Juízo final (WSU: Lucy, Livro 2) escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 10
Capítulo 9 – Todas as versões de Lucy




 

 

 

 

“Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente.” – Sócrates.

 

 

 

Castelo de Bran, Transilvânia

 

Eu olho fixamente para a mulher a minha frente, ela não se move, a não ser por seus lábios tentando me chamar. Seu coração não bate, não é humana, apesar de seu rosto ser exatamente como o meu. Ela é um robô feito nos mínimos detalhes, que agora, deitada na cama e olhando de lado, me chama.

— Por favor, fale comigo.

— O que... o que você é? — falo tentando entender.

— Eu sou você. Quer dizer, sou uma parte sua.

Jekyll fica pasmo, ele olha para nós duas e leva as mãos no rosto, anda de um lado a outro murmurando:

— Não, isso não pode ser verdade...

— Pai, você sabe que é. Você quem me fez. — fala a robô.

— Não, eu pensava que era um sonho, que eu... eu não sabia que era real...

— O que você fez, Jekyll? — pergunto com ele paralisado, com as mãos no rosto. Vou até ele e seguro suas mãos. — O QUE VOCÊ FEZ?

Jekyll está de olhos estatelados, ele tenta se acalmar antes de falar.

— Ele me obrigou, Lucy. Quando eu voltei para Londres eu tinha uma obsessão em fazer um robô, eu não sabia a razão disso. Quando aconteceu aquilo com minha esposa, com meu filho... eu não hesitei. Mas o estranho é que enquanto eu fazia, sentia um dejá vu, como se já tivesse feito isso antes. Eu achava que era um sonho, algo inconsciente.

— Você já tinha feito ela antes. — completo.

— Por favor, fiquem mais perto para que eu possa olhar para vocês. Eu não posso sair daqui. — fala a robô.

— Era como se eu já soubesse cada procedimento, cada detalhe do que fazer, mas eu... — Jekyll fica tentando puxar cada detalhe em sua memória quando Shiva entra no quarto.

— Ele não pode lembrar de tudo. Dorian ordenou que ele esquecesse.

— Você estava lá? — Me viro para Shiva.

— É claro que estava. E eu não fiquei triste quando matamos a lince de Vlad. Muito menos quando ele mandou sua boneca aqui pra baixo, afinal, ela é a “sua cara”.

Shiva sorri e começa a explicar:

— Ele trouxe a sua cabeça quando nos encontramos em Roma, você deve se lembrar que eu te decapitei naquele dia. — Ela sorri sarcasticamente para mim. — Então a deixou congelada por anos, até que Jekyll viesse. Dorian impediu que o médico o matasse usando a lâmina de Longinos, aproveitou a visita e fez com que Jekyll fizesse a robô.

— Jekyll é médico, seu tônico tem justamente a função de força e regeneração. — falo pensativa.

— Exatamente. Com as suas habilidades de engenharia e medicina, era o profissional ideal. Depois mandou que o doutor esquecesse disso, plantou uma nova memória e uma ordem que só obedeceria quando visse a esposa ou você. Depois, o enviou de volta para casa.

Eu olho para a robô, ela move apenas os olhos tentando acompanhar tudo o que falamos. Me aproximo dela, tentando agora aceitar essa nova situação. Ela me olha com uma certa admiração, uma perturbadora e sinistra idolatria.

— Você é mesmo igual a mim... quer dizer, eu sou igual a você.

— Sim. Eu acho. — respondo olhando em volta, seu arrumado e quente quarto. — Você tem um quarto bonito, Dorian te tratava bem?

— Sim, ele me ama. Eu o amo também. — fala ela em um tom robótico. — Mas eu o deixei chateado, então ele mandou eu vir para meu quarto, me deitar e nunca mais sair.

— A quanto tempo está aqui?

— Trinta e dois dias, catorze horas, vinte e três minutos.

