With a Little Help From My Friends escrita por Mariana Mendonça


Capítulo 23
Capítulo 23 - Aquele Com a Coruja.





                     

 

 O caminho até o Bear River State Park foi rápido. Acho que por causa da nossa conversa não nos demos conta do qual longe ele ficava e como a rodovia era escura e sinuosa. Mas os faróis e as estrelas ajudaram a iluminar o nosso percurso.

Havia um portão branco e velho na recepção do Park, que para nossa sorte estava aberto, talvez não por sorte...já que no panfleto dizia que era normal encontrar campistas por aqui.O local todo era muito verde, quase toda sua extensão era preenchida por árvores ou bancos de concreto e postes antigos - aqueles bonitinhos que a gente vê em clássicos do cinema- iluminavam o local, sei que Henry pensou a mesma coisa pois, quando nos aproximamos de um para ler a placa que indicava a direção do rio, ele deu um giro, uma referência clara a Don Lockwood em Cantando Na Chuva.

Se a distância do nosso posto até o Bear River não foi sentida, com certeza a da escada até o rio foi. Para chegamos até lá tivemos que enfrentar uma escada natural muito íngreme. Tão íngreme que depois de alguns segundos no percurso meus pulmões e pernas começaram a queimar.Além de me preocupar em continuar respirando tive que me preocupar em não escorregar, pois a pedra da qual a escada foi feita era lisa, tive que ser muito metódica em cada passo que eu dava e não ousei largar o ombro de Henry, se eu sofresse um traumatismo craniano ele também iria. Essa complicação toda e só estávamos descendo nem quero imaginar quando tivermos que subir.

— Essa porra tá congelando - Erick grita assim que pula na água.

Todos eles já estão lá dentro e permaneço perto da margem fazendo hora enquanto tiro o All Star. O que vou fazer é ilegal.Pulo esguichando água em todas as direções.

  Meu Deu do Céu! Finalmente entendo o que Jack Dawson quis dizer, é como se mil navalhas estivessem entrando no meu corpo. Okay, talvez eu esteja exagerando, provavelmente não é tão frio como é no inverno de Wisconsin, mas mesmo assim, ainda é a coisa mais fria que já toquei.

—  Isso com certeza vai ajudar na minha circulação sanguínea - me aproximo deles, que estão brincando de jogar água.

 Noto que meu vestido está subindo, não que alguém vá ver alguma coisa - a única claridade que recebemos vem da parte onde os campistas ficam - mas mesmo assim, tento inutilmente gruda-lo ao corpo.

— Não consigo acreditar que algumas pessoas se divertem com isso! - Henry diz, enquanto se  esquiva da luta que Erick e Thereza estão começando.

— Pelo menos vamos ter roupas secas quando sairmos daqui - Cameron chacoalha a cabeça respingando gotículas de água em mim.

Levo alguns segundos para entender o seu comentário. Todos eles, incluindo Thereza, estão apenas com as roupas de baixo. Eu estava tão preocupada em encontrar algum policial escondido nos arbustos, que não notei que era a única que estava entrando no rio vestida.

— Por que não tirou o vestido? - Cameron pergunta sem nenhuma malicia, mesmo assim, sinto minhas bochechas pegando fogo. Será que ele consegue notar o vapor saindo de mim?

— Porque ela é puritana - declara Henry, abraçando o seu próprio corpo.

— Eu não sou! - reviro os olhos, só porque não me sinto confortável em ficar seminua na frente deles não quer dizer que eu sou a virgem Maria. Bem, eu sou virgem, mas não virginal, entende?

— Whatever - Henry dá de ombros. Ele avalia o local com os olhos e seus ombros encolhem cada vez mais durante o processo, claramente esse não é o seu habitat natural. Criado em Nova York, ele está acostumado com a culinária Belga do Rouge Tomato, com os arranha-céus imponentes, com os chocolates GODIVA, creio que o mais perto que já chegou da natureza foi o central park.

— Não era você que estava louco por aventuras ao ar livre? - Cameron pergunta de forma debochada.

— O que você quer dizer com isso? - Henry semicerra os olhos, adquirindo uma postura defensiva.

— Acho que a uns 4 dias atrás você queria nos colocar dentro de um carro e sair procurando por campistas ou coisa do tipo - bem provável que Henry tenha criado suas expectativas baseado em filmes sobre acampamentos que mostram jovens com cabelos perfeitamente intactos em suas roupas vintage em volta de um fogueira.

— Como é que eu ia imaginar que morrer congelado fazia parte do pacote? - a água está realmente gelada, o vento frio também não ajuda - Retiro o que disse sobre acampamentos, prefiro o conforto de casa.

— Agora você me entende - não sei se Cameron tem alguma lembrança da época que passou com sua mãe, se têm nunca me disse nada. Mas qualquer criança se divertiria com um quintal gigante, certo? Ele era muito novo, mas crianças pequenas também gostam de correr, e com certeza gostam de piscina, mesmo as naturais. Mas pera, os amigos da sua mãe também tinham filhos ou ele era o único? então logo me dou conta que talvez ele não tivesse ninguém para brincar logo todos os atrativos da natureza eram irrelevantes.

— Eu sinto saudade do meu celular - Henry faz cara de choro e deixa a cabeça pender para trás.

Sinto falta da minha cama, do meu querido banheiro, sinto falta da minha mãe e até mesmo dos meus irmãos, mas se ele não tivesse mencionado celular nem teria notado sua ausência, todas as pessoas com que costumo a falar estão aqui.

— Posso viver sem isso - Cameron dá de ombros.

