Landra escrita por Gislane Brito


Capítulo 7
Há males que vem para o bem


Notas iniciais do capítulo

Mas antes que o "bem" chegue, as coisas podem piorar bastante



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O atentado contra Leudrius na sede da ONU convenceu os representantes de governos mundiais sobre a gravidade da situação dos mutantes, híbridos e extra-terrestres.  O pânico generalizado já era algo esperado após a presença deles vir a público oficialmente.

Landra pedia a seu pai boletins sobre o desenrolar das negociações que decidiriam os planos de contingência para acalmar a opinião pública mundial pois os noticiários ainda mantinham a política de acobertamento.

E em meio a tantas incertezas, os cientistas arionianos eram os únicos que pareciam empolgados com tudo isso. Lucei e os outros cientistas da Lamarus estavam estudando uma forma de vida que consideravam tão dramaticamente poderosa que pouco se importavam com a situação política da Terra. Angelo era esta forma de vida! Mas o que mais surpreendeu a tripulação foi a tranquilidade com a qual ele concordou em passar por tantos exames sem ao menos questionar as intenções de seus anfitriões. Irônicamente, Angelo transmitia paz e generosidade por onde passava.

Tilany teve que usar todo o seu poder de convencimento para fazer com que Landra concordasse em conversar com aquele que quase matou o seu pai.

— Landra, o Angelo não é um mau caráter! Não há dúvida de que ele também foi uma vítima daqueles criminosos! Semanas se passaram desde que ele chegou a nave e ele não reclamou de nada! Pediu perdão pelo que fez inúmeras vezes. A família dele já foi informada da situação e perguntou quando ele retornaria. Informamos a eles que Angelo deveria ficar por mais alguns dias em tratamento e depois passaria por aconselhamento psicológico antes de voltar para junto deles. Sabe o que é mais incrível?! Eles apenas sorriram e agradeceram pela ajuda!

— Eles parecem mesmo ser muito legais, Ti! Agora vamos ver o que o que o Senhor Brasinha tem a dizer sobre o que planeja para o futuro... Se ele vai continuar com esta de “ser uma pobre vítima das circunstâncias” ou se vai reagir e encarar os fatos... Com os dons que recebemos temos que assumir responsabilidades por nossos atos e não deixar que outros nos usem feitos marionetes! Ele já sabe onde está?

— O capitão Ranied recomendou que ele fosse informado sobre tudo. Angelo ainda acha que está numa Fundação de pesquisa de mutantes. Ele me disse que a última vez que ele foi levado para fazer alguns “exames”, ele foi tratado como desprezo e causaram ferimentos cujas cicatrizes doem até hoje. Aqui pelo menos ele foi respeitado...

— Ainda bem que temos você para ficar de olho nele e sondar os pensamentos e reações emocionais dele, não é Tilany?!

— Falando assim, parece que eu só uso meu dom para invadir a privacidade dos outros!!!

                _ Pára com isso!... Se não fossem suas pequenas incursões na caixola dos outros ainda estaríamos sem saber se o cara estaria dando uma de monge arrependido ou se ele falava a verdade!

— Puxa! Que bom que fui útil... Tilany deixou escapar uma pontinha de sarcasmo arioniano.

Quando Landra e Tilany chegaram ao alojamento, Angelo havia acabado de passar por mais uma sessão de exames e parecia bem cansado, mas mesmo assim as recebeu com um sorriso.

— Oi Tilany, tudo bem?

— Tudo bem Angelo. Esta é Landra...

— Eu vi você na ONU, você é uma policial, não é?... Você veio me levar para a prisão?

— Não sou, não! Aquele era apenas um disfarce para poder chegar perto de você! Eu não podia deixar que você explodisse meu pai...

— O político era seu pai?! Sinto muito... Eu realmente não tinha a menor intenção de machucar ninguém!

— Mas também não fez nada para impedir que aqueles babacas que te controlassem, te usassem como bomba reciclável e matasse meio mundo!...

— Eu já disse que minha família estava nas mãos daqueles monstros... Eu não tive escolha!

— Sempre há uma escolha, Brasinha!

Tilany interveio para tentar acalmar os ânimos.

— Calma aí, gente! Não adianta ficar remexendo neste passado... Angelo, tenho certeza que você agora não aceitará tão passivamente ser usado por ninguém. Pedimos desculpas por tê-lo mantido por tanto tempo nesta nave e prometemos dar todo apoio necessário para recomeçar sua vida. Temos experiência em casos como o seu, não é Landra?!

— Espere aí! Você não está insinuando que nós somos iguais? Não tem nada a ver!!! Somos completamente diferentes, Tilany...

Angelo agora não prestava mais atenção na discussão das mulheres, na sua cabeça ecoava apenas a palavra “nave”.

— Peraí... O que foi que disse? Nave? Você quis dizer navio, não é?!

