With a Little Help From My Friends escrita por Mariana Mendonça


Capítulo 33
Capítulo 33 - Aquele Com a Consequência.





                     

Uma sensação de enjoo me consome, não consigo respirar direito. Nada faz sentido.Tento contar os meus passos como forma de desacelerar meus pensamentos mas as palavras que Cameron escolheu para descrever como ele se sente em relação a mim continuam se repetindo em minha mente, de forma distorcida, mas igualmente dolorosa."malvada...desprezível" ele disse, sem nenhuma preocupação de como aquilo iria me afetar. Ele tem optado por me magoar sempre que tem a oportunidade, ele parece sentir prazer quando percebe que me importo.Quando percebe que ele pode me ferir. Por que ele faz isso?

Finalmente percebo que as pessoas com quem você mais se importa são as que sempre acabam te machucando. Devo dizer que Cameron fez um ótimo trabalho, daqui pra frente vou selecionar os meus amigos com mais cuidado.

E afinal, se eu sou tão desprezível como ele disse, por que ele ainda se dá o trabalho de ficar perto de mim? por que me chamou para fugir com ele se me odeia tanto? talvez esse tenha sido o seu plano doentio o tempo todo, me fazer pensar que posso confiar nele só para me quebrar logo depois, que nem uma promessa. Todas coisas boas que ele já fez ou disse foram substituídas em um piscar de olhos.

Ele não vai me ter de volta. Não vou voltar atrás, espero que ele tenha sucesso em achar outra amiga que consiga suportar as merdas dele por tanto tempo quanto eu. Essa amizade doentia não faz bem para ninguém, nem para nós dois e muito menos para as pessoas a nossa volta. Espero que essa noite não tenha estragado a viagem deles como estragou a minha.

Mal posso esperar para voltar pra casa. Eu nunca deveria ter saído de lá, deveria ter ficado com minha mãe e meus irmãos, assistindo tevê... passando meu aniversário com as pessoas que me amam de verdade.

Meu corpo fica tenso e minha respiração irregular. Sinto sua presença antes mesmo que seus cabelos encaracolados apareçam na minha frente.

— Você vai me ouvir - Cameron bloqueia a entrada da barraca verde e me empurra para trás.

— Tira as mãos de mim - cerro os dentes enquanto tento o tirar do meu caminho, mas ele nem se mexe.

— Cameron, já chega! - a voz de Erick surge atrás de mim mas eu não me viro.

— Eu preciso falar com ela - Cameron implora, olhando por cima do meu ombro para Erick, que solta um suspiro pesado.  Por um momento penso que Erick vai continuar insistindo que Cameron volte com ele mas segundos depois ouço seus passos se distanciando gradativamente.

— Muito obrigada, Erick - grito por cima do ombro para que ele posso ouvir. Ele acabou de me deixar sozinha com uma pessoa com problemas para controlar o temperamento e que ainda por cima está levemente alcoolizada.

— Por favor.. - Cameron sussurra quando tento avançar mais uma vez.

— Eu tô cansada das suas merdas - é algo tão palpável que poderia se materializar, me puxando para baixo, me impedindo de respirar - Eu não quero ter que olhar para você nunca mais! - falar isso rasga meu peito de dentro para fora, mas digo do mesmo jeito, uma forma de ter certeza que não serei a única ferida essa noite. 

Cameron reage como se eu tivesse acabado de lhe dá um soco na barriga.

— Eu preciso que você tenha paciência e me esculte, pelo menos dessa vez - ele junta as duas mãos na frente do rosto.

— "Pelo menos dessa vez"? - faço aspas no ar - Eu sempre ouço as porcarias que você diz. Eu sempre perdoo. Você sempre ferra comigo - sussurro com uma leve nota de histeria na voz.

— Me desculpe - ele não tenta se defender porque sabe que estou certa. Isso não melhora o meu estado pois me dá motivos concretos para me distanciar dele.Para tirar ele da minha vida pra sempre.

