Kandor: as chamas da magia escrita por Sílvia Costa


Capítulo 25
Capítulo XXIV - Julgamento de Daniel


Notas iniciais do capítulo

Olá como vocês estão? Saindo mais um capítulo. Daniel finalmente será julgado. Claro que teremos algumas surpresas.



Duas semanas depois

O dia estava agitado para todos e com Sarah não era diferente. A conselheira não se aquietava um só segundo e tudo lhe parecia mal. O vestido de mangas longas apertava seus pulsos, o sapato machucava os pés e sua cabeça doía. Sem saber se conter diante de todos os questionamentos e aborrecimentos, acabou na sala do trono em um embate com a Imperatriz.

— Algo precisa ser feito!

— Tem provas contra alguém Sarah?

— Não mas é um absurdo não punir alguém. Tenho certeza de que Andreas foi atacado de alguma forma. Tinha certa idade mas não a ponto de cair e morrer assim.

— Tem provas Sarah? Entende que sem provas eu não posso mandar ninguém para as masmorras. Acaso minha mãe agia assim?

Ela deu alguns passos em direção a Sarah.

— Você pensa que estou conformada com o que aconteceu e que nada estou fazendo? – Suspirando e olhando fixo para ela, completou. – Eu trabalho em silêncio Sarah, não há motivos para alertar o inimigo. Você deveria se orgulhar afinal, você também é assim, ou eu estou errada?

A ironia surtiu logo efeito e a mulher começou a ficar vermelha de raiva. Insinuar que as duas se pareciam foi uma das piores coisas que Diana poderia ter feito. É verdade que Sarah não jogava para perder e era bem astuta, tanto que conseguira chegar ao posto de conselheira sendo a primeira mulher no Conselho. Só uma vez havia perdido e com certeza não haveria derrota maior do que aquela em sua vida, tanto que não gostava de se lembrar.

— Seus inimigos estão fechando o cerco e não sabes nem ao menos quem são!

— Sarah – ela disse contendo a vontade de dizer algumas verdades também – retire-se.

Ela segurou o vestido com raiva e saiu marchando porta afora. De certa forma ela estava certa pois Diana ainda não tinha ideia de quem estava por trás de tudo aquilo. Sua intuição dizia que pessoas próximas estavam envolvidas. Um dos conselheiros? Alguma das criadas era uma informante do inimigo? Como tinham acesso ao palácio? A entrada seria facilitada pela Guarda? Todas essas perguntas passavam por sua mente ao longo do dia e admitir que alguém levou Andreas a morte era o mesmo que dizer que não havia segurança alguma para ninguém no palácio e quem sabe, nem mesmo no restante do reino.

Deixando os dissabores na sala do trono, ela seguiu para outro cômodo, onde as mulheres estavam reunidas em torno de Ailla. Estava próximo o momento em que Bonneville e ela se tornariam noivos e discutiam os preparativos para a comemoração.

— Seria grandioso se o seu vestido fosse vermelho, pois te deixa ainda mais bonita. – Dizia uma das amigas de Aurora, cuja filha, Lísia, andava agarrada a Ailla.

— Para a ocasião não é uma boa opção, Nagela. Um tom de verde seria melhor e para o casamento, o azul.

— Eu não gosto de azul, mãe. O vermelho é muito melhor.

— Você ainda tem muito o que aprender. Deixe que sua mãe cuide de certos detalhes.

Ailla jamais seria feliz com aquele homem, pensava Diana no meio da sala ao mesmo tempo em que Nãna e outra amiga de sua tia, Esther, conversavam sobre o que servir. Mais duas amigas de sua prima também estavam presentes: Stela e Mirian. A contragosto elas participavam dos preparativos embora detestassem a ideia assim como a própria noiva e reconheciam que os dois a muito custo conseguiam ter uma conversa.

