Querida Lena escrita por A S Victorian


Capítulo 2
Capítulo 1





Tales pensou que seu coração pararia no instante que o trem parasse na estação. Mas ficou feliz quando notou que estava, na verdade, bem mais calmo do que era esperado. Desceu com suas duas malas, uma sob o braço, outra sendo puxada pela mão esquerda e parou para apreciar o vazio do lugar. Poucos passageiros haviam descido ali e aquele pouco movimento parecia costumeiro.  

Conferiu a placa de metal pendurada em cima da entrada, só para ter certeza que aquele era o lugar certo. De fato, era ali. Havia esperado muito para chegar à cidadezinha, não apenas as incontáveis horas dentro do trem, mas todo o longo ano que passou planejando sua mudança.

Apertou suas malas com mais força, como se a sua ansiosidade fosse fazê-lo esquecê-las ali. Acelerou o passo, quase correndo, e saiu da estação. Um homem estava jogado sobre o banco ao lado da saída. Usava uma boina para esconder o rosto do sol enquanto fazia algo que Tales julgou ser dormir.

Ele se aproximou do banco, receoso por acordar a pessoa, ao mesmo tempo que queria apenas derrubá-lo do acento e fazê-lo se levantar.

— Isso que é saber esperar. — Tales riu, empurrando o homem pelo ombro.

O rapaz se ergueu de um pulo, assustado. A boina caiu sobre seu colo, deixando à mostra o rosto gorducho de barba por fazer. Pelas olheiras escuras, Tales percebeu que o homem não havia descansado nada na noite anterior. Ele se sentiu culpado, provavelmente a culpa era sua mesma, já que estava tão ansioso que passara a noite todo conversando com o amigo.

— Você demorou demais. — Ele fechou a cara. — Nem sei por que vim esperar você aqui. Podia ter ficado dormindo e deixado você se virar, já que por causa do senhorito eu não dormi droga nenhuma.

— Ok, eu assumo a culpa. Mas depois eu te pago uma cerveja e estamos resolvidos, ok? Agora vamos, Henrique, porque eu não consigo mais aguentar essa demora.

— Controle sua ansiedade, meu rapaz. — Henrique se levantou, passando as mãos pelo cabelo claro e se espreguiçando.  — Você vai ter todo o tempo no mundo para conhecer a loja. Não precisamos correr.

Mas não adiantou falar. Tales o empurrava pelas costas, com a ponta da mala que carregava no braço, acelerando o amigo. Henrique às vezes estancava os pés no chão, apenas para implicar com o outro. Senão fosse toda aquela implicância, teriam alcançado a loja em menos de dez minutos, não os quinze que matavam lentamente Tales.

A construção era baixa, como todas as outras na rua, que não passavam do térreo e do primeiro andar. A loja era embaixo, pequena, com as vitrines cobertas por papel pardo que impossibilitava ver o lado de dentro. Em cima, dava para ver as janelinhas do que seria sua mais nova morada.

— Já está tudo quase arrumado. — Henrique comentou, puxando Tales pelo braço para dentro da loja. Tales queria ter gasto um pouco mais de tempo encarando a fachada e sorrindo aquele sorriso bobo, mas Henrique queria se ver livre logo daquela obrigação. — Os seus pertences estão na sua nova casa, as prateleiras da loja e todo o resto já estão arrumadas, só faltam o resto dos livros chegarem.

— Eles devem chegar na próxima semana. Preferi assim, para poder organizar tudo antes mesmo de ter que arrumar os livros no lugar.

— Aqui está sua chave.

Tales sentiu o metal frio tocar sua mão. Era menor do que esperava, mas significava muita coisa.

Henrique empurrou a porta e deu espaço para o novo dono entrar. Estava tudo muito bem arrumado e o homem ficou contente por ter escolhido mandar Henrique ali. Mas também não havia como ser outra pessoa, ele era o pivô do esquema.

Tales bem que queria ele mesmo ter arrumado tudo, mas teve muita coisa para cuidar antes de sair de sua antiga cidade: resolver a situação de seu antigo emprego, providenciar a papelada para sua nova loja, cuidar da mudança... se preparar psicologicamente para estar ali.

Por isso o amigo havia sido de grande ajuda, chegara uma semana antes, pegara a chave da loja e do apartamento, recebera a mudança e organizara tudo ali dentro. Além de espalhar pela cidadezinha que em breve ali teria uma nova livraria. Ou a única. Tales não entendia como não tinham uma loja daquelas ali. Entendia que a cidade era pequena, que todos se moviam para as cidades maiores que ficavam há pelo menos uma hora de viagem de ônibus dali. Mas para Tales ter uma livraria por perto era algo imprescindível.

Tales havia pesquisado sobre a cidade depois de acatar, quase de imediato, a ideia do amigo. Antes da ao menos pensar em se mudar para aquele lugar, apenas a menção do nome da cidade o deixava nervoso. A verdade era que ele evitava qualquer coisa que pudesse lembra-lo dali, talvez não tão inconscientemente como ele preferia acreditar.

Campo das Andorinhas, era o nome do lugar. Tales não se lembrava o porquê daquele nome, mas era provavelmente um reflexo da falta de criatividade, já que a região era cheia de andorinhas-do-campo. Mas o nome o agradava. Era uma cidade pouco populosa, de pouco mais do que mil habitantes. Muitos deles eram estudantes universitários, que achavam mais em conta morarem na cidade do que nas outras mais perto, já que estavam praticamente a mesma distância da universidade.

