A Garota da Torta de Maçã escrita por A S Victorian


Capítulo 2
Capítulo 2 (parte 1)





Era uma agradável manhã de sábado. O dia estava quente e ensolarado, ótimo para dar um passeio no parque e aproveitar o ar livre. Joana corria de um lado para o outro, seguida por Eduardo, que parecia tão cansado quanto a garota. Porém, ela era mais rápida e não parecia querer facilitar a brincadeira.

— Finalmente encontrei vocês. – Juliana havia estacionado o carro ali perto e se aproximou sem ser notada. Os dois estavam tão entretidos que nunca notariam a mulher parada ali. – Já está bom, vamos para casa, Joana.

— Mas ela praticamente acabou de chegar. – Eduardo apoiou uma mão no joelho e outra na cintura, arfava, mas parecia bem alegre com toda a situação. – Nós vamos fazer um piquenique e aproveitar essa linda manhã.

— Ela tem que estudar, tão tem tempo para isso. – A mulher evitava encarar tanto o homem quanto a filha. Joana se mantinha um pouco distante, porque sabia que seria agarrada pela mãe assim que a distância entre as duas se estreitasse.

— Joana é minha filha também. Eu tenho o direito de ter meus momentos com ela. E ela é só uma criança, não é saudável ficar todo dia trancada dentro de casa só porque você tem vergonha...

Juliana finalmente encarou o homem. Eduardo era baixo, a pele quase tão branca quanto a de Joana, e tão gordo quanto a menina. Infelizmente Joana havia puxado praticamente tudo a ele. Os olhos da modelo exprimiam apenas repugnância, nada mais do que aquilo.

— Você passa o tempo todo no exterior, nem ao menos se lembra da existência da sua filha e vem querer me dizer como cuidar dela? Pois sou EU que tenho a guarda da Joana.

— Não é assim, mamãe. – Joana tentou se colocar no meio. Detestava quando os pais brigavam. – Eu converso sempre com o papai... Mesmo quando ele tá muito ocupado.

— Não venha defendê-lo. – Juliana fez exatamente o que a filha esperava, agarrou-a pelo braço, fincando ligeiramente as unhas no antebraço roliço da garota. – Vamos para casa agora!

— Eu não tenho nada que estudar. E papai vai ficar só mais esse fim de semana no Brasil, quero passar o tempo que puder com ele.

— Eu sou sua mãe e você vai me obedecer.

— Deixe a garota ficar mais um pouco, depois eu levo ela para casa. – O pai contara até mil antes de voltar a falar. Todas as conversas com sua ex-esposa terminavam em briga e ele não queria que acontecesse novamente, não na frente de Joana. – Eu não sei quando vou poder voltar para o Brasil e vê-la pessoalmente, deixe ela ficar só mais alguns minutos.

Juliana riu estridentemente. Pensou seriamente em xingá-lo, mandar que nunca mais voltasse para aquele país e esquecesse de uma vez por todas a existência das duas, mas apenas repetiu que a filha tinha muito o que estudar e a puxou para dentro do carro. Não se importou se a filha foi chorando do parque até em casa, e se sentiu aliviada quando ela se trancou dentro do quarto e ficou quieta lá, por dois longos dias.

 

O salão de beleza estava vazio. Haviam fechado-o por aquela manhã para atender a apenas uma cliente: Juliana. Todos que trabalhavam ali estavam ocupados demais paparicando a mulher para notar Joana sentada em um canto folheando sem muito interesse uma revista antiga que estava jogada por ali. Sequer pareciam notar a movimentação de curiosos do lado de fora.

Joana estava entendiada. Ainda não conseguia entender por que entre todas as pessoas do mundo, Juliana havia escolhido logo ela para passar aquela manhã no salão. Acreditou por um instante que era para torturá-la: só havia conseguido engolir uma fatia de pão antes de sair de casa e já passara da hora do almoço. Seu estômago revirava-se e Joana não estava nenhum pouco feliz de estar ali.

Todos ali pareciam ignorá-la, acreditando com toda certeza que ela não passava de uma simples assistente. Menos mal, a garota pensou, menos problemas. Porém, pensou, se realmente estivesse trabalhando para Juliana já teria sido demitida no instante que resolveu sair de casa usando suas confortáveis calças de moletom e sua melhor cara de quem acabara de cair da cama. Tinha certeza que Juliana estava detestando a aparência da filha, mas esta não podia se importar menos. Quem havia mandado ela forçar a garota a acordar cedo no sábado, arrastá-la para o programa mais chato do mundo e ainda matá-la de fome?

