With a Little Help From My Friends escrita por Mariana Mendonça


Capítulo 34
Capítulo 34 - Aquele Com a Verdade.





                       

Tento ao máximo não pensar nele mas é meio inevitável tendo em vista tudo que aconteceu. Quando ele me deixou sozinha me peguei desejando que ele voltasse ou ao menos tivesse insistido em continuar a briga. Mas ele parecia igualmente cansado. Sei que ele pode perceber que não fazemos bem um para outro. Iríamos enlouquecer juntos se continuássemos com essa amizade estranha, que exige tanto de nós. Talvez seja melhor assim, talvez seja melhor gritarmos coisas horríveis na esperança que o outro saia correndo, nos livrando da culpa de ter desistido. Não tem coisa mais triste do que ver algo morrendo sem poder fazer nada para mudar a curso natural das coisa. Tudo é temporário mesmo que gente queira acreditar que não é.

As nossas diferenças nos aproximaram, ele gosta de festas enquanto eu sempre vi beleza em está sozinha por escolha, eu tenho medo de cobras enquanto ele alimentava a que ele tinha com um certo fascínio que eu nunca vou entender, ele gosta de correr riscos e eu tento ao máximo fugir dos problemas. Mas ele sabe apreciar a beleza do pôr-do-sol e gosta de assistir os mesmos episódios de Friends, não importa o quanto tente negar. Ele sabe ser engraçado sem precisar humilhar as pessoas. Ele é gentil com a minha mãe... como eu vou conseguir ficar bem sem meu melhor amigo? tento o engolir o nó que se forma em minha garganta mas o esforço para não chorar é em vão.

Ele pode ter dito coisas horríveis hoje mas isso apaga todas as coisas boas que ele já fez? Eu não sei. Lembro que quando papai foi embora, minha mãe, inconscientemente, arrastou toda a casa para o vale do torpor, eu fui sugada com tanta força que achava estranho ouvir as risadas das pessoas na rua. Meu mundo tava desmoronando mas ninguém  pararia para me esperar ficar bem. Cameron parou.

Quando eu vi papai pegando suas roupas e socando dentro de uma mala velha enquanto mamãe chorava escondida na cozinha, corri para o meu quarto e mandei uma mensagem para única pessoa que eu achei que poderia entender o que tava acontecendo, assim que ele visualizou se ofereceu para aparacer na minha casa e ver se poderia ser útil em alguma coisa, é claro que ele não poderia diminuir a dor mas não era isso que ele tava pretendendo fazer, ele só queria aparecer e ouvir o que quer que eu tivesse pra falar. Mas eu recusei a oferta. Ele entendeu.

Na primeira madrugada sem papai em casa eu estava me sentindo insegura, ficava imaginando alguém arrombando nossa porta, levando nossas coisas ou nós matando. Eu estava pensando nisso quando Cameron me ligou às 2:30, dizendo que estava sem sono e perguntando se eu poderia passar a noite conversando com ele. É claro que ele estava mentindo, ele sabia que eu iria estar acordada e me ligou para não me deixar sozinha. Ele não mencionou meu pai durante a conversa porque sabia que se eu quisesse falar sobre ele já teria tocado no assunto, Cameron tagarelou sobre à nota baixa que havia tirado em matemática e sobre sua tia querer pintar o cabelo de azul novamente. Às 3:30 eu ainda estava acordada, atenta ao qualquer barulho estranho que viesse do andar de baixo, ele percebeu que eu estava inquieta e perguntou o porquê e quando eu falei sobre o meu medo irracional de ser morta por ninjas invasores ele não riu ou disse que eu estava sendo boba, ele simplesmente começou a cantar Elvis Presley até que eu pegasse no sono. Quem é que tem disposição para cantar Elvis às 3:30 da manhã? somente o Cameron.

Passos leves me fazem despertar dos meus devaneios, me pego desejando que seja Cameron mesmo sabendo que não é, ele tem passos pesados.

A cabeça flutuante que aparece na porta da barraca pertence a Thereza.

— Ainda tentando dormir? - ela pergunta delicadamente enquanto se curva para passar o resto do seu corpo pela porta, logo se senta ao meu lado com as pernas cruzadas.

— Parei de tentar algumas horas atrás.

— Como você tá?

— Bem - a resposta automática de praxe, Thereza me sonda à procura de qualquer resquício de mentira.

— Você mente tão mal, querida - ela diz com um ar de que sabe das coisas - Mas se não quiser conversar sobre o que aconteceu, tudo bem.

— Não tem o que conversar - faço um gesto vago com a mão.

— Que tal falarmos sobre como você está se sentindo depois que o nosso doce e gentil Cameron praticamente te chamou de vadia - as tentativas de Thereza em dar privacidade emocional as pessoas sempre falham de forma miserável, ela não pode evitar.

— Eu não sei -  respondo,finalmente me rendendo a curiosidade de Thereza, talvez seja bom conversar sobre isso com alguma pessoa.

