Postura Condenável escrita por Felipe Martins


Capítulo 2
Steven





Postura Condenável
Steven

“Nosso corpo é, na verdade, uma projeção gerada por nossa pedra: pense nisso como um holograma, mas com massa.” Steven encarava-a atentamente enquanto Garnet corria atrás de Amethyst.

— Espera, eu tenho uma pergunta: e se a gem é meio-humano?

— Essa é uma ótima pergunta! — observou a espadachim. — “A qual eu não esperava saber a resposta nunca.”



*~♦~*


Numa fração de segundos, fragmentos do chão iluminado em LEDs rosa e o mesmo movimento que Rose havia feito naquele fatídico dia em seu quarto e com ela se repetia, mas não com ela: sem o universo estampado em seu peito, Rose agora o tinha em seus braços e analisava sua textura enquanto observava suas respostas: tudo ali era fascinante para ela, Pearl sabia disso. Era apenas uma questão de tempo até que o novo lar delas duas deixasse de ser novidade e tudo voltasse ao mais perfeito equilíbrio: em valsas e sincronias, medir-se-iam e calculariam suas limitações em tempo real, pois sabiam e saberiam quais eram as necessidades uma da outra; num suspiro e sua completude seria renovadamente indiscutível — Pearl estava para Rose como os anjos para o Céu. E Greg, bem… Greg era o Inferno em sua metáfora. “Como nós faremos isso funcionar?”, havia dito ele mesmo entre lágrimas.

Inconstante. Incompleto. Incógnito…

— Vamos apenas conversar.

A proximidade entre eles era flamejante: nunca algo daquela forma havia sido sequer cogitada entre as gems — e Rose era a pessoa ideal para um pioneirismo, pensava Pearl.

— Você já… amou… outros humanos? — Greg cortara a brisa noturna da praia com seu soco sonoro.

A curiosidade de Garnet e Pearl curvou-se.

— Você já?

— Sim…?

— Sim. — Cenhos franzidos.

Nada da conversa além daquilo entrara em sua mente: as voltas floreadas com o que lhe soava incorreto tenderiam ao clássico pensamento gem — não deu certo! Eles nunca se fundiriam! Era óbvio! E os corpos giravam… giravam… os risos rodopiantes e as carícias terrestres sobre eles… aquilo perfurava a razão de Pearl: “Por que eles ainda estão dançando?! I-isso não funcionou,” pensou alto.

Garnet a chamou de volta.

— O quê?!

— Funcionou.



*~♦~*


— O quê?! Mas você não pode fazer isso, Rose! — gritou desesperada.

— Tem razão: eu devo fazê-lo.

Sua gem brilhava com o sorriso sutil que dera e sentira o mesmo dentro de si.

— Não! Não é isso! Oh, quem diria… uma gem!

— Pearl, acalme-se.

— Mas…

— Pearl.

Olhar asfixiado, mãos cobrindo qualquer ímpeto de sua língua.

— Ouça: não farei isso apenas pelo Greg porque isso seria simplista. Eu quero que seja assim. Eu.

— Mas, Rose…

— Eu não estarei longe de você: muito pelo contrário, confio-me a vocês porque vocês são as defensoras de toda a humanidade e principalmente do planeta que eles habitam. Assim como eu, sabem da importância dessa Terra para eles e, principalmente, para nós.

— Mas o que seria da Terra sem Rose Quartz?!

— Há alguns milhares de anos, um desastre: agora é a sua casa e também será a minha.

Havia um olhar delator entre elas.

— Ouça: esse mundo está repleto de tantas possibilidades…! Cada ser vivo possui uma experiência exclusivamente sua: as coisas que eles veem, os sons que eles ouvem, as vidas que eles vivem, são tão complicadas e também tão simples!

— Mas, Rose… você é tão perfeita sendo você mesma, por que ia querer algo assim?

— Por quê? Bem… minha perfeição é e sempre será a mesma, Pearl, assim como a sua: somos todos perfeitos em nossas simplicidade complexa. — Rose suspirou antes de continuar. — Porém, nós nunca seremos nada além disso.

