Na Minha Vida escrita por André Tornado


Capítulo 9
A ilha da salvação


Notas iniciais do capítulo

No capítulo anterior:
Os quatro rapazes conseguem iludir, mais uma vez, a polícia escapando por uma porta secreta disfarçada num alçapão. Entram num barco, já preparado por Ringo para uma eventual fuga e começam a navegar quando anoitecia...



John Lennon pareceu despertar com um estremeção que o sacudiu de cima a baixo. Pestanejou pronunciadamente, fez uma careta e arremedou a voz do velho companheiro de escola:

Uma ilha?!

— Pode ser a nossa salvação – opinou George.

— A nossa única salvação – acrescentou Ringo.

— Tens alguma ideia melhor, John? – perguntou Paul desafiador. A fadiga ainda lhe sombreava o olhar mas parecia ter sido espicaçado com a possibilidade de uma discussão.

Inacreditavelmente, John negou com a cabeça, cruzou os braços e assumiu a derrota da peleja, aligeirando a tensão da sua postura.

— Não, não tenho nenhuma ideia. Dizes que existe uma ilha perto se formos na direção oeste?

— Sim, John. Conheci o sítio há um ano, ano e meio. É um retiro quase secreto dos ricos e famosos. Num pedaço de rocha foi construída uma vivenda enorme com jardins à volta, um porto privativo, piscinas, campo de golfe, todas essas comodidades que esse tipo de gente aprecia. Estive lá algumas ocasiões, para umas festas, com a minha ex-namorada. Fica muito próximo do continente, mas é um ponto geográfico suficientemente pequeno para se tornar quase secreto, um retiro exclusivo dos endinheirados. Não se faz muita publicidade dessa ilha para evitar a exposição pública. Depois deixaria de ser… um retiro. Entendem? Pouca gente já foi até à ilha. Só se vai por convite e se tiveres um barco, claro.

— E dizes que nesta época não está lá ninguém? – quis George saber, interessado. – Tens a certeza?

— Sim, certeza absoluta. A temporada das festas ainda não começou.

— Existe uma temporada de festas?

— O Paul costuma arranjar namoradas na alta sociedade – esclareceu John, piscando o olho.

— Oh! – exclamou George impressionado.

— Muito bem, convenceste-me – anunciou Ringo levantando-se do assento da popa. – O leme é teu.

Sem largar o manípulo, para que o barco prosseguisse no seu rumo, Ringo fez um gesto com a mão a pedir que Paul se aproximasse e tomasse o seu testemunho, enquanto condutor da embarcação. Este assim fez, caminhando com cuidado pois logo que se levantou aconteceu um ligeiro balanço que aproximou o pequeno barco das vagas, alguns salpicos molharam George que se encolheu ainda mais friorento.

Paul agarrou no manípulo, sentindo-o trepidar sob a mão por conta do motor que prosseguia na sua velocidade máxima, sentou-se no banco que ocupava todo o comprimento da popa. John sentou-se ao seu lado.

— Percebes alguma coisa de navegação marítima, Macca?

A pergunta destinava-se a esclarecer o grupo, mas sobretudo servia para deixar a certeza de que a ideia, aquela única e preciosa, tivesse o resultado desejado. Ou seja, que aquela viagem se saldasse num objetivo concreto, o alcance de terra firme, longe da polícia, um lugar onde poderiam descansar, abrigar-se da humidade da noite, comer e beber qualquer coisa.

— Basta seguir o pôr-do-sol – respondeu Paul indicando o horizonte que ainda conservava alguma claridade.

— Quantos minutos?

— Poucos, menos de uma hora. De certeza.

— Certo. – John esticou o pescoço e semicerrou os olhos, como que a querer lobrigar algo na distância, para além do manto líquido e infinito do oceano. – Então quer dizer que em menos tempo já devemos conseguir ver a ilha.

— Provavelmente.

— Daqui a meia hora?

— Não sei, John. Talvez… Sim, talvez meia hora.

— Um calhau no meio das ondas? Terá luzes, como um farol? Para alertar os navios de que existe ali terra que devem evitar para não acontecer uma colisão?

— Acho que tem um farol elétrico.

— Então veremos o farol antes de vermos a ilha.

Uma declaração. Paul, nervoso, acenou que sim e concentrou-se na condução do barco, olhando em frente, adotando uma postura muito profissional e segura, como se percebesse o que estava a fazer. Na realidade estava ligeiramente apavorado. O mar era imenso, o sol já se tinha posto havia largos minutos e o ocidente que ele seguia, ao apontar para a faixa clara que ainda pintava a linha divisória que separava o mar do céu, podia não ser a direção inteiramente correta. Respirou fundo o ar salgado. Se aparentava confiança, iria sentir-se confiante, decidiu-se!

