Todo Seu escrita por MicheleBran


Capítulo 1
Capítulo Único




Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu

Para me apaixonar por outra pessoa

Agora que pensei bem sobre isso,

Estou me arrastando de volta para você

Do I Wanna Know? - Arctic Monkeys

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É quase hipnótico observá-la. Parece haver algo de ritualístico em seus movimentos.

Na frente do espelho, ela penteia o cabelo minuciosamente. Ainda está com o robe preto semitransparente que vestiu quando saiu do banho que me deixa ver toda a extensão de seu corpo. Ela está nua por baixo, então não há quase nenhum obstáculo entre meus olhos e sua pele.

Tecnicamente, ela nem devia estar aqui. É impressionante o que algumas bebidas podem fazer com uma pessoa.

Ela sabe o que eu sinto e não se importa de alimentar minhas ilusões. Mesmo sabendo que nunca vai me amar como eu a amo, sempre que eu chamo ela vem.

Nós temos uma espécie de contrato. Foi fixado há alguns meses, quando começamos a sair. Seria apenas diversão: beber, dançar, conversar e viajar juntos. E o sexo. Apenas isso.

Não era para ter amor envolvido.

“Eu sempre cumpri minha parte”, ela me disse com um sorriso uma vez. “Venho cumprindo todo esse tempo”.

O problema é que isso não funcionou do mesmo jeito para mim.

Eu contei naquela noite e ela foi embora. Dias depois, ela voltou quando eu chamei. A mesma coisa hoje, e ela já está prestes a partir, me deixando vazio, pronto para telefonar de novo implorando mais alguns minutos de sua companhia.

Eu sei que não devia, mas é o que vai acontecer. Certo como a noite vem depois do dia, é o que eu farei amanhã, e depois. Talvez depois também. É como um vício e não consigo me libertar.

Outras mulheres já entraram em minha vida depois dela e todas foram embora porque ela ocupa um espaço grande demais e nenhuma quer dividir.

Não as julgo.

Fico apenas aqui, deitado na cama, tentando fingir que cada partida não me afeta. Tentando ignorar o efeito que ela causa em mim. Tentando me convencer de que posso esquecê-la no momento em que eu quiser.

É mentira. Eu sei e ela também.

O delineador preto desliza em suas pálpebras fechadas, primeiro uma, depois a outra. Em seguida, ela pinta os lábios de vermelho com o batom.

Já conheci outros com quem ela se relacionou, talvez seja o único segredo que eu ainda guardo dela. Todos eles pareciam estar na pior, como se fazer outras pessoas se apaixonarem por ela para depois largá-las fosse seu esporte preferido — e talvez realmente seja.

As opiniões sobre ela eram as mesmas. Eles me juraram que se aventurar descendo de carro por um desfiladeiro qualquer ou misturar todas as bebidas conhecidas num coquetel fatal eram ideias melhores que se encantar por ela.

E me recomendaram brincar de roleta russa com uma arma totalmente carregada, andar nos trilhos de um trem quando ele se aproxima, invadir o inferno e tomar um drink com o próprio diabo… Qualquer coisa, menos me apaixonar por ela.

Eram bons conselhos. Eu devia ter ouvido — embora não consiga evitar aquele momento breve de alegria vazia ao perceber que todos eles foram e eu fiquei. Eu sei que é bobagem, e logo ela encontrará outro e me deixará de lado, mas é uma ideia que me conforta quando ela se vai e eu fico sozinho novamente tentando juntar meus cacos.

Completamente alheia aos pensamentos que giram em minha mente, ela põe os brincos de volta às orelhas e arruma o pingente do colar para que fique exatamente no meio de seu colo. Sem cerimônias, se desnuda novamente diante de meus olhos, como fez momentos antes.

Estar com ela era como lutar para permