With a Little Help From My Friends escrita por Mariana Mendonça


Capítulo 25
Capítulo 25 - Aquele Com o Sonho.





                     

 Marcho em sua direção, pronta para confronta-lo. Como assim ele me beija e sai sem dizer uma palavra? Me recuso acreditar que fui a única a sentir tudo aquilo.Ele tava lá. Ele viu acontecer.

Minha confusão é tanta que sei que deveria estar tremendo de frio - estou encharcada da cabeça aos pés - mas a única coisa que consigo sentir é raiva. Isso não é justo, ele tem que parar com esses joguinhos antes que eu enlouqueça! Primeiro ele é gentil e no segundo seguinte está jogando todos os meus defeitos na minha cara. Pelo amor de Deus, ele sabe que não gosto de cereal! acho que nem meus irmãos sabem disso e olha que moro com eles desde que nasci. Suas mudanças estão me afetando diretamente, começo a perceber que o meu humor muda com base em suas ações. Isso não é saudável, não quero alguém controlado minha mente. Principalmente alguém tão inconstante quanto ele.

 Me trata super mal no estacionamento da Walmart.

  Depois está cantando comigo.

  Depois grita comigo.

  Pede desculpas.

  Diz que meus olhos são bonitos.

  Depois fala que não sou sexy o suficiente para seduzir Chickenzitos.

  AAAAAAAAAAAAAAA.

 Pego meu All Star e arremesso contra Cameron. Alvo atingindo.

— Qual é o seu problema?!- ele leva a mão aonde o tênis aterrizou .Eu só quero tirar cada maldito fio de sua cabeça da forma mais dolorosa que eu conseguir achar.

— Meu problema é você! -  bato em seu peito e ele recua, me ignorando totalmente - Que porra foi aquela Cameron? - grito contra o seu rosto. Ele continua vestindo sua camiseta branca, sem se deixar afetar.EU.JURO.QUE.VOU.MATAR.ELE!!!

— Cadê o anel?

Ele esteve em minha mão todo esse tempo.Esse maldito anel. Quem se importa com essa droga? eu deveria ter voltado com os outros! provavelmente já estaria seca, mas mesmo que não estivesse, é melhor sentir frio do que essa sensação que me consome agora.Eu quero arrancar os meus próprios cabelos por ter deixado ele me beijar mas também quero arrancar os dele por ter ido embora! argh! ele é tão mau mas faz aquilo tão bem! Jogo o anel para Cameron com mais força do que deveria. Ele o pega e continua a me ignorar, interessado demais em fazer um nó perfeito em seu cadarço.

— Que porra foi aquela? - pergunto novamente. Ele não pode simplesmente ignorar isso.

— O quê?

— A porra do beijo - cruzo os braços tentando formar um fortaleza entre nós dois, nada que ele disser vai me destruir. Ele não tem esse poder sobre mim. Só me senti daquela forma, porque poxa, sou humana e nunca tinha beijado alguém de verdade.

— Ah, aquilo - ele dá uma risadinha e eu fecho os olhos.Olho pra cima. Respiro fundo. Indestrutível - O que é que tem?

— Por que você me beijou? - consigo sentir lágrimas se formando e luto com todas as forças para não deixa-las cair. Ele não vai me fazer chorar.

— Força do hábito - me contraio um pouco e respiro fundo tentando administrar o impacto de suas palavras, ele é cruel em nome de ser honesto.

Espero que ele retire o que disse, mas ele continua me olhando, impassível.

— Você é mesmo o filho da puta que todas elas falam - também sei usar palavras como armas. A armadura dele cai. Haha, você não é o único machucado aqui.

— Não ouvi você pedindo pra parar - ele se aproxima de mim e quero me bater por meu corpo reagir dessa forma - Aposto que teria continuado - recuo para conseguir respirar um pouco. Ele não vai me tratar como as outras.

— Você nunca mais vai tocar em mim - o fuzilo com olhos ao dizer isso, a confiança dele vacila um pouco, ele fica em silêncio e desvia o olhar pela primeira vez.

Será que passei dos limites, fui muito rude? dane-se, ele também foi. Odeio o fato de querer abraça-lo e tentar explicar que não foi bem isso que quis dizer, que na verdade se ele quisesse me beijar agora mesmo eu não o impediria. Isso não quer dizer que eu tenho gostado daquilo, mas também não foi a pior experiência do mundo. Não! eu não preciso pedir desculpas, foi ele que me beijou e depois fugiu.