O estímulo daquele desafio animou-o mais do que a mais recente fuga da polícia através do alçapão, por debaixo do ancoradouro, a entrada furtiva no barco, o deslizar silencioso da quilha pelas águas. Fechou a boca numa linha e focou-se no horizonte. O amigo tinha razão, veriam antes uma luz e depois avistariam um rochedo e saberiam que estavam salvos de uma longa e perigosa travessia marítima. Ele era alguém competitivo, trabalhador e versátil. Se lhe colocavam um problema, ele encontraria uma solução para o mesmo. Aquela situação não era diferente dos casos com os quais ele tinha normalmente de lidar no escritório, que estavam quase sempre descritos em processos de muitas folhas, textos que relatavam o que era necessário resolver. Aquela situação era mais física, mais concreta, mas a abordagem deveria ser a mesma, com recurso ao intelecto e sem entrar em desalentos, sem baixar os braços à primeira dificuldade.

Em suma, Paul estava muito otimista.

Mas a meia hora passou e a hora também se completou, mais outra hora e possivelmente já iam na terceira hora de viagem e nada de aparecer uma luz a varrer sistematicamente a escuridão, nem sequer um vulto rochoso a irromper da superfície do mar. Seria até um pouco difícil ver qualquer ilha pois a noite caíra por completo e o mais opaco bréu rodeava o barco que se mantinha a navegar com firmeza numa rota que não conhecera qualquer desvio.

George e Ringo dormiam encostados um ao outro, para se aquecerem. Tinham colocado as guitarras e a viola-baixo apoiadas nos seus joelhos para criarem uma espécie de barreira para amenizar o vento frio que os enregelava, prendendo os instrumentos com o par de remos, para que não deslizassem com o balançar das ondas. John mantinha-se ao lado de Paul, braços cruzados e bem cingidos ao peito, joelhos unidos e pernas a abanar para manter os músculos aquecidos, pois a humidade caía sobre eles como uma chuva miudinha. O queixo tremia, mas ele não dava parte de fraco e não confessava que a baixa temperatura estava a incomodá-lo. Paul era uma estátua digna de um capitão, a segurar o manípulo do leme, olhando em frente mesmo que não conseguisse ver nada naquela escuridão. As únicas luzes que podiam enxergar provinham das estrelas ocasionais que as nuvens deixavam entrever no céu escuro, quando eram arrastadas pelo vento. A lua também se encontrava encoberta pelo que a viagem fazia-se sob um negrume opressivo.

Fazia algum tempo que John hesitava. Ia dizer alguma coisa, mas recuava quando as palavras já lhe queimavam a língua. Ou porque se arrependia do que queria comentar, ou porque julgaria que o momento tinha passado, as variáveis tinham mudado e a sua observação já não faria sentido, buscando uma outra. Nessa altura, as pernas mexiam-se mais rapidamente, depois ficavam quietas durante um par de segundos e retomavam o tremelicar menos ansioso.

Por fim, não foi capaz de suster por mais tempo a fala.

— Presumo que esse farol elétrico esteja desligado… Como não estamos na temporada das festas e como ninguém lá vai a essa ilha… Seria mais fácil se estivesse ligado, não?

Paul não lhe respondeu. O coração acelerou no seu peito. A hora da verdade chegava… Ele sabia o que estava a acontecer, já o sabia havia duas horas. Ou talvez há mais tempo.

— Diz-me Paul…

O amigo pressionou-o e ele não aguentou.

— Estamos perdidos, John!

As pernas ficaram estáticas, paralisadas com a resposta que John já conhecia mas que não queria escutar. Não olhou para Paul, continuou a olhar em frente, com a mesma oscilação que fazia-o engolir o que estava a passar pela sua cabeça.

— Macca…

— Eu disse-te – interrompeu Paul para evitar que John fizesse uma observação que o faria perder a calma. Incrivelmente continuava calmo e com uma ligeira esperança. O seu coração insistia, contudo, em continuar a bater depressa. Explicou numa voz serena: – Eu disse-te que era mais ou menos uma hora de caminho. Talvez mais, porque sempre que fui à ilha foi a bordo de um daqueles iates super potentes e este motor é mais fraco. Bem, não se compara, para dizer a verdade. Então fiz alguns cálculos. Duas horas, talvez? Mas o sol já se tinha posto e o ocidente perdeu-se. Não se conseguem ver as estrelas, também não me servia de nada pois não sou marinheiro e não faço a mínima ideia que estrelas seguir para não perder o rumo. Enfim… ainda virei para a direita…

— Direita?

