Na Minha Vida escrita por André Tornado


Capítulo 10
Uma surpresa pela manhã


Notas iniciais do capítulo

No capítulo anterior:
Paul propõe que se refugiem numa ilha que conhece e Ringo entrega-lhe o comando da embarcação. Entretanto a noite cai, Paul perde o rumo no escuro, todos entram em pânico dentro do barco e... chegam a terra. Será a ilha prometida?



A luz do sol, brilhante e intensa, bateu-lhe nas pálpebras fechadas e ele soube que estava na hora de despertar. Dormira a noite inteira. Quando recuperava a consciência, apurando que apesar das circunstâncias tinha dormido bastante bem e descansara o corpo fatigado, espantou-se por se ter entregado ao sono daquela maneira tão desamparada.

Sentou-se na areia que aquecia com os primeiros raios da manhã, espreguiçou-se e bocejou ruidosamente. Os ossos estalaram. Sentia-se incrivelmente recuperado, de energias renovadas, não fosse o ronco profundo do estômago que lhe recordou que estava cheio de fome. Bateu com a língua no céu-da-boca e também se lembrou que estava sedento.

Paul limpou as ramelas com as costas da mão, pois os dedos estavam cheios de areia. A primeira coisa que viu quando habituou os olhos à clara luz matutina foi o pequeno barco que os tinha trazido até àquele lugar. Estava encalhado no banco de areia, mais ou menos a uns duzentos metros da praia, a baloiçar devagar empurrado pelas ondas vagarosas que vinham desfazer-se preguiçosamente, em espuma branca, na orla da praia.

Depois do barco, notou George que molhava os pés descalços nessas ondas sossegadas, a realizar uma espécie de higiene matinal. Agachava-se e lavava as mãos, esfregando-as cuidadosamente para limpá-las da areia. Lavou de seguida a cara e o pescoço, devagar. Era de manhã cedo mas já começava a fazer calor.

Ao seu lado Ringo despertava, pestanejando para habituar os olhos à claridade. Levantou as mãos, mas como as viu panadas em areia branca desistiu de as levar aos olhos. Sentou-se, fazendo estalar a língua encortiçada dentro da boca. Estaria a pensar numa bebida fresca, preferencialmente nutritiva para saciar a sede e também a fome. Coçou a barriga, resmungou os bons-dias e circunvagou o olhar, tendo descoberto os mesmos detalhes que Paul já havia marcado. O barco encalhado, George a lavar-se com água salgada, a pacatez da praia, a maré baixa e calma, o silêncio, o calor da manhã.

Atrás deles estavam as guitarras, a viola-baixo, as baquetas, largadas onde as tinham deixado depois de alcançarem a areia e de se terem estendido exaustos para adormecerem no suspiro seguinte. Pelo que lhe era dado entender, todos tinham dormido a noite inteira e despertavam com os primeiros brilhos daquele novo dia. Ninguém os tinha incomodado, nem eles se tinham incomodado uns aos outros. Estava com fome e sede, era certo, mas parte das suas forças tinham sido recuperadas.

— Onde está o teu amigo?

A pergunta vibrou no ar e chamou Paul à realidade. O filtro belo que transmutava o cenário num local idílico e benigno, onde nada podia acontecer de ruim ou de perigoso, foi levantado. Tudo parecia extremamente bonito até a voz ensonada e inquiridora de Ringo ter lançado o pedregulho que esmagava o sonho. Paul reparou que faltava John. E faltava o saco de dinheiro…

— Não sei onde ele está – respondeu. – Acabei de acordar.

— O quê?!

— O que queres que te diga? Também não o vejo em lado nenhum!

As mãos do baterista lançaram-se ao seu pescoço sem que Paul pudesse reagir a tempo de escapar-se daquele ataque inesperado. Os dedos estrangularam-no primeiro e, com um único impulso, abanaram-lhe a cabeça. Paul abriu a boca para tentar respirar mas o ar não passava por aquele aperto.

— O teu amigo roubou-me o dinheiro! – acusou Ringo irado, lunático. Metia medo só de vê-lo com aquela expressão assassina, olhos inchados, lábios ressequidos, pálido e sujo de areia.

A voz de Paul passou através do estrangulamento, numa tentativa para dar uma explicação.

— Ele… não roubou… nada… Estamos numa ilha. Não podia… podia ir…

— Cala-te! Quero o meu dinheiro!

— Não podia… ir para… lado… nenhum…

George voltava-se para eles. O barco, nos baixios, baloiçava.

