Na Minha Vida escrita por André Tornado


Capítulo 21
A inspiração do deserto


Notas iniciais do capítulo

No capítulo anterior:
Os rapazes foram salvos pelo barco de pesca e a bordo estava a filha do capitão, Margaret, que foi muito simpática com eles. Deixou-os numa vila piscatória com algumas indicações de como proceder a partir dali e despede-se calorosamente de Paul.
John, Paul, George e Ringo compram um bilhete de autocarro e preparam-se para viajar até uma aldeia chamada Viejos...



Pelos vistos, os percursos entre a vila piscatória e a aldeia de Viejos não eram muito populares entre a população local, o que era de estranhar pois a não ser usando os caminhos do mar, não existia outro que se pudesse usar para sair dali. Os habitantes da vila seriam recatados ou agarrados à terra. O autocarro ia quase vazio, o que possibilitou aos quatro viajantes escolherem os seus lugares. E como rapazes malcomportados, ou com tendência para a rebeldia, escolheram os bancos traseiros.

Os escassos passageiros compunham-se de mulheres circunspetas e velhas que iriam visitar algum parente, homens de negócios carrancudos e gordos, camponeses que criavam aves e que usavam o autocarro para transportar as suas galinhas. Para além do calor abrasador que iriam suportar num trajeto que duraria perto de quatro horas através de um deserto, ficaram a saber pelo empregado que lhes vendera os bilhetes e que lhes dera estas informações a contragosto, teriam de ignorar o fedor nauseabundo dos galináceos e o seu agudo cacarejar constante. Malgrado aquelas condições deploráveis, eles prepararam-se para aproveitar o tempo da melhor forma possível, sem se importarem com o que os rodeava. De qualquer modo havia a vantagem de o autocarro ser praticamente deles.

A viagem começou com um motor a esforçar-se num bramido ensurdecedor e alguns solavancos derivados da estrada esburacada. A criançada surgiu de uma esquina e pôs-se a acenar ao veículo, movendo os braços alegremente, aos gritos. Os meninos desejariam, como parte de um sonho quase impossível, também partir naquele autocarro. Ao vê-los, George condoeu-se e devolveu-lhes os acenos.

John reclinou-se e apoiou as botas no encosto do banco da frente desocupado. Ringo esticou-se nos três bancos que ficavam à esquerda e Paul, após verificar que as guitarras estavam bem guardadas no compartimento de cima, atadas com a ajuda das respetivas faixas, sentou-se ao lado de John com a guitarra acústica. Tentou reclinar o seu banco, mas ao tocar no mecanismo este rangeu de forma suspeita e abandonou-o, com medo de partir alguma peça que fosse demasiado cara naquele ermo. O dinheiro que tinha na carteira não era muito, mas tinha dado para pagar os bilhetes que não foram muito caros, levando em consideração o tempo da viagem. Tinha também um cartão de crédito, só que não queria entrar em despesas desnecessárias pois precisariam de comer até chegarem ao seu destino e desconfiava que Ringo não iria permitir que se começasse a gastar o dinheiro do saco.

Espreitou os bancos da frente onde se sentavam os restantes passageiros, as velhas e os gordos, rodeados de gaiolas de onde voavam penas brancas e cacarejos. As suas malas inchadas tinham também sido colocadas nos compartimentos em rede situados junto ao teto do autocarro. O boné desbotado do condutor, um homem moreno e calado que se movia lentamente, estava ocultado por todos estes obstáculos visuais. Não era um mau sinal o condutor ser lento, pelo contrário. Dava alguma garantia de que a viagem iria decorrer razoavelmente bem, apesar das condições climatéricas, do estado da estrada e do veículo. O homem não iria acelerar para velocidades proibidas.

Paul avaliou a situação e ajuizou que ninguém se iria importar se ele tocasse alguma coisa. Sempre ajudava a distrair e ainda faltavam muitas horas até Viejos, o seu destino. Experimentou as cordas. O som saiu desafinado. Suspirou. Era normal. A guitarra era velha, tinha andado aos trambolhões naqueles dias, a ser transportada de cá para lá, em circunstâncias excecionais. Ao seu lado, John remexeu no bolso das suas calças e levou alguma coisa à boca que começou a soprar. Saiu som.

Uma harmónica.

Não se lembrava de lhes terem oferecido nenhuma harmónica na traineira e não tinham parado em nenhuma loja, entretanto.

— Onde arranjaste isso, Johnny?

— Na vila… – respondeu, evasivo.

— Na vila? Mas fomos diretamente do porto para o terminal.