Ele pega o meu All Star e o coloca na minha frente, e quando me olha está com um sorriso furtivo, não parece abalado como estava antes.Ele se inclina em minha direção e eu sinto no fundo do meu ser que vou me arrepender de ter deixado Cameron se aproximar e não estou falando só sobre hoje.

— Na próxima vez que quiser que eu toque em você, terá que implorar por isso - sinto o calor do seu hálito no meu ouvido. Ele me dá um sorriso inocente e começa a caminha até a escada - Você não vem?

Estamos em volta de uma fogueira a meia hora, me recusei a ter que andar até o posto totalmente encharcada e os 3 campistas ofereceram abrigo por uma noite.Provavelmente iriamos dividir barracas com eles.Era o suficiente para nós.

O céu está sem nuvens e lotado de estrelas, Tracy e Ethan - os campistas - estão montando as barracas enquanto o resto de nós está espalhado pelo gramado. Tracy  tem o porte de uma Angel da Victoria´s Secret, possui cabelos longos e cacheados. Muito bonita. Aposto que é o tipo de garota que faz caminhadas matinais e que só come coisas naturais e orgânicas, deve até usar creme de abacate no cabelo. Ethan também não fica para trás no quesito beleza, ele tem um cabelo preto que não é curto mas também não é grande, tem um porte atlético e uma aura de geek que me deixa meio confusa. Garotos bonitos também podem ser inteligentes.

Observo Tracy colocar a extremidade do porte de forma ágil dentro do ilhó nos cantos e desliza através de pequenas abas que ficam sobre a barraca. Não sei muito bem qual é a função de Ethan - talvez apoio moral - pelo que eu vejo, ela está fazendo a maior parte do trabalho sem a ajuda dele.

— Não são roupas secas mas deve ajudar - Cameron joga um cobertor em meu colo e se senta ao meu lado.

— Não lembro de ter pedido sua ajuda - digo abruptamente mas a sua expressão faz com que eu me arrependa. É claro que estou feliz por ter um cobertor, eu deveria agradecer! - Obrigada - tento dar meu melhor sorriso para compensar o fato de ser uma idiota funcional de vez em quando.

Estamos agindo como se nada tivesse acontecido e, enquanto tentávamos encontrar os outros, concordamos em não falar para eles. Mas eu adoraria falar pra alguém, talvez isso me ajudasse a entender o que aconteceu, mas Henry iria presumir que estamos apaixonados (o que definitivamente não é o caso) e iria fazer piadinhas com isso para sempre, Thereza iria tentar encontrar significados ocultos e acabaríamos complicando ainda mais as coisas. Será que o motivo de eu não encontrar nem uma única pessoa para conversar sobre o que aconteceu é porque o que nós fizemos foi errado?. Amigos se beijam às vezes, não é uma coisa de outro mundo

Mas afinal de contas, o que aconteceu? bem, é obvio que nos beijamos e é evidente que eu senti formigamentos em partes estranhas, mas me pergunto o quanto daquilo foi real. Porque agora que ele está sentado aqui do meu lado eu não sinto absolutamente nada. Então acho que é isso, não preciso me preocupar em estar nutrindo sentimentos por Cameron, tenho certeza que eu saberia se estivesse apaixonada por ele.Ainda bem que esclareci isso. Foi só um experiência, nunca mais vamos fazer de novo.

— Não por isso - ele diz finalmente e me oferece o pacote com batatas rústicas, suspiro aliviada por ele ter aceitado as desculpas implícitas. Não quero ser a pessoa a dificultar ainda mais as coisas entre nós.

  Thereza pigarrei do nosso lado, fazendo com que eu note sua presença novamente - Vocês demoraram bastante, aconteceu alguma coisa lá em baixo?

— Não - falamos em uníssono.

— Oookay - ela franze o cenho - conseguiram achar o precioso?

— Não graças a você - Cameron ergue a mão com o anel.

— Eu não poderia me importar menos - ela vira o rosto e volta a observar a fogueira.

Volto minha atenção para os campistas. Qualquer coisa para não ter que lidar com essa falta de assunto.