— Estibordo! Ainda virei para estibordo… Talvez a ilha estivesse do lado direito… do lado de estibordo e tivéssemos passado ao largo. Foi uma viragem muito subtil, quase nem se deu por ela. Nada de ilha, nada de farol. Não acredito que desligassem o farol, a ilha é um obstáculo à navegação dos grandes navios. Iríamos ver o farol primeiro, de certeza…

— Ah, cala-te Macca! – gritou John levantando-se de súbito. – Não quero ouvir as tuas desculpas patéticas. Não me interessa o que não foi feito. Interessa-me o que está a acontecer… agora. Estamos perdidos! Estamos… condenados!

Ao pôr-se de pé, John fez o barco sofrer uma grande inclinação para a esquerda, ou melhor, para bombordo. Os dois rapazes adormecidos deram uma cabeçada um no outro e despertaram. George gemeu, esfregando os cabelos por cima das orelhas. Ringo voltou-se sonolento para trás e perguntou:

— Já chegámos?

John abriu e fechou a boca como um peixe. Outra das suas hesitações.

— O que fazes levantado? Senta-te, isso é perigoso – avisou Ringo. – Ainda fazes voltar o barco. E não temos coletes de salvação. Não consegui… arranjá-los, se é que me percebes.

John sentou-se e o barco retomava o seu equilíbrio sobre as ondas mansas. Estavam com sorte pois tinham mar calmo pela frente e a toda a volta. Um imenso, interminável e inescrutável oceano tranquilo. Até quando essa boa fortuna iria durar, era um mistério e ele não queria descobrir como seria estar naquele barquito durante uma daquelas lendárias tempestades marítimas.

— Estamos quase… a chegar – murmurou John

Paul mirou-o escandalizado. Abanou a cabeça. Não se sentia bem em mentir, não deviam enganar os seus companheiros, o combustível podia estar a terminar, a fome já lhe roía o estômago e a sede secava-lhe a boca. O mesmo se passaria com os outros. A sua situação era extremamente grave e complicada. Então revelou, no mesmo tom sereno:

— Estamos perdidos. Falhámos a ilha.

Ringo deu um salto por cima do banco, empurrando George que se agarrou aos braços das guitarras para não tombar para a frente. O barco voltou a oscilar loucamente e de forma tão pronunciada que uma chapada de água entrou pela amurada.

— Ei, cuidado! – avisou John agarrado ao banco da popa para não deslizar. A madeira estava gelada e molhada.

— O que queres dizer com essa de estarmos perdidos? – indagou Ringo num grito.

George endireitou as costas.

— Perdidos?!

— A viagem não devia durar assim tanto… Calculo que estaremos perdidos pois já se passaram cerca de três, quatro horas e ainda não vi a ilha. De resto é quase impossível ver qualquer coisa com este escuro. É noite cerrada – explicou Paul o mais casualmente que conseguiu. A mão apertava fortemente o manípulo do leme.

— Não tinha combustível para tanto! – exclamou Ringo a entrar em pânico, a sua voz a tornar-se mais estridente e irritadiça. – A gasolina não renderia para uma viagem tão longa.

— Ele é poupado, sabes? – gracejou John apontando um polegar ao amigo.

Ringo agarrou John pela camisola e abanou-o, histérico.

— Não é altura de contarmos piadas! Estamos no meio do mar, é de noite e não temos para onde ir!

— Ei, a ideia de fugirmos de barco foi tua, lembras-te?

— Quando arranjei o barco foi para fugir… contornando o cais antigo!

— Por que é que nos estás a contar isto só agora, Ringo? Contornar o cais? Sim, seria bastante mais simples e não estaríamos no meio do mar.

— Estava nervoso. As sirenes da polícia puseram-me nervoso!

— E foste tu que dirigiste o barco no início, levando-nos para mar alto.

— Continuei nervoso.

— Podes soltar-me? Estás a amarrotar a única roupa que tenho, neste momento.

George gritou:

— Perdidos, como? E a ilha com a mansão cheia de comida, campos de golfe e piscina? Estou cheio de frio e de fome!

— Bem, não és o único, sabes? – observou John espreitando por cima do ombro do baterista que lhe torcia o tecido da camisola com raiva.

Ringo largou-o com um safanão, John caiu para cima de Paul. Com o toque repentino, o motor teve um soluço. Os dois entreolharam-se aflitos. Se a gasolina terminasse naquele instante… seria o fim!

O berro frustrado de Ringo assustou George que fez coro com ele. Gritavam os dois um para o outro, como reflexo, como instinto, tomados pelo medo de se verem desamparados, no meio do oceano, num barco que prosseguia para nenhures.

— Eu não sei nadar! – confessou Ringo com lágrimas a escorrer-lhe pelas faces vermelhas.

John foi até à proa, agarrou no saco do dinheiro e abraçou-se a este. Pelo curto caminho lançou outra farpa:

— Se não sabes nadar, como é que tinhas um barco como veículo para uma fuga inesperada?