Paul apontou para o horizonte. Ringo continuava possesso, a sacudi-lo como a um boneco de trapos, mãos firmes em redor do seu pescoço.

— O barco… está ali – disse Paul com a garganta cada vez mais fechada.

— Ele podia ter encontrado outro barco junto à tal casa da tua ex-namorada!

— Não…

Em desespero, Paul agarrou-se aos dedos de Ringo e tentou separá-los para abrir o garrote. George acenava junto à beira-mar para lhes chamar a atenção, mas o baterista só se focava nele, completamente cego a qualquer outro estímulo, quer fosse o estranho sinal de George ou as suas palavras esclarecedores.

Num movimento rápido, Paul conseguiu virar a cabeça uma nesga de modo a espreitar o que era assinalado por George. Então percebeu e soltou um grito esganado:

— John!

Ringo também olhou e afrouxou ligeiramente a pressão. Paul deu um salto para trás, rastejando pela areia, empurrando os braços do baterista. Soltou o pescoço, desatou a tossir, esfregava a pele onde sentia os vergões do apertão.

— Louco! Ficaste louco! – acusou, mais ressentido do que ameaçador. – Para onde querias que o John tivesse ido? Estamos numa ilha!

O outro não o escutou totalmente. A meio da frase já se levantava e corria na direção de John Lennon que se passeava descontraído à beira-mar. Numa mão balançava negligente o saco castanho de dinheiro. Na outra tinha uma espécie de esfera rosada que levava à boca e trincava com descontração. Tudo na atitude dele era de um relaxamento irritante, como se estivesse a fazer uma simples caminhada por um local conhecido.

Paul levantou-se a cambalear. Firmou os pés na areia, sacudiu as calças, ajeitou o casaco que estava amarrotado. Movimentou o pescoço de um lado para outro, sentiu-o estalar, a pele palpitava onde tinha sido pressionada pelos dedos ansiosos do baterista. Afrouxou a gravata colorida. George aproximava-se de John, também curioso com a tal esfera rosada que parecia estar a comer.

Com um safanão, Ringo arrancou-lhe o saco de dinheiro, soltando uma rosnadela, mas John não se intimidou.

— Bom dia também para ti – disse surpreendido com a animosidade.

— Estavas onde? E alguém te incumbiu de guardar o dinheiro? – rosnou Ringo mostrando os dentes, persistindo na atitude agressiva.

— Tenho estado a guardar o saco desde que saímos do barco, ontem à noite – explicou John. – Pensei que não fosse problema. Caíste a dormir assim que chegaste à praia… Eu também. Todos caímos a dormir. Não tens fome? Encontrei…

— As notas molharam-se? – indagou Ringo bruscamente, apalpando o fundo do saco que levantou à altura do peito.

— Não, que eu tenha dado por isso… não. Fui muito cuidadoso. Queres comer ou não?

— Eu quero!

John olhou para George. Os olhos do rapaz brilhavam ávidos e a ponta da língua assomava-se aos lábios ressequidos. Abanou a esfera rosada e contou:

— Encontrei estes frutos numa árvore que está com os ramos carregados. São muito bons, doces e sumarentos. Matam-te a fome e a sede. Também podíamos procurar água, mas achei que primeiro temos de ganhar forças para outra exploração mais profunda à ilha.

— Onde está essa árvore? – quis saber George inclinando-se para diante, com ar de faminto, tanto que John recuou.

Apontou para a orla da selva verde que bordejava a praia de areia branca e revelou:

— Ali.

George correu assim que descobriu a árvore mencionada, identificando-a pelos frutos cor-de-rosa que balançavam preguiçosamente nas ramagens. Era um pequeno pomar selvagem de árvores frutíferas, baixas, quase semelhantes a arbustos, não mais do que cinco ou seis que subsistiam num pequeno reduto sombreadas pelos coqueiros altos.

— E tu não queres comer?

— Hum… – resmungou Ringo.

— Não são venenosos e precisas de comer, como nós todos.

— Já lá vou.

— O que foi? Estás zangado?

— Não fales comigo!

E afastou-se no encalço de George, abraçando o saco como se fosse uma boia salva-vidas. A cabeça afundara-se na corcunda, tropeçava nas próprias pernas e assemelhava-se a um velho trôpego e mesquinho.

