas, franze um pouco a testa.

— Não posso dizer o mesmo Nikolai. Não poderia apenas vender drogas e armas como um bandido qualquer?

Nikolai ri alto, toma o drink antes de se virar para mim.

— É, temos ótimo gosto, Senhor policial — fala enquanto bate continência com a faca na mão. —, eu não gosto de coisas comuns. Apesar que eu nunca provei uma corrompida.

— Não sou uma corrompida.

— Não? Vai me dizer que é mesmo um demônio? Uma vampira como falaram na televisão? Devo usar uma estaca então?

— Por que você não tenta? — Me levanto e me coloco a frente. Ele para desconfiado, olha em volta e se aproxima. Me observa de baixo a cima bebendo o líquido róseo no copo longo.

— Na verdade isso não me importa. Mas se aceitar trabalhar pra mim, isso seria realmente interessante. Eu posso lhe pagar bem.

— Ou o que? Vai me matar? Já tentou isso, lembra? — respondo em russo.

— Parece que temos muito em comum. — Ele inclina o rosto com surpresa.

— Obviamente, mas eu não desonrei a junta militar, nem matei pessoas na cadeia.

Ele se aproxima desconfiado, seus olhos semicerrados exibem a raiva do que eu possa saber.

— Mas como você...

— Suas tatuagens denunciam, cada gota pingando da adaga no pescoço é uma morte, as estrelas nos ombros são sua origem militar. As rosas...

— Fala como se tivesse conhecimento de causa. Fomos vizinhos, por acaso? — fala ele, interessado.

— Possivelmente.

Ele se aproxima, olha o meu rosto profundamente e, de repente, suas sobrancelhas levantam.

— Vanessa?

Eu respondo com um sorriso discreto.

— Boa memória, você era só um garotinho.

Ele se vira confuso. Volta a olhar e começa a rir alto.

— Agora muita coisa faz sentido! Ah! Não quero te matar agora, pensando bem, quero chamar alguns velhos conhecidos. Tenho certeza que meu tio Yuri iria adorar te reencontrar, doces lembranças.

— Chame, assim eu termino o que comecei.

Ele ri nervoso.

— Bom, tenho que matar o machão lá trás. Nada pessoal, questão de negócios. Não posso deixar nada inacabado.

— Eu entendo você tentar.

Ele , o drink até o final, sorri com o canudo preso entre os dentes.

— A propósito. Tive que dar um jeito no seu traíra japa. — Ele se vira voltando a falar em inglês.

— Quem?

— Como acha que eu cheguei até vocês? É uma pena que ele tenha ficado no meu caminho, detesto mudanças de planos. Ele não queria que eu matasse vocês, era pra ser apenas uma vingança adolescente.

Um homem coloca em cima de uma mesa um imenso jarro de Blood Mary, a vodka com suco de tomate temperado preenche todo o vidro arredondado e possui uma grande abertura em cima. O homem abre o vidro, mergulha uma concha e serve outro copo da bebida, olha para mim antes de virar o jarro. Dentro, a cabeça de Hidekki está mergulhada no vidro, sua boca entreaberta forma uma imagem horripilante.

Paralisada, eu sinto o cheiro de Hidekki, não vindo do jarro, mas do hálito dos cachorros, eles lambem os beiços com a corne moída em seus potes do chão.

— Não se preocupe. Ele não sofreu. — fala Nikolai.

Eu me debato tentando quebrar as algemas, mas noto que são grossas demais. Então começo a puxar com muita força o meu braço, Nikolai percebe o que estou fazendo. Ele esmurra o meu rosto e me esfaqueia o peito, Manson urra de ódio. Se levanta na cadeira e corre atropelando Nikolai de costas. Ainda preso à cadeira ele salta de costas sobre o bandido, quebrando a madeira com seu próprio peso.

Os homens começam a correr e pegar suas armas, eu corto as cordas de minhas pernas com as garras e quebro meu pulso esquerdo para passar a mão pela algema. Liberta, agarro um dos bandidos que já estava com a pistola em mãos, apontando para Manson. O lanço para o outro lado do morro de caixas de madeira.

— Manson! Sai daqui, agora!

Grito abaixando ele em meus braços, me viro tornado-me um escudo para ele. O empurro para uma parte de caixas e posso finalmente me preparar a atacar os outros. Corro e salto cortando a garganta de um com minhas garras, o outro me fuzila pelas costas, mas quando lanço o seu colega ambos caem no chão. Dou uma rasteira em um próximo a mim, tomo a sua pistola dando um tiro em sua cabeça e depois começo a acertar os outros mais próximos.

O adestrador corre para os animais latindo em fúria, ele solta os cães que correm rosnando para mim. Eles me mordem e tenho que lançá-los contra os bandidos.

Dou golpes de cotovelo na garganta de um e salto me apoiando na caixa para chutar o rosto de outro. Quando solto a arma de mais um escuto os pesados passos de Górki para mim, novamente com seu taco de baseball. Eu corro a ele e deslizo no chão desviando de seu lento golpe, atiro nas costas dele repetidamente. Ele cai por um instante, atordoado apenas, o corrompido é resistente às balas, da outra vez tive que estrangulá-lo.

Agora, salto me pendurando nas correntes da transportadora, mas não consigo soltá-las. Ele me segura pelo pé e me arremessa no chão, salta em cima de minhas costas esmagando meus ossos. Quando se levanta e me chuta o abdômen eu gemo e vejo Manson correndo em direção a empilhadeira. Seguro o pé do gigante e tento chutar suas partes baixas, ele segura o meu pé, torcendo-o, que emite um som de palitos quebrando. Eu berro com a dor e ouço o motor da empilhadeira, correndo e atropelando o gigante até a parede. Manson deixa-o preso nas vigas, Górki finalmente cai desmaiado.

Nikolai se levanta, ele tenta escapar, mas eu corro esmagando o que sobrara de meu pé para saltar sobre ele. O soco ainda no chão e o russo me acerta com uma barra de metal. Quando vai me acertar na segunda vez Manson segura a barra a tomando de suas mãos. Eles se socam e o russo crava uma pequena faca no joelho do policial. Manson cabeceia forte o russo, dá dois grandes ganchos em seu rosto, segura pelos louros cabelos e bate a cabeça de Nikolai na parede. Duas vezes antes de soltá-lo, apagado no chão.

Olho para a garota encolhida no canto, vejo suas mãos de unhas vermelhas descascadas, ela tampa os ouvidos. Sua roupa muito curta, meia-calça com desfiado deixa a mostra que provavelmente Nikolai se servia de seu corpo. Eu me aproximo com minhas garras prontas para matar esse animal quando Manson estende a mão a mim.

— Chega. Ele já caiu.

— Você já me impediu uma vez, não é assim que as coisas funcionam!

— Ele vai ser preso. Acha que pedófilos duram muito na cadeia?

Eu paro, mas empurro Manson logo em seguida, quando Nikolai levanta a mão e aperta o gatilho três vezes. Duas balas atravessam o peito de Manson que cai no chão.

 

 

 





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2)" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.