Na Minha Vida escrita por André Tornado


Capítulo 15
A tribo


Notas iniciais do capítulo

No capítulo anterior:
Os quatro rapazes vão explorar a selva da ilha à procura de caçar alguma coisa para comer e de água. Ringo e George decidem descansar numa clareira, enquanto Paul e John prosseguem com a exploração. Mas então o baterista e o guitarrista são surpreendidos...



Paul foi o primeiro a regressar à clareira. Corria, feliz, com água nas duas metades de coco, uma para cada um dos amigos que ali tinham ficado a descansar, pisando com cuidado apesar da pressa, para que não derramasse o líquido que iria saciá-los. Já se saciara, juntamente com John, na fonte que tinham descoberto, um veio de água que brotava em suaves gorgolejos de uns rochedos escuros num local disfarçado por grandes plantas viçosas. Foi só através do silêncio e de se terem posto a escutar atentamente que deram com a fonte, por causa do rumorejar que fazia. Se tivessem continuado a conversar nunca teriam dado com o local e começaram a suspeitar que as cantorias e os diálogos só estavam a afugentar a caça. Combinaram que seriam discretos, dali para a frente, e então poderiam, finalmente, surpreender os tais coelhos.

Os dois, Paul e John, beberam diretamente da fonte até sentirem os estômagos inchados, até a secura desaparecer do céu-da-boca e da garganta arranhada. Tossiram engasgados, riram-se, entraram em brincadeiras infantis, dando chapadas na água para molharem o parceiro e depois Paul disse que iria encher o seu coco, levar uma primeira porção de água a Ringo e a George e que iriam a seguir conduzi-los até ali, para também eles ficarem com as barrigas a estoirar.

A sua felicidade espontânea dissolveu-se de imediato ao verificar que a clareira estava deserta. Estacou, com a água a pingar das metades de coco, a escorrer-lhe pelos dedos. Girou a cabeça da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, várias vezes, mas todos os detalhes do cenário lhe pareciam corretos. Aquele era a sítio onde tinham deixado os companheiros menos de meia hora atrás, só que agora ninguém estava ali.

John postou-se ao seu lado e exclamou:

— Eh… Onde estão?

Paul respondeu intrigado.

— Não faço ideia. Atrás de nós não foram… Estranho… O Ringo estava com cara de quem não queria dar nem mais um passo e o George não me parecia com intenções de que iria abandoná-lo. – Num lampejo recordou-se: – Não existem mesmo tigres nesta selva, pois não?

— Acho que não, Paulie… Mas nunca se sabe. Também podem existir dinossauros.

Um arrepio desceu pelas costas de Paul.

— Não brinques com essas coisas, Johnny.

John rasgou um sorriso perverso.

— Ei, Macca! Estás com medo de ir até ao tronco onde deixámos os outros dois sentados e descobrir um banho de sangue?

— Não brinques com essas coisas, Johnny! – repetiu Paul.

— Oh, estás com medo, sim!

Para demonstrar que não havia quaisquer sinais de um massacre recente naquela plácida clareira, John saltou até ao tronco. Inspecionou-o e soltou uma exclamação que sobressaltou Paul. Deu algumas voltas com um ar atento e inquisitivo, a abanar a pequena lança de pau, riu-se e disse:

— Não, senhor. Ninguém foi devorado, posso assegurar-te.

Enchendo-se de coragem, confiando na palavra do amigo, Paul avançou com as metades de coco na mão.

— O que aconteceu, então? O que lhes deu para terem saído daqui? Nós iríamos voltar… Trago água para eles!

— Alguma dor de barriga e tiveram de ir aliviar-se atrás de umas moitas mais afastadas? Para não sujarem a clareira?

— Os dois ao mesmo tempo?

— O Ringo tem medo de dinossauros. E pode ter sido uma dor muito forte.

— Hum…

Paul mordeu os lábios. Alguma coisa não estava totalmente esclarecida naquele cenário aparentemente bucólico, inofensivo e quieto. Havia agitação estranha entre as sombras, sussurros não decifráveis… Tinham de procurar pistas para desvendar o paradeiro dos amigos. Não conseguia estar tão à-vontade com o que via, como John. Este disse-lhe:

— Despeja a água. Ficas um pouco ridículo com essa pose de empregado de mesa de um restaurante de luxo, a segurar os cocos com tanto aprumo, se não existe ninguém aqui para bebê-la.

