With a Little Help From My Friends escrita por Mariana Mendonça


Capítulo 14
Capítulo 14 - Aquele Com a Decisão





                               

 

Logo que chegamos no Lee Cafe senti que estava atrapalhando algo, como se estivesse comparecido a uma festa que não havia sido convidada. No começo eles tentaram se entrosar comigo mas,para o meu alivio, foi só se acostumarem com a presença um do outro que me ignoraram completamente.

Pensei que logo que o assunto acabasse iriamos embora, porém o assunto não acabou, sempre surgindo novos tópicos e novas coisas para relembrar. E eu realmente fiquei feliz por mamãe ter um amigo de novo ou pelo menos alguém para conversar. Então decidi dar uma desculpa qualquer e voltar para casa, assim deixando os dois mais a vontade.

Quando cheguei no final da tarde, tirei a bateria do meu celular e,para ter certeza que eu não cederia a tentação de ligar para qualquer um deles, o tranquei na gaveta da escrivaninha e guardei a chave em meio a varias roupas.Peguei "As vantagens de ser invisível" e abri em uma pagina aleatória, mas desisti depois de ler a mesma frase umas 7 vezes.

Estava tão desesperada por distração que pensei até em pedir para Aron me ensinar algo, QUALQUER coisa, sobre programação... mas ele não abriu a porta do quarto.Então decidi que reorganizaria meu guarda-roupa levando em consideração as cores, o resultado final foi satisfatório, porém só tinha ocupado 30 minutos do meu tempo.

Ás 17:00 a campainha tocou, desci as escadas correndo enquanto o meu coração ameaçava sair pela boca, mas quando abri a porta era apenas uma menina de no máximo 11 anos vendendo barras de chocolate, ela me olhou com uma cara muito estranha e me perguntou por quê estava tão vermelha.Comprei 3 barras e me repreendi mentalmente por achar que eles viriam se despedir.

 Depois de quase ter devorado todo o chocolate, fui lavar as mãos no banheiro e acabei lavando o banheiro inteiro.

18:30. Mamãe chega.

O tempo não passava, era como se eu estivesse paralisada por ele.No final acabei fazendo uma faxina completa no quarto.

Mas o ponto critico foi às 21:00hrs. Comecei a assistir Keeping Up With The Kardashians com mamãe. Ela ia tentando me explicar quem era quem: ela dizia os nomes e no segundo seguinte eu já havia esquecido. Ela tentava explicar que Bruce é uma mulher e se chama Caitlyn, que a menininha Kylie atualmente fatura tanto quanto a irmã Kim. Agora são exatamente 22:00 e esse reality show me ajudou muito mais que a faxina que fiz mais cedo.

"Kim, pare de tirar selfies, sua irmã está indo para cadeia" diz a voz da Kardashian mãe.

— Querida, acho melhor subirmos - mamãe boceja e por reflexo eu também - Amanhã é seu aniversário de 18 e temos que fazer alguma coisa especial...

— É só mais um aniversário, podemos ficar em casa e pedir pizza - pego o controle e desligo a TV.

—Sabe Aninha, estava pensando - ela olha pra mim enquanto acaricia minha cabeça - Tudo é temporário.Isso é bom e ruim ao mesmo tempo, as coisas ruins passam, mas as boas também.

— Por que está me falando isso? - pergunto, sem conseguir ver direito seu rosto na sala escura

— Porque demorei muito tempo para perceber - ela me dá um beijo no topo da cabeça - Só queria que não demorasse tanto pra você.

—--------------------------xxxxxxxxxxxxxxxxxx------------------------------

23:00. Estou deitada no quarto escuro sem conseguir encontrar uma posição confortável para dormir, meus pensamentos impedem que o sono chegue.Fico me movendo de um lado para o outro, pelo menos às horas estão passando... quanto mais perto de 00:00 mais livre me sinto para respirar. Eles não vão aparecer, fico repetindo isso para mim mesma.

00:30. Me debato na cama irritada por não conseguir dormir, talvez um segundo banho ajude a acalmar. Pego minha necessaire e vou ao banheiro. Deixo minhas coisas em cima da pia e vou  para debaixo do chuveiro esperando que a água morna consiga afastar a ansiedade, passo os dedos pelo cabelo, desfazendo alguns nós enquanto tento tirar o condicionador.