— Estava esquecida num dos bancos do terminal. Vi-a e fiquei com ela.

Paul apertou os lábios, irritado. Aquela gente era demasiado pobre para que lhes tirassem coisas com aquela leviandade. Ringo pressentiu a discussão e sentou-se.

— Não tens necessidade nenhuma de roubares o que quer que seja.

John também ficou irritado.

— Porquê? Tens dinheiro suficiente na tua carteira para pagar tudo o que me apetece ter? – Fez uma careta, abanou a cabeça, falseou a voz. – Papá, papá, quero um gelado!

Paul revirou os olhos.

— Oh, não sejas infantil.

John estalou a língua e fungou.

— E eu não preciso dos teus sermões, Macca. Já sou crescidinho, faço o que me apetece. A harmónica estava em cima do banco, não havia ninguém por perto. Querias que a deixasse na bilheteira? Aquele tipo ficava com ela e não a devolvia ao seu dono. Ao menos, eu sei tocar isto!

— Não é tua.

— Agora é minha – e soprou com força, provocando um ruído desagradável.

Ringo suspirou.

— Querem parar, vocês os dois?

Não percebeu aquela picardia quando no barco tinha assistido, com George, à sua tão grande proximidade, uma união fraterna que demonstrava inequivocamente que eram amigos verdadeiros. Aliás, nunca nenhum deles mencionou nada do que aconteceu durante aqueles quatro dias enquanto andaram à deriva. Não seria usado como arma, nem como lembrete, nem como coisa nenhuma. Tinham sido horas péssimas que nenhum deles gostaria de recordar e estabeleceu-se um acordo tácito e silencioso para que nunca mais se falasse do que tinha acontecido. Um passado comum que ficaria sepultado no mar onde o barco afundara, pouco depois de terem sido recolhidos pela traineira do pai de Margaret.

— Julgava que iríamos ouvir música – interveio George, abandonando a janela através da qual estivera a contemplar os primeiros instantes da viagem.

— Toca também, George – pediu John ensaiando algumas notas na harmónica.

— Preferia nessa guitarra, mas as cordas estão ao contrário para que o Paul possa tocar. Não tudo bem, Paul… É tua, nestes dias. Na guitarra elétrica, o som fica deturpado sem o amplificador.

— Vou arranjar-te um banjo.

— Combinado!

— Johnny…

— Não posso roubar um banjo para o Georgie, papá? – troçou John a esticar os lábios num trejeito pueril. – Oh, o Georgie quer tanto tocar o banjo!

O rufar abafado das baquetas de Ringo sobre a superfície de couro do encosto dos bancos impediu a réplica de Paul, que tornou a morder os lábios.

— O que vamos tocar? – perguntou interessado. Retirara o saco de dinheiro do pescoço. – Eu providencio o ritmo.

— Uma daquelas tuas canções com uma história, Macca.

Paul olhou para John. As cordas vibravam, contidas, com alguns acordes simples. Continuava desafinada, rodou uma tarraxa. Se usasse mais pressão a corda partir-se-ia e parou de rodar.

— Hum… Talvez…

— Por favor, não cantes uma canção dedicada à Margaret. Acabaste de a conhecer!

O rosto de Paul enrubesceu.

— Consegues ser tão…

— Diz, Macca! – riu-se John. – Expõe essa raiva, querido.

— Ah, uma canção como aquela do Bungalow Bill? – recordou George entusiasmado.  – Sim, o John disse que tu tens canções dessas. Quero ouvir!

— O deserto vai inspirar Paul McCartney – declarou John, eloquente, apontando com um gesto a paisagem amarela e vasta que se desenrolava através do vidro da janela empoeirada. Não chegaram a subir as montanhas que criavam um muro natural para a vila piscatória. Tinham contornado o relevo e já rodavam no extenso e infértil deserto.

Paul pigarreou. Sentou-se de costas direitas, dedilhou a guitarra numa harmonia que fazia lembrar o velho Oeste americano. Começou, num tom presunçoso e grave:

— Meus caros, esta é uma história verdadeira que de seguida vos irei revelar. Foi-me contada por um velho garimpeiro que foi à procura de ouro e que regressou de mãos vazias. Porque todo o ouro que encontrou no rio, vendeu por bom dinheiro. E todo o dinheiro que conseguiu, gastou em whisky, em jogos de cartas e em meninas bonitas. Quando o conheci era pobre, mas continuava a ser muito feliz… pois tinha conseguido sobreviver aos seus dias da febre do ouro.