A garota estava tão aborrecida que quase deu uma risada de alívio quando anunciaram que finalmente havia terminado. Joana se ergueu de um salto, catando os pertences da mãe. Por pouco não agarrou a mulher pelo braço e a puxou para fora. Queria se ver livre dali e da incumbência que sua mãe lhe dera.

Os curiosos deram espaço para as duas passarem. Algumas pessoas tiravam fotos com seus celulares, o que deixava Joana profundamente incomodada, mas que parecia não estar incomodando nenhum pouco Juliana. Estava fazendo pose de boa mocinha, Joana sabia, mas por dentro a mãe devia estava fervilhando.

Juliana não queria estar ali com a filha, mas não teve muita escolha. Seu empresário havia marcado às vésperas uma nova entrevista, logo em suas férias, para dali a algumas horas e ela só teve tempo de ligar para o salão e forçar a filha a levá-la. Como ela própria havia dispensado o motorista particular há anos, já que Joana nunca utilizava o serviço, resignara-se a deixar seu próprio carro nas mãos da filha (nunca que poderia ser vista andando no ferro-velho que Joana chamava de carro) e a obrigado a ser sua motorista por aquele dia.

Mas ela se arrependeu assim que havia visto como a filha saiu de casa. Como estavam atrasadas, Juliana não mandou que ela voltasse e se trocasse, nem ao menos reclamou para não se estressar antes da entrevista, mas quando chegassem mais tarde em casa Joana iria escutar bastante.

Joana ignorou todas as pessoas que as seguiam tirando fotos e se enfiou dentro do carro. Nunca conseguiria sobreviver com a fama, sabia, detestava aquele monte de olhos em cima dela. Juliana se sentou impecável no banco de trás, a verdadeira rainha como todos a tratavam.

— Só me deixe na porta do estúdio. – A mãe mandou, encarando a paisagem que corria pela janela. – Quando eu terminar ligo para que me busque.

— Sim, madame. – Joana zombou. Iria ignorar o tom da mãe pelo simples fato de que em breve teria tempo para seu tão desejado almoço e não iria alongar as coisas com discussões.

Deixou a mãe onde seria a entrevista e guiou o carro até um pequeno restaurante alguns quilômetros dali. Não era um lugar muito conhecido, mas a comida era deliciosa, a garota sabia bem. Serviu-se de tudo o que tinha direito e se sentou na frente da televisão.

— Com licença. – Chamou a moça que limpava uma das mesas. – Poderia mudar o canal?

Ela sorriu e concordou. Mudou para o canal onde aparecia a entrevista ao vivo com Juliana. Não parecia que iria demorar para a entrevista começar, Joana percebeu, o que significava que a tortura daquele dia terminaria em breve.

Juliana estava radiante como sempre. As muitas horas no salão haviam resultado em cabelos ligeiramente mais claros e lisos, até quase a altura da cintura. A maquiagem leve, dava-lhe um ar juvenil e realçava sua beleza. Ela parecia doce e amável, Joana notou, parecia feliz também. A filha conhecera pouco daquele lado da mãe, sempre tentara deixá-la feliz, mas a garota acreditava que sua simples presença já a aborrecia.

— Temos uma última pergunta. Parece que uma foto sua viralizou há algumas horas, entrando em um carro...

— É engraçado como a internet deixa as coisas tão mais rápidas. – Riu com graciosidade.

— A foto já chegou a trinta mil curtidas e quase dez mil compartilhamentos desde a hora que foi postada. E todos estão fazendo a mesma pergunta. Quem é essa pessoa que está acompanhando você? Coloquem a imagem na tela. – O entrevistador falou.

Joana quase se engasgou com a comida. Sua cara de quem havia acabado de pular da cama e morria de fome estava imensa na tela da televisão. Se a mãe não tivesse reclamado antes, agora reclamaria em dobro.

Por que alguém havia tirado uma foto dela? Por que logo dela se havia uma Juliana ali?

— Ah... – A câmera voltou a focar o rosto da modelo. Juliana estava constrangida. – Ela é... Bem... A minha filha.

— Sério? – Aquela era a última resposta que todos ali esperavam. E o que se seguiu foi o que Juliana menos esperava em toda a Terra: – Ela trabalha como algum tipo de modelo? Ela tem o rosto bem bonito, posso dizer com segurança que é quase tão bonita quanto você. Você a estava escondendo esse tempo todo? Como ela se chama?

