W's - 2° Temporada escrita por Luana Almeida


Capítulo 4
Caça




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Voltamos para casa sem Sam. A noite dele provavelmente seria mais divertida que a nossa. Dean estava alto e me deixou dirigir o impala depois de alguns argumentos convincentes.

Não consegui desviar do buraco da ida e ele me xingou contra argumentando qualquer coisa que eu falasse pra me defender.

 

—Péssima - comentou - Você é péssima dirigindo - estava irritado ainda pelo buraco. 

—O seu carro é péssimo de dirigir - não ia me atacar gratuitamente - É velho e duro - bati a porta com força quando saí.

—Aurora! - ele protestou me seguindo - Tenha cuidado pelo menos - ele bufava atrás de mim. 

—Bom dia raios de sol - Bobby mexia em alguns papéis em cima da mesa cheia de livros, o computador velho de Sam ainda fechado e o meu aberto em uma cadeira vazia. Dean bateu em mim quando parei. Resmungou algo que não entendi.

—Temos um caso - Bobby sorriu amarelo - Sem muitas pistas - ofereceu um pedaço de jornal e Dean o pegou deixando a disposição para que eu lesse também. 

—Mortes violentas, vítimas sem conexão? - perguntou segurando em minha cintura, senti seu bafo alcoólico atrás de mim.

—Fantasma vingativo? - John apareceu da cozinha trazendo cervejas. Aceitei por educação. 

—Pode ser - Bobby deu de ombros - Quem vai? - perguntou me olhando.

—Nós vamos - respondi. Dean riu atrás de mim.

—Posso ir com Sam - virei o rosto para olhá-lo - Ele não bate a porta do meu carro. 

 

O fitei incomodada. Ele sustentou até a entrada de Sam nos tirar a atenção. 

 

—Já? - perguntamos os dois.

—O que? - Sam tirou o casaco - Ah, já - deu de ombros.

—Já foi melhor - Dean riu pegando a cerveja da minha mão - Você vai beber? - Neguei com a cabeça. 

—Acho que então não valeu - comentei olhando Sam - Foi muito rápido.

—A aposta era beijar - ele sorriu pra mim. O sorriso que eu mais gostava, o que espremia os olhos.

 

Rodamos a noite lendo sobre o caso. Tentamos ao máximo conectar as vítimas, mas não era possível. Não havia nada em comum, o lugar da morte, parentes ou trabalho. Pude acompanhar as buscas de Sam pelo computador por ele estar sentado ao meu lado, usava o site de buscas da Deep Web que eu havia lhe mostrado anos atrás. 

 

—Vocês não me contaram como ficaram juntos - John perguntou direcionando os olhos de Dean para mim. 

—Hm - Dean se mexeu na cadeira. Sam fez o mesmo. 

—Falei - não o olhei - Minha mãe morreu e eu procurei você, encontrei os meninos. 

—Não isso - John insistiu - Você e Dean.

 

Vi Bobby fitar o nada embaixo da mesa enquanto Sam se aproximou da tela do computador interessado. Dean tomou um gole da cerveja quente.

 

—Trabalhamos juntos em um caso - olhei John interessado - Ficamos morando juntos, Sam, Dean e eu, aqui - forcei um sorriso que fez John se empertigar - Sam deu um tempo, eu não fiquei bem de saúde, Dean esteve o tempo todo.

—Entendi - John parecia arrependido de ter perguntado. Senti o beijo de Dean na minha fonte, sinal de que estava relaxando - E tudo bem? - olhou nós três. 

—Hm - dei de ombros, Sam olhou pra mim e eu pra ele.

—Hm? - os olhos dele mexiam procurando algum sinal no meu rosto. Dei mais uma vez de ombros. 

—Achei - Dean nos tirou da situação - Os pais das vítimas estudaram na mesma escola quando mais novos.

—A cidade é pequena Dean - Sam comentou - É meio óbvio.

—É, mas o pai de Gabe e a mãe de Karen tinham mais dois amigos no grupo - ele mostrou o computador com a notícia para nós - Mara Lewis e Thomas Ratfield.

—Thomas Ratfield morre afogado no lago Trail após brincadeira com amigos - li alto - Fantasma vingativo, definitivamente?

—Queimamos os ossos e tudo resolvido - Dean levantou - Vou trocar de roupa e podemos sair.

—Ok - eu e Sam respondemos juntos.

—Não, gatinha - Dean me olhou - Não vai andar no meu carro tão cedo.

—Dúvido que consiga isso - comentei o encarando.

—Uh - Bobby tirou sarro, John acompanhou.

—Cas precisa de você aqui quando voltar.

