Crônicas Mitológicas escrita por Elias Franco de Souza


Capítulo 1
Prólogo


Notas iniciais do capítulo

Toda grande história começa com um ótimo prólogo. Que este capítulo sirva para dar o tom do que será a saga de Crônicas Mitológicas. Espero que vocês aproveitem bastante.



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O céu estrelado estava especialmente limpo nesta noite, sobre a cidade de Olímpia. Mas não era apenas no firmamento que as estrelas reluziam com fulgor. Sobre o Templo de Zeus, partículas de luz tão brilhantes quanto as constelações da abóboda celeste surgiam entre os três homens ali presentes. De início, aquele pó estelar apenas dançava vagarosamente no ar. Sem aviso, porém, todas as partículas se uniram em linhas contínuas, formando uma paliçada entrelaçada de túbulos cristalinos vindos de todas as direções, que bloquearam os movimentos do homem encapuzado.

— Que técnica é essa?! — Indagou, surpresa, a figura sombria, cujo manto negro cobria todo o corpo.

— Esta é a Prisão de Cristal do Cavaleiro de Ouro de Áries — explicou o ancião em trajes majestosos e elmo dourado imponente, ao reconhecer os túbulos de cristal que agora se materializavam ao seu redor também. — É inútil tentar mover seus membros se você não pode revelar o seu cosmo — o alertou, encarando, a seguir, o recém-chegado e responsável por conjurar aquela técnica. O Cavaleiro de Áries, que até então estava escondido no breu, surgia trajando a sua armadura dourada. A vestimenta cobria cada milímetro de seu corpo, exceto uma pequena abertura a meia-altura das coxas, outra abaixo do deltoide nos braços e uma terceira na altura dos olhos. Dos pés às coxas, uma bota, articulada no pé, no tornozelo e no joelho, protegia o membro inferior. Do quadril até a base do pescoço, a armadura articulada protegia cada segmento do tronco – ombreiras completavam a proteção no círculo torácico. Nos membros superiores, manoplas articuladas cobriam toda a mão, exceto as duas falanges distais dos dedos, com a proteção estendendo-se até os braços, com articulação nos cotovelos. Para completar, um elmo com dois chifres laterais em espiral protegia toda a cabeça, inclusive o rosto. Chamavam a atenção outros dois chifres curvados dispostos por cima das ombreiras. Eles vinham das costas, e se deitavam sobre os ombros indo em direção ao peito, acompanhando a curvatura natural do corpo. Mas na altura das axilas, os chifres mudavam de direção e se curvavam para a frente e em sentido superior e lateral, como se pudessem ser usados como armas perfurantes em um confronto corpo a corpo. — Quanto foi que você ouviu?

— O suficiente — retrucou com uma voz metálica, encoberta pela máscara do elmo. Apontando o indicador na direção do misterioso homem encapuzado, o Cavaleiro de Áries utilizou sua telecinese para trazer para si o que o desconhecido detinha em seus braços. Por estar com os movimentos completamente selados pela Prisão de Cristal, o estranho não conseguiu impedir que um pacote de panos saísse flutuando de suas mãos até o Cavaleiro de Ouro.

— Espere! Você não entende a importância desse bebê. — Protestou a figura sombria. — O seu mestre estava cumprindo o dever dele com os deuses — continuou. O Cavaleiro recebeu gentilmente o bebê em seus braços, e descobriu uma parte dos panos para avaliar suas feições. Seus olhos demonstravam ternura pelo pequeno ser.

— Não confunda a vontade do seu deus com a de todos os outros. Eu entendo perfeitamente — respondeu com a voz serena. — E é por isso que vou levá-lo comigo. — Cobrindo novamente o bebê, deu as costas aos homens ainda contidos pela Prisão de Cristal e caminhou até a beirada da cobertura em que se encontravam. Seu olhar estava fixo na escuridão ali abaixo, preparando-se para saltar do edifício.

— Espere! — vociferou o ancião. — Isso eu não posso permitir. — O velho, que até agora permanecera passivo ante a intervenção do Cavaleiro de Áries, começou a revelar o seu cosmo, surpreendentemente grande para um homem centenário. A cosmo-energia manifestava-se na forma de uma aura dourada ao seu redor, fazendo com que os túbulos de cristal que aprisionavam o seu corpo começassem a desintegrar. — Se você se voltar contra mim, será o mesmo que trair todo o Santuário e os deuses — advertiu.

— O único traidor aqui é você — contestou o cavaleiro dourado, que também elevou o cosmo em resposta à ameaça, revelando outra aura dourada ao seu redor.

— Como ousa... — remoeu irado. — Eu sabia que você havia se apegado à criança. Mas jamais imaginei que iria tão longe por ela.

— Existe uma razão para eu ter sido escolhido. E pelo visto a minha missão com ela ainda não acabou.

— Então você não me dá escolha. Vou matar os dois. Receba a Explosão Galáctica! — Antes que o dourado pudesse reagir a esta decisão inesperada, o ancião reuniu toda a sua cosmo-energia na palma da mão e a lançou contra o Cavaleiro de Áries na forma de uma reluzente rajada de ventos cósmicos, que encobriram todo o cenário. Tudo aconteceu muito rápido, mais do que olhos comuns poderiam ver. Quando as luzes sobre o Santuário cessaram e a visão se acostumou com a escuridão novamente, o cavaleiro conferiu se o bebê estava bem.

— Eu temi que não tivesse feito a tempo.