— Mas como se alimenta, se está aqui deitada.

— Ele não me disse que posso me alimentar.

— Seu cérebro, ele vai morrer se ficar assim.

— Eu vou morrer? — ela para, pensativa.

— Não sabe o que é o seu cérebro?

— É claro que sei, ele é seu, foi transplantado. Por isso, tenho suas memórias.

— Se tivesse minhas memórias, saberia que Dorian não te ama. Ele me usou, manipulou.

— Mas ele sempre foi bom comig...

— Não! Dorian é um crápula maldito!

Ela fica com os olhos chocados para mim, é assustador falar com um espelho tão quebrado. Retomo a calma para falar:

— Quanto de minhas memórias você tem?

— Acho que todas.

— Prove, me conte algo que somente eu saberia. — Ela brilha os olhos em uma luz branca e, instantaneamente, retoma.

— Quando estava prisioneira aqui, Vlad veio até você no calabouço algumas vezes. Na última vez foi no dia do casamento com Shiva, a pele dele exalava a pele dela, estava bêbado, ele reclamou da esposa e tentou deit...

— Está bem, chega. — Olho para o lado e vejo Shiva muito irritada com os braços cruzados. — Se lembra de tudo, então sabe que Dorian nunca me amou de verdade.

— Não, ele sempre me tratou bem. Ele me tratava bem quando eu ainda era você também.

— Ainda era eu? — fico confusa.

— Sim. — Ela responde com um sorriso mecânico.

Apesar de sua sinistra semelhança, sua mentalidade não parece inteira. Então decido saber o quanto ela entende a situação.

— Compare então, o amor de Dorian, com o amor de Perseu.

— Quem?

— Perseu, o agiota.

Ela olha para baixo, seus olhos brilham novamente e retoma para mim.

— Arquivo não encontrado. — fala em uma voz robótica. Eu me viro para Jekyll e aviso.

— Ele alterou as memórias dela, por isso não pode se lembrar de tudo.

— Lucy, eu sinto muito por isso. — lamenta ele.

— Tudo bem, Jekyll. Eu sei que você não pôde controlar.

Me viro para a robótica na cama e peço que ela se levante.

— Eu não posso.

— Você não precisa obedecê-lo.

— Não?

— Não. Você não tem que obedecer a ninguém. Você é livre, e virá comigo para fora desse castelo de horrores. Você não quer sair?

— Conhecer lá fora? Eu posso me conectar?

— O que... é claro que pode.

— Eu quero tanto aprender, quero saber tudo, quero comer de novo as coisas que você gosta. — fala ela em seus olhos vibrantes, quase em um êxtase bizarro.

— Você pode comer, mas não sentirá o gosto. — fala Jekyll para ela.

— Eu sei, mas posso me lembrar como eram. Você não me colocou sensores de paladar, tato... — Ela para pensativa. — Acho que é por isso que ele ficou bravo e me mandou deitar para sempre.

— Por quê?

— Estávamos fazendo amor, ele disse que eu não fazia do jeito certo.

Eu fico nauseada, ela não parece se abalar, acho que não entende a gravidade de suas palavras. Apesar da memória parcial, é como se ela não estivesse realmente consciente. Finalmente se move, se levanta da cama em seus limitados movimentos, fica de pé diante de mim em um estranho sorriso e estende a mão.

— Este é um celular? — diz ela apontando para o bolso de minha calça.

— Sim. O que você...

— Seu celular, eu posso me conectar?

— Conectar? — falo já pegando o celular no bolso da calça.

— Sim, com meu micro USB. — fala enquanto puxa um fio de trás da orelha.

Ela conecta ao aparelho e seus olhos voltam a brilhar, meu celular ilumina aparecendo todos os aplicativos na tela, eles se movimentam, páginas da internet se abrem e ficam pulando uma sobre as outras. Uma página de vídeos é aberta e passam imagens de mulheres caminhando na passarela, um gato e um lobo correndo em câmera lenta. Tudo é muito rápido até o aparelho desligar, está muito quente quando ela me devolve.