John sorria, deliciado com o discurso de Paul. Colou a harmónica aos lábios e começou a tocar, acompanhando os acordes da guitarra acústica. George aguardava, Ringo usava uma batida suave.

E Paul cantou assim:

 

Now somewhere in the black mountains hills of Dakota

There lived a young boy named Rocky Raccoon.

And one day his woman ran off with another guy

Hit young Rocky in the eye, Rocky didn’t like that.

He said I’m gonna get that boy.

So one day he walked into town

Booked himself a room in the local saloon.

 

Então algures nas montanhas negras do Dakota

Vivia um rapaz chamado Rocky Raccoon.

E um dia a sua mulher fugiu com outro tipo

Atingiu o jovem Rocky no olho, Rocky não gostou disso.

Ele disse que iria apanhar aquele rapaz.

Então um dia ele entrou na cidade

E reservou para si um quarto no saloon local.

 

O sotaque de Paul imitava aquele dos cowboys das séries juvenis dos domingos de manhã, dos grandes filmes de pistoleiros, das lendas dos tempos áureos do cinema. Só faltava estar a mascar tabaco e a cuspi-lo… As lembranças mornas desses dias mais simples, quando jogavam à bola na rua como as crianças da vila, encheu os pensamentos dos quatro rapazes.

 

Rocky Raccoon checked into his room

Only to find Gideon’s bible.

Rocky had come equipped with a gun

To shoot off the legs of his rival.

His rival it seems had broken his dreams

By stealing the girl of his fancy.

Her name was Magil and she called herself Lil

But everyone knew her as Nancy.

Now she and her man who called himself Dan

Where in the next room at the hoedown.

Rocky burst in and grinning a grin

He said Danny boy this is a showdown.

But Daniel was hot, he drew first and shot

And Rocky collapsed in the corner, ah

 

Rocky Raccoon entrou no seu quarto

E ali só encontrou a bíblia de Gideon.

Rocky tinha chegado, equipado com a sua arma

Para arrancar as pernas ao seu rival.

O seu rival assim se contava tinha destruído os seus sonhos

Por ter roubado a mulher de quem ele gostava.

O nome dela era Magil, ela dizia que se chamava Lil

Mas toda a gente a conhecia por Nancy.

Então, ela e o seu homem que dizia que se chamava Dan

Estavam no quarto ao lado da festa na cidade.

O Rocky irrompeu por ali e fazendo um esgar sorridente

Disse, caro Danny isto é um duelo.

Mas o Daniel era rápido, ele sacou primeiro e disparou

E Rocky colapsou no canto, ah

 

George aplaudiu, mas ficou preocupado com o destino de Rocky, esse desgraçado que só estava a tentar defender a sua honra. Utilizou as mãos para acompanhar o ritmo proposto por Ringo. John retirava lamentos apropriados à harmónica, que combinavam perfeitamente com a melodia em estilo country.

Seguiu-se um refrão cantado, alegre e enérgico, composto por sílabas simples – da-dada-dada-da—, George e Ringo fizeram coro com Paul.

Ninguém no autocarro parecia interessar-se por aquele pequeno concerto.

A história prosseguiu: 

 

Now the Doctor came in stinking of gin

And proceeded to lie on the table.

He said Rocky you met your match,

And Rocky said, doc it´s only a scratch

And I’ll be better I’ll be better doc as soon as I’m able

 

Então o médico chegou a cheirar a gim

E deitou-o numa mesa.

Ele disse, Rocky encontraste o teu rival,

E o Rocky disse, doutor é só um arranhão

E ficarei melhor, ficarei melhor doutor logo que me seja possível

 

Nesta parte, George gargalhou ao saber que o seu herói tinha sobrevivido ao tiro do Dan e que se sentia pronto para prosseguir com a sua vida. Talvez já tivesse esquecido a tal de Nancy que se chamava Lil porque o nome dela era Magil.

O jogo de palavras e a rima da letra eram fantásticos!

 

And now Rocky Raccoon he fell back in his room

Only to find Gideon’s bible.

Gideon checked out and he left it no doubt

To help with good Rocky’s revival, ah

Oh yeah, yeah!

 

E agora Rocky Raccoon retirou-se do seu quarto

E ali só encontrou a bíblia de Gideon.

O Gideon saiu do quarto e deixou-o, sem dúvida,

Para ajudar no renascimento do bom do Rocky, ah

Oh yeah, yeah!