Diana via o descontentamento de Ailla enquanto as demais sonhavam com um casamento luxuoso. Olhando para a nubente a ideia de ir contra o casamento lhe pareceu boa pois livraria ela de uma vida infeliz. Será que ela sentia algo por Ryan ou outro homem? Ela poderia ajudar os dois a ficarem juntos mas fazer algo por ela soava contraditório se levasse em consideração que nunca foi respeitada. Se ela se casasse, teria de deixar o palácio e seria bom ficar longe das implicâncias dela. Além disso, tiraria ela de perto de Henry, algo que nas últimas semanas se tornou visível e a incomodava. Agora que era o General e tinha se mudado para o palácio, estava ao alcance das artimanhas dela que buscava ficar por perto sempre que possível ao longo do dia, lhe fazia perguntas à mesa e até havia se oferecido para mostrar melhor o palácio. Felizmente, ele recusou o convite para o alívio de Diana. Ela pensava como teriam sido tristes esses últimos dias para Ryan, que além de não participar da condecoração de Henry e poder admirar sua amada, foi deixado de lado por ela.

— Fico imaginando o dia em que estaremos conversando sobre o seu.

Nãna tinha terminado a outra conversa e se voltava para Diana. Assustada com a inusitada interrupção de seus pensamentos, ela se sobressaltou na cadeira ao toque de sua antiga pajem.

— Do que está falando, Nãna?

— Nada eu só estou sonhando acordada com o dia em que chegar o seu casamento.

Ela estava sonhando de verdade e seus olhos pareciam perdidos em imagens que só ela via. As demais não perceberam mas a simples menção de se unir a alguém deixou a Imperatriz visivelmente perturbada. Casar nunca passou pela sua mente pois esteve sempre muito ocupada para isso. Ela se levantou apressada e bateu a porta dizendo:

— Eu preciso resolver algumas coisas.

No momento em que se colocou porta afora, sentiu-se muito boba pela sua reação. Que pressa era aquela de fugir de um assunto, se perguntava. Estava agitada e incomodada com todos aqueles preparativos e desde o início um pressentimento de que algo daria errado lhe rondava, ficando cada vez mais forte toda vez que pensava no assunto.

— Imperatriz? Posso ajudá-la?

Henry se aproximou sem que ela percebesse e parou a pouca distância. Estava com o uniforme de General e reparou como ele parecia de certa forma mais velho e mais bonito agora. Naquelas semanas tinha mantido o estilo dos treinamentos do tio dela, deu atenção individual a alguns dos guardas e enfrentou uma porção de comparações com John. Diana notou uma cautela maior em relação a ela nos últimos dias, que julgou ser apenas uma preocupação boba. Como ele está começando, optou por se manter disponível para o que ele precisasse mas outra pessoa também parecia disposta a isso. Celeste e ele são próximos e ficou mais incomodada ainda quando descobriu que ela é filha de uma antiga criada, que ele sempre a ajuda enquanto ela parece disposta a conquista-lo, olhando-o com puro interesse, que o deixa de certa forma desconcertado.

Ele perguntou novamente e a trouxe de volta para a realidade. Ainda estava parada junto a porta mas logo se afastou tentando disfarçar sua confusão interna, sentindo o rosto queimar de vergonha sem saber o motivo.

— Henry... não, está tudo bem. Na verdade eu queria mesmo falar com você. Amanhã teremos o julgamento de Daniel e eu preciso que mantenha os mais fiéis e mais preparados homens de prontidão na masmorra e que você venha acompanhar o julgamento amanhã.

— Já estão a postos e eu estarei presente sim. — Havia tomado essa decisão logo após a condecoração pois no fundo acreditava que ele era inocente. — Pensa que alguém pode querer visitá-lo?

— Talvez e não podemos nos descuidar.

— Eu realmente não creio que ele tentou envenená-la. Toda essa história parece armação e pior seria se viesse de alguém de dentro do palácio, como imagino que tenha sido. — A expressão de Diana não foi das mais contentes e Henry desejou pegar as palavras de volta. — Me perdoe, não foi minha intenção aborrecê-la mas precisas tomar cuidado.

— Não se preocupe. Se assim for, não haverá nada que eu possa fazer a não ser aplicar a lei de Kandor. – Ela deu um passo em sua direção e continuou. – Vamos conversar melhor em outro lugar. Aliás, precisamos traçar a rota que seguiremos para aquela visita, se lembra? Vamos pegar alguns dos mapas de Ariana na biblioteca.