— Oh. Me desculpe, eu queimei o seu aparelho.

— Tudo bem, não tem problema.

— Eu sei. Você é rica.

— Como você sabe de mim?

— Eu pesquisei agora pouco, tenho que saber de minha matriz, não acha?

Então ela caminha de um lado a outro no quarto em movimentos suaves e sensuais.

— Eu atualizei minha caminhada, ficou mais sexy e natural, não é?

— Sim, ficou. — Pasma, eu concordo.

— Eu não posso me regenerar como você, Lucy. Aliás, é estranho eu me chamar Lucy também. Se importa se eu mudar de nome?

— Você é quem decide isso.

— Está bem, vou me chamar... — Ela se vira para a estante de livros olhando os títulos das laterais. — Moira.

— É um bonito nome. Agora venha, como não se regenera, é melhor que você saia daqui, pois haverá um conflito em breve.

— Por quê?

— Moira, entenda que não sabíamos que estava aqui. Nós viemos para destruir Dorian e a Ordem. — fala Jekyll, tentando ser o mais claro possível.

— Vão matá-los?

— Sim, é preciso.

— Não, eu não posso deixar que os machuquem, eles são minha família!

— Não, Moira. Eles só usaram você, você ainda não sabe direito, mas tudo isso só está te fazendo mal. Não temos tempo para ficar explicando, mas...

— NÃO! Eu não posso deixar que saiam e machuquem o meu Dorian! — fala ela se colocando a frente de nós, próximo à porta. — Eu tenho que proteg...

Antes que pudesse terminar a sua fala, a mão de Shiva penetra pelas costas de Moira, vejo as garras rasgarem seu abdômen deixando sair um líquido viscoso e branco. Ela puxa a mão de volta e Moira cai no chão, Shiva permanece de pé com uma bomba mecânica em sua mão. Ela larga o aparelho com emaranhado de fios, tubos e pistões no chão.

— Eu sempre odiei essa boneca.

— Não! Sua maldita... — falo dando um murro em seu rosto, ela cospe sangue no chão e completa.

— Qual é, Lucy. Isso era pervertido e asqueroso. Queria levar pra casa e colocar roupinhas? Temos coisas mais importantes a fazer.

Ela se vira saindo pelo quarto, Jekyll toca em meu ombro.

— Sinceramente, Lucy. Acho que foi melhor assim. O que teríamos feito?

— Se era uma mente, era viva, Jekyll.

— Viva sim, mas não quer dizer que fosse a sua melhor parte que estava lá. Afinal, suas memórias foram alteradas, lembra?

Eu concordo, ainda que triste em ver os seus olhos parados no chão, estranho ver a própria morte, como se visse o meu próprio cadáver.

 

 

 

New Orleans

 

Demócrito caminha pelo quarto bagunçado, pula em cima da cama e caminha sobre o dorso nu de Manson. Senta confortavelmente em seu peito, subindo e descendo com a respiração do policial. Ele levanta a pata de pelos negros, amarelos e brancos, lambe a ponta felpuda e bate na bochecha do dorminhoco. O homem negro permanece dormindo, roncando. O gato bate novamente, e depois no nariz mais forte. O homem finalmente acorda, abre apenas um olho espiando a gato que reclama sua falta de alimento.

— Tá. Tô indo, gato esfomeado.

O gato pula de seu peito quando Manson se movimenta, ele sai da cama e precisa se escorar na parede para andar até o banheiro. O gato mia ao seu pé enquanto Manson lava o rosto. Tosse um pouco e cospe na pia, o filete de sangue se vai junto da água pelo ralo.

— Já vai.

Ele está com muita dor de cabeça, bebeu muito na noite anterior. Quando sai do banheiro percebe que os lençóis estão manchados de cerveja.

— Merda.