—Não vai rolar Dean - levantei e passei por ele indo ao quarto. Ele entrou logo atrás de mim.

—Não trouxemos tanta coisa - comentei virando a mala de lona em cima da cama.

—Você podia ser menos teimosa algumas vezes - ele segurou meus braços me fazendo parar.

—Somos exatamente iguais - joguei minha cabeça para seu peito. 

—É - ele beijou meu pescoço - Só sabe que gostaria de poupá-la ao máximo, sempre.

—Já disse que vou junto pois se você morrer eu te mato - o fiz rir - E seu pacto? - uma hora ou outra teríamos que tocar no assunto. 

—Conversamos sobre depois de resolver isso, pode ser? - sua mão brincou pelo meu pescoço descendo pelos meus seios. 

—Isso o que? - perguntei empurrando o bumbum contra ele.

—Isso - Dean me virou de frente para ele, me beijou apertando meu bumbum com as duas mãos - E o caso - completou tirando a camisa. 

 

Tranquei a porta enquanto ele arrancava as calças dele e as minhas. O bom de ter um quarto ao final do corredor era poder fazer barulho, mesmo que baixo.

Dean me jogou na cama tropeçando nos próprios sapatos, subimos entre beijos e amassos para o travesseiro. Ele ajeitou o corpo na posição que mais gostava. Sem muita cerimônia enfiou o membro no meio das minhas pernas achando o lugar que queria.

 

—Você me machuca assim - reclamei entre gemidos.

—Desculpe - forçou mais o corpo contra o meu - Mas não consigo perceber seu incômodo enquanto você geme - golpe baixo. 

—Tem cinco minutos - comentei olhando o relógio - Ou vai dar muito na cara.

 

Ele intensificou os movimentos segurando meu rosto enquanto me beijava. Não consegui completar nenhuma frase relembrando o tempo ou pedindo para diminuir. Ao final ele mordeu minha bochecha com carinho. 

 

Não foi uma viagem longa. Enquanto eu e Sam vasculhávamos o mapa do cemitério da cidade, Dean roncava o motor do Impala acelerando na escuridão da estrada e cantarolava baixo as músicas do rádio.

 

—Acho que aqui - segurei a lanterna com a boca - É da família, não é? - havia uma cripta desenhada e nomes listados ao lado.

—A sorte é que acharam o corpo - Sam fez o mesmo - Mas Ratfield não está na lista - ele passou os dedos lendo, a outra mão segurava um dos lados do mapa. 

—Ótimo - fui sarcástica - Quanta gente morta - comentei voltando a vasculhar o mapa.

—Odeio ficar de chofer - Dean comentou estacionando em um hotel da cidade.

 

Descemos os três, passava pouco das cinco da manhã. Estiquei o corpo com Sam fazendo o mesmo ao meu lado e gemendo. Ele pediu a chave do quarto enquanto esperávamos lá fora. Dean cedeu o peito e me abraçou encostado no carro. 

 

—Vamos lá e voltamos, ok? - perguntou no meu ouvido.

—Ok - respirei fundo. Caminhamos quarto adentro e enquanto eu deitava na cama ele tirou meus sapatos. 

 

Não ouvi os dois saindo e também não ouvi quando voltaram. Acordei ao lado de Dean que ocupava metade da cama de casal, dormia de bruços abraçado ao travesseiro. Sam dormia do mesmo jeito. Estavam sujos de barro e não se deram o trabalho de tirar as roupas. 

 

Levantei e busquei o café. Quando voltei o Winchester mais novo estava sentado na cama. 

 

—O que fez no ombro? - comentei vendo sangue na parte de trás das costas, passava pela camisa azul. 

—Me enrosquei em um galho, eu acho - comentou tentando olhar.

—Deixa eu ver - sentei ao seu lado. 

 

Sam tirou a camisa expondo o corte comprido. Fiz uma careta vendo o sangue seco.

 

—Acho melhor tomar um banho antes do curativo.

—Você fede - comentei - E seu irmão também - ele riu. Dean virou para onde estávamos e abriu os olhos inchados. 

—Estou com fome - se ajeitou ficando de barriga pra cima. Sam foi em direção ao banheiro.

—É sério que você dormiu sujo do meu lado?  - perguntei e pela careta dele nem precisou responder.

—Desculpa - ele fez um barulhinho com a boca - Vou tomar banho na próxima, prometo - sorriu fazendo um joinha. 

 

Abri o computador e pesquisei as notícias do dia. Mais uma morte. 

 

—Vocês queimaram o corpo certo? - perguntei levando o computador até a cama.