— E se eles chegarem?

— Vão connosco até à fonte.

— Queria que eles bebessem antes… – murmurou Paul frustrado.

— Eles, quem?

— Para, Johnny! Estás a pôr-me nervoso!

John encolheu os ombros, voltou a agitar a lança.

— Eu não estou a fazer nada, tu é que estás a deixar a tua imaginação pregar-te partidas.

— Eu não estou a imaginar nada.

— Não há ninguém aqui desmembrado ou devorado ou…

Paul rosnou. John calou-se com um sorriso que mostrava os seus dentes brancos, pois sabia como atingir os nervos certos para irritá-lo. Se a situação fosse séria bastava fazer brincadeiras inconsequentes, como naquela ocasião. Se a situação fosse descontraída bastava amuar e adotar uma atitude reservada e pedante. Ele estava habituado, os anos de amizade tinham-lhe dado essa experiência, mas nunca se habituara verdadeiramente às provocações de Lennon e quando não lhe apetecia alinhar no esquema, era complicado para ele gerir o caso com as defesas corretas para não se magoar, ofender ou irritar.

Aquela era uma dessas vezes em que lhe estava a custar compreender o comportamento de John. Zangado, Paul andou alguns passos e num gesto brusco virou os cocos, descartando-se da água fresca e pura que tinha recolhido. Baixou o olhar para o tapete de folhagem que cobria o solo e reparou num objeto deslocado daquele ambiente natural. Uma mancha escura, mais propriamente uma mancha castanha.

— John, olha!

A coisa estava lançada a uma certa distância de onde Ringo se sentara, por isso ainda não a tinham notado por estarem a investigar apenas nas imediações do tronco tombado. Tinha sido atirada para longe num provável espasmo involuntário ou num qualquer acesso de fúria. As hipóteses que Paul formulava, enquanto tentava compreender realmente o que estava a ver, eram plausíveis, mas encaixadas nos eventos que tinham acontecido anteriormente deixavam de ter alguma lógica e ele ficava cada vez mais confuso. Estava tudo demasiado nublado, escondido por nevoeiro denso, que multiplicava as interrogações e ocultava a verdade. 

Disse intrigado:

— É o saco do dinheiro…

O som da sua própria voz a classificar a coisa que descobria abandonada tornou a cena mais concreta, saída das suas conjeturas que procuravam delinear uma explicação para a ação que motivara os mistérios ali expostos.

Era, de facto, o saco castanho com as notas que somavam quatrocentos mil euros.

John acercou-se e ficou a olhar para o saco como Paul, desconfiado e baralhado. Os ruídos da floresta pairaram no ar, a prolongar aquele minuto em que estavam simplesmente a mirar a coisa, a anomalia no chão verde, a estranheza a avolumar-se nas suas mentes, a chegarem lentamente à mesma conclusão. Entreolharam-se.

— O Ringo nunca abandonaria o saco do dinheiro.

— Pois não, Johnny. Desde que chegámos à ilha que anda agarrado ao saco e não o largaria. Tentou estrangular-me por julgar que tu o tinhas roubado.

— Se fosse atacado por um tigre ou por um dinossauro, acredito que iria ser devorado a segurar no saco. Morreria e não largaria o saque…

— Não somos piratas, Johnny.

— Haveríamos de encontrar o saco com o braço do Ringo agarrado.

— Por favor, queres parar de falar nessa possibilidade mais sangrenta?

— Mas era verdade, Macca! Imagina que tinha havido um massacre com bestas ferozes…

— Oh, bullocks

— Ouve-me, a sério! O Ringo está apegado ao seu dinheiro de tal maneira que vai ficar com o saco até ao fim, até ao verdadeiro fim. Não iria largá-lo nem em face da morte. Por isso, a conclusão é óbvia.

— Aconteceu algo pior… do que ser comido vivo… É isso o que queres dizer?

— Sim.

— Não faz sentido.

— Se o Ringo largou o saco foi surpreendido por algo mais racional do que um tigre. Um animal ataca à bruta.

— Os animais só atacam se sentirem ameaçados.

— Ou esfomeados.