— Hum. – Juliana hesitou, passou uma mecha do cabelo para trás da bochecha e alargou o sorriso. – Eu não estava escondendo ninguém. Ela se chama Joana e não é modelo. A verdade é que sempre me preocupei com a segurança e a privacidade dela, então preferi não expô-la. Há algumas poucas fotos que saíram a público quando ela era menor, mas depois fiz de tudo para que ela não se tornasse alvo da mídia.

— A internet está enlouquecida com essa foto da sua filha. Parece que o que você tentava evitar não será mais possível a partir de hoje. A senhora acha que seria possível a sua filha conceder uma entrevista para a emissora?

— Minha filha é tímida e não gosta dessa exposição. – Juliana olhou diretamente para a câmera, como se olhasse nos olhos dos telespectadores. – Peço que respeitem a privacidade dela, não peço isso como a Juliana que conhecem, mas como mãe. Se Joana quiser vir a público, esta decisão deve ser apenas dela.

— Nosso tempo acabou. Muito obrigado, Juliana, foi um prazer tê-la aqui com a gente e sucesso com seus próximos projetos.

— O prazer foi todo meu.

A imagem cortou no sorriso de Juliana.

 

Joana avisou a mãe que não teria como buscá-la. Juliana não a obrigou, não queria que ninguém mais tivesse a sorte de encontrar Joana com ela. Iria torcer para que todos tivessem escutado seu pedido para que deixassem Joana em paz e esquecessem aquela idiotice toda.

O carro estava estacionado em casa, então a filha já deveria estar lá. Subiu a passos longos e foi bater à porta do quarto de Joana. Ela não demorou para abri-la.

— A senhora já chegou?

— Não, eu sou uma alma penada e meu corpo ainda está no estúdio. Não seja ridícula, Joana.

— Eu vi a entrevista, a senhora estava maravilhosa. Muito obrigada por pedir que respeitassem minha privacidade. Sinto muito pelo que aconteceu, sei que o momento era seu e foi muito constrangedor terem me colocado no meio.

— Não foi... Não me venha com esse assunto! Se me constrangeu? Claro que me constrangeu, porque você apareceu em rede nacional em calças de moletom e tão descabelada que parecia ter brigado com um bando de pássaros!

— Nem estava tão ruim assim. Eles até me elogiaram.

— Elogiaram por educação, porque só uma pessoa cega para elogiar esse bujão...

— Agora está me agredindo! Eu sempre soube que a senhora teve vergonha da minha aparência, mas isso é o que menos me importa. A senhora como minha mãe deveria me apoiar e ficar feliz por eu estar bem com quem sou. Não ficar vomitando esse bando de padrão ridículo que só serve para matar as pessoas e vender.

— Pois eu ganho graças a "esse bando de padrão ridículo". E é com esse dinheiro que criei você e você tem onde morar.

— Olha, eu não estou com nenhuma vontade de discutir, tá legal? Eu posso falar o que quiser e a senhora não vai mudar, então só quero ficar em paz.

— Eu lhe proíbo de se envolver com qualquer coisa da mídia. Se eu souber que apenas está cogitando responder a qualquer entrevista ou o que seja, eu não serei tão boazinha. Não quero que liguem sua imagem...

— Não quer que me vejam como sua filha? – Revirou os olhos. – Só por que sou gorda? Só por que eu não entro na droga das roupas que você entra? Só por que eu gosto de ser assim e você não tem mais influência sobre o que eu gosto e deixo de gostar? Pois saiba que se eu quiser eu vou sim dar entrevistas. E já passou da hora da senhora se acostumar com o fato de que tem uma filha gorda!

O rosto de Joana estava vermelho como uma cereja. Queria se manter forte na frente da mãe, mas sentia as lágrimas inundarem seus olhos.

— Já te avisei.

Juliana se retirou. As duas bateram a porta ao mesmo tempo. Joana se enterrou na cama, enquanto a mãe se apressava para ver até que ponto aquela foto havia se espalhado pela internet.

Horrorizou-se ao perceber que Joana aparecia nas maiores páginas de fofocas do país. Haviam pesquisado a fundo a vida da garota e agora não compartilhavam apenas a foto tirada naquele dia, mas as de anos antes também.

Ela se sentiu enciumada, não se lembrava se alguma vez alguma foto ou matéria sobre ela havia se espalhado com tanta rapidez e magnitude. E enciumava-a ainda mais todos os elogios que teciam sobre a garota.

Precisava dar um jeito naquilo o mais rápido possível, antes que se tornasse algo incontrolável.





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