—Como? - ele leu a notícia - Sammy! - chamou assim que o irmão saiu do banheiro.

—Mais uma? - Sam veio por trás de nós e leu a notícia. Lyla, irmã mais nova de Gabe estava agora morta - Cara, você está fedendo - fez uma careta. 

—Ta - Dean levantou e foi ao banho. 

 

Enquanto Sam pesquisava outras ligações, busquei a caixa de primeiros socorros no carro e fiz um curativo em seu ombro. Dean parou ao meu lado enquanto eu terminava e ficou olhando o que eu estava fazendo. 

 

—Não faz sentido - Sam comentou - As ligações continuam, mas se não foi Ratfield, quem foi? - ele nos olhou por cima do ombro. Sorriu para agradecer o curativo. 

—Eu não entendi ele matar os filhos dos amigos - aceitei o pedaço de torta que Dean enfiou na minha boca.

—Deixamos passar algo - Sam ficou pensativo.

—Acho que podemos falar com os pais? - Dean sugeriu de boca cheia. 

—Vamos - Sam pegou a mala e foi se vestir no banheiro. 

 

Dean trocou de roupa ali mesmo, vestiu seu terno. Ficava um gato com toda aquela seriedade que o terno trazia. 

 

—Tudo bem? - perguntei vendo ele aéreo.

—Preciso me preocupar? - ele perguntou indicando o banheiro com a cabeça.

—O que acha? - respondi beijando seu rosto.

—Que não - ele cheirou meu pescoço.

—Você é bom - ajeitei sua gravata - Vou a casa dos pais de Karen, é mais próximo aqui e posso ir a pé - havia definido - Odeio quando se vestem assim.

—Porque tem que usar vestido? - Dean perguntou.

—Isso, e salto - revirei os olhos balançando os sapatos.

 

Dean deu tchau pela porta do banheiro. Pediu que eu atendesse o celular se ele ligasse. 

 

Vesti o básico preto de todas as vezes a arma estava presa em minha perna direita, embaixo da saia. Renovava o estilo do vestido a cada ano e esse tinha uma saia aberta que voava a qualquer vento. Fiz Dean colocar pesos na barra para parar de me preocupar com isso, ele era ótimo em gambiarras. 

 

Ativei o GPS do celular  o segui até o endereço da família de Karen, uma das vítimas. Bati na porta segurando o distintivo na mão e ela foi aberta por um adolescente cheio de espinhas no rosto. 

 

—Boa tarde, sou a agente Finn, gostaria de falar com o Sr. a Sra. Miller - sorri.

—Você tem um distintivo? - ele questionou. Mostrei forçando mais uma vez o sorriso. 

—Mãe - ele gritou abrindo a porta para que eu passasse - O FBI tá aqui. 

 

A Sra. Miller apareceu de um cômodo. Vestia um vestido simples e levou a mão ao peito ao me ver. 

—Já falamos com a polícia - comentou - Kenan, sirva o chá por favor - pediu ao garoto.

 

Passamos uma tarde conversando. Ela parecia aliviada em poder falar de qualquer assunto com qualquer pessoa. Me contou sobre os planos de Karen, e também perguntei sobre Ratfield. 

 

—Éramos amigos - ela sorriu - Foi um acidente, realmente - a xícara balançou em sua mão. 

—Soube que foi no lago Trail - a olhei - Ouvimos muita coisa antes de assumir um caso - fui firme depois do olhar assustado.

—Foi sim - ela assentiu - Estávamos brincando e em uma brincadeira infeliz de empurrar ele acabou se afogando - respirou fundo - Acho que tivemos sorte, se é que podemos chamar assim - ouvimos meu celular tocar, o desliguei - Que a mãe dele, Nora, estava por perto, se ela não o tivesse pego, talvez não teríamos um enterro.

—A mãe dele quem pegou o corpo? - perguntei tentando encaixar as peças.

—Isso - ela concordou - O lago era perto da casa deles e ela sempre ia dar uma olhada quando estávamos brincando lá, apareceu por conta da nossa gritaria. 

—Que dor para uma mãe - minha frase bateu certeira, a Sra. Miller deixou uma lágrima escorrer pelo lado direito do rosto. 

 

‘’Estamos comendo na lanchonete próxima ao posto de gasolina’’ - recebi uma mensagem de Dean, lembrava ser perto do hotel. 

 

—Agora eles devem estar juntos, seja lá onde quer que estejam - ela soluçou.

—Desculpe? - a fitei.

—A Sra. Ratfield morreu há um mês.

—Ah claro - engoli em seco - Nós soubemos, uma pena - menti - Obrigada pelo chá - agradeci colocando a xícara sob a mesa - Retorno se precisar, tenha um bom dia. 