— Não, cara! É nave mesmo... Nós estamos em órbita, numa nave espacial! Tilany é uma alienígena. A Lamarus é uma nave arioniana de exploração... Todo mundo aqui é do bem... Ou quase!...

— Então nós dois fomos abduzidos por alienígenas de verdade? Isto é incrível! Eu sabia que vocês existiam...

— Agora você falou igual a uma amiga minha. Eu não fui abduzida, nem você! Meu pai é Leudrius, um arioniano. E os arionianos tinham que ter certeza que você não seria mais uma ameaça a segurança de outros ou a sua própria segurança. Se você prometer cooperar, vamos leva-lo pra casa. Se quiser até podemos mostrar a nave pra você... Se decida rápido, antes que eu mude de ideia!

— Claro! Tudo que quiser...Puxa vida! Não posso dizer que sonhei com isso a vida inteira, mas não poderia perder esta oportunidade por nada nesse mundo... Quer dizer, neste sistema solar!

Tilany teve que se conter pra não rir da brusca mudança de humor de Landra e Angelo. Ela avisou o sentinela que eles estariam saindo do alojamento e que o mutante estava sendo libertado com a autorização do capitão. A visão da superfície da Lua e a Terra, com um lado iluminado pelo Sol deixou Angelo extasiado.

— Lindo demais, não é?... Eu nunca vou me acostumar com isso!  Disse Landra quando viu a reação de Angelo. _ Quando estiver pronto, vamos voltar pra casa.

— Vai demorar pra eu me recuperar do choque! Mas eu preciso voltar pra minha família... Tenho que dizer pra eles que preciso me preparar melhor para não falhar de novo quando precisar protegê-los!

— Como assim?

— Tilany, você disse que vocês têm experiência em lidar com mutantes e outras aberrações como eu!

— O termo aberração não é bem aceito por aqui, meu caro!

— Tudo bem... Vocês me ajudariam a entender como meus dons funcionam e como poderia usá-los para ajudar!!!

— Opa!... Ajudar? Como posso saber se você não vai vacilar de novo?

— Eu odeio violência, mas não deixaria ninguém mais me fazer de bobo! Quase causei uma tragédia por ser pacífico demais... Aprendi muito com vocês e quero aprender muito mais... Obrigado!

— É... Parece que agora sua ficha caiu!!!

— Ela sempre foi assim?... Tão irreverente? Angelo pergunta a Tilany em tom de brincadeira.

— Ele quase causa a 3ª. Guerra mundial e eu é que sou a irreverente!

Riram bastante apesar da ansiedade e expectativas pelo futuro e seguiram para o transporte.

 

 

Na Fundação Rarus, Mariana cuidava de uma senhora que havia sido espancada só porque havia colocando cães abandonados em transe com sua música. Ela, uma moradora de rua, usava seu poder para cuidar de animais com o pouco que tinha. Sua dor física foi aliviada em minutos, mas quanto ao sofrimento emocional, Mariana pouco podia fazer.

Naquela manhã, os residentes da fundação se preparavam para o desjejum quando Charlie sentiu um cheio forte de ozônio vindo das proximidades. Minutos depois, dois homens bem vestidos chegaram e pediram para falar com o responsável.

— Meu nome é Charlie Franklin, como posso ajuda-los senhores?!

— Bom dia, senhor Franklin. A pergunta correta seria: Como nós poderíamos ajudar a Fundação Rarus? Sabemos do belo trabalho que o senhor faz aqui ajudando todas estas pessoas... Especiais! Gostaríamos de oferecer o apoio de nossa empresa!

— Estas pessoas são realmente especiais por causa de suas histórias de vida sempre cheias de lutas contra o preconceito, descaso e indiferença da sociedade! E de qual tipo de apoio o senhor está falando?

— A Rodyhealth pretende oferecer assistência médica em nossa clínica e também fazer doações de medicamentos.

— Rodyhealth? Nunca ouvi falar, mas toda ajuda é bem-vinda! Eu agradeço em nome da Fundação... Só preciso que o senhor preencha estes formulários com os dados de sua empresa e nos entregue pela amanhã, tudo bem?... Perdoe pela burocracia, mas foi uma exigência do prefeito!

O homem recebeu meio sem jeito os papeis das mãos de Charlie, os entregou a seu companheiro que os guardou cuidadosamente em sua pasta.

Charlie percebeu que aqueles homens a sua frente eram a fonte do cheiro de ozônio, o ritmo cardíaco de um deles estava muito alto e poucas vezes eles o olhavam diretamente nos olhos.

— Em breve voltaremos com a documentação e as primeiras doações, senhor Franklin!

— Obrigado, senhores e até breve!

Charlie pediu a Carol que investigasse a tal Rodyhealth e falou das fortes suspeitas que tinha dos visitantes.

