With a Little Help From My Friends escrita por Mariana Mendonça


Capítulo 20
Capítulo 20 - Aquele Com o Decote.





                        

 

 Depois do que pareceram horas, finalmente conseguimos ajuda.  Uma caminhoneira loira chamada Marlene deu uma olhada em nosso carro e disse que precisaríamos colocar no reservatório água desmineralizada com aditivo então ela se ofereceu para nos dar uma carona até o posto de gasolina mais próximo e,  como sua cabine só comportava 3 pessoas, Cameron e eu ficamos para trás. Marlene nos garantiu que não havia risco do carro explodir, então decidimos esperar pelo guincho dentro dele.

— Se você quiser eu posso tirar a camisa de novo - Implica Cameron e eu afundo um pouco no banco do passageiro. Eu estava torcendo para que ele esquecesse do meu comentário.

— Não enche Cam - desconverso.

— Que foi? pensei que você gostasse de mim sem ela - ele puxa a camisa de leve, com um ar de inocência que combina com sua aparência. Mas é como dizem: o diabo ás vezes aparece na forma de anjo.

— Se eu fosse você não levaria aquele comentário tão a sério - a verdade é que eu fui totalmente sincera mas deveria ter guardado os meus pensamentos só para mim, pois agora Cameron está se divertindo as minhas custas, e isso está começando a me irritar.

— Então você prefere que eu fique vestido? - instiga ele.

— Eu sinceramente não me importo - olho séria para Cam, que exibe suas covinhas.

— Então tá, neném

— Não me chama assim - digo revirando os olhos.

— Assim como, neném?- pergunta ele, me arrancando um sorriso. Odeio quando ele me faz sorrir quando estou tentando com todas as forças ficar com raiva - Só tô tentando te deixar menos tensa - ele adquire uma expressão mais séria, querendo mostrar que essa é realmente sua intenção.

— Eu não tô tensa - retruco

— Suas cutículas estão pedindo socorro - ele pega nos meus dedos, me fazendo perceber o estrago que fiz - O que tá te preocupando? - ele pergunta, delicadamente

— Eu não sei - mordo o lábio inferior e respiro fundo.

— É por causa da sua mãe? - percebo que Cam está me observando e me mexo no banco, me sentindo desconfortável com a atenção que estou recebendo.

Sei que já estou aqui e não tenho como voltar, mas também sei que há uma grande possibilidade de eu não conseguir me divertir.Sempre que estou rindo ou brincando com eles acabo me lembrando do que eu deixei pra trás e, apesar de não ser perfeita, minha família sempre esteve lá por mim. Minha mente não consegue bloquear a culpa que sinto.É como se estivesse traindo uma parte importante de quem eu sou e, essa parte está começando a gritar cada vez mais alto que o que estou fazendo é errado e que isso vai acabar muito mal.

— Talvez...acho que sim.

— Eu entendo que você tá preocupada com a forma que ela vai reagir, sabe...por conta da depressão e tal - olho para ele com a boca entreaberta.É tão bom quando alguém que consegue entender pelo o que você tá passando, sem que você precise explicar. Um alívio, pois eu não sei se conseguiria.

E de fato é exatamente isso que está me perturbando, não quero ser o motivo de mamãe ficar mal de novo. Não quero ela pense que não vou voltar. Ela tá indo tão bem, cada dia que passa parece mais com ela, dando adeus ao zumbi que habitou nossa casa por quase 1 ano. Não sei qual versão de mamãe estará me esperando quando voltar.

Mas como uma mãe lida com a fuga de um filho? ela ficará devastada, desapontada, furiosa. Ela vai achar que sou a pessoa mais egoísta do mundo .Será que o fato de ela já ter feito algo parecido ajuda a amenizar o choque? Talvez, mas ela voltou na mesma noite, não é mesmo? mal chegou a sair do estado e eu já estou em Wyoming.

—Susan é forte, Anne - quero tanto acreditar nele, mas eu tive que assistir mamãe tentando se recuperar e foi doloroso. É muito fácil ter seu coração partido, difícil é juntar ele.

— Eu espero que sim -  sinto um nó na garganta começando a se formar. Eu deveria tentar ligar para ela ou mandar uma mensagem de voz.Não, Alec iria encontrar uma maneira de me achar, ele me amarraria e sairia me arrastando de volta a Deadwood.