 

Ela me acompanhou até a porta. Segui as instruções de Dean de ir até a lanchonete. Atravessei a rua do posto de gasolina e entrei recebendo um sinal de Sam que me viu da porta. Meu pé começava a doer pelo uso do salto e o cair da noite dificultava a visão do chão irregular. 

 

—Incrível não terem inventado um sapato chique que não doa o pé - comentei sentando ao lado dele. A última frase que ouvi Sam falar foi ‘’Acho que não é uma boa ideia’’ - O que não é uma boa ideia? - perguntei fazendo Dean engasgar.

—Temos uma amiga aqui na cidade - Dean disse depois de um gole na cerveja - Cassie.

—Ah - lembrava ser uma ex de Dean - E o que você não acha ser uma boa ideia? - perguntei a Sam.

—Vê-la - ele ficou sem graça. Voltei a olhar Dean. 

—Faz um bom tempo que não a vemos - mais um gole na cerveja. 

—Acho que o interesse nem é de Sam, é? - perguntei olhando o irmão mais novo. Ele não respondeu. 

 

Os hambúrgueres dos meninos chegaram primeiro que o meu e vendo toda aquela gordura escorrendo fez meu estômago embrulhar. Dean me ofereceu as batatas e dividiu o refri comigo o que foi suficiente para saciar a pouca fome que sentia.

 

—Descobriu algo? - Sam perguntou me olhando enquanto Dean ia ao banheiro.

—É - respirei fundo - Descobri. Vocês? - o olhei.

—Nada com muito sentido - ele tomou um gole da cerveja - Tudo bem - falou discretamente - Não precisa se preocupar com isso - ele sabia do que estava falando.

—Não estou preocupada - mantive meus olhos nos dele - Mas deve ficar se seu irmão pisar na bola - nós dois rimos. 

 

Ao sair da lanchonete, caminhei à frente dos dois que andavam quietos atrás de mim. Sam passou rápido do meu lado e Dean pegou minha mão enquanto eu andava. 

 

—Preciso me preocupar? - perguntei sem olhá-lo.

—Hm, não.

—Hm? 

—Não precisa, namoramos, mas isso já faz muito tempo - ele fez um muxoxo - Foi meu primeiro amor.

—Legal - comentei - Não sabia que você tinha sentimentos.

—Ah é? - Dean me apertou contra ele.

—Além de mim - fugi do seu abraço e atravessei a rua - Descobri umas coisas, precisamos pensar. 

—Você está linda com esse vestido - ele passou a mão em meu bumbum enquanto andávamos - Pena que Sam está no quarto com a gente.

—Ia fazer o que se ele não estivesse? - perguntei passando ao lado do Impala.

—Ah gata - Dean parou atrás de mim na porta do quarto.

—Odeio quando me chama assim - abri a porta rindo.

—Eu sei - ele também ria. 

—Descobri que quem salvou o corpo de Ratfield foi a mãe, Nora - falei chamando a atenção de Sam que lia qualquer coisa no computador - Ele já tinha morrido, mas segundo a Sra. Miller se não fosse a mãe dele, não teriam um corpo para velar. 

—Nora morreu, não? - Dean perguntou.

—Isso - Sam estalou os dedos - No obituário não tem nenhuma informação sobre o enterro.

—Não tem quem possa ser, senão Nora - olhei Dean.

—Vou ao necrotério - ele afrouxou a gravata - Se formos seguir uma lógica, ela ainda não matou os filhos da Sra. Lewis - nos olhou - Acho melhor ficarmos de olho.

—Nós vamos - olhei para Sam - A casa deles fica próxima a saída da cidade, estão vendendo algumas casas lá. 

—Ótimo - Sam levantou e tirou o terno - Podemos fingir ser compradores, assim conseguimos ficar de olho 

 

Dean beijou minha testa antes de Sam ligar o Impala.

 

—Pelo amor de Deus - ele sorriu para Sam - Não deixe Aurora dirigir meu carro.

—Acho que vou me vingar de você - Sam deu a partida deixando Dean plantado para trás. 

 

Dirigimos em silêncio até a casa dos Lewis. A noite caíra e nós estacionamos o carro do outro lado da rua.

 

—Esquisito vizinhos a essa hora, não? - perguntei olhando o relógio do celular. 

—Ah - Sam deu de ombros - Quer fazer uma cena? - perguntou.

—Que cena, Winchester? - ri vendo a cara dele.

—Vamos - Sam abriu a porta e eu o acompanhei. Ele esperou que eu desse a volta no carro e me abraçou pela cintura e nos guiou até a porta da casa. Tocou a campainha.