Ele assentiu e deixou que ela seguisse à frente. Se lembrava bem do seu trato de levá-la até a pessoa que procurava e desejava que fosse o certo a fazer, sem passar por problemas ou cair em alguma armadilha. Embora tenha sido praticamente obrigado a isso meses atrás, fez dos interesses de Diana os seus a ponto de esquecer muito de si mesmo.

Enquanto eles subiam para o segundo andar, Clermon e Erick os observavam na porta de entrada do palácio.

— Notou como ela estava apreensiva no torneio?

— Claro. Ela parecia muito interessada na disputa.

— Mais do que interessada eu diria. Esse rapaz, o filho do conselheiro Zumach, fez uma boa campanha, não é mesmo?

— Sim. Muito habilidoso, senhor.

— Interessante. — Ele mexia na barba enquanto falava. — O que me diz dele?

— É um excelente guarda. Determinado, tanto que venceu seus oponentes.

— Era muito focado na Guarda?

— Um dos mais interessados. Luta bem, nunca faltou a uma só ronda e nunca recusou tarefas, mesmo estando cansado. — Erick percebeu um brilho diferente no olhar do tio de Diana e resolveu sondar mais a fundo. — Mas por que esse interesse repentino, meu senhor?

— É só curiosidade. Além do mais, ele agora é o novo General. — Erick o observou com o canto do olho e sabia que algo mais estava por trás dessas perguntas.

— Tem um detalhe sobre ele que o senhor precisa saber. — O outro se virou, dando total atenção às suas palavras que saíram em tom de confidência. — A Imperatriz e ele parecem ter um trato. Creio que está realizando algum trabalho para ela, além das suas funções na Guarda.

— De qual tipo de trabalho estamos falando?

— Ela tem olhos, ouvidos e mãos bem treinadas fora do palácio. Ele está em busca de alguma informação ou pessoa para ela.

— Compreendo.

Clermon se fechou em um silêncio profundo enquanto sua mente trabalhava as recentes informações.

No dia seguinte na sala do trono, Solano e Diana conversavam antes do julgamento de Daniel. Fazia algum tempo que não expunham suas ideias e confidências um para o outro e sentiam falta das horas que passavam juntos. Ele estava um tanto apreensivo mas se esforçava para deixar de lado as preocupações tentando colocar no lugar a tiara dela, que já estava bem posicionada. Depois se afastou um pouco e olhou com orgulho para a jovem, como se fosse um pintor contemplando sua obra prima.

— No que está pensando?

— Só estou me lembrando de quando você era pequena. Era tudo mais fácil.

— As pessoas crescem e mudam. Você me dizia isso, lembra?

Ele se lembrava bem e isso não o agradava muito pois sabia que não poderia retornar no tempo para reviver uma série de momentos especiais.

— Eu preciso te contar algo. – A frase arrancou Solano de seus devaneios e ela respirou fundo e continuou. – Andreas me deu um presente na noite anterior a sua morte.

— Um presente? Qual presente?

Ele estava intrigado e curioso principalmente por vir do Andreas ranzinza e implicante. Era verdade que ele sentia muito pela morte do amigo mas não imaginava com o que ele poderia presenteá-la. Diana puxou um pouco a manga do vestido para mostrar uma pedra verde e brilhante amarrada a seu pulso. Ele a tocou levemente e se sentiu aliviado mas nada disse.

— Solano, você sabe por que Andreas teria isso? Ele disse que era um presente da minha mãe.

— Sim, eu imagino o motivo.

Ele se afastou alguns passos e puxou um colar, oculto por sob a roupa. Diana se perguntava o que ele poderia ter ali e seu coração acelerou só de pensar que ele também teria uma pedra igual. Um trançado de linhas negras envolvia uma gema idêntica à de Andreas, que reluziu ao toque do sol.

— Como… ela te deu uma idêntica?

— Ao que parece sim. Suspeito não sermos os únicos portadores dessas pedras. – Ele fez uma pausa e estendeu o colar a Diana. – Antes dela falecer, fui chamado a seu quarto. Ela estava muito fraca e pálida, me estendeu a mão e disse que eu seria seu tutor e que deveria cuidar de você com minha vida. Ela foi direta e não havia muito tempo.

— E depois? – Ela perguntou não escondendo a curiosidade e a urgência em saber.

— Ao final ela me deu essa pedra e disse que eu saberia quando usar.