— Não é o caso, Johnny. Aqui não aconteceu o ataque de nenhum animal. Já andámos pela floresta o tempo suficiente para percebermos que só existem pássaros e pequenos animais que se escondem entre os arbustos. Se existisse um grande predador acho que já o teríamos encontrado, pois ter-nos-ia farejado… Como verificámos, também não existem sinais de sangue ou de pedaços de corpos espalhados pela clareira… Eu nem acredito que estou a dizer isto e a ter esta conversa!

— Estás quase a chegar lá.

— A chegar onde?

Nisto, Paul arregalou os olhos.

— Dizes que o Ringo… foi raptado?

— Sim, sim! – John acenou com a cabeça também com os olhos abertos. Pousou as mãos nos ombros do amigo. – Ele foi levado. Devem ter-lhe feito alguma coisa que o fez desmaiar, uma pancada ou algo assim, ele largou o saco. Tentou nunca se separar do saco, mas os dedos amoleceram.

— E o George?!

— Teve o mesmo fim. Foram os dois raptados.

— Sabes o que isso significa?

— Temos de procurar por eles.

— Não estamos sozinhos.

John pestanejou, compreendendo a finalização do seu raciocínio, todas as implicações viciosas da mudança de estado. Uma coisa era estarem sozinhos ali, outra, completamente diferente, era terem companhia. E, pelos vistos, uma companhia violenta pois era capaz de raptos e de sabia-se o quê mais.

— Oh… Pois não. Não estaremos nesta ilha sozinhos.

Paul engoliu em seco. A água que tinha engolido minutos atrás parecia ter-se evaporado e sentiu-se com muita sede, outra vez.

— Quem julgas que será?

— Alguma tribo local?

A floresta devolveu-lhes o silêncio na pausa que fizeram enquanto olhavam em seu redor, apreensivos.

— Alguém vive aqui… Neste sítio tão isolado e selvagem? – perguntou Paul num sussurro.

— A prova é o abandono do saco do dinheiro. Não duvido daquilo que os meus olhos estão a ver, daquilo que estou a pensar. Os dois foram raptados. Foi tudo tão rápido que não conseguiram pedir ajuda, o Ringo deixou o saco… Estamos fracos, Macca. Não nos alimentamos como deve de ser há alguns dias. Somos um alvo fácil.

John apanhou o saco. Quando o retirou do chão viu que estava aberto, com os cordões desapertados. Estranhou esse pormenor, pois não estava a ver os raptores terem inspecionado o seu conteúdo, ter visto que se tratava de dinheiro e não terem ficado com aquele monte de euros. Podiam viver naquele fim do mundo, mas haveriam de saber o que era dinheiro e para que servia… Descartou essa dúvida, complicava a linha de raciocínio que estavam a seguir.

A pisar com cuidado, porque subitamente a clareira convertera-se no local de um crime, Paul deu uma curta volta pelo perímetro e marcou mentalmente mais algumas provas de que Ringo e George tinham saído daquela clareira contra vontade e de uma forma súbita. Entre a folhagem que atapetava o chão encontrou as suas metades de coco, as suas lanças de madeira que usariam para caçar coelhos.

Depois acenou para John e começaram a caminhar novamente pela floresta, um pouco azoados e inquietos. Não sabiam muito bem que rota tomar, os raptores sabiam mover-se por aquele ambiente sem deixar rasto visível do seu percurso, os únicos indícios tinham sido criados por Ringo e por George, que não foram considerados importantes pois os raptores julgariam que só existiriam aqueles dois forasteiros na sua ilha. Paul confortou-se com esse pensamento e encheu-se de coragem. Queria dizer que os raptores nunca os teriam visto ou saberiam que eram quatro. Depois de capturar os dois primeiros, iriam atrás dos dois que faltavam… Só que isso não iria acontecer, muito provavelmente não existia uma perseguição silenciosa por aquela selva misteriosa, enchendo-o ainda de mais coragem. Muito provavelmente só os teriam escutado na praia, durante a construção da barraca, durante o serão de conversa acompanhado de guitarra acústica ou nem isso. Viveriam tão dentro daquela mancha verde de cerrada vegetação que não se apercebiam do que se passava na praia – pois eles também não se tinham apercebido de que havia mais habitantes na ilha, aliás até tinham julgado que estavam numa ilha deserta.