—Boa noite? - A Sra. Lewis nos olhou curiosa.

—Boa noite - Sam falou - Desculpe incomodar, estamos dando uma olhada nas casas da rua - seu sorriso era simpático e ele tinha um jeito incrível de encantar as pessoas - Estamos grávidos e minha esposa está morrendo de vontade de ir ao banheiro - ele riu ao final - Posso esperar aqui se preferir, só ela precisa entrar.

 

Eu sorri o máximo que pude e minhas bochechas denunciaram na hora a minha vergonha. 

 

—Claro - ela abriu mais a porta. O Sr. Lewis estava parado logo atrás dela. 

 

Nós entramos. Eu ainda usava os saltos e sentia meus pés doerem cada vez mais. 

 

—Está de quanto tempo? - ela perguntou enquanto subíamos as escadas. 

—Pouco tempo, talvez duas semanas - sorri quando me olhou - Desculpe, estou morrendo de vergonha. 

—Não se preocupe - ela riu confortável - Ainda não vejo sua barriguinha - graças a Deus - Vai piorar quando ela crescer - me fez gargalhar enquanto abria a porta do banheiro  - Seus pés estão inchados, vou preparar um escalda pés para antes de vocês irem - sua simpatia era até estranha. 

—É muita gentileza, não queremos atrapalhar - comentei antes dela me deixar com um sorriso e um ‘’não é nada’’ fiquei lá sozinha. 

 

Desci depois de alguns minutos. Sem aguentar acabei por tirar os sapatos no banheiro e de tão inchados não pude colocá-los novamente.

 

—Estamos procurando uma casa por aqui - Sam comentou - Moramos na cidade vizinha e queremos um pouco de sossego para a nossa família - ouvia ele enquanto descia as escadas - Querida, seus sapatos - ele me olhou intrigado.

—Não pude colocá-los de novo - ri indo até ele - Obrigada pelo banheiro - agradeci vendo os sorrisos do Lewis.

—Tenho dois filhos - a Sra. Lewis virou para nós - Acho que da idade de vocês - ela ainda sorria simpática - Meus pés ficavam enormes e doloridos. 

—Saímos do trabalho direto pra cá - Sam completou - Somos advogados em Topeka - acredito que ele queria justificar a roupa. Vestia agora somente a camisa social e a calça.

—E vão mudar de lá? - O Sr. Lewis pareceu interessado.

—Sim, aqui além de ser mais tranquilo, temos uma proposta para mudar de escritório - ele sorriu aceitando a xícara de café que ofereceram. 

—Onde estão suas crianças? - perguntei - Talvez não tão crianças assim.

—Ah, Jenifer está chegando da faculdade e Liam está no quarto - olhei Sam discretamente enquanto ela falava. 

 

A Sra. Lewis pegou uma bacia e nos levou para a sala, sentamos no sofá enquanto ela enchia com água morna e plantas.

 

—Minha mãe dizia que hortelã era ótimo para um escalda pés - experimentou a água antes que eu colocasse os meus - Além de relaxar deixa os pés fresquinhos - Sam segurava minha mão enquanto conversava.

—Mamãe? - ouvimos uma voz feminina atrás de nós e nos viramos - Oi - Jenifer sorriu.

—Querida - a Sra. Lewis levantou e recepcionou a filha. Sam mantinha um papo animado com o Sr. Lewis sobre as propriedades da rua e eu tentava prestar atenção na conversa das duas. 

 

Passamos algumas horas conversando na sala. Meus pés relaxavam na água e eu começava a me sentir cansada. O relógio marcava dez horas da noite agora, nenhuma mensagem ou ligação de Dean.

 

—Precisamos ir! - Sam me olhou, parecia tão preocupado quanto eu sem notícias do irmão. 

—Sim, precisamos - sorri colocando os pés em cima da toalha disposta ao lado da bacia. 

 

Levantamos sob protestos dos Lewis que pediam para não nos incomodarmos. Era a ideia, ficar mais tempo, mas devíamos manter os papéis.

 

Sam ainda estava com meus sapatos nas mãos. Ouvimos um barulho alto atrás de nós e Jenifer rolou as escadas.

 

O tempo de corrida de Sam até ela foi tão rápido que pode pegá-la no meio do caminho. Vi o vulto fantasmagórico de Nora ao pé da escada, puxei a arma engatilhando e atirei. Balas de sal grosso. 

 

—O que? - o Sr. Lewis gritou assustado, sua esposa estava parada em choque.