— Por que você não me deixa em paz e volta para terminar o que tava fazendo antes? - aponto com a cabeça para o local que Tracy se encontra.

— Você sabe que aquilo não significou nada - ele franze o cenho sem desviar o seu olhar de mim em nenhum momento.

— Quando é que alguma coisa significa para você, não? você só é capaz de amar a si mesmo.

— Você... - ele pressiona as mãos em seus olhos, tentando lidar com qualquer pensamento que esteja atravessando sua mente alcoolizada - Eu consigo me importar, é isso que tá fodendo comigo - ele comenta tão baixo que quase não consigo ouvir.

— Você já terminou ou ainda quer me falar alguma coisa profundamente rude?

— Você não entende...

— Não, Cameron, pelo o contrário, eu entendi muito bem cada palavra que você disse - sua voz volta a ecoar em minha mente "maldosa...desprezível". Meu corpo se retrai com a lembrança.

— Você precisa me ouvir - ele tenta se aproximar de mim mas eu o paro com um gesto.

— Fica longe - minha voz falha por conta do nó que se forma em minha garganta, me amaldiçoo mentalmente. Sempre demostro fraqueza nos piores momentos - Pode guardar seus pedidos de desculpa, eu não quero ouvir.

— Eu não queria dizer aquelas coisas... - ele parece inconsolável e me pego sentindo pena da pessoa que me atacou.

— Não muda o fato que você disse -  falo de uma forma mais branda, ainda tenho em mente que ele sabia o que tava fazendo, não possa passar a mão em sua cabeça toda vez que ele fizer merda.

— Você é minha melhor amiga - ele me olha de uma forma intensa que quase me faz querer fitar outro ponto do seu rosto, qualquer coisa que não seja aquelas faíscas verdes que tentam me passar a verdade por trás de suas palavras. Mas no que eu devo acreditar? ele sempre diz tantas coisas divergentes - Eu nunca falaria aquilo de propósito.

— Eu pensei que eu fosse desprezível - tento falar isso da maneira mais neutra possível, é claro que não consigo.

Um sombra de arrependimento atravessa o rosto de Cameron.

— Eu fiquei um pouco nervoso... eu sei que nada disso é sua culpa.

— Você só pode tá brincando, você ficou nervoso? jura?! - minha voz sai aguda demais - Isso não te dá passe livre para ser cruel comigo.

— Você não me ouve! eu não queria ter feito isso com você... foi o Ethan... - arregalo os meus olhos, Cameron é inacreditável.

— Não ouse fazer isso! não tente colocar a culpa no Ethan, ele não foi nada além de gentil a noite toda!

— Anne, você não o conhece! - ele se exalta um pouco mas faz uma pausa tentando recuperar a compostura.

— Muito menos você! - tento dar uma risada, mas ela sai parecendo um grunhido - A questão não é essa, você não lembra de tudo que falou pra mim? tenho certeza de que não foi o Ethan que te obrigou a fazer aquilo - ele fecha os olhos e solta um suspiro pesado e triste.

— Me desculpa, eu não queria dizer aquelas coisas - ele implora com seus olhos levemente avermelhados, tento me concentra no reflexo da lua em seus anéis mas agitação que toma conta de mim começa a ficar fora de controle.

— Parece que você não me conhece! achou mesmo que eu iria dormir com ele?! - esbravejo de encontro ao seu rosto.  Não me importo que Ethan tenha ouvido, é melhor que ele saiba logo que isso nunca vai rolar entre a gente, caso ele tenha pensado que iria.

— Eu não sei... você é imprevisível! - ele parece mais leve. Quase consigo ver o peso sendo tirado de suas costas ao me ouvir admitir que não estou pensando em ficar com Ethan.

— Não sei porque se importa tanto com isso.

— Ele iria te machucar - ele tensiona o maxilar ao olhar por cima do meu ombro.