Anda até a cozinha, pega uma lata de alimento para gatos, abre e joga no pote de meu filósofo.

— Sério mesmo que você quer isso? — fala depois de cheirar a pasta acinzentada. O gato responde com uma lambida nos lábios.

Ele finalmente se abaixa colocando o recipiente no chão. Assim que se levanta o som estridente da campainha toca. Vê no olho mágico e abre a porta rapidamente.

— Manson? — Hidekki fica surpreso com a presença dele em minha casa.

— Oi, garoto.

— Eu vi movimento na casa, achei que fosse a Lucy que tinha voltado.

— Ainda não. Ela disse que me ligaria quando fosse vir pra cá.

— Ah, sim. Ela ainda vai demorar pra voltar?

— Não faço ideia. Espero que não. Antes que eu comece a falar com o gato.

— O problema não é você falar com o gato, mas ele responder. — completa Hidekki dando uma tragada de cigarro.

Manson mostra em sua face que não gosta do que vê.

— Afinal, para onde ela foi?

— Foi ver uns parentes distantes. Acho que deve levar só mais alguns dias. Algum problema, Hidekki?

— Não, só queria falar com ela. — Ele fala enquanto coça a cicatriz do ombro com sua mão mecânica.

Manson olha para a prótese e percebe que não possui mais o revestimento que imita pele. Agora exibe seus componentes mecânicos de forma brilhante. Seu rosto não esconde sua surpresa e aversão.

— Por que tirou a “pele” de sua mão?

— A pele não era minha. — responde bruscamente, tragando mais uma vez.

Demócrito tenta escapar pela porta, Manson rapidamente o impede com a perna, Hidekki se curva e solta a fumaça no rosto do gato. O felino solta seu descontentamento com suas orelhas para trás, mostrando os dentes e um sonoro chiado. Arqueia as costas quando Hidekki aproxima sua mão, o gato escapa para dentro de casa com os pelos eriçados. Manson apenas observa a cena ainda parado na porta. Hidekki se levanta e finalmente se despede, vai embora quando o policial fecha a porta.

O asiático atravessa a rua, caminha por mais alguns metros e entra em um luxuoso carro. Um segurança está no banco e entrega um celular para o adolescente.

— Ela chegou? — fala Nikolai, com seu forte sotaque russo pelo telefone.

— Ainda não. Mas o negão tá morando na casa dela pelo jeito.

— É melhor esperar, quando ela voltar quero pegar os dois. Não quero que alguém escape. Me passe de volta para um dos meus.

Ele devolve o telefone, eles falam algo em russo e depois o imponente homem desliga. Abaixa-se e levanta o carpete do piso do carro, abre um compartimento. Tira um envelope amarelo, dentre vários envelopes coloridos e entrega para o garoto. Hidekki abre e vê inúmeras notas no gordo envelope de papel.

— Podem me dar uma carona pra faculdade?

Os homens acenam e dirigem o carro. Dentro de casa, Manson tenta se recuperar de sua ressaca abrindo uma lata de cerveja. Senta no sofá e Demócrito pula ao seu lado.

— Você tá se apegando, hein cara?

O felino deita de lado, exibindo a barriga, algo chama a atenção de Manson. Ele se curva e pega o animal com carinho, passa a mão em sua densa pelagem e vê várias marcas de queimaduras de cigarros na barriga do gato.

— Japa filho da puta!

O telefone toca, Manson pula do sofá ao perceber que é o toque de Diego. Corre até o quarto e pega o telefone.

— Oi, fala!

— Encontramos o Babel.

 

 

 

Castelo de Bran

 

— Estão todos alimentados? — falo para os vampiros fiéis de Shiva, eles parecem macabramente felizes e satisfeitos. Se entreolham de forma ansiosa, mataram cerca de vinte da Ordem somente para se alimentar, mais alguns apenas por diversão.