— Ei, não chora - ele franze o cenho parecendo preocupado, olho para cima piscando várias vezes, tentando com todas as forças não desmoronar.

— Eu não tô chorando! - tento dar um risadinha e acabo parecendo ainda mais patética.

— Olha pra mim, você tá fazendo uma coisa incrível - e só basta isso para me fazer chorar.Quando as pessoas tentam me consolar só acabam tornando ainda mais difícil minhas tentativas de não cair aos prantos - tá saindo da sua zona de conforto, tô orgulhoso - ele dá um meio sorriso e não parece nem um pouco desconfortável com a situação - Vem cá - ele abre os braços e eu me aproximo, me aninhando junto ao seu peito.

— Talvez dê tudo certo -  digo depois que consigo controlar minha respiração.

Olho para ele, que me dá um beijo no topo da cabeça.E isso quase me faz chorar de novo, ele percebe e me abraça mais forte, tento me concentrar no cheiro do seu shampoo.Baunilha.Um cheiro bom. Pra falar a verdade, não me incomodaria de sentir esse cheiro pra sempre.

 Um barulho na janela faz com que eu pule para longe dele.

— Reboque - diz um barrigudo de meia-idade enquanto bate na janela.

Saímos do carro e entregamos a chave, aguardamos ele colocar a minivan na parte de trás do seu caminhão e só depois subimos na cabine.

— Cês se divertiram enquanto tavam me esperando? -  a voz rouca dele está cheia de malícia, e fico abismada com sua ousadia.Ele por acaso está insinuando que Cameron e eu estávamos... sabe... dentro do carro?

— A gente ficou conversando - não sei se Cameron está alheio ao que o gordão realmente quis dizer ou se simplesmente está fazendo pouco caso de sua pergunta - Você não demorou muito.

— Conversando? sei...imagino o tipo de conversa que cês tavam tendo - ele dá uma gargalhada rouca, e olho de forma agressiva para ele esperando que entenda que está sendo invasivo com seus comentários - Dois adolescente sozinhos em um carro sem nada pra fazer - ele cutuca Cameron com o cotovelo e me mexo no banco, tentando me distrair com a paisagem - Quando eu era jovem toda mulher queria ser comida no meu carro, era o melhor motel da cidade - mordo a língua tentando me controlar, se eu falar alguma coisa podemos perder o reboque e isso não seria nada bom.

— É, aposto que você era um garanhão - a voz de Cam está carregada de sarcasmos mas o homem não parece notar, pois dá uma gargalhada e estufa o peito, orgulhoso de suas memórias douradas.

— Pode apostar que eu era - ele ergue o queixo. Cameron e eu reviramos os olhos ao mesmo tempo. Que babaca.

Eu me pergunto o que passava na cabeça dessas mulheres, porque eu jamais dormiria com alguém tão desrespeitoso,alguém que me trata como um prêmio a ser vangloriado, não importa o quanto ele seja bonito, isso simplesmente não é o suficiente para mim.

Ele abre a boca para continuar e solto um suspiro pesado. - E se quer um conselho... pode ter certeza que essa aí é chave de cadeia - ele pisca pra mim e sinto Cameron ficar rígido ao meu lado,  vejo ele  cerrando os punhos e rapidamente seguro sua mão, não por medo que ele machuque o cara, sinceramente, eu mesma bateria nele se não precisássemos chegar até esse maldito posto e creio que ele não é muito útil inconsciente.

— Olha aqui - minha voz sai alta e respiro fundo tentando controlar meu tom - Não fale com a gente pelo resto dessa viagem, ninguém é obrigado a ouvir suas merdas - viro o rosto em direção a janela, sem esperar para ver sua reação.

Eu posso me passar por uma garota frágil e indefesa,mas cresci com 3 irmãos mais velhos e eu posso até ter deixado eles me domarem ( acabei me acostumando com algumas coisas, mas não deveria) porém antigamente, quando era mais nova, minha voz era tão alta quanto a deles.Eu corria como uma garota, lutava como uma garota e certamente eu sabia manipular como uma garota. Ainda consigo fazer essas coisas, mas agora os meus rompantes tem momentos certos, principalmente quando é necessário calar a boca de alguns idiotas que cruzam meu caminho.