Quando termino, me enrolo em uma toalha e com outra tento tirar o excesso de água do cabelo,abro a porta do banheiro e congelo, com um grito ainda  preso na garganta. Há uma silhueta  parada ao lado da janela, assim que percebe minha presença vem em minha direção como um raio.Recuo em direção a parede, segurando a tolha junto ao corpo com força.Meu impulso inicial é acender a luz do quarto, mas o interruptor está longe.

— Você têm que vir com a gente - a voz soa urgente muito próxima ao meu rosto.

— Cameron? - pergunto, mas já sei a resposta. Consigo ver a forma de seus cachos agora que está perto de mim.

— Vamos! - ele apoia os braços na parede, me encurralando.Agarro a toalha com mais força, agradecendo mentalmente pelo quarto estar escuro - Não temos muito tempo, Aninha.

Sinto que esse momento, esse exato momento, irá dividir minha vida para sempre entre o antes e o depois. Lembro do que mamãe me falou mais cedo, sobre ter fugido de casa quando era mais nova, ela disse que tinha sido um erro mas não parecia arrependida. Depois ouço uma voz conhecida dizendo: Arrisque-se.

— Eu não poss.. - tento dizer, quando ele me interrompe.

— Não pensa, só vem - ele diz, agarrando minha mão e me puxando em direção a janela. Paro abruptamente, ele me solta  e olha pra mim. Minha respiração começa a ficar ofegante.

— Eu tô só de toalha - algo começa a efervescer dentro de mim, quase como na noite da virada do ano, porém muito mais forte.Sinto vontade de gritar mas continuo a falar em forma de sussurro - Não fiz as malas, eu...

— Não têm problema, a gente dá um jeito. A Thereza tá com uma mala gigante, você pode usar as roupas dela, porra...você pode usar as minhas roupas ou podemos comprar outras no caminho - mesmo sem conseguir ver seu rosto, sei que ele fala sorrindo.

Meus pés me guiam em direção ao interruptor. A adrenalina me impede de ficar vermelha por Cameron está me vendo só de toalha. Corro em direção ao guarda-roupa e pego um vestido e uma jaqueta jeans. Cameron me olha como se não conseguisse acreditar que me convenceu, mas pra falar a verdade acho que passei o dia todo esperando que ele me pedisse para ir de novo.

— Procura algo pra que eu possa calçar... ah.... papel e caneta também.... e uma bolsinha com meus documentos - aponto para e escrivaninha e entro no banheiro, deixo a toalha cair  e me enfio dentro do vestido o mais rápido que posso, passo os dedos pelo cabelo e respiro fundo.

— Estou pronta - digo, pegando a jaqueta

— Papel e caneta - ele me entrega um papel que deve ter arrancado de uma folha de caderno e uma caneta esferográfica azul.

Escrevo rapidamente um bilhete na esperança que mamãe não fique tão preocupada:

  "Mamãe, tudo é temporário. Mas ás memorias não, estou indo em busca de algumas. 
                                                                                                     Com amor                                                                                                            Aninha"
     E mais uma vez saio pela janela do meu quarto.

Saímos correndo de mãos dadas pela rua deserta, paro ocasionalmente tentando colocar o All star branco que Cameron escolheu. Nunca me senti tão jovem e selvagem, é como se fôssemos as únicas pessoas vivas no mundo. Ao longe, consigo ouvir latidos de cães, consigo ouvir a respiração ofegante de Cameron e sinto o vento frio da madrugada balançar meu cabelo.

— Lá estão eles - Cameron aponta para o final da rua, onde uma Minivan está estacionada com os faróis apagados.

— Cadê o volvo do Henry? - pergunto, sem fôlego.

— Ele trocou de carro com minha tia temporariamente. - Cameron solta a minha mão conforme nos aproximamos da Minivan.

— Ainda bem que vocês chegaram! - Henry sai do carro e vem me abraçar, me girando no ar - Vamos! vamos! entrem no carro, vadias. A cidade do pecado nos aguarda. - ele da palmadinhas em nossas bundas e sai saltitante.

Henry liga o motor do carro e eu sento no banco de passageiro olhando pela janela enquanto observo minha casa desaparecer.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "With a Little Help From My Friends" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.