— Os coletes de salvação – lamentou-se em altos berros. – Os coletes de salvação, faltam os coletes. Já sabia onde iria roubá-los… Seria no dia seguinte, ou talvez no outro. Há uma loja de pesca na avenida que dá acesso ao cais novo… Não tive tempo! Não tive tempo!

George estava também paranoico.

— Eu não quero morrer!

Paul esticou um braço, abanou a mão.

— Calma, ninguém vai morrer! Continuamos a navegar, o motor ainda não parou. Enquanto continuarmos, iremos chegar a algum lado.

— E se parar daqui a cinco minutos? Não estou a ver nada! – apontou Ringo perturbado, limpando a cara. As lágrimas corriam involuntárias.

— Ninguém está a ver nada! Está escuro! – exclamou George.

— Pois é, está escuro! – concordou Ringo. – E a gasolina vai acabar daqui a cinco minutos!

— Como é que sabes isso? Não podes afirmar isso! – contestou Paul a zangar-se.

— Já dura há demasiado tempo – insistiu Ringo. – Há demasiado tempo, não é normal.

— Eu não quero morrer! – repetiu George.

John comentou:

— Estão completamente loucos!

Paul olhou para o amigo que dizia aquilo abraçado fortemente ao saco de dinheiro. Não era uma imagem que demonstrava grande sanidade, mas não quis comentar nada para não agravar o ambiente geral do barco que imitava um manicómio. Respirou fundo. Sentia o manípulo trepidar, o motor trabalhava naquele ritmo constante, ele não se apercebia de nenhuma alteração. Mas ele nunca tinha conduzido um barco, não sabia quais eram os sinais que indicariam um depósito vazio de combustível.

George e Ringo, aterrorizados, descontrolados, lívidos, aos gritos, abraçaram-se um ao outro. As pernas de John recomeçaram a tremer, agora mais pronunciadamente, os joelhos saltitavam.

Nisto, um enorme solavanco travou o barco. George desequilibrou-se e caiu borda fora. Ringo quedou-se com os braços levantados, a abraçar o ar. John empurrou o saco de dinheiro para cima de Paul e atirou-se ao mar para salvar o rapaz que pedia socorro. Escutou-se um baque seco.

— O que se passa?! – perguntou Paul num berro.

— Areia! Bati com a cara em… areia!

A hélice girava em seco e o ruído mecânico era ensurdecedor no meio do silêncio apenas cortado pelo marulhar das ondas. Paul desligou o motor, pois era evidente que estavam em terra. O barco não avançava mais, encalhado sobre… a areia mencionada por John.

Este levantou-se e notou que a água batia-lhe nos tornozelos. A seus pés George esbracejava e chapinhava na água baixa, continuando a pedir ajuda, engasgando-se e cuspindo o líquido que lhe chegava à boca.

— Ei, miúdo! Não te vais conseguir afogar. Para com a cena.

George obedeceu. Sossegou e também se levantou. Limpou a cara que estava cheia de areia, parecendo traumatizado e aliviado ao mesmo tempo. Olhou para as calças ensopadas na bainha. De facto, a água era baixa.

— Onde estamos? – perguntou Ringo.

Paul respondeu num fio de voz, inquieto e incrédulo:

— Chegámos.

— Está é a ilha? – estranhou George.

— Onde está o farol? – quis saber John.

Paul saltou do barco. A água não estava tão fria como julgara. Agarrou na viola-baixo, colocou-a a tiracolo. Ringo também saiu do barco, carregando as duas guitarras, as baquetas no bolso de trás. Colocou uma mão em pala sobre os olhos como se assim pudesse ver melhor e declarou:

— Acho que consigo ver uma praia.

John encolheu os ombros, deu-se por satisfeito. Deu um toque em George.

— Anda daí. Parece que chegámos.

No entanto, Paul continuava inquieto e incrédulo.

Não se lembrava de existirem bancos de areia antes da aproximação à ilha onde se divertira bastante com a sua ex-namorada. Era um rochedo agreste com falésias íngremes. A única areia que lá existia provinha de uma praia artificial construída sobre uma fajã.

Fez como John, encolheu os ombros e deu-se por satisfeito. Suspirou aliviado e também ele se dirigiu para a praia que mal se lobrigava na escuridão. Precisava de descansar e iria dormir primeiro, antes de procurar alguma coisa para comer e beber. Desconfiava que os outros iriam fazer o mesmo.



Notas finais do capítulo

Será que chegaram à ilha?
Chegaram a algum lado, isso é certo...
Um pouco de histeria e descontrolo, medos e irritações. Os rapazes têm personalidades fortes e não deixam nada por dizer!

Próximo capítulo:
Uma surpresa pela manhã.



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