Tales se lembrou de seus tempos de faculdade e teve certeza que seria um tormento morar ali, longe de tudo o que gostava, mesmo que fosse por uma boa causa. Mas cada um era cada um. Agora, tudo o que mais gostava estava naquela cidade.

O celular de Henrique vibrou, fazendo Tales voltar para a loja vazia e perceber que ainda segurava as duas malas bem na entrada. Colocou a bagagem em um canto, perto de algumas caixas lacradas que julgou ser livros. Caminhou pelas prateleiras semi-ocupadas, passando os dedos pela madeira escura e sentindo o verniz se arrastar contra sua pele.

O lugar era tão encantador quanto imaginava. As várias prateleiras deixavam o espaço menor, mesmo já não sendo tão espaçoso, mas Tales achou acolhedor. Em um dos cantos da loja, iria colocar algumas poltronas e fazer um espaço de leitura. A iluminação, ele pensou, precisava favorecer aquela sensação agradável, que não afetasse a leitura, mas que também fosse um bom lugar para relaxar. Já estava com tudo pronto em sua cabeça, só precisava comprar as últimas coisas e esperar o resto dos livros chegarem.  

— Minha irmã vai me encontrar aqui. — Henrique apareceu ao seu lado, tirando-o novamente de seus pensamentos. Tales demorou um pouco para entender o real significado daquelas palavras. — Você está pronto?

Tales ficou calado, pensando em uma resposta, mas não teve tempo de dizê-la, já que escutaram a porta sendo aberta e o som de saltos contra o assoalho. Ele não se virou de imediato e foi receber a pessoa, como Henrique. Ficou um tempo encarando os pés e tomando coragem.

— Você disse que não ia demorar. — Era a voz dela, alegre, como ele costumava lembrar. — Mas já passou a manhã toda fora. Não vai arrumar suas coisas para ir embora?

— Minhas coisas já estão arrumadas, Lenita. E meu amigo fez o favor de atrasar.

Tales se virou finalmente para a porta e caminhou até os dois. Seus olhos se fixaram na moça. Ela era um pouco mais baixa do que ele, só uma testa de diferença. Seus olhos eram tão claros quanto os do irmão, mas um pouco mais esverdeados do que os mares azuis de Henrique. Seu cabelo estava curto, na altura dos ombros, em um tom entre o castanho-claro e o loiro. Ao contrário de Henrique, Helena era bem magra, mas tirando aquilo, os irmãos se pareciam bastante.

— Eu sou o Tales, não sei se lembra de mim, mas é um prazer revê-la, Helena. — Tanto Tales, quanto Henrique estranharam a forma como aquelas palavras saíram, mas suas expressões não mudaram. Estavam na expectativa para ouvir a resposta da mulher.

Helena apertou a mão que o homem a estendia, mas não parecia muito convencida que se conheciam.

— Me desculpa... Eu não me lembro muito bem que o senhor é.

— Não, tudo bem. Henrique e eu somos amigos de infância, você deve se lembrar de mim como o garoto magricela e de óculos tortos que passava horas trancado com seu irmão no quarto montando quebra-cabeças. Eu também fui lhe ver no hospital... Há uns dois anos, acho. E não me chame de senhor, isso faz meu âmago doer.

— Ah! Esse Tales! Como não lembrei antes? Uau! Você não mudou quase nada! — Ela o cumprimentou com um abraço apertado e bastante animado. Era de fato a Helena que ele se lembrava. — Agora eu lembro de você no hospital. Me desculpe, acho que não lhe reconheci na época, talvez tenha sido um pouco antipática.

— Não se preocupe. Não pensei que fosse se lembrar. — Aquelas palavras doeram, mas ninguém precisava saber.

— Você podia ter me dito antes que esse era seu amigo que estava se mudando para a cidade. Eu com certeza teria ficado bem mais animada com a notícia do que quando achava que fosse um desconhecido.

— Mas você já ficou animada quando descobriu que ele abriria uma livraria, acho que não importava quem seria o dono.

— Hum. Você tem um ponto. — Ela riu para Tales, fixando os olhos nos dele, o que deixou o homem desconfortável. — A loja não inaugurou ainda, mas você já tem uma cliente e agora vai ter que me ver e aguentar muito. Uma livraria era o que essa cidade estava precisando. Onde já se viu? Parece que só eu e os jovens da universidade que lemos por aqui.

— Agora vai precisar me incluir na lista de leitores. E vai ser ótimo tê-la como cliente e se você continua tão incrível quanto a garotinha que conheci, não vai ser sacrifício nenhum te ver sempre.

Ela apenas alargou o sorriso, o que Tales acreditava que a deixava ainda mais linda. Infelizmente, Henrique precisava ir. Em poucas horas voltaria para casa na cidade grande e não queria perder o trem que só passaria naquele horário.

— Muito obrigado pela ajuda, meu amigo. — Tales se despediu dele com um abraço apertado. Queria que ele ficasse mais alguns dias na cidade, mas já se sentia culpado demais por tomar tanto tempo do amigo. Henrique tinha sua família em casa, sua esposa e seus dois filhos, e por mais que estivesse ali a trabalho, não era justo prendê-lo ali desnecessariamente.

Helena também se despediu com um abraço e Tales desejou que ela ficasse, mas ela se foi junto com o irmão.

A cidade era uma ervilha, ele pensou, iriam se encontrar muitas vezes, não precisava acabar com todo plano naquele momento.

Assim que o casal de irmãos saiu pela porta, ele a trancou. Catou suas malas e subiu para sua nova casa no primeiro andar.





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