— Tem que saber! depois de um afrontamento daqueles você tem que tá sentindo alguma coisa.

— Eu senti várias coisas, pode acreditar. É uma mistura tão louca que não sei se existe uma palavra pra definir esse sentimento.

— A gente tem tempo pra criar uma - ela instiga, arqueando levemente uma sobrancelha.

— Eu fiquei... - exito um pouco antes de continuar, aquela sensação de não saber pra onde ir ou o que fazer só pode ter sido.. - Eu fiquei triste, depois furiosa e agora eu não sinto nada.

— Nada? nadinha?

— Não posso fazer com que ele retire o que disse - mas bem que eu queria - Não posso fazer mais nada para mudar o que aconteceu - falo isso para convencer a mim mesma.

— Aquilo foi realmente muito estranho - ela comenta sem emoção nenhuma na voz.

— Decepcionada mas não surpresa...

— Já esperava que ele fosse beber toda vodka e te xingar daquela maneira? - ela ergue um sobrancelha e tenta reprimir o sorriso zombeteiro que ameaça tomar conta do seu rosto.

— Não sei mais o que esperar do Cameron... ele tinha me falado antes que achava melhor eu não participar da brincadeira.

— Conte-me mais.

— Falou um monte de asneira sobre que eu acabaria bêbada e que não iria conseguir cumprir os desafios.

— Você foi lá e provou que ele tava errado - ela diz enquanto eu relembro mentalmente todos os desafios absurdos que consegui cumprir.

— Será que só eu tenho notado que Cameron tem se comportado de uma forma estranha? - penso em voz alta.

— Ele tem andado bastante temperamental - ela faz uma pausa e semicerra os seus olhos castanhos - Sempre que tento conversar sobre isso, Erick consegue mudar sutilmente o rumo da conversa.

— Eu aguentei todas as explosões de Cameron mas hoje ele passou dos limites normais de crueldade.

— Ele não pediu desculpas? - ela franze a testa.

— Sim mas isso não muda nada...

— Você não vai perdoar ele? - ela arregala os olhos parecendo surpresa.

— Acho que a questão não é essa... perdoar é a parte fácil, difícil vai ser conseguir esquecer o que ele disse - admito, ela dá um meio sorriso compreensivo.

— Vocês conversaram sobre o quê? - conto a conversa toda para Thereza. Desde quando ele pediu para que eu ouvisse o que ele tinha a dizer até a parte que ele começou a culpar Ethan por tudo que tinha feito.

— Deixa eu ver se eu entendi... ele disse que te chamou de puta, vadia, sem vergonha por que o Ethan pediu? - reviro os olhos para forma exagerada de Thereza.

Cameron disse alguma coisa sobre não confiar no Ethan porque ele iria me machucar mas ele não falou muito mais que isso, não deixei que ele terminasse.

— Ele disse... -  o que foi mesmo que ele disse? - Ele não me explicou muito bem o que o Ethan tem haver com o fato de ele ter dito que eu sou Malvada e Desprezível - enfatizo as reais palavras que Cameron usou contra  mim.

— Ele ao menos parecia arrependido? - lembro de como todo o seu corpo estava curvado, muito diferente de sua postura normal. Seus olhos pareciam buscar desesperadamente uma maneira de mudar o que tinha feito.

— Acho que sim - digo sumariamente.

— Ele está muito bêbado nesse exato momento - Thereza diz achando graça da situação.

— Com quem ele tá? - não consigo evitar perguntar.

— Erick acabou tendo que levar ele para um passeio já que ele estava ameaçando "meter um surra" no Ethan - ela forma aspas com os dedos - Acho que ele o levou para aquele lago. - talvez um banho o ajude a ficar sóbrio mais rápido, espera... como ele vai conseguir...

— Será que isso foi uma boa ideia, levar ele para o lago? - aquela escada maldita, já é difícil fazer o percurso sóbrio imagine no estado de Cameron.

— Dylan ensinou Erick outra forma de chegar até lá - Thereza informa para o meu alívio.

— Onde estão os outros?

— Dylan e Henry já foram dormir, Tracy e Ethan ainda estão lá - ela fala monotonamente, mais preocupada com o estado de suas unhas.

— Eu realmente não gosto dessa garota - decido dizer, Thereza me olha como se eu  tivesse acabado de falar que a terra é redonda.

— Que surpresa - ela fala com falso espanto.

— Por que você gosta dela afinal de contas? - tento esconder meu ciúme da melhor forma que posso.

— Ela tem histórias interessantes para compartilhar, além do mais, você tava conversando com o Erick e eu não quis interromper...

— Pensei que tinha conseguido uma nova melhor amiga - falo uma coisa que realmente estava me preocupando em um tom brincalhão.

— Jamais -  ela faz um coração com as mãos - Ei, você não tá pensando em passar a viagem inteira sem falar com o Cameron, né? -  o tom de repreensão já está presente em sua voz antes mesmo de ouvir minha resposta.