— Charlie, você acha que os caras estavam mentindo ou escondendo alguma coisa?

— Bom... Alguém que vem de longe e oferece ajuda a um grupo de estranhos geralmente não mostra sinais de estresse como, um coração disparado e olhar perdido! Definitivamente, eles não estavam sendo sinceros... E aquele cheiro de ozônio que senti?! Muito estranho... A não ser que eles tenham ficado durante horas expostos a poluição de canos de descarga de veículos antigos, mas assim, eu teria sentido o cheiro de fuligem também!

— Esta Rodyhealth realmente existe. Ela foi fundada há apenas três meses e já tem a estrutura de uma mega indústria farmacêutica. Impressionante!

— Você descobriu quem são os donos, onde é a sede e que tipo de medicamentos produz?

— A sede é no Alasca e ela produz remédio pra quase tudo, olha só?! Até para doenças ignoradas, aquelas que só existem em países em desenvolvimento! Mas, aqui no site não fala o nome do dono ou donos... Vou continuar a investigação.

— Não sei não... Acho melhor a gente ficar de olho e não usar nenhum destes remédios em nosso pessoal sem antes mandar amostras para os cientistas amigos de Julie.

— É... Não é bom arriscar! Como diria minha avó: “Prevenir é melhor do que remediar” com o perdão do trocadilho!

Uma semana depois, chega a primeira remessa de medicamentos à Fundação Raro. Eram complexos vitamínicos, antiparasitários, anti-hipertensivos, entre outros.  Após passarem por todos os tramites legais para efetivação da doação, a farmacêutica responsável reservou amostras de todos os medicamentos para análise.

Julie recebeu as amostras um dia depois e ouviu toda a história de Charlie.

— Rodyhealth? O que a Carol já sabe sobre o dono desta indústria?

— Ela ainda não concluiu a investigação, mas prometeu não descansar enquanto não tiver a lista com os nomes da diretoria nas mãos!

— Então, vou levar estas amostras para os colegas nerds do papai e em um dia te mando os resultados, tudo bem?! E nem preciso pedir pra ninguém usar estes remédios até a gente ter certeza se eles são seguros!

— Eles vão ficar guardados no armário da farmacêutica. Ninguém chega perto sem a autorização dela!

Julie temeu que o teletransporte alterasse de alguma maneira a química dos medicamentos e pediu que um dos técnicos arionianos os levasse em uma nave auxiliar para a Lamarus. Os resultados das análises confirmaram as suspeitas de Charlie. Os medicamentos realmente eram seguros e de boa qualidade, mas no polivitamínico foram encontrados traços de uma substância só encontrada em solo arioniano. Inofensivo à saúde humana, mas identificado como um potente marcador que seria facilmente detectado pelas sondas das naves em órbita. Mutantes e híbridos estavam sendo marcados pelos arionianos, mas por quê?

                Milhares de pessoas foram marcadas antes que a Rodyhealth tivesse suas atividades suspensas. Carol enfim concluiu suas investigações: Natan Rody era o fundador e presidente de honra da Rodyhealth.

                _ Rodyhealth... O Natan bem que poderia ter sido um pouco mais criativo com o nome da empresa dele! Como não pensei nisso?! Sabia que um mutante estaria metido nesta conspiração sinistra! Concluiu, Landra enquanto deixava a fundação em direção as coordenadas para teletransporte.

Rody, nada satisfeito com a repercussão negativa da descoberta do misterioso contaminante no medicamento, mandou executar os agentes que fizeram os últimos contatos com as instituições e governos que protegiam seus “especiais” e imediatamente contatou seu aliado extraterrestre:

— Capitão Téuron, acho melhor o senhor fazer logo o que tem que fazer com os que já conseguimos marcar, porque a coisa não anda bem por aqui! Não sei como, mas algum espertalhão descobriu que a vitamina estava “batizada...”

— Nós já esperávamos que nosso projeto pudesse falhar em algum momento, mas não que isto acontecesse tão cedo! Saiba que o senhor será responsabilizado por este infeliz contratempo, senhor Rody?!

— Não me venha com conversinha, ET... Nosso trabalho foi de primeira, até algum idiota vacilar! Tenho certeza que este infeliz não erra mais... Além do mais, o senhor pode ficar tranquilo que sua coleção de aberrações da Terra não vai ser pequena...

Antes que ele conseguisse encerrar sua frase, Natan se viu cercado de homens armados em um lugar estranho.

— ... Sim, senhor Rody, nossa “coleção” será formidável e ela começará com o senhor!

Mesmo aturdido, Natan conseguiu usar sua telecinese, desarmou vários homens e os jogou contra os anteparos com violência. Mas antes que conseguisse se livrar completamente do cerco, foi atingido novamente pelo feixe de transporte e seu padrão foi armazenado no banco de dados do computador central da nave Lursax.


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