Uma pequena esquife de cristal translúcido, que aos poucos foi se modificando para abrir entradas de ar, abrigava o bebê. No último milésimo de segundo antes de ser atingido pela Explosão Galáctica, o dourado conjurou uma câmara de parede dupla, intercalada por vácuo, para isolar completamente a criança do mundo exterior, que ainda repousava em um sono profundo como se nada tivesse acontecido. O cavaleiro, porém, não teve a mesma sorte. Mesmo vestindo a armadura sagrada, a força da explosão feriu-o gravemente. Bastante sangue escorria de seu ombro direito, que foi diretamente atingido quando se virou para usar o corpo como escudo.

— Temos pouco tempo antes que nos encontrem — lamentou, olhando para o alto, e conferindo o tamanho da queda que sofreu ao ser lançado para fora da cobertura do Santuário. Uma nuvem de poeira encobria a visão do topo, mas ele tinha certeza que o Grande Mestre devia estar procurando por ele lá de cima, e não demoraria a enviar outros cavaleiros ao seu encalço.

Movendo-se por entre os destroços que caíram junto consigo, o cavaleiro desapareceu bosque adentro. Ele precisava urgentemente de um plano para sumir com a criança. Tinha consciência de que não iria muito longe se cruzasse com outros cavaleiros de ouro que, para o seu azar, estavam todos reunido no Santuário de Zeus esta noite. Por isso corria pelo bosque em velocidade humana, a fim de não revelar a sua posição através do cosmo. Será que algum dos cavaleiros o ajudaria? Áries não tinha certeza em quem poderia confiar.

Seus pensamentos foram interrompidos por um ruído cósmico. Olhou na direção de onde ele vinha, mas era tarde demais para reagir a um ataque na velocidade do som[1], a mais de 1200 km/h. Sentiu um forte impacto contra o seu peito, fazendo-o perder o equilíbrio da corrida e despencar no chão, no meio de uma clareira.

— Uma Rosa Sangrenta?! — uma rosa branca perfurava o seu peito. A haste dela penetrava até o coração, e a coroa, branca, aos poucos começava a tingir-se do vermelho de seu sangue.

— Esta Rosa Branca vai tingir-se completamente de vermelho quando terminar de sugar todo o sangue do seu corpo. Agora que ela está presa ao seu coração, nada pode impedir a sua morte — disse uma voz metálica vinda do fundo do bosque. Outro cavaleiro de ouro surgiu na clareira, trajando uma armadura muito similar à de Áries. Porém, ao invés de chifres no elmo e sobre os ombros, a armadura de Peixes possuía placas afiadas que se destacavam para fora no formato de nadadeiras, ao lado dos joelhos, dos cotovelos e do elmo. Além disso, as ombreiras eram triplas, possuindo outras duas camadas de ombreiras sobre a primeira, lembrando as escamas de um peixe.

— Édipo! Você precisa me escutar! Eu não sou um inimigo!

— Logo você, que ficou responsável por liderar a expedição que trouxe esta criança da Tessália... Qualquer um que se volte contra o Grande Mestre é o meu inimigo! Até mesmo você, Esão! Agora devolva a criança em segurança, e talvez eu remova esta rosa assassina.

Não havia tempo para negociar. Em cerca de 15 segundos, calculou, perderia a consciência devido à hemorragia, e logo depois morreria. Esão sabia que uma vez atingido pela Rosa Sangrenta, era impossível escapar da morte. Sem opções, botou em ação o único plano que conseguiu imaginar nesse curto período. Uma grande explosão de luz fustigou o bosque quando a armadura de Áries deixou o seu corpo. Todas as partes se desmontaram de Esão e se remontaram no formato de um carneiro dourado. Édipo, que fora cegado pela luz, nada pode fazer quando a armadura alçou aos céus e voou para longe, em direção ao oriente, rasgando o céu noturno como um estrela cadente.

— Esão! O que foi que você fez?!

— Não se preocupe, Édipo. Agora a criança está segura — sorriu. Esão estava completamente nu, e havia um orifício em seu peito de onde jorrava muito sangue, no exato ponto de onde a Rosa Sangrenta fora arrancada quando a armadura de ouro saltou de seu corpo. — Quanto a mim... Jamais sinta... Eu te... — Não conseguiu concluir sua frase. De repente tudo começou a ficar nebuloso. Esão não conseguiu ver ou ouvir mais nada, e até mesmo a gravidade tornou-se imperceptível. Não tinha ideia se ainda estava de pé ou se já estava estirado no chão, e lamentou por não ter conseguido dizer ao amigo que o perdoava. Pensou ter ouvido Édipo gritando por seu nome, mas não tinha certeza. Ele estava segurando-o em seus braços? Mesmo que Édipo quisesse salvá-lo apenas para descobrir para onde fora enviado o bebê, ele não poderia fazer mais nada por ele agora que já tinha perdido tanto sangue. Em seus últimos pensamentos, Esão simplesmente desejou que seu filho ficasse seguro para crescer ainda mais forte que ele.


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Notas finais do capítulo

[1] Sendo apenas em parte inspirada no universo de Saint Seiya, esta obra não tem a intenção de ser completamente fiel a obra de Masami Kurumuda, e por isso traz as adaptações que julga necessárias para o universo literário que propõe. Entre as adaptações, é a velocidade do som, ao invés da velocidade da luz, que é usada como referência para o limiar da capacidade sobre-humana dos cavaleiros de ouro. Mas de nenhuma maneira isso diminui a grandiosidade desses personagens, como será mostrado ao longo da história.



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