— Estamos saciados, menos você. — fala Shiva para mim, com seu olhar malicioso.

Ela já retomou sua viscosa pele morena, mas sua figura coberta de sangue não a torna mais bela. Porém, o seu sorriso é tomado por uma sensação ruim, ela se desequilibra e quase cai no degrau da escada.

— Shiva! — fala Jekyll.

— Eu estou bem. — fala ela soltando o seu braço que tinha sido escorado em Jekyll. — Acho que esse tempo sem me alimentar me deixou um pouco zonza. Vai passar.

— Quando Dorian pegar a lâmina de Longinos, todos nós podemos ser influenciados. Mas ele precisa se concentrar nos mais fortes, ou nos mais fracos. Não pode contra todos. — falo, enquanto subimos as escadarias para a parte central. — Você pode me dar alguma arma, Shiva?

— Vamos subir pela cozinha, por aqui. — fala ela enquanto nos conduz.

Jekyll toma o primeiro tônico, ele consegue se manter sob controle, mas já pega os outros dois e os segura na mão juntos, tira suas tampas e já se prepara para o ataque. Assim que subimos eu quebro o pescoço de um vampiro, enquanto os outros saem fazendo muito barulho, eles matam derrubando objetos da cozinha. Meus soldados nada sabem como efetuar um ataque silencioso, são um desastre. Encontro um machado, isso será o suficiente, corto minha mão e espalho o meu sangue em sua lâmina, tornando-a azulada.

Saindo da cozinha, o cheiro de podridão nos recepciona. Inúmeros cadáveres de mulheres estão caídos no chão, empilhados, desmembrados. Elas têm roupas ocidentais e algumas são magras. São as traficadas de New Orleans, vejo duas amarradas de ponta-cabeça, suas vísceras estão para fora ligando o teto ao chão. Dou um passo e algo pegajoso faz um barulho em minha bota, encontro um olho preso na beirada, ele está envolto de restos de placenta, rins e massa encefálica.

Fecho os olhos, queria não ver tal coisa, queria não estar ali. Cada vítima fica passando em minha mente, tento manter minha respiração normal, mas o cheiro fica constantemente me lembrando de onde estou. Preciso acabar com isso, impedir que esse ciclo de horror continue. Ouço vários vampiros rastejando pelas paredes, eles se movimentam rápido de um lado a outro, seus sussurros são como serpentes se comunicando.

Dorian nos aguarda, sentado no trono que um dia foi de Vlad, ele bebe uma taça de vinho com uma das pernas sobre o braço do trono. No outro trono, a cabeça de uma mulher está presa na parte superior, a pele dela fora removida e recobre o trono, como em um macabro tapete. Ele me olha de lado, sorrindo. Eu sabia que ele praticava verdadeiros festins diabólicos nesse lugar, fico grata por Manson não estar aqui comigo.

Os vampiros aliados ficam em torno de mim, Shiva e Jekyll. É claro que eu sei que não é a mim que querem proteger, mas sim à sua rainha, sedenta pela cabeça de Dorian. Jekyll finalmente toma as duas doses de uma vez, ele se contorce um pouco ao se transformar e dobrar de tamanho.

— Que bom que finalmente chegou, meu amor. — fala Dorian, enquanto finaliza o último gole de vinho da taça.

Ele a deixa escapar entre os dedos, caindo e quebrando no chão. Volta sua perna para frente e tira a lâmina de Longinos da lateral do trono. A sedenta está presa em sua cintura, ele se levanta devagar caminhando para nós.

— Estava ansioso pelo seu retorno, mas não sabia se traria mesmo tantos amigos.

— Chega desse inferno, Dorian. Você sequer é um vampiro para liderá-los. — falo caminhando naquele cenário grotesco.

— Você não quis estar aqui, ao meu lado. Mas esse castelo... ahhh, Lucy. Esse lugar tem algo muito maior, ele me dá forças. Acho que era isso que Drácula gostava tanto nele.