Assim, pensou Paul cada vez mais corajoso, Ringo e George tinham sido levados porque foram surpreendidos na clareira, não porque estivessem a ser perseguidos, o que lhes dava uma vantagem sobre esses misteriosos raptores. Podiam salvar os amigos com alguma facilidade, convenceu-se. Encontrariam essa tribo primitiva, seriam amistosos e humildes, solicitariam uma audiência com o chefe da aldeia pois imaginava que vivessem numa pequena comunidade, tentariam alcançar um ponto de entendimento numa negociação pacífica, mas tensa, talvez até considerassem pagar pelo resgate. Menos alguns euros no saco não seria tragédia alguma e era por uma boa causa.

Enlevou-se nestas noções, desatou a andar com mais convicção, torso projetado para diante, coração valente, sangue quente a correr nas veias, um soldado a combater pelo bem. Notou que John espreitava-o aturdido.

Todavia, toda a sua bravata esgotou-se ao escutar um barulho persistente e grave na distância, um ritmo alucinado que prenunciava perigos mortais, uma fronteira proibida que não podia ser pisada. Paul sentiu-se como um balão com um furo minúsculo por onde o ar se escapava paulatinamente, destruindo a outrora forma redonda e ufana.

Com a voz a tremer, dando uma cotovelada em John, Paul perguntou:

— Estás a ouvir isto?

John dobrou o pescoço e olhou para cima, como se as vibrações sonoras viessem pelo ar sobre as cabeças deles, fechou os olhos para escutar com mais precisão a música grosseira composta apenas por batuques secos e rudes, quase ameaçadores, viscerais, ocos.

— Tambores!

— O que será isto?

— Ringo é um baterista…

Admirado, Paul perguntou:

— O que queres dizer?

— Bem, ele toca tambores – explicou John como se fosse óbvio, vincando as palavras usando todas as sílabas.

Com muito esforço, Paul replicou num tom calmo:

— Acho que ele não toca este tipo de tambores.

— Que tipo?

— Do tipo tribal, Johnny.

— Talvez esteja a descobrir novos sons?

Cerrou os dentes e soprou, com o rosto todo encarnado:

— O que se passa contigo? Porque insistes em arreliar-me?

— Não estou a arreliar-te. Estás demasiado suscetível. Acalma-te!

— Eu estou calmo!

— Chiu!

John puxou Paul pelo casaco para travá-lo. A música ouvia-se mais alto, mais frenética. Ecoava pela floresta num som lúgubre, que tinha também uma nota de euforia camuflada. A celebração especial que se desenrolava algures usava aquele tipo de banda sonora. Era assustadora e viciante, ao mesmo tempo.

— Os tocadores podem ouvir-nos. – John apontou para as árvores que ficavam mais espalhadas, escassos metros adiante. – Estamos perto…

O braço dele moveu-se ligeiramente para a direita para indicar uma inclinação do terreno, sacudiu o amigo, espetou o queixo dando a indicação final. Aquele era um sítio mais elevado e daria um excelente posto de observação. Teriam de ser discretos, não sabiam o que havia para além das árvores e quem seriam os tocadores dos tambores. Claro que John não acreditava que Ringo estava entre eles, dissera aquilo só para criar algum humor com a situação.

Paul compreendeu, agitando a cabeça. Sentia-se desiludido e sobretudo desamparado. Tudo o que tinha fantasiado sobre a sua entrada na aldeia, o travar conhecimento com a tribo, as tais negociações com o chefe não passavam de fantasias. Os tambores agressivos tinham terminado com qualquer capricho de explorador amador.

Subiram os dois a ladeira, agachados, arrastando-se pelo terreno enlameado, pois naquele estágio dos acontecimentos sabiam que estavam a entrar em território adversário. Ali estavam os raptores dos seus companheiros que eram, por definição e antes de outra apreciação mais correta, inimigos.

Ocultaram-se entre as moitas espinhosas, deitados de bruços. As suas mãos tremiam quando afastaram algumas folhas, com muito cuidado para não se picarem, para poderem espreitar o que se passava em baixo. Os tambores soavam ruidosos, criavam uma espécie de opressão no peito.

Viram o que estava a acontecer e ficaram estarrecidos.



Notas finais do capítulo

Já é uma ideia definitiva: a ilha é habitada por uma misteriosa tribo!
O que será que John e Paul viram para os deixarem assustados até ao limite do terror?
Muitas emoções ainda estão para acontecer...

Próximo capítulo:
Um enorme e excêntrico perigo.



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