— Quem é você  e o que fez com a Anne? - Cameron sussurra com a boca colada em minha orelha, causando alguns arrepios pelo meu corpo.

— Eu não ia ficar esperando você me defender - retruco, virando o meu rosto na sua direção,ele parece surpreso com minha resposta ou com a minha aproximação.

Passamos o resto da viagem ouvindo o barulho do motor do carro. Ocasionalmente Cameron parava de girar os seus anéis para me olhar, fazendo com que eu  lutasse para não olha-lo de volta. Ficamos nesse jogo por algum tempo, eu fingindo está prestando atenção na paisagem e ele voltando a atenção para as mãos sempre que eu o pegava me olhando.

 O gordão passou todo o caminho fitando apenas a estrada e não voltou a falar, nem mesmo quando chegamos ao nosso destino.

— Estamos fodidos - essa é a recepção de Henry assim que descemos da cabine.

— O que aconteceu? - Cameron passa a mão no cabelo e dá um suspiro cansado.

O posto de gasolina está caindo aos pedaços, poderia ser facilmente confundido com um local abandonado se não fosse pelos dois frentistas que estão vestidos com uniformes sem graça, ambos parecem estar sendo consumidos por um tédio mortal.

— O cara que tem a água mágica...

— Água desmineralizada com aditivo - corrige Erick.

— Tanto faz - Henry comprime os lábios, se esforçando para não surtar - Ele só chega amanhã e nossa reserva no hotel é pra hoje! - a voz dele sai esganiçada. Cameron reflete a minha expressão em seu rosto. Não quero ficar presa aqui, esse local parece um cenário perfeito para uma chacina.

Não sei muito bem como funcionam os hotéis chiques de Las Vegas, mas tenho a leve impressão que se não chegarmos no horário que agendamos ficaremos sem nossos quartos.

— Alguém aqui deve ter celular - digo, colocando a mão na cintura - Você liga para o seu pai e pede para ele explicar nossa situação - não quero demostrar que estou perto de surtar, basta uma pessoa por vez e Henry já está fazendo esse trabalho.

— Só tem uma pessoa aqui com celular - Thereza aponta para loja de conveniência - e  pelo o que o Henry disse ele não tá muito afim de ajudar.

— Como você falou com ele? - Cameron pergunta para Henry.

— Do mesmo jeito que falo com todo mundo! - Henry começa a andar de um lado para o outro parecendo estar muito perto de ter um colapso.

— Foi o que eu pensei - Cam  direciona os olhos para o chão - O que ele disse?

— Que eu teria que ficar no caixa por ele - Henry faz umas caretas enquanto fala - Disse que só assim ele me deixaria fazer uma ligação para Nova York - é como o mundo real funciona, nada vem de graça, somos uma grande fábrica de trocas.

— Acho que é o jeito, né? - não que eu já tenha me imaginado trabalhando em um posto que fica na esquina do fim do mundo mas...

— Nem pensar que eu vou trabalhar só para fazer uma ligação - Henry me olha impaciente, como se eu fosse estúpida por considerar essa possibilidade. Mas não temos outra opção. Pegar ou largar.Além do mais, vamos ter que ficar aqui o dia todo, pelo menos trabalhando no caixa vamos ter algo para nos distrair, eles sempre guardam aquelas mini tvs em baixo do balcão, né?

— Então vamos ficar sem a reserva no hotel!

— Acho que não custa pedir outra vez, talvez agora ele mude de ideia - Ele agarra meu pulso e me coloca ao lado de Thereza. Olho para ela, que está tão confusa quanto eu.

— O quê? vai usar a gente como cobaia? - pergunta ela em meio a uma risada. Cobaia? como assim? não...pera... será que ele vai nos fazer roubar o celular?! nem pensar, não estou tão desesperada para dormir em um quarto. Será que é crime acampar em frente ao Bellagio?

— Exatamente - diz Cameron, colocando a mão na cintura.

— Nem pensar - nego veemente com a cabeça.

— Vocês são a nossa única esperança - fito Thereza, que ao contrário de mim, parece bem confortável com a ideia.