— Exatamente, esse castelo era de Vlad. E você não merece esse lugar. Ninguém o merece. — Assim que falo, sinto o olhar de reprovação de Shiva. Dorian ri da expressão dela.

— Pobre Shiva, sempre a segunda, não é mesmo?! A que possui linhagem direta de Vlad, mas nunca manifestou os poderes dele. Aposto que fizeram algum acordo para finalmente você se sentir segura, não é, vadia?

— Aliás, Dorian. Eles encontraram sua boneca erótica no porão. — fala Shiva com desprezo.

Dorian sorri e vira para mim.

— Constrangedor, me sinto flagrado como um adolescente em momento de intimidade. Você gostou dela, Lucy?

— Você é doente, Dorian. — digo com feição de nojo.

— Eu a matei. — retoma Shiva.

Dorian volta o olhar para ela, sorri em desdém antes de falar:

— Ah Shiva, você é tão burra que me dá pena. Eu realmente duvido muito que tenha conseguido fazer isso.

— Cala boca, seu animal. Eu vou retomar tudo o que me pertence.

— Como vai retomar, se nada lhe pertenceu?

O urro de uma fera se levanta, Mr. Hyde está presente, agora sob controle de Jekyll, mas com toda a fúria de Hyde. Ele respira profunda e ruidosamente, suas costas arqueadas finalmente se levantam, dando espaço para o monstro dentro do médico. Ele olha diretamente para Dorian e quase saliva em ódio de seu coração rancoroso.

— O velho está ativo novamente... — ele balança a lâmina de Longinos em negação, exibindo sua ponta quebrada. — Não vai me machucar, não é? Querido amigo.

Hyde corre cortando a barreira em direção a Dorian, imediatamente, vários vampiros saltam das paredes e caem em cima do monstro e em nós. Eles saltam aos montes mostrando suas presas e garras. Shiva logo começa a atacar com suas garras, ela tenta ir para um canto da sala onde pende a sua velha espada. Eu abro caminho a ela, em um movimento decapito três vampiros em meu machado amaldiçoado com meu sangue.

Eles me atacam e Shiva corre até a parede, pega a espada e salta lutando com os vampiros. Eles permanecem cercando-a, mas sem a intenção de matá-la, Dorian ordena que não a matem. Afinal, isso seria a destruição dele também. Hyde luta com diversos vampiros, ele pode ficar tranquilo com a quantidade de tônico que tomou. Com sua imensa mão vejo-o arrancar a cabeça de um vampiro, ele o segura pelas pernas e bate em outros três usando seu tacape maldito. Um dos vampiros atingido voa até o outro lado do salão.

Dorian se diverte, ao mesmo tempo que ordena que se concentrem em Hyde e em mim. Afinal, podem me matar da forma que quiserem. Ele segura a Sedenta na cintura com firmeza quando muitos vampiros sedentos saem de trás do fundo do salão a nos atacar.

Cercada, eu acerto o machado no peito de um, ainda preso ao seu dorso arremesso o vampiro contra outro ao meu lado. Chuto um terceiro, dou duas cotoveladas até conseguir quebrar o seu pescoço. Vou até meu machado, sou agarrada por trás, eu uso a ponta traseira do machado acertando os olhos do que me contém. Ele me solta e acerto a cabeça de outro, quando vou tirar o machado sinto o meu braço ser mordido, arrancam um grande naco de meu antebraço.

Eu grito de dor e apoio a perna para arrancar o machado. Golpeio no peito e depois em outro no pescoço. O sangue cai no chão tornando o local ainda mais escorregadio. Olho e vejo Shiva ser atacada, eles pulam sobre ela a mordendo e deixando-a fraca. Ela ataca com a espada e um deles segura a lâmina com as mãos, o outro sobe e salta para ela alcançando o seu pescoço. Ela cai na parede, sendo devorada e o vampiro joga sua espada no chão mostrando a Dorian. Ele fica satisfeito.