John encolheu os ombros, dando nova trinca no pomo. Entretanto Paul também já se tinha aproximado, mãos enfiadas nos bolsos das calças, a caminhar com um estilo irrepreensível. John admirou o amigo, que conseguia manter a compostura mesmo num ambiente adverso ou menos civilizado. Sorriu-lhe.

— Bom dia Macca!

— Bom dia John. O que estás a comer?

— Fruta. Perto daqui não há nada mais substancial. Os outros dois já estão a atacar a árvore, como eu fiz assim que acordei. Não te preocupes, há fruta para todos.

Paul engoliu em seco, virando a cabeça na direção do minúsculo pomar salvador que lhes iria saciar a fome e parte da sede. Ele tinha escutado as propriedades benfazejas daqueles frutos. John reparou nas marcas do pescoço.

— O Ringo está bruto – observou John. – O que foi que lhe deu?

— Pensava que tinha sido roubado… Hum, agora irei comer qualquer coisa. Se me dás licença.

A breve risada de John ecoou na praia silenciosa. Revirou os olhos e indicou o caminho, já feito por George e Ringo, com um gesto de braço. A polidez de Paul era desarmante, condizia todavia com a sua pose impecável. Um dia gostaria de ter todo aquele estilo educado, mas a sua aparência era mais imponente, no bom sentido. Por vezes, quando a sua autoestima estava bem vincada, conseguia considerar-se como um líder. Nunca tinha liderado nada, em abono da verdade, mas imaginar-se a conduzir qualquer coisa na direção de um objetivo comum era bom de sonhar.

— Vai lá Macca. Vai lá.

Paul começou a andar, John interpelou-o.

— Ei Paul… Estive a fazer uma curta exploração pelos arredores.

— Sim?

— Não existe casa nenhuma.

A expressão de Paul acinzentou-se. Desviou o olhar.

— Talvez… talvez esteja do outro lado da ilha.

— E se estivermos noutra ilha?

— Provavelmente.

— Acredito que estamos… e que tu sabes isso, Paulie.

Um sorriso ténue surgiu na boca descorada de Paul.

— Há muito tempo que não me chamavas assim. Estás apreensivo, Johnny.

— Provavelmente – respondeu John, repetindo o que o amigo dissera.

A árvore frutífera era sacudida impiedosamente à medida que George e Ringo arrancavam os frutos dos ramos, com as duas mãos e ao mesmo tempo. O mais esfomeado era o rapaz mais jovem que devorava cada esfera rosada com grandes dentadas, escancarando a boca para fazê-lo. Ainda mastigava o primeiro fruto e já dava uma generosa mordidela no segundo, esfregava a mão vazia nas calças para limpá-la e puxava por outro fruto. Ringo comia com a mesma ânsia, prendendo o saco do dinheiro com as pernas. Paul dava sempre passagem aos dois, antes de retirar um fruto e fazia-o com alguma elegância e contenção, mas estava tão esfomeado quanto eles, pois cada peça arrancada à galhada era comida em poucas mordidelas. Limpava a boca húmida com as costas da mão, de bochechas cheias, e repetia o processo.

Para além daquele conjunto de árvores providencial, único no extremo da floresta que criava uma parede verde depois do fim da praia, como se tivesse sido plantado ali com o único objetivo de saciar com os seus deliciosos frutos quem acostasse naquelas paragens, existiam coqueiros altos e um punhado de árvores ressequidas pelos ventos marítimos. John tinha escalado uma dessas árvores e, enquanto os seus companheiros se refastelavam com os frutos, retemperando o estômago, recuperando as energias falhas durante a navegação noturna, ele, encavalitado no topo, mão em pala sobre a testa, perscrutava o horizonte. A visão era pacífica e sobretudo solitária. Não se via nada para além do azul do mar, um tapete ligeiramente crispado pela ondulação suave.

O clima era tépido e agradável, quase quente. Soprava uma brisa salgada, alguns caranguejos surgiram junto às ondas. Para a esquerda havia alguns rochedos, incrustados de crustáceos e de limos escuros, para a direita a areia prosseguia e curvava para um qualquer recesso que não se conseguia distinguir a partir daquele posto de observação. À frente o imenso oceano, poucos metros adiante, onde as ondas se quebravam em espuma branca, viam-se os bancos de areia e num deles, o barco.