— Mas eu não quero ser algo além disso! Eu só quero ser aquela que te protegerá de tudo o que surgir contra você! — baixou-se em negativa ao que ouvia. Parecia um sonho, deveria ser um sonho.

— Mas você poderá ser a minha protetora mesmo depois disso, minha querida: serei sempre metade de tudo isso, de tudo o que você fizer assim que eu for… apenas uma gem.

— Mas eu… eu não quero isso! É você quem harmoniza as Crystal Gems, como isso vai continuar existindo sem você?!

—… Talvez você já saiba a resposta disso, não acha?

As pérolas já se derramavam, desacreditadas. Como, por quê… quando?

— Mas… você ao menos sabe como fará isso?

Rose sorriu. Finalmente.

— Ainda não, mas dará certo, eu tenho certeza: sempre dá, no final.

— E… — Secara as lágrimas que jaziam em si. — Qual será o seu futuro nome?

— Bem… tudo aqui começa com uma coroa, não é mesmo? — ironizou. — Então, deixe-me ver… acho que ficaria melhor com…

— Qual?

—… Steven. Steven Universe.



*~♦~*


— Às vezes… você até fala como ela.

Sua serenidade estava diferente para Steven. Mas era apenas mais uma das coisas que ela repetia após tantos milênios. Assim como tudo. Assim como ela mesma.

“Minha Pearl.”

A mesma de sempre. A de nunca antes, para o meio-humano.



*~♦~*


“I was fine… with the men
who would come into her life now and again
I was fine 'cause I knew
That they didn't really matter until you”

A rosa tornou-se, como sempre, sua parceira de dança. Fundia-se com ela enquanto seu fluxo de pensamento levava ao infinito: onde estava, afinal?

“I was fine when you came
And we fought like it was all some silly game
Over her, who she'd choose
After all those years I never thought I'd lose”

A cartola deslizando por seu braço a despertou: estava no último. Por último. “Mas não seriam os últimos os primeiros?”

“Oh, Rose… o que estava na sua cabeça? Por que não aceitar seu destino comigo assim como qualquer uma de nós faria?”

Os pensamentos choviam para ela e a noite a relembrava da escuridão de sua primeira conversa com Rose sobre o Mr. Universo: a delicadeza da flor em suas mãos a confortava. Tristemente.

Não era possível agarrar-se aos “entenda” de Rose — ou era? Aquela noite havia sido péssima para ela, e por quê? Pelo quê?

“Não havia mais tempo para arrependimentos,” dizia para si mesma. “E não há problemas nisso, há?”

Afinal, despediram-se apenas com palavras. E eram elas que importavam naquele momento.

“It's over, isn't it? isn't it?
Isn't it over?”

Era a calada da noite que a repetia para Pearl: Rose Quartz estivera consigo tempo suficiente para saber que aquelas carícias noturnas eram sua maior divindade, aquilo que a rosa mais amava — fosse para ela ou para Greg.

Amava-a porque a amava: Connie a havia ensinado de forma inesperada, certa vez e no meio de um dos treinamentos com espadas, que era aquela incondicionalidade que tornava seu sentimento tão perfeito. Tão único. Tão…

Humano.

Era claro para si que nada havia sido o mesmo desde que Steven viera ao mundo: ao contrário das gems, Steven evoluía, transmutava de tempos em tempos, era a coisa nova que ela amava e odiava.

Ele era diferente da Rose: ela saberia o que fazer. No entanto, era dele que Rose era metade — o meio gem, meio humano. O único.

*~♦~*

— Essa é uma ótima pergunta! — observou a espadachim. — A resposta é… você! — “Steven. Rose. Greg. Eu. Crystal Gem,” pensou consigo mesma. “Incrível como sempre, Rose.”



*~♦~*


Em meio aos ritos fúnebres, seu brilho contrasta com a falta de cores e sua simples presença envolve o momento: num dar-se de mãos, tudo se finda em olhares, sorrisos e descréditos.

“Minha Pérola.”





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