—Liam? - gritei correndo escada acima. Meus pés doeram ao sustentar o peso do meu corpo quando pulei por Sam e Karen. Vi a porta do quarto do garoto fechar com força. Ele gritava  pela mãe e pelo pai. Tentei abri-la de toda a forma, mas era impossível. 

 

Sam apareceu atrás de mim e me puxou para que pudesse chutá-la. O garoto dos Lewis estava suspenso no ar pelo fantasma se eu atirasse poderia pegar nele, não o mataria, mas doeria pra caramba. 

 

Me joguei na cama atirando pela lateral. O fantasma largou Liam que caiu no chão respirando com dificuldade. Sam pegou o garoto pelo braço e o levou para parte debaixo da casa onde os outros familiares estavam.

—O que está acontecendo aqui? - o Sr. Lewis gritou acolhendo Liam.

—Viemos ajudar - Sam os olhou. Nesse tempo corri até a cozinha e procurei por sal. Achei um pote embaixo da pia e torci para ser o suficiente.

—É difícil acreditar - Sam continuou - Mas o espírito de Nora Ratfield está atrás dos seus filhos.

—Está maluco? - A Sra. Lewis perguntou abraçando Jenifer que tinha um corte na bochecha. 

—Pode acreditar em nós se quiser ou deixar seus filhos morrerem - não os olhei, mas pude ouvir Dean falar a mesma frase dentro da minha cabeça.

 

Cerquei os Lewis com sal, um círculo com raio suficiente para ficarem protegidos. Sam estava com a arma na mão, sabíamos que a escopeta nesse caso era melhor, mas a opção estava no carro, no fundo falso do porta malas. 

 

—Porque Dean não liga? - perguntei enfiando a mão no bolso de Sam e pegando seu celular. Sem nenhuma chamada. Disquei 5 e o identificador chamou seu contato. 

—Sam? - Dean atendeu.

—Aurora - respondi - Onde você está? 

—No cemitério procurando a droga da cripta de Nora - chingou ao tropeçar em alguma coisa. 

—A que lado do cemitério Nora Ratfield foi enterrada? - perguntei a família que nos olhava assustada. 

—Ela foi enterrada em sua propriedade - A Sra. Lewis respondeu certa. 

—Dean? - chamei - Ela morava na beira de Trail, está enterrada lá.

—Tem uma cripta próxima a uma árvore - o Sr. Lewis completou. 

 

Uma janela atrás do sofá onde os Lewis estavam sentados a pouco minutos abriu fazendo o vento da noite entrar. Sam correu para fechá-la, mas parecia lutar com algo invisível. O círculo de sal começava agora se desfazer. 

 

—Sam! - gritei olhando o chão e empunhando a arma. 

—O armário da escada - ele gritou fazendo força.

 

Os quatro correram enquanto eu tentava dar cobertura. Os pais protegiam os filhos, como deveria ser. Empurraram as crianças para dentro do armário. A Sra. Lewis empurrou o marido e fechou a porta atrás de si ficando em minha frente.

 

—Ela quer a mim - disse com certeza.

—Ela quer Karen e Liam, entre no armário - Sam voltava com um pacote de sal da dispensa na cozinha do Lewis. A janela se debatia na sala.

—Não, eu estava lá - ela olhava para todos os cantos.

—Mara - abri a porta do armário - Fique com seus filhos.

 

Sam salgou a porta. Eu estava logo atrás dele e respirava devagar esperando qualquer coisa. Havia esquecido Dean na linha.

 

—Perto de uma árvore tem uma cripta - falei ao telefone - Está lá.

—Estou tentando, mas o carro que roubei é um lixo - ele resmungou e o carro gemeu ao acelerar. 

—Não desligue o telefone - pedi. 

 

Ao final da frase senti algo me alçar pelo pescoço. Fui arrastada pela lateral da escada me debatendo. Consegui gritar para Sam que atirou errando o alvo.

 

—Aurora! - ouvi Dean gritar no telefone que caia da minha mão. Segurei em uma das madeiras da escada, mas isso não foi o suficiente. 

—Sammy! - minha voz saía fraca. Qualquer coisa que estivesse no meu pescoço não dava trégua e o apertava cada vez mais. Os Lewis gritavam dentro do armário. 

 

Sam subiu pela escada atirando no fantasma. Eu escorreguei pela parede e caí no chão com força. Senti meu cóccix doer e o ar voltar com força aos meus pulmões. Ele me pegou segurando em meu rosto.

 

—Sam! - Dean ainda gritava na tela quebrada do celular. 

—Tudo bem Dean - gemi olhando Sam. Mais um arranque do motor e a ligação desligou. 

 

Senti algo quente molhar minhas partes íntimas. Sam olhou minhas pernas abertas e sujas de sangue.