Uma primeira árvore foi despida dos seus frutos e a segunda ficou pela metade. George sentou-se na areia, com um prolongado suspiro de satisfação, esfregando o estômago inchado. Paul sentou-se ao lado dele, comendo aquele que ele considerou como o seu último fruto, pois nunca comia mais do que o seu corpo lhe pedia. Ringo tentava apanhar um pomo mais pequeno que se pendurava num ramo mais alto, esticando o braço. No outro braço estava o saco que ele agarrava com força. John investigava o horizonte.

— Ah, já me sinto bastante melhor! – anunciou George satisfeito.

Paul concordou com um aceno, mirando a esfera rosada escavada pelos seus dentes.

— Que será isto?

— Não interessa. Matou-nos temporariamente a fome e já não sinto tanta sede. Ei, Ringo! – chamou George deitando a cabeça para trás. – Já estás de melhor humor?

— Hum… – resmungou o baterista.

— O que te deu para atacares o Paul? – indagou George.

— Queria o saco do dinheiro – respondeu Paul, indiferente.

— O saco nunca esteve… em perigo, digamos.

— Hum… – tornou o baterista evitando o contacto visual, mastigando o seu fruto.

George deu uma cotovelada em Paul.

— Deixa-o. O amuo já lhe passa. Tem o seu precioso saco de dinheiro e vai servir de calmante. Tem a barriga cheia, aposto que já nem sente tanta sede, como nós todos, dormiu uma noite inteira sem interrupções, não está frio. As condições são as ideias para recuperar do que quer que o esteja a incomodar.

— Talvez seja por causa da bateria? – arriscou Paul espreitando Ringo que continuava isolado do grupo. – Ele só trouxe as baquetas.

— Improvisamos uma bateria se isso o fizer sentir-se melhor.

— Como?

Paul olhou em volta. Na praia existia areia, conchas, rochas e pequenas criaturas marinhas. Atrás existia uma selva impenetrável onde poderiam arranjar madeira, mas e o resto dos materiais? Depois arrependeu-se. Fora uma simples observação casual sem ligação com um propósito concreto.

— Não sei. Logo pensamos em alguma coisa… Aceitam-se ideias.

— Está bem.

Ringo levantou-se e ficou a olhar para a extensão branca da praia que se perdia na curva para o seu lado direito. Atirou o fruto praticamente comido, à exceção do centro mordiscado num pilar irregular, na tentativa de atingir as águas, mas o pedaço rolou pela areia e parou mais ou menos a meio caminho, sem se aproximar da fina película de água por onde os caranguejos caminhavam com as suas pinças levantadas. Cismou durante algum tempo, abraçado ao saco de dinheiro.

— Quero ir para a tal casa da tua ex-namorada. Apetece-me um banho e quero estender-me numa cama fofa – anunciou.

George observou:

— A areia é fofa.

— Quero lavar-me desta areia e não quero apanhar sol. Ainda fico demasiado bronzeado.

— Ou apanhas um escaldão.

— A minha pele é muito branca.

— Um escaldão, definitivamente.

— O que seja, miúdo. Quero também um banho. Primeiro um banho. Sinto-me… salgado.

John saltou da árvore, os seus pés afundaram-se na areia que era tal qual George tinha apontado, fofa, ideal para deitar o corpo cansado e dormir sem preocupações. Como tinha acontecido na noite que passara. Era um substituto ideal para uma cama, podia concordar, mas a sua noção de civilidade fazia-os carentes por uma cama a sério. Paul levantou-se e fez pontaria ao pedaço que Ringo tinha atirado. Estava mais inspirado ou o seu braço era mais forte, o certo foi que o seu fruto esculpido no mesmo pilar irregular, onde se concentravam os caroços pretos que não eram comestíveis, ultrapassou aquele lançado pelo baterista.

— Muito bem – disse –, vamos lá para a casa.

Captou o olhar sisudo de John. Paul voltou-lhe costas e desceu a pequena duna até ao mar, onde lavou as mãos peganhentas do sumo adocicado dos frutos que estivera a comer.



Notas finais do capítulo

Aparentemente, eles não estão na ilha... Ou estarão?
Os rapazes começam a explorar o local onde aportaram na noite anterior depois de terem dormido bastante bem e de se terem alimentado com fruta nutritiva.
Lembrem-se que estamos no reino da fantasia, universo alternativo, em que tudo pode ser imaginado e em que "nothing is real", por isso inventei essa fruta rosada que é possível comer com casca, carregada de frutose para um aporte imediato de energia, com bastante sumo que também mata a sede.
O Ringo parece não estar de bom humor...
O que irá acontecer a seguir?

Próximo capítulo:
Náufragos.



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