— Mas para quê? Quem mais as tem?

— Eu detesto admitir Diana, mas eu não sei tudo. Não deu tempo para ela falar.

— Eu fico me perguntando o quanto as palavras de tia Martha podem ser verdade. Fico me perguntando quais inimigos meus pais fizeram e se chegaram a tentar matá-los.

— Quem está no poder sempre faz um inimigo. Disso eu nunca duvidei.

O peso do silêncio se fez sentir na sala. Ele estava certo e agora a Imperatriz via claramente como suas preocupações antes não se comparavam as que vieram após assumir o trono. Uma batida na porta fez Solano guardar o presente com pressa e se dirigir a ela. Agenon aguardava para começar o julgamento e, deixando a porta aberta, o guardião de Diana se preparou para um dos momentos mais difíceis de sua vida até agora: decidir sobre a vida de alguém que julgava ser de sua confiança.

Agenon entrou trazendo um livro grande e de muitas folhas usado para fazer as anotações dos julgamentos realizados no reino. A sala do trono foi organizada de forma que houvessem cadeiras para todos os participantes, de menos o réu. Ele se aproximou e pousou o livro na mesa de madeira e se manteve de pé, visto que a Imperatriz também não se sentara. Ela olhava fixamente para o conselheiro como que perscrutando seus mais íntimos pensamentos. Não era um olhar intimidador mas com certeza difícil de dizer ao certo o que se passava em sua mente.

— Posso lhe ser útil, Imperatriz? – Perguntou fazendo uma mesura após algum tempo.

— Creio que sim, Agenon. Poderia me esclarecer uma dúvida?

— Se estiver no meu conhecimento lhe responderei prontamente, soberana.

— Diga-me o que se pode pensar de alguém que faz rondas noturnas pelo palácio, quando não é a função que cabe a ela?

— É curiosa vossa pergunta. – Ele colocou os braços para trás pensativo. – No primeiro momento eu julgaria ser uma pessoa interessada em manter a segurança, mas a meu ver se deve interpelar essa pessoa cuidadosamente.

Sua vontade era dizer que a seguiria mas conhecendo a Imperatriz e seu gênio, seguir pessoas não era um bom conselho pois ela com certeza o faria.

— Pois bem, sua decisão é sábia e vou segui-la. – Ela desceu a passos lentos do espaço onde ficava o trono sem tirar os olhos do homem. Ao chegar muito próximo falou em tom sereno mas firme. – Agenon, o senhor tem prestado um bom trabalho ao palácio como conselheiro. Está servindo ao reino há vários anos e sei que se preocupa muito com minha segurança mas conte-me, o que o leva a andar pelo palácio tão tarde da noite?

O conselheiro foi tomado de surpresa e tentou disfarçar imediatamente. Como ela poderia saber disto, se perguntava mentalmente. Ele tomava sempre muito cuidado e sabia os horários em que a Guarda passava pelos corredores, de forma que julgava que ninguém o veria.

— Imperatriz, eu admito que em algumas noites o sono me falta e decido passar algumas horas na biblioteca ou na sala do Conselho. Ando sempre o mais silenciosamente possível para não acordar ninguém. Acaso causei aborrecimentos?

— E estes são os únicos locais onde costuma estar?

— Certamente.

— Chegou até mim a informação de que também veio a sala do trono.

— Apenas uma vez estive aqui. Ouvi um barulho e vim constatar do que se tratava. A porta que dá acesso ao salão estava aberta e o vento a empurrava.

De fato era o que havia acontecido mas ele ocultou parte da verdade. Ao entrar na sala algo chamou sua atenção e ele se aproximou da janela com vista para as Montanhas do Desespero. Uma sensação ruim tomou conta dele quase como se alguém lhe infligisse um peso por sobre os ombros, como se uma presença maligna tomasse conta do ambiente. Mais do que rapidamente ele saiu e retornou para seu quarto mas todos as noites a sensação de que alguém o chamava até o local era quase irresistível e inevitavelmente ele voltou algumas outras vezes, mesmo temendo por sua vida.

— Acredito em suas boas intenções, conselheiro, mas tome cuidado para elas não serem mal interpretadas.