 

—Sammy - o agarrei pelo casaco. Ele me olhava com piedade - Vou perder meu bebê!

 

O vidro da porta da entrada quebrou estilhaçando para todos os lados e quase chegando onde estávamos. Mais um grito da família Lewis, mais um tiro de Sam, o sangue quente escorrendo pelas minhas pernas. Ele estava abaixado ao meu lado enquanto olhávamos atento a todos os lados. 

 

Dean ligou novamente depois minutos que pareceram uma eternidade. Entre tiros e o medo de ficar sem balas, fiquei em pé, sentia uma dor lascinante no bumbum.

 

—Acabou - ele gemeu cansado - Nunca cavei uma cova tão rápido. Cova rasa, eu diria. 

—Dean - Sam falou assim que ele terminou - Estou levando Aurora ao hospital.

—O que aconteceu? - sua voz mudou de tom.

—Vá para lá - Sam desligou me pegando no colo.

—Sam! - ele gritou.

 

Os minutos que seguiram da ida até o carro foram longos. O Sr. Lewis assumiu o volante o Impala e Sam entrou comigo na parte de trás. Me trouxera no colo de dentro da casa e não falou nada em nenhum momento.

 

Minha bunda doía e eu chingava a cada lombada. Meu vestido estava empapado de sangue e Sam não me deixava olhar para baixo. Me fazia olhá-lo segurando minha cabeça e me olhava de volta. 

 

—Porque sempre que você está comigo paro no hospital? - perguntei fraca.

—Acho que você tem um problema comigo - ele sorriu amarelo - Quando soube? - perguntou. Vi as sirenes das ambulâncias piscando cada vez mais perto, começavam agora a embaçar. 

—Cas me disse - sussurrei.

—Preciso que fique comigo.

 

Ouvia o Sr. Lewis gritar por ajuda no pátio do hospital. 

 

—Aurie? - a voz de Dean me fez abrir os olhos.

—O que você fez? - perguntou a Sam.

—Eu cai - Sam me passou para o colo dele. Dean andava rápido e me deitou sobre algum lugar. 



POV DEAN

Era difícil andar a pé. Não tínhamos outro carro e na maioria das vezes eu estava com o Impala e tinha que admitir que era egoísmo deixar Aurora na mão, sempre. Mas também, ela odiava dirigir e agora eu estava entre dois argumentos dentro da minha cabeça.

 

A Sra. Ratfield morrera de causas naturais. Infarto fulminante enquanto assistia TV em casa. A legista do necrotério, além de bonita, falava pelos cotovelos e eu soube mais do que precisava. 

 

Com algumas anotações saí do necrotério para a recepção e ouvi meu nome ser chamado. 

 

—Dean? - a dúvida existia para ela, mas era clara para mim. Cassie.

—Cassie, oi! - me virei e recebi seu abraço apertado - Como está? - pude sentir o cheiro familiar dos seus cabelos.

—Ótima e você? - ela sorriu, seus cabelos agora longos emolduravam seu rosto - Onde está Sam?

—Estamos trabalhando - sorri ainda segurando em sua cintura - Vim verificar umas coisas. 

—Claro - ela ainda sorria - Não me contou que vinha, meu número ainda é o mesmo.

—É - engoli um pigarro - Saímos meio avoados.

—Quer me contar? - porque você sempre era tão simpática?

 

Deixamos o necrotério e entrei na caminhonete de Cassie. Ela falava animada o quanto era bom me ver. 

 

—Sua mãe como está? - perguntei quando houve uma brecha.

—Tudo bem - ela assentiu - Sente falta do papai, claro. 

—Imagino - nos olhamos.

—Me conta - ela estacionou em um café não muito longe - Qual é dessa vez?

—Hm - respirei fundo - Estamos investigando os assassinatos que estão acontecendo com alguns adolescentes. 

—E descobriram algo? - Cassie aceitou o cardápio que o garçom ofereceu.

—Fantasma vingativo - assenti a olhando - Acho que essa cidade tem algum problema com isso - a fiz rir.

—Vai ficar quanto tempo? - Cassie perguntou segurando minha mão que estava sob a mesa.

—Não sabemos - sorri - Precisamos resolver isso e acho que é isso.

—Quer me contar algo? - ela apertou minha mão. Dava para notar meu nervosismo? 

—Hm - sorri forçado - Estou casado. 

—Ah - pareceu murchar - Uma cívil, ou caçadora? - soltou minha mão.

—Caçadora - droga!

—É, casar com uma cívil seria realmente difícil - ela deixou um tom de desapontamento aparecer.

