We Go Back And We Go Foward escrita por Mila Marconi


Capítulo 4
Capítulo 4




            Eles vinham brigando. Muito.

            Qualquer pequeno motivo era o suficiente para desencadear uma briga de grandes proporções entre Rose e Henry. Ela reclamava que ele trabalhava, ele que ela não trabalhava. Ela reclamava que ele não tinha tempo para os filhos, ele que ela os mimava demais.

            Eles ficaram assim por alguns meses tortuosos. Rose só percebeu que alguma coisa precisava ser feita quando viu Honey parada na soleira da porta da biblioteca certa vez em que eles estavam brigando feio. Seu rostinho de boneca estava temeroso e seus olhinhos tinham lágrimas ameaçando transbordar. Cameron apareceu atrás dela, pegando sua mão e arrastando-a para longe.

            O olhar que Cam lhe lançou foi duro de aguentar, cheio de reprovação, um olhar que um menino não deveria portar.

            Então Rose decidiu dar um ponto final em tudo aquilo com uma simples frase:

            - Eu quero o divórcio, Henry.

            Ele a olhou como se realmente não esperasse por aquilo. Sua postura ficou rígida na poltrona onde estava sentado, o livro fechou-se em seu colo e seus óculos de leitura foram parar na mesinha ao lado.  Mas logo sua postura mudou, ele afundou-se na poltrona, os dedos massageando a ponte do nariz.

            - Rose... – Ele disse, os olhos fechados.

            - Por favor. – Ela não o deixou terminar. – Nós brigamos o tempo inteiro, está afetando as crianças e eu não quero que eles cresçam em um lugar assim. Por favor, vamos nos separar agora, antes que nós começamos a nos odiar. Eu não quero que a gente seja mais um desses casais divorciados que brigam o tempo inteiro. Eu não quero odiar você.

            Ele assentiu, deu um pequeno sorriso amarelo que não alcançou seus olhos azuis tristes. Henry levantou-se, caminhou até ela com passos cansados, envolvendo-a em seus braços e afundando seu nariz em seus cabelos loiros.

            - Sinto muito. – Ele disse, baixinho.

            Rose assentiu, temendo que sua voz a traísse se ela tentasse falar. Ela apertou-o contra si e os dois deixaram o tempo passar em volta deles.

—--*---*---

                Para e sempre.

            Duas palavras tão simples, mas que, juntas, poderiam causar felicidade ou tristeza. Rose lembrou-se de como ela ficava feliz quando Henry a abraçava forte e lhe dizia que a amaria para sempre. Ela sabia que não era mentira, pelo menos não naquela época, mas, para sempre, era algo que não poderia acontecer, não mais.

            Agora ela via que, mesmo que fosse vampira, nada dura para sempre, tudo tem seu tempo seu prazo de validade, tudo, um dia, acaba. Seu dinheiro acaba, suas roupas acabam, sua comida acaba, sua felicidade acaba, sua juventude acaba, sua força acaba, sua vida acaba, seu amor acaba.

            Mas Rose não se arrependia de sua escolha, cada dia havia valido a pena, ninguém havia lhe dito que seria fácil, e ela também não esperou que fosse, afinal, a vida nunca é um mar de rosas. É, ela sabia disso e aceitava, mas isso não fazia as coisas menos dolorosas.

            Por alguns instantes seus olhos varreram a sala, ela olhou para seus três filhos sentados, Cameron de cabeça baixa, Alexander olhando para a chuva pela janela e Honey balançando as perninhas, seus olhos de gatinha sem demonstrar dor ou tristeza moviam-se intensamente, sem parar em lugar algum da sala. Rose olhou para sua advogada ao seu lado, que deu um singelo aceno de cabeça e por fim ela fitou Henry. Ele também a olhava, mas ela não sabia dizer o que era aquilo dentro de seus olhos, ele desviou os olhos, fitando os filhos.

            Rose fechou os olhos por uns instantes, a caneta pesando em seus dedos. Ela deu um longo suspiro, abriu os olhos e assinou em uma caligrafia perfeita e elegante seu nome.

            Sua advogada ao seu lado deu um sorriso triunfante, Henry abaixou a cabeça. Kelly, a advogada, apertou os ombros de Rose e disse ao seu ouvido:

            - Parabéns, agora você é de novo Rosalie Lillian Stoller.

            Rose esboçou um sorriso, olhou para Henry uma última vez, estendeu a mão para Honey, que se levantou rapidamente e pegou-a. De mãos dadas com a filha, ela deu um aceno com cabeça para seu ex-marido e saiu da sala com Cameron e Alexander em seu encalço.

—--*---*---

            Sua garganta fechou, seu coração pesou e ela sentiu que o chão abaixo de seus pés havia sumido. Suas mãos tatearam a madeira de lei do braço da cadeira e ela aos poucos foi se sentando nas almofadas macias. Os olhos azuis violeta marejaram, mas Rose controlou o choro. Com um esforço tremendo ela levantou a cabeça para o médico a sua frente.

            - Câncer? – Ela perguntou. Sua voz tremeu.

            O homem de cabelos loiros compridos até o pescoço assentiu pesadamente.

            - Mas... – Ela começou a falar novamente, mas sua voz falhou e ela levou as mãos ao rosto.

            Henry levou uma de suas mãos ao joelho dela, num ato que ele esperava ser de conforto. Ele fitou seus olhos azuis no Dr. Kennedy.