Diana deu a conversa por encerrada e logo chegaram todos os que participantes do julgamento. Os demais membros do Conselho tomaram seus lugares de frente para o trono, alguns guardas entraram e se puseram ao lado da porta e outros nas laterais do cômodo. Ariana, a contragosto se colocou ao lado de Agenon, torcendo para que algo acontecesse e a sentença fosse adiada. Olhando atentamente para ela estava Robert e isso a fez lembrar da conversa com Nãna. Ela insistia para que desse uma chance ao rapaz e permitisse que ele a cortejasse. Ariana negou mas por sua mente passou momentaneamente como seria tê-lo como um pretendente.

Os familiares de Daniel também foram convidados e tomaram lugar, silenciosamente, em uma resignação e humildade profundas.

Quando Daniel entrou foi alvejado por olhares de diversos lados. Henry o acompanhava de perto e internamente torcia para que ele fosse mesmo inocente e se saísse bem naquele dia.

Ao chegar em frente a Diana, abaixou ainda mais a cabeça depois de um breve vislumbre de seu rosto. A julgar pelo olhar dela poderia dizer que não encontrou o que ele gostaria que estivesse sem seu poder. Quando esteve em sua sela dias antes, estranhou que viesse sozinha e que os guardas ficassem do lado de fora. Ela foi bem clara: auxílio em troca de um julgamento justo e de não morrer nas mãos de seu inimigo oculto. No fundo ele acreditava que ela agia assim por simples estratégia mas tratou de garantir que ela estaria interessada no que tinha para contar. Falou breve sobre os estudos secretos de sua família sobre a Joia e que essas anotações foram queimadas em um acidente na casa da família. Restava apenas uma pequena parte e estava guardada no chão de seu quarto. Se ela não encontrou então outra pessoa o levou e agora, sem o livro, ela estava livre para deixá-lo morrer se quisesse. Embora ele já se considerasse um condenado, no fundo do seu coração ainda restava a esperança de que ela acreditasse em sua inocência.

— Dou a palavra a Solano Brantes, chefe do Conselho de Kandor. – Ele deu um passo à frente enquanto Diana se sentava, seguida pelos demais presentes. – Conte-nos o ocorrido e como Daniel Baranov chegou ao ponto de ser julgado.

Solano relatou sobre o dia em que o frasco de veneno foi encontrado no quarto do conselheiro, o processo para comprovar que se tratava de uma substância perigosa e que fora colocada na água da Imperatriz. Cada palavra dita era uma adaga cravada na honra e na alma dos familiares presentes, que com certa vergonha miravam Diana, mesmo acreditando que Daniel era inocente.

— Por tudo isto, este homem foi trazido a julgamento afim de receber a pena que lhe cabe ou a absolvição se for inocente. – Ele se calou e com um olhar para Diana, abriu espaço para que ela falasse.

— Eu começarei com as perguntas e posteriormente o Conselho poderá fazer as suas próprias. – Ela olhou para Daniel pensando com cautela nas perguntas para não prejudicar ainda mais o homem. – Diga-nos, Baranov, qual sua atuação no Conselho?

— Eu sou responsável por trazer a vossa presença os problemas relacionados a estrutura do reino e por isso viajo para vários locais.

— E há quanto tempo está no Conselho?

— Há treze anos, Imperatriz.

A menção dessa informação lembrou a todos que era o mesmo tempo decorrido após a morte dos pais dela e Solano se empertigou na cadeira. Talvez algo tivesse passado por sua mente.

— Além de suas funções no Conselho, exerceu alguma outra atividade?

Sarah se mostrou impaciente no seu lugar e remexia a saia do vestido. Ariana percebeu que Diana queria mostrar a importância dele no palácio e sua boa conduta todos essas anos. A sua frente, Agenon anotava minuciosamente tudo o que era dito.

— Eu faço estudos diversos e aplico os conhecimentos em prol do reino. Por exemplo, descobri que certas plantas se desenvolvem melhor sob a proteção de outras, maiores e mais fortes, que as protegem do sol do verão e do vento impetuoso do inverno. Isso melhorou o cultivo e as provisões de todas as famílias.

O alvo foi alcançado. Uma onda de reconhecimento invadiu a sala e alguns se questionaram sobre sua sentença quase certa.