— Ata, vai dizer que é um daqueles que detestam a tecnologia. Nem vem, eu te conheço Cameron - Henry fala, não acreditando na declaração. Cameron pode muito bem não ser fã de celulares, até eu  não curto várias coisas que as pessoas acham comum uma adolescente da minha idade gostar, por exemplo, eu não gosto de chocolate, eu sei, parece inacreditável mas juro que é verdade. E até onde sei, o estilo de vida das pessoas que criaram ele é bem alternativo, isso pode ter influenciado ele de várias formas.

— Eu não disse que odeio, só disse que posso viver sem. E eu tenho essa teoria...

— Que teoria? - pergunto e ele sorri como se estivesse prestes a dizer algo muito bobo. Com um gesto, ele pede para que a gente se aproxime.

— Eu acho que o governo tem acesso as nossas mensagens - Henry começa a rir imediatamente, mas eu estou seriamente interessada em saber mais.

— Como assim? isso não é ilegal? - Cameron ignora o ataque de risos do Henry e se vira para mim.

— Totalmente, mas há relatos que isso realmente aconteceu depois da primeira guerra, eles grampeavam as ligações de moradores de algumas cidades - tenho a leve impressão de que já vi algo parecido em um seriado. Os olhos de Cameron brilham, como sempre acontece quando ele fala sobre algo que gosta - E cara, com certeza o governo tem capacidade de fazer isso.

— Até parece que eles iriam perder tempo olhando conversas aleatórias.

— Eu acho que fariam sim - sinto vontade de proteger Cameron do ceticismo do Henry, na verdade, sua teoria faz bastante sentido.

— Tem esse cara chamado Edward Snowden, ele divulgou um dossiê há alguns meses atrás...acontece que os Estados Unidos estava monitorando e-mails e ligações de países da America Latina - ele olha apenas para mim e está tão animado que desejo falar sobre isso a noite toda.

—Nãooo - ele parece empolgado por eu estar interessada nesse assunto.

— Ele é procurado pelo Estado Unidos, aposto que sabe muito mais coisas e tenho certeza que...

— Que barulho foi esse? - Thereza adquire um tom urgente. Tento aguçar os meus ouvidos esperando algum barulho gutural ao longe. Mas só há grilos e o som que água faz enquanto Thê agarra o corpo de Erick.

— Tenho quase certeza que foi uma coruja - Cameron passa as palmas das mãos em cima da água, não dando muita importância para a cena de Thereza - E se eles fazem isso com outros países... - ele tenta continuar mas é interrompido por ela novamente.

— Tem certeza? - ela agarra o braço de Erick com tanta força que não me surpreenderia se começasse a sair sangue dali a qualquer momento

Logo em seguida ouço um barulho que só posso descrever como o som de uma ocarina.É. Com certeza uma coruja. Thereza se agita na água, tentando arrastar Erick o mais rápido para perto de nós. Ela continua segurando o braço dele e agarra o de Cameron. Como se eles dois pudessem protege-la do terrível som.

— Ai! - Cameron se contorce e tenta se livrar do aperto dela - É só uma coruja, porra!

— Ei, calma aí. - Erick coloca o braço em volta da Thereza de forma protetora.

— Pra quem cresceu em Deadwood, é impressionante que você não reconheça uma simples coruja - Henry comenta com a cara fechada - Eles deveriam ensinar isso no primeiro dia de aula.

— Haha! - diz ela, sem achar graça e logo em seguida joga um pouco de água nele, que tenta se esquivar sem sucesso.

— Não posso dizer que não é um som assustador - digo, tentando fazer com que ela se sinta melhor.

— É só uma coruja

— Eu sei, mas... olha em volta - Cameron franze o cenho, não entendo exatamente para onde deve olhar - Cinco pessoas em um rio.Uma noite iluminada por uma lua cheia - digo apontando o para o céu - Tudo muito silencioso quando...BAM! - espirro água para todos os lados - Uma coruja assassina mata todos nós. É o filme de terror perfeito - Thereza ergue o queixo de leve como se dissesse "Viu? poderia ser uma coruja assassina"

— Seria o início de um pornô perfeito - olho para Henry estarrecida - Se não tivesse coruja...Deus! não sou zoofilíco.

— Acho que não teria como praticar zoofilia com uma coruja - Cameron dá de ombros. Ele tem razão, seria meio arriscado... eu acho. E também, corujas podem ser penetradas(?)que horror.Mas isso não seria muito útil para Henry, tenho quase certeza que ele é passivo. Ótimo! agora Cameron está olhando pra mim de uma forma engraçada, como soubesse no que estou pensando.

— Camero, você é um doente! não acredito que passa seu tempo livre pensando em possíveis animais para praticar zoofilia - Henry fala com olhos semicerrados.

— Desculpe, mas acho que foi você que sugeriu um filme pornô com uma coruja - rebate Cameron.

A risada alta de Erick preenche o local.

—  Chega desse assunto. Eu estou congelando. Vamos voltar. - Não creio que ele esteja falando isso por estar sem argumentos, Henry é a única pessoa que conheço que sempre tem uma resposta, não importa a discussão. Além do mais, posso ver o quanto os seus lábios estão roxos.

— E lá vamos nós, a caminho da escada da tortura - o comentário de Erick me esmorece um pouco, mas sigo eles lentamente .

Meus dedos estão enrugados, meu sutiã está encharcado e há pequenas folhas nas pontas do meu cabelo.Me julgo mentalmente por não ter entrado no rio sem o vestido, agora teria que percorrer todo o caminho molhada, quando Começo a pensar em qual dos 4 pode ser convencido facilmente a me ceder uma blusa sinto uma mão em meu pulso. Cameron.

 





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