— Do mesmo jeito que você fez? - minha voz sai baixa mas ele consegue ouvir, a tristeza em seus olhos é evidente.

— Eu não fiz aquilo de propósito, eu jamais teria dito aquilo se não fosse... - ele se interrompe e passa a mão pelo cabelo - Ele vai te machucar, Anne - metade do seu rosto está iluminado pela lua, ainda sim consigo ver como ele parece está sinceramente arrependido. Isso não muda nada.

— Você não precisava ter dito aquelas coisas... mesmo que você estivesse tentando me proteger.. - a ideia de proteção de Cameron é totalmente distorcida e errada. É como se ele estivesse falando que me machuca para o meu próprio bem.

— Eu tentei te avisar antes do jogo... mas você me ignorou completamente, como sempre faz - ele busca os meus olhos a todo custo, faço o possível para não encontra-los. Se eu olhar para ele agora vou acabar esquecendo tudo que ele disse, mais uma vez aceitando suas desculpas que sempre precisam ser renovadas pois ele sempre descobre uma nova maneira de me atingir.

— Você também ignorou minha opinião sobre Tracy, nem por isso saí gritando como você é um panaca incorrigível - ele ignora todas minhas tentativas de insulta-lo.

— É diferente, a Tracy não fez nada demais...

— E o que o Ethan fez de tão grave? - questiono mas Cameron não é capaz de responder. Isso faz com que toda minha paciência me abandone  - Sai da minha frente - tento avançar, mais uma vez sem sucesso.

— Você não pode apenas confiar no que estou dizendo?

— Confiar em você? - franzo o cenho - Você não merecia nem tá tendo essa conversa comigo, imagine minha confiança -  a expressão dele muda a medida que vou terminando a frase. Ele parece desolado.

— Você não vai me perdoar, né? - sua voz é conformada mas ainda posso enxerga esperança nos seus olhos

Ele pediu desculpas por todos os motivos errados...

— Me deixa passar - digo ao invés de responder sua pergunta.

Ele me olha profundamente talvez esperando que eu ceda como em todas ás vezes anteriores, a diferença é que agora ele foi longe de mais, me disse coisas que jamais serei  capaz de esquecer. Todo mundo tem um limite de merdas que consegue suportar e eu cheguei ao meu.

Cameron solta um suspiro pesado, me encarando uma última vez antes de me deixar livre para ir.

 

Há somente um colchão, que ocupa toda extensão da barraca, fico me mexendo várias vezes, a procura da posição que me fará dormir rapidamente. Perda de tempo. Ethan deve ter ido tomar um banho no lago mais cedo e quando voltou acabou pegando no sono sem trocar a roupa que usava, isso explicaria a umidade incomoda que o colchão tem em algumas partes. Talvez isso que esteja dificultando minhas tentativas de dormir. Umidade. Me sento e pego a lamparina, que ilumina a barraca precariamente, procuro qualquer coisa onde Ethan possa ter guardado o lençol, seria mais fácil perguntar para ele mas não quero arriscar sair daqui para ter outra briga desgastante com Cameron.

Logo avisto um bolsa feita com o mesmo material da barraca, presa no canto superior direito. Encontro um lençol e algumas barras de cereais, faço muito esforço para não roubar a comida de Ethan mas a fome fala mais alto.A bolsa acabou se revelando muito útil, estou a usando como travesseiro por não ter opção melhor.

Me contorço várias vezes até finalmente desistir de dormir. Fico olhando para o teto da lona, ouvindo a conversa indecifrável dos que ainda estão lá fora, ocasionalmente consigo diferenciar a risada de Tracy das do demais, me pergunto se estão rindo de mim. Eu nunca me senti tão sozinha e ficar sozinha quando se tem tanta coisa para pensar, nunca é uma boa ideia. Estou sem muita opção no momento, a única coisa que posso fazer é aguentar calada.





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