— Deixo agora o Conselho fazer as perguntas que se aplicam ao caso.

Magno estava escalado para conduzir parte das perguntas e se levantou lentamente, olhando fixamente para Daniel. Henry se sentiu incomodado e teve vontade de se colocar entre eles.

— Poderia nos explicar como um frasco de um veneno poderia estar em seu quarto?

— Não mas tenho plena certeza de que não o trouxe para dentro do palácio.

— E como podemos confiar em sua conduta? Ao dizer que faz estudos diversos, acaso não teria algum deles relação com plantas venenosas e cujo cultivo é proibido?

— Jamais cultivei plantas venenosas nas terras do palácio ou em qualquer outro lugar. Todos esses anos tudo sem sido supervisionado por meu superior e trazido ao conhecimento da Imperatriz, e se pode provar pelos registros detalhados de Solano Brantes. Acaso estariam eles descuidando das funções que lhe cabem?

Ao jogar a responsabilidade para os demais, Magno ficou preso numa armadilha. Se dissesse que Solano e a Imperatriz não estão cumprindo suas funções, causaria grande alvoroço e seria sem dúvida declarado inimigo do chefe do Conselho. Isso poderia resultar em um duelo e não seria útil a seus planos.

— Tenho certeza de que cumpriram com esmero suas atividades mas o que não desejamos que seja visto pode ser ocultado pelos nossos. Que ajuda lhe dá a casa Baranov em seus dias tão ocupados?

— Minha família é honrada e jamais atentaria contra ninguém, sobretudo contra a Imperatriz! Essa é uma calúnia sem tamanho!

Henry se adiantou e segurou o braço esquerdo do conselheiro, impedindo que se adiantasse a frente. A provocação de Magno surtiu efeito e era perigosa pois se o réu o agredisse, sua situação ficaria ainda pior. Marcus, e Robert se adiantaram e a contragosto de Henry se ofereceram discretamente para segura-lo e o burburinho tomou conta do local.

Silenciosamente um dos guardas se aproximou de Henry e tocou seu braço. O rapaz tinha uma expressão séria e preocupada e parecia cansado. Eles se retiraram e mais guardas esperavam por eles do lado de fora.

— Me soltem! Está me machucando seu brutamontes!

Uma senhora baixinha reclamava alto com um dos guardas enquanto ele segurava seu braço. Ela tinha os cabelos desalinhados e se enrolava em um xale para se proteger do frio daquele dia. Os homens traziam flechas na aljava e a aparência de que estavam há alguns dias fora do palácio.

— O que se passa aqui?

— General, encontramos essa senhora em atitudes suspeitas. Alguém a denunciou e a descobrimos com uma bolsa de conteúdo suspeito.

— Já disse pra me soltarem! Mande eles me soltarem! Não fiz nada!

— Acalme-se, senhora. Se não fez nada não tem o que temer. Vamos resolver essa situação. – E virando-se para os demais, completou. – Onde está a bolsa?

— É está.

Henry abriu e se calou diante do conteúdo. Um conjunto de frascos tamborilava com folga dentro da bolsa. Ele pegou um deles e o examinou com cuidado pois algo lhe dizia que nada de bom poderia sair dali.

— Qual era a informação que vocês tinham quando a encontraram?

— Recebemos a informação de que vendia compostos diversos para curar doenças e também venenos.

— Uma dosezinha de alguma planta poderia ser útil a qualquer um. Quem não gostaria de obter algo rápido e fácil? – A mulher lançou o corpo para frente e uma voz maliciosa encheu o ar. – Tenho a solução para quase tudo ao alcance das mãos por um bom pagamento.

Uma hipótese passou pela mente do General tão breve quando um relâmpago. A marca na rolha em alguns frascos era a mesma do que foi encontrado no quarto de Daniel. Seria ela a pessoa a quem ele recorreu para fazer o veneno? Onde e quando eles se conheceram? Se eles fossem colocados frente a frente, soltariam alguma informação?

— Levem-na para uma das celas e não tirem os olhos dela por nada. Essa bolsa fica comigo por enquanto.

— Se não vai pagar por eles também não vai levá-los! Devolva minhas coisas!