— O que a gente vai ter que fazer? - ela indaga, erguendo uma sobrancelha. É uma péssimo plano, ele pode ter uma arma e com certeza ele atiraria na gente!!! nem temos para onde correr! sabia que acabaríamos todos mortos.  

— Eu daria tudo pra poder filmar essa cena - Erick começa a rir. Hãm? ele quer filmar a namorada sangrando até a morte? qual o problema desse garoto?

— Você duas só vão ter que seduzir o cara - diz Cameron dando de ombros. Quê?! não era isso que eu esperava - Cheguem lá, pisquem algumas vezes deem um sorrisinho e pronto, o celular é nosso.

— Eu não sei fazer isso! - declaro enquanto cruzo os braços. Não estou dizendo isso somente para me safar da situação, se eu tentasse seduzir qualquer pessoa ela provavelmente começaria a rir da minha cara descontroladamente.Sério, nem sei por onde começar. Não me ensinaram isso na escola.

— É só ficar do lado da Theza - Erick pisca pra namorada, que dá umas risadinhas - Ela com certeza sabe...- Cameron ergue as sobrancelhas e esfrega as mãos uma na outra.

— Então vamos lá - Thereza fala, ela olha para mim como se estivéssemos prestes a lutar em uma guerra.

Olho para os outros, que esperam minha resposta. Eu realmente não sei o que devo fazer, não sei o que eles esperam que eu faça e essa situação toda é muito constrangedora, mas algo no olhar do Henry diz que eu não tenho opção. Thereza sai determinada em direção à loja de conveniência e faço menção de segui-la mas Cameron segura o meu braço:

— Espera - ele leva a mão em direção ao meu rosto.

— Ei! - arregalo os olhos e o afasto por impulso.

— Calma, não vou te machucar  - ele diz com um meio sorriso e sinto minhas bochechas pegarem fogo -Isso é só para facilitar as coisas lá dentro - ele pede permissão com os olhos e aproxima a mão novamente - não só a mão mas o corpo todo - seu cabelo desgrenhado quase toca o meu rosto. Posso sentir o cheiro dele de novo. Baunilha. Ele continua a me fitar, até mesmo quando pega uma mecha solta e a coloca gentilmente atrás da minha orelha.

Prendo a respiração e não ouso me mover.

Erick tosse de uma forma exagerada  e  Cam recua um pouco. Tenho consciência que os outros estão observando cada movimento, como se estivessem assistindo a um filme e não pudessem deixar passar nenhum detalhe, mas meus pés estão grudados no chão e não consigo ver nada além de seus olhos.O seu corpo irradia calor, consigo sentir sem precisar toca-lo.Ele continua me olhando sem falar nada. Por que ele não diz nada? acho que agora seria o momento ideal para alguém falar.

— Como isso vai ajudar a gente? -  o observo corar e isso me faz sorrir. Nunca o vi ficar vermelho, ele sempre pareceu ter muita certeza de tudo, mas minha pergunta o pegou desprevenido e é agora eu que me divirto com seu nervosismo.

— Assim dá pra ver seus olhos - Erick solta um suspiro de surpresa, assim como eu, não esperava que Cameron fosse responder a pergunta de uma forma séria. Cam muda o peso do corpo de uma perna para outra, visivelmente incomodado com a nossa reação.

Esse elogio indireto me aquece por dentro.Nunca vi beleza em meus olhos castanhos mas faço uma nota mental para agradecer mamãe por ter me dado eles.

— Duvido que ele vá se importa com os olhos dela - opina Henry e consigo notar que Cameron está aliviado por não ser mais o foco do grupo. Henry marcha até onde estou e antes que eu possa fazer alguma coisa ele abre os dois primeiros botões do meu vestido - Isso sim vai ajudar - ele apoia a mão no queixo e olha sem pudor para o meu decote, percebo que Cameron também está me avaliando e puxo o vestido para cima, tentando cobrir o máximo que posso.

— Hm... é... isso também serve - Cam limpa a garganta e mexe em algumas pedrinhas com a ponta do All Star.

— Você não vem? - Thereza grita, chamando a atenção de todos para o que realmente importa.

— Só saiam de lá com o celular! - berra Henry e volta a caminhar de um lado para outro, visivelmente aflito.





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