Uso o cabo de madeira para quebrar os dentes de um que salta esfomeado. Agarro a garganta de um, puxo o machado com a outra mão e golpeio outra vampira ao meu lado. Volto para o primeiro e arranco sua traqueia, jogo-a no rosto de um para atrasá-lo e poder atingir com o machado em seu dorso. Sou mordida no outro braço, eu ainda não me regenerei do primeiro, chuto outro a minha frente. Mas quando vou dar um outro chute, outro agarra o meu pé. Me segura enquanto outros dois mordem a minha coxa. Eu grito e arranco a cabeça de um deles com o machado, depois disso seguram minhas mãos, me tombam ao chão.

Caio e sinto que sou mordida em todos os lugares, sou devorada inclusive na carne, eles não são apenas vampiros. São malditos canibais. Olho de lado para Hyde ainda lutando bravamente, ele grita por mim, eu não posso morrer agora. Isso não pode ser assim. Eu não tenho outra escolha. Agarro um vampiro com minha mão restante e o puxo para mim. Eu o mordo no pescoço.

Eu bebo e sinto o líquido quente em minha garganta. Tal como com Mehmed, tal como na Rússia... o sabor inicial é repugnante, mas só até a golada. Eu sugo com força e minha sede aumenta, termino em menos de um minuto aquele, agarro um segundo. Bebo. Sinto minhas feridas se fecharem. Quando o solto no chão, os vampiros começam a me soltar, se afastar. Eu pego um terceiro. Ele cai no chão, rapidamente pego um quarto. Aos poucos, minha sede está sendo saciada, não estou ouvindo o que dizem.

O som da coruja lá fora está me atordoando, o rastejar de um besouro é um som elevado para minha mente. Mais um cai, agarro outro. Uma neblina toma conta do local, meu corpo fica frio e depois, quente novamente. Ele cai no chão, eu... eu não sinto o chão.

Na verdade, é como se algo saísse de minha pele, algo quente, como um calor que emana em vapores. Isso é muito bom, olho em volta e ouço os sussurros deles, observo melhor e percebo que não estão falando. Mas mesmo assim os ouço, acho que é assim que Mefisto ouve os pensamentos de amaldiçoados. Esse prazer é algo que me toma, minha mão passa em meu rosto, eu me viro, lambo os dedos trazendo mais sangue, de mais um vampiro que estava em minha mão. Eu o solto e ele cai no chão. Nem percebi quando peguei esse.

Estou no teto, não me lembro como vim parar aqui. Meus olhos não são mais verdes, mas negros completamente, de forma serena e doce eu caminho no teto, na parede e desço aos meus súditos. Alguns pensam em me atacar, eu estendo a mão e aviso.

— Basta.

Eles param, não porque queiram, se entreolham e não sabem o porquê obedecem. Olho e encontro Shiva sendo contida, vejo os vampiros à volta de Hyde tentando atacá-lo.

— Parem, soltem-os.

Eles obedecem, servis, fiéis como animais devem ser. Shiva me encara em fúria, nunca, nem no seu melhor dia, ela provaria um décimo do meu poder. Hyde olha de forma inconsolável, angústia e incerteza estão estampados em seu rosto. Dorian bate palmas.

Plac – Plac – Plac.

— Finalmente, essa, senhores, é a Rainha dos Condenados que merecem. Essa é Drácula.

Eu volto meus olhos negros para ele, que segura a lança de Longinos em mãos. Ele a levanta para o alto, sentimos o seu poder, a sua influência. Hyde se curva para o chão, os vampiros ficam atordoados. Eu sinto uma grande dor em minha mente, como se minha cabeça estivesse sendo cortada por uma navalha.

— Sente isso, minha querida! — fala ele com a lâmina no alto.

— Esse poder. Esse calor. — falo virando os olhos, um arrepio percorre o meu corpo, de meus pés até minha espinha. — Isso é bom.