A senhora se debateu com raiva tentando se livrar do guarda e avançar para Henry. Seus gritos se fizeram ouvir no corredor e chamou a atenção de todos na sala do trono. Diana ordenou que abrissem a porta e imediatamente a mulher se calou. Os guardas se colocaram de joelhos enquanto esperavam que ela falasse.

— Levantem-se.

Ela deu alguns passos observando atentamente cada um. A curiosidade também fez os demais olharem para fora e alguns até desejaram que ela os repreendesse pela interrupção mas isso não aconteceu. Seus olhos passaram de um para o outro, se fixaram um pouco na senhora e depois na bolsa que Henry segurava.

— Estamos no meio de um julgamento. O que traz todos vocês a porta?

— Imperatriz, estes homens me roubaram! Diga a eles que devolvam minhas coisas.

Imediatamente todos se levantaram e comentavam entre si, dizendo que era um absurdo aquela interrupção e outros questionando quem era aquela mulher. Ela continuava a pedir que devolvessem sua bolsa sem se importar com o escândalo que fazia e com o que os demais falavam.

— Basta! – Diana elevou sua voz tentando fazer com que todos se aquietassem. – Não vamos chegar a lugar nenhum assim. – E quando todos lhe davam atenção, ela prosseguiu. – O que tem nesta bolsa?

Henry entregou o pequeno frasco para ela e mostrou o conteúdo da bolsa, silenciosamente. Seus olhares falavam tudo sem precisar pronunciar palavra e ela entendeu que a situação estava pior para o conselheiro do que ela imaginava. Por mais que desejasse livra-lo, não conseguiria ocultar a presença daquela mulher ou o que ela trazia.

— De que esta senhora é acusada?

— Comercialização de compostos de ervas e veneno.

O guarda que a segurava não precisou fazer muitos esforços para que ela entrasse na sala. Os presentes a examinaram com o olhar mas ela não deu atenção a nenhum deles a não ser Daniel. Ficou seu olhar nele como quem vê finalmente alguém que estava procurando há muito tempo e isso o deixou incomodado.

— Finalmente nos encontramos.

— A senhora o conhece? – Sarah perguntou perplexa.

— Sim. Ele me requisitou um veneno um tanto discreto mas mortal se usado por certo tempo. Ainda está me devendo, caro senhor.

Todos ficaram surpresos e a família de Daniel ainda mais. Como um Baranov poderia recorrer a uma pessoa assim para algum serviço? De longe se via que se tratava de uma aproveitadora e não podiam acreditar no que ela contou. Entretanto, outros lhe dariam algum crédito.

— Deve haver algum engano. Eu nunca a vi em toda a minha vida.

— Claro que não. Todos dizem isso. O que fez com o veneno que lhe entreguei?

— Ele o utilizou tentando matar a Imperatriz. – Magno não conseguiu se calar.

— A Imperatriz? – Ela se virou para Diana com expressão de surpresa e incredulidade. – Eu… eu não sabia. O senhor não me disse que era uma pessoa tão importante. – Com raiva ela encarou o réu que não conseguiu formular palavra, tamanha era sua surpresa com aquela interrupção e todo o teatro que ela fazia. – Imperatriz, eu não sabia do que se tratava e jamais teria entregado nada que fosse lhe fazer mal. Eu posso viver na obscuridade mas sei até onde devo me meter.

— Conte-me como o conheceu. – Diana disse relutante.

— Algumas pessoas no reino conhecem minha casa e por meio de um deles, este senhor chegou até mim. Não vou contar quem são pois sou discreta. Me pediu algo especial, que não fosse notado rapidamente mas que a certo ponto não tivesse mais volta. Como não é um homem casado não teria porque matar a esposa ou os pais dela, como já vi alguns fazerem então deduzi que era um outro homem. Pelo menos foi o que pensei quando disse que pretendia tomar o cargo de alguém importante.

— Isso é mentira! Nunca a vi antes! Imperatriz, estão armando contra mim. Eu não posso provar mas isso não é verdade!