            - Ela só tem onze anos. – Ele disse. – Como pode estar com câncer na garganta?

            O médico suspirou profundamente, massageando a testa. Seus olhos estavam em volta de olheiras pesadas e escuras, seu horário de trabalho o estava sobrecarregando.

            Era raro alguém da idade de Honey ter um câncer na garganta, normalmente ele se dava por forçar muito a garganta e, talvez, por causa do alcoolismo. Honey não fazia nada disso, mas as evidências eram bastante claras, a dor de garganta, a rouquidão a quase três semanas, dificuldade de deglutição, inchaço no pescoço, a tosse inexplicável e agora a tosse com sangue e sons respiratórios agudos, sem contar com a significativa perda de peso.

            Rosalie tinha razão, não era justo, Honey era uma menina tão alegre, tão cheia de vida, mesmo com a separação dos pais. Ela lembrou-se da filha na cama de hospital, com aquelas agulhas em seus bracinhos magros, ela deveria estar dormindo a uma hora daquelas, ou talvez estivesse brincando com os irmãos, Alexander estava sendo tão atencioso e carinhoso, e Cam fazia o máximo que podia para estudar para as provas finais, conseguir uma boa faculdade e ajudar a irmã mais nova.

            - Sinto muito, senhor McConnery, senhorita Stoller, mas as evidências estão todas aí e a biópsia confirmou minhas suspeitas.

            Rosalie levantou seus olhos vermelhos para o médico.

            - Não há nenhuma possibilidade de terem cometido um erro?

            Henry tirou seus olhos da ex-mulher para o médico com uma esperança quase cega. Michael Kennedy encolheu os ombros e negou com a cabeça. Ele abriu a boca novamente, apenas para repetir aquilo que já vinha falando a algum tempo, mas Rosalie o interrompeu, em um rompante ela levantou-se da cadeira e disse para os homens:

            - Me desculpe.

            Henry colocou suas mãos nos braços da cadeira, como alguém que está prestes a se levantar, mas Rose fez um sinal com a mão, pedindo que ele continuasse daquela maneira. Ela voltou seus olhos para Michael.

            - O que o senhor pode fazer por ela?

            Michael juntou as mãos e respondeu:

            - Felizmente, o câncer ainda está em seu estágio inicial, nós podemos fazer a quimioterapia ou podemos recorrer à cirurgia.

            Rosalie assentiu lentamente.

            - Quais... – Rose começou. – Quais os riscos de uma cirurgia?

            - Bem. – Disse Michael. – Cada paciente é diferente, mas pode ocorrer alguma obstrução das vias de ventilação, dificuldade de deglutição, talvez perda da voz...

            - Ela pode ficar muda? – Rose perguntou. O medo crescente em sua voz.

            - Não exatamente, senhorita Stoller, talvez haja apenas uma desfiguração de sua voz.

            - Desfiguração... – Rosalie repetia atônita.

            - O que o doutor aconselha? – Perguntou Henry, cortando a ex-mulher.

            Michael olhou-os sério e disse:

            - Em casos de câncer, sempre que há possibilidade de tirá-lo completamente através de uma cirurgia, essa é sempre a melhor opção.

            Henry assentiu, ele virou-se para Rose, que olhava para o chão. Ela levantou a cabeça, olhando do ex-marido até o médico, então disse:

            - Com licença.

            Rosalie saiu da sala o mais rápido que pode, ela praticamente correu para fora dali, procurando um lugar quieto, alguém com quem ela pudesse desabafar, pedir ajuda. Ela precisava desesperadamente de ajuda. Ela parou, olhando para aquela porta e viu ali uma esperança que jamais havia visto antes. Adentrando a porta, ela caminhou por entre as fileiras de bancos até alcançar o último. Quando chegou ali, ela se ajoelhou no chão e colocou suas mãos juntas, Rose levantou seus rosto cansado para cima, observando a estátua de Jesus Cristo na cruz por uns instantes. Ela respirou fundo, abaixou a cabeça e disse baixinho:

            - Senhor, eu sei que não mereço sua atenção, mas eu preciso muito de sua ajuda...

—--*---*---

            Rose sentiu o aperto em sua mão, fraco, debilitado, mais ainda sim, um aperto. Ela ergueu a cabeça da cama e fitou sua filha mais nova abrindo os olhos com certa dificuldade por causa da luz do quarto. Rosalie sorriu e passou seus dedos pelos fios loiros da menina.

            - Oi, Honey.

            Honey continuava olhando para ela, sua mãe tinha explicado antes da cirurgia que ela não poderia falar quando acordasse, mas tinha tanta vontade. Sua mãe parecia preocupada e ela queria dizê-la que estava tudo bem.

            - Tudo bem?

            Seus olhos voaram para o pai, ele estava próximo da mãe, sentado em uma cadeira, ela tentou sorrir e balançar a cabeça, mais saiu meio esquisito. Henry riu e colocou uma mão na perna da filha, uma declaração silenciosa de que ela havia sido muito corajosa. Sua mãe tinha um olhar doce e algumas lágrimas teimavam em brotar em seus olhos, apesar de Rose não deixá-las escaparem. Ela se recurvou sobre a filha, ainda acariciando seus cabelos.

            - Tudo vai ficar bem agora, meu amor.





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