 

Cassie mudou de assunto falando sobre seu escritório e o que estava fazendo no necrotério. Acabamos por nos interessar por qualquer assunto que não remetesse a nossa vida amorosa atual. Perguntou de Sam, dos interesses dele, mas nenhuma vez sobre Aurora. Não parecia interessada. 

 

—Preciso ir - olhei o relógio, passava das 20h.

—Eu também - Cassie levantou - Nos vemos por aí - ela me abraçou mais uma vez. Esse foi mais intenso.

—Claro - engoli qualquer coisa que estivesse em minha garganta. 

 

Não sabia pra que lado ir. Cassie entrou na caminhonete e deu tchau quando passou por mim. Sem carro, teria que dar um jeito de arrumar um. 

 

Fui para os fundos do café agradecendo a fraca iluminação do lugar. Havia um Cruiser com a porta semi aberta. Não era o meu favorito, mas não teria opção. O liguei diretamente pelos fios do painel, atrás do volante, ele nem fez barulho ao dar partida, era silencioso, parecia que eu estava em um ônibus de viagem. 

 

Dirigi até o cemitério da cidade. Para uma cidade pequena ele era enorme. Não precisava ligar para Sam ou Aurora, assim como em dirigir ela era péssima em cavar, não conseguia levantar a pá e acabávamos sempre brigando. Achava melhor os dois estarem protegendo os Lewis. 

 

O cemitério era quase ao final da cidade para o lado oeste. Dirigi quarenta minutos até chegar lá xingando de todas as formas o carro. Mirei a casa do coveiro e peguei a pá que estava jogada no quintal. Vi um senhor e uma senhora jantarem em uma mesa arrumada para a ocasião. 

 

Falta de iluminação era essencial para configurar Lawrence. Lembrava que quando criança, sempre íamos para dentro de casa cedo, mamãe odiava a iluminação da rua, o pai nunca ligou. 

 

Tropecei entre galhos secos, buracos e raízes dentro do cemitério. Haviam criptas por todo o lado e eu tentava lembrar em qual sentido devia seguir para achar a de Ratfield. Chutava que a mãe estivesse enterrada próximo ao filho.

 

—Sam? - atendi o telefone no segundo toque.

—Aurora - senti um alívio quando ouvi sua voz, mas pensei também em Cassie e no que eu tentava evitar pensar, contar a ela - Onde você está? 

—No cemitério procurando a droga da cripta de Nora - tropecei em maço de flores e esbarrei em uma cripta já quebrada.  

—A que lado do cemitério Nora Ratfield foi enterrada? - ouvi ela perguntar e também ouvi a resposta.

—Dean? - ela me chamou mais uma vez - Ela morava na beira de Trail, está enterrada lá.

 

Ouvi alguns gritos e nenhuma das frases eram entendíveis. O celular fazia barulho de interferência e eu chamei algumas vezes desistindo quando Sam e Aurora conversavam com alguém. Acelerei o carro em direção à propriedade dos Ratfield. 

 

Aurora pediu com sua voz em tom de súplica para não desligar o telefone. Não ficávamos tanto tempo sem nos falar em uma caçada quanto tínhamos ficado naquele dia. Ouvi também quando qualquer que fosse a situação, ela tinha se machucado. Gritei mais algumas vezes e ouvi o baque surdo do telefone batendo no chão, dois tiros e outro baque com um gemido. Aurora me sinalizou um tudo bem e eu desliguei o telefone acelerando mais.

 

Cavei a cova com rapidez e ódio, não era possível um fantasma ser tão filho da mãe. Bati no caixão antes do 7 palmos e coloquei fogo nele assim que o abri salgando durante as chamas. Segui para o hospital depois de ouvir o que Sam dissera. Meu coração pulava no meu peito chegando a doer.

 

—Sam! - desci do carro vendo meu irmão com minha mulher no colo. Um senhor gritava pedindo ajuda e enfermeiros traziam uma maca para o Impala. 

 

A peguei no colo enquanto ela sorria ao me ver. Me pediram para colocá-la deitada e empurraram hospital adentro.

 

—Você precisa ficar - um enfermeiro me barrou na porta. A mesma cena de anos atrás. 

—Dean - Sam me segurou quando gritei que ela era minha mulher - Relaxa - ele segurava minha camisa - Ela vai ficar bem. 

—O que aconteceu Sammy? - o fiz me soltar.

—Nora a levantou por dois metros e ela caiu.

—Sammy meu filho está lá - andei de um lado para o outro, sentia que podia colapsar a qualquer momento.

—Você sabe? - ele perguntou me olhando.

—Óbvio que eu sei.


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