Enquanto a senhora discutia com o conselheiro, contando sobre o suposto trato, Diana fixou seu olhar nele. Uma sensação de que algo familiar estava por perto a invadiu. Uma luz fraca surgiu por entre a túnica dele, leve e fraca e quase imperceptível. Com certeza ele trazia uma pedra também é possivelmente da mesma que Andreas e Solano. Por que sua mãe distribuiria essas pedras? O que elas são? Se Daniel fosse condenado, é provável que muitas informações se perdessem. E se sua mãe confiava nele a ponto de oferecer uma pedra com algum poder especial, valia a pena confiar em sua intuição. Ela precisava agir logo e acabar com aquilo. Levantando-se a senhora se calou e se dirigiu a ela.

— A senhora chegou a esta sala interrompendo o julgamento e será ouvida individualmente mais tarde. Por hora, ficarei com essa bolsa e deverá aguardar até que seja chamada novamente. Os guardas lhe perguntarão onde a senhora mora e espero que responda a verdade. Poderemos avisar um familiar seu de que está aqui.

— Mas são meus!

— Lhe dou a garantia de que ninguém aqui os usará e o assunto está encerrado. Levem-na daqui.

Prontamente os arqueiros a tiraram da sala e fecharam a porta. Diana se sentou quando Allef pediu a palavra e deixou que ele falasse para que tivesse tempo para pensar no que fazer. Com o surgimento daquela mulher, tudo mudava.

— Eu não esperava isso de você Daniel e ao mesmo tempo não consigo acreditar no que estou vendo. Como explicar isso? Não faz sentido. Atentar contra a pessoa que mantém esse reino vivo é ferir a si próprio! Você sabe! — Vociferou apontando o dedo para o réu. Após um momento de silêncio e de ter se acalmado, continuou. — Mas se há alguém tramando contra você, qual objetivo teria? Eu estou muito confuso. Muito confuso.

Allef estava pálido e Sarah se dirigiu a ele para ampará-lo ajudando-o a se sentar. Ariana se adiantou também e se pôs a abana-lo com algumas folhas que trazia na mão.

— Sendo declarado culpado, não poderemos deixá-lo impune. Tampouco permitir que fique aqui e cause problemas. – Agenon clamava por uma decisão de Diana. – Imperatriz, este homem é uma ameaça a vossa vida! Não podemos descuidar dele.

Diana sabia que não deveria condená-lo mas se sua vida correu riscos então a dele também não estava segura, mesmo nas masmorras. Preciso adiar sua sentença e conseguir tempo para descobrir o que quero, pensava. Correndo os olhos pela sala, ela viu os membros da família de Daniel, seus dois sobrinhos, uma prima da mesma idade e uma sobrinha mais nova, aparentando ter a mesma idade de Diana, de mãos dadas enquanto aguardavam a sentença final. A mãe dele não compareceu devido à idade e para evitar fortes emoções. Allef estava sentado na cadeira com o rosto muito pálido e Sarah lhe trouxera uma taça com água.

— Levando em consideração as condições de todos os presentes e diante dos novos questionamentos, vou adiar o julgamento e a proclamação da sentença final. Precisamos refletir muito antes de tomar uma decisão.

O misto de alívio e o sentimento de absurdo foi dividido pela sala e até pensaram em questionar mas a expressão de Diana dizia que não havia o que discutir. Henry prontamente indicou cinco guardas para descerem com o réu como se fosse a salvação da alma dele e isso ajudou a conter os ânimos.

— Por quando tempo adiaremos isso? — Solano perguntou não concordando com a ideia.

— Eu comunicarei quando nos reuniremos novamente. Por hora, penso que sete dias sejam o suficiente. — E virando-se para o réu completou. – Daniel Baranov, pode ser que nesse tempo seja chamado para outros interrogatórios.

— Estarei à disposição, Imperatriz. – Respondeu com dificuldade e com a cabeça baixa mas um pouco aliviado, embora não acreditasse que fosse ficar vivo por muito tempo.

— Aprecio vossa decisão e capacidade de discernimento, Imperatriz. Precisamos mesmo refletir com cautela. – Disse Magno, enquanto sua mente maquinava algo.

Os demais não proferiram palavra e todos se retiraram deixando a Imperatriz com uma bomba relógio nas mãos.



Notas finais do capítulo

O que vocês acharam? Ficou gigante né rs
Agora vocês sabem quem visitou Daniel depois que foi preso. Será que Diana está jogando perigosamente? Vocês acham que ela vai livrar ele de alguma forma?



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