 

Um segundo refrão constituía o epílogo daquela maravilhosa canção que, se lhe tivessem dito que fazia parte da banda sonora de um western clássico, George teria acreditado. Cantou a parte final, bateu palmas, riu-se. Apertou o ombro de Paul e deu-lhe os parabéns.

— Então, esse Rocky Raccoon e o Bungalow Bill… fazem parte dos vossos domingos de manhã?

John respondeu:

— Precisamente. Já começas a perceber!

— Quando tivermos outra guitarra acústica, quer tocar isso contigo, Paul. Foi muito divertido. Essa canção merece ser gravada. Seria um sucesso!

— Vamos encontrar um produtor discográfico? – propôs Paul otimista.

Ringo batia ainda com as baquetas nas costas do banco, sorriu e disse que sim.

— Vamos! – concordou John. – Talvez a querida Margaret conheça algum produtor discográfico… na sua maravilhosa cidade nova.

— Ficaste com ciúmes, John? – perguntou Paul admirado.

— Claro que não! Ela não é do meu tipo. Demasiado… certinha. Tão boazinha, trabalha com o pai na traineira, é meiga e inteligente. Bah…

— Ela pode ter amigas mais interessantes, menos boazinhas – desafiou Ringo ao perceber a atitude mais contraída de John. Ele estava com ciúmes, sim, muito provavelmente derivados da falta de carinhos. Todos estavam, na realidade. Precisavam do mesmo tipo de atenção que Margaret dispensara a Paul.

— Assim, talvez me interesse – resmungou John por lhe terem descascado a alma.

Paul estendeu a guitarra a George.

— Agora, tocas tu.

— Eh…

— Eu ajudo-te a trocar as cordas.

— Isso vai dar muito trabalho. E eu disse que a guitarra era tua, Paul.

— As tarraxas estão soltas, está meio desafinada, as cordas estão frágeis, é preciso uma certa delicadeza com esta guitarra e tu vais tratar bem dela. Para além disso, temos muito tempo. O deserto mal começou e chegou a tua vez, Harrison, de nos entreteres. Tens razão – admitiu Paul pulando para o banco traseiro. – O som de uma guitarra elétrica sem amplificador fica estranho. E nós sabemos que tu és um grande guitarrista. Se não for nesta guitarra, não teremos oportunidade de escutar-te.

George pousou a guitarra no seu colo e começou a desapertar as cordas com o cuidado exigido por Paul. Estava levemente corado e acabrunhado, concordou:

— Talvez seja esse… grande guitarrista.

— Ah, modéstia numa hora como esta depois de termos estado juntos a lutar contra uma tribo de canibais – gracejou John, assentando os joelhos no banco, voltando-se para trás. Soprou na harmónica. – Isso, George! Toca-nos uma música. Tens alguma tua?

— Algumas canções… tentativas de composição. Preferia tocar uma canção de outro artista, pode ser? Fico… mais à vontade. Pelo menos, por agora.

— Podes, claro que podes! – replicou Ringo que ainda não tinha parado de agitar as suas baquetas. – Que canção?

— E que tal começar com “Raunchy”, do Bill Justis? É uma velha canção rock de 1957… Lembra-me os bons velhos tempos. Lembra-me quando comecei, adolescente, a aprender sozinho a tocar guitarra, no meu quarto.

— Perfeito!

Paul ajudava George a preparar a guitarra, John e Ringo improvisavam melodias. Harmónica, batida, lamentos, batuque.

E o autocarro prosseguiu, bamboleante pelo deserto afora.



Notas finais do capítulo

A canção deste capítulo chama-se "Rocky Raccoon" e é uma crónica musicada sobre o Velho Oeste, sempre tão representado nos filmes americanos que fizeram parte da adolescência dos quatro Beatles, enquanto cresciam em Liverpool.
Se a quiserem conhecer, encontrei-a associada a um filme que ilustra o que a letra conta:
https://www.youtube.com/watch?v=wxa77H7vDUI

Em jeito de curiosidade esta canção, "Rocky Raccoon", foi mencionada por Chester Bennington na sua carta de despedida a Chris Cornell - dois músicos talentosos desaparecidos este ano.

Depois temos George a preparar-se para tocar "Raunchy" no autocarro - essa foi a canção que o George Harrison tocou para o John Lennon, por indicação de Paul McCartney, para poder entrar no grupo Quarrymen - ou seja recriei essa célebre "audição" da História do Rock 'n Roll. Se quiserem ver um filme sobre, aqui fica (com cenas do filme "Nowhere Boy"):
https://www.youtube.com/watch?v=4K9eeaqSiZI

Próximo capítulo:
Um lugar acolhedor.



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