Acabo de descobrir a utilidade de Ethan: prender a barraca ao solo.Sinto que deveríamos oferecer ajudar aos dois, já que estamos aqui usando seus cobertores e comendo suas batatinhas mas tenho muito medo que eles digam sim.Não saberia nem como começar a montar uma barraca.Deus, será que eu nasci mesmo em Deadwood? tenho quase certeza que montar uma barraca vem no nosso manual do cidadão.

— Tive um sonho estranho semana passada... - ele comenta, fazendo com que meus olhos se voltem para ele.

— Que tipo de sonho? - ele me oferece as batatinhas e eu aceito de bom grado.

— Sonhei com data que minha tia vai morrer - quase me engasgo com a comida, começo a tossir e ele franze o cenho parecendo preocupado - Tá tudo bem?

 Tusso.Respiro.Tusso.Respiro.

— Eu tô bem - ele me olha com um sorriso escondido no canto dos lábios, faço um gesto para que ele continue.

— No sonho eu jurava que estava acordado, meu quarto estava exatamente como ele é, sabe? - sei. Paredes brancas com skates pendurados, uma cama king size sempre por fazer. Levemente organizado - Mas as paredes estavam estranhas e...

— Estranhas como? - interrompo, ele olha para cima enquanto tenta lembrar.

— Estavam meio amareladas, e no sonho eu fiquei tentando me lembrar do que eu tinha feito para elas estarem assim, tia Helen iria enlouquecer quando soubesse que as paredes não estavam mais brancas - eu posso ver Helen dando uma bela bronca em Cameron e logo depois saindo para comprar outra tinta, o forçando a passar a madrugada reformando o quarto - Eu abri a porta e ela estava lá, parecia muito cansada mas ainda assim sorriu para mim, então eu à segui.

— Ela não disse nada?

— Não, ela só sorriu... e então ela me guiou até a varanda... e aí que vem a parte bizarra - ele olha para as mãos e eu me aproximo dele para não deixar passar nenhuma palavra - Ela olhou pra mim e disse" Cameron, eu vou morrer dia 14 de julho" - sinto minha testa franzir - Nessa parte eu percebi que estava sonhando, então voltei para o meu quarto. Minha lógica era que eu tinha que acordar para contar para alguém, caso minha tia realmente viesse a morrer.

— Você conseguiu acordar?

— Sabe aquele filme do Dicaprio, "A origem"?

— Sim - fala sobre esse grupo de golpistas que conseguem entrar nos sonhos das pessoas afim de conquistarem seus objetivos.

— Pois é, eu acordei no sonho dentro de um sonho, entende?

— Acho que sim - então primeiro ele achava que estava acordado mas na verdade estava dormindo, depois volta a dormir e acorda achando que é a realidade mas na verdade é outro sonho. Digno de um filme de Christopher Nolan.

— Erick estava no meu quarto, tava sentando em frente a escrivaninha olhando para tela do computador, então fui até ele e contei toda a historia. Ele não acreditou em mim, decidi levar ele até minha tia, que falou a mesma coisa de antes "vou morrer dia 14 de julho" - minha boca começa a formar um O a medida que ele continua - Ele começou a chorar e eu também, mas ela falou que estaria cuidando da gente.

— E então, o que aconteceu? - apoio meus cotovelos em minhas coxas e repouso o queixo em minhas mãos.

— Ela queria ir para sala, então eu à levei até lá, sentei ela no sofá e pedi pra ver... uma pessoa - ele pigarrei, e seus olhos verdes lampejam sobre mim antes de desviarem para a fogueira - Nem me pergunte o porquê...foi um sonho muito estranho.

— Quem você pediu para ver?

Ele passa os dedos pelo braço, beliscando de leve a parte articulável.

— Você - ele dá de ombros e eu fico com um suspiro preso na garganta, não era isso que eu esperava ouvir.

— Por quê? - ele me fita enquanto sorri com os olhos. No que ele está pensando?

— Foi só um sonho - ele leva o polegar até a boca e eu desvio os meus olhos para a fogueira.

— Você conseguiu me ver?

— Várias pessoas apareceram, menos você - ainda consigo sentir seus olhos em mim. - Vi o Henry, quase todas as líderes de torcida, acho que vi a Thereza,até teve uma menina que parecia contigo mas quando me aproximei vi que eram completamente diferentes. A última pessoa que apareceu foi minha mãe e logo depois eu acordei.



Notas finais do capítulo

Esse capítulo, por mais simples que seja, é pra você vovô.



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