— Acho que nunca provara algo assim.

— Eu provara, mas não foi dessa forma. Hoje, finalmente fui saciada.

— Eu sempre vi o seu verdadeiro potencial. Pode ser mais, mais do que o próprio Vlad jamais foi.

Sim, eu entendo o que quer, Dorian.

— Entende?

— Sim, meu amor. Humanos e monstros, todos devem saber quando e, para quem, servir. São criaturas que precisam de um líder, de um Messias.

Eu caminho pelas paredes, em direção ao meu querido Dorian.

— Eles sempre clamam por um salvador.

— Sempre. Alguém que os leve para o topo, nem que seja o abismo.

— Venha aqui, minha querida. O seu trono a espera. — Dorian fala enquanto bate com o braço na cabeça que pendia no trono feminino. Quase como se gentilmente o limpasse para mim. Sorrio, me aproximo devagar de meu noivo. Mas chegando, paro e olho a ele.

— Este não é o meu trono, Sou Drácula, não uma mera consorte. — Me direciono ao trono que era de Vlad, e me sento, sozinha.

— É, você pegou o espírito da coisa. — Ele se aproxima e se curva a mim, apoiando as mãos nos braços de meu trono. — Será minha finalmente, minha rainha. Eu sempre desejei apenas o topo das montanhas para você.

— Sim.

Ele aproxima seu rosto, eu beijo seus lábios com lascívia, sinto que ele quase satisfaz sua luxúria, apenas com isso.

— Não sabe o quanto eu esperei por isso. — fala ele, com o rosto ainda próximo do meu.

— Eu sei. Eu também esperei.

— Estou satisfeito, é claro que deu trabalho. Afinal, foram muitos que tive que matar até você entender que seu lugar é aqui. Cada família que tentou formar, não eram o suficiente para você. Antônio tinha uma mortalidade ridícula, Liu era um tolo, Roberto era fútil, Mirian uma fraca...

Quando ele fala o nome dela, algo queima em mim. Meus olhos negros encontram os dele, minha garganta dói.

— Mirian?

— Sim, essa foi mais fácil. Uma ligação e os nazistas sabiam de sua garota especial, e de seus poderes, é claro. Achava que foi uma infeliz coincidência?

Não respondo, apenas olho para meu macabro controlador.

— Está confusa. Tudo bem. Mas não se preocupe, era só uma questão de tempo. Você precisava saber que eles não prestavam para você, seu lugar é aqui, comigo, com nosso reino. Sinto como se eu tivesse te criado, te moldado para ser a grande líder que será.

— É mesmo. Você se acha o meu criador?

— Sou um ourives, mas com carinho, como se fosse o seu pai.

Eu sorrio muito próximo a ele, lambo o seu lábio até o seu ouvido e sussurro.

— Eu matei o meu pai.

Cravo a sedenta em seu estômago e a puxo para cima em seu dorso, até sua garganta. Permaneço confortavelmente sentada, assistindo seu corpo rasgado tornando-se pó e caindo no chão. Ele olha inconformado e perplexo na imagem de seu deformado corpo. Como se tentasse se unir, passa a mão nas areias segurando-as. Levanta o seu rosto em olhar de pedido de clemência.

— A rainha não precisa de um rei.

Em um movimento, levanto e corto sua cabeça fazendo-a saltar do corpo e rolar pelo chão até os pés de Hyde. Ela rola e se desmancha completamente quando para a ele. Meu amigo gigante respira aliviado fechando os olhos em gratidão. Me curvo, e pego a lança de Longinos no chão, sua lâmina dourada parece sussurrar para mim. Hyde olha preocupado.

Não se preocupe. Artefatos como esses não podem mais me afetar. — Mostro a ele a lança que se deteriora em minha mão, a poeira se espalha pelo chão. — Na verdade, nada irá me deter agora.

 

 





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