— Bem... - começo a falar mas ela me interrompe.

— "Bem" o que, Anne?!

— Eu não sei se quero continuar... acho que vou voltar pra casa amanhã - me surpreendo por ela ter me deixado terminar  a sentença sem me interromper novamente.

— Você não vai. - ela fala sem nem mesmo titubear.

— Vou sim!

— Claro que não  - ela permanece falando como se tivesse o controle da minha vida.

— Espero que não fique muito triste ao se despedir de mim amanhã - resolvo dizer, mas ela não se deixa afetar.

— Eu sei que essa briga de vocês dois vai entrar pra história, mas pelo amor de Deus, vocês são Anne e Cameron, estão sempre brigando e fazendo as pazes logo em seguida.

—  Dessa vez foi diferente. - afirmo.

— Por que?

— Porque... você não ouviu as coisas que ele me disse? - resolvo perguntar pois não sei ao certo se o que ele falou foi o motivo de eu ter ficado com tanta raiva.

— Você sabe que ele não quis dizer aquilo - ela o defende e eu não me importo nem um pouco, já que estou buscando qualquer motivo justificável para perdoa-lo.

— Mas ele disse...

— Henry te chama de coisa pior - ela reflete.

— O Cameron nunca falou aquelas coisas antes.

— Anne, você sabe que estou certa, não sei porque ele disse todas aquelas coisas mas eu sei que não significou nada para ele - ela faz um gesto vago com a mão, não se importando muito com o drama da minha vida - Você sabe que ele te ama... - minha pupila dilata e meu peito para de se mexer - Vocês se conhecem a anos, são melhores amigos, ele nunca te machucaria de propósito - me forço a respirar normalmente e penso comigo mesma nas coisas que Thereza disse.

Thereza começa a fazer as mesmas perguntas usando palavras diferente. Ela perde totalmente minha atenção quando começa a falar sobre a história de quando Tracy fez sobrancelha de rena e teve uma reação alérgica ao produto, e mesmo que eu queira ouvir qualquer coisa que envolva Tracy se dando mal, minha mente começa a me levar por caminhos diferentes.

Eu gostaria de  conseguir esquecer e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Mas do que adianta dizer que o perdoo se isso não é sincero?  do que adianta se a lembrança ainda tem um sabor amargo? eu realmente queria que ele pudesse retirar tudo o que disse, talvez pudesse substituir com coisas mais agradáveis de serem ouvidas.Faça uma cova em meu peito e jogue rosas para cobrir o buraco.

Sua noite deve está sendo tão difícil quanto a minha, me pergunto se ele consegue lembrar do motivo de está bêbado, logo em seguida me pergunto porque isso importa. Espero que a água gelada ajude a diminuir o efeito da vodka, eu posso não lembrar da longa noite que eu tive da última vez que fiquei bêbada mas lembro muito bem da sensação de mal-estar.

Ele falou para mim que não confiava no Ethan e eu disse a mesma coisa sobre Tracy... será que minha opinião não conta? Ethan teve um comportamento decente a noite toda e Tracy... bem... ela é simplesmente louca. O fato de ela e Cameron terem personalidades similares me incomoda, se ele sugerisse fazer uma coisa completamente imprudente ela provavelmente iria sem pensar duas vezes, eu nunca seria capaz de fazer o mesmo, embora nesse momento esteja no meio da última coisa imprudente que fiz, foi muito difícil deixar meus instintos de preservação de lado. Tracy conseguiu tirar ele de mim em uma noite, e se ela começar a andar com a gente? meu Deus e se ele convidar ela pra ir à Las Vegas com a gente?! ela já tem a amizade de Henry e Thereza, a única pessoa que me resta é Erick!

Ainda bem que isso não é mais problema meu, Cameron arquitetou a melhor forma de destruir nossa amizade e Tracy teve um papel especial em toda essa história. Vou conseguir um ônibus que vá para Deadwood amanhã, assim posso facilitar a entrada de Tracy no grupo, ela provavelmente será minha substituta, eles vão se divertir tanto com ela que acabarão se esquecendo que eu existo, no futuro serei mencionada vagamente e sem muito holofote. Até Erick vai se sentir cativado pela maravilhosa e irresistível Tracy, é só esperar para ver.

Eu queria que minhas palavras atingissem ele com a mesma intensidade que as dele me atingem, queria que o meu silêncio explicasse tudo o que quero dizer. Arg! eu queria que fosse aceitável brigar com ele por conta do showzinho que ele deu com a Tracy, queria poder admitir para Cameron que aquilo tudo foi doloroso, que deixou meu coração apertado e me fez querer correr para um lugar onde ele não me encontrasse pois fiquei com medo de que ele me fizesse sentir tudo aquilo de novo. Eu queria que ele ficasse bem longe dela... mas eles vão dormir juntos e ele está bêbado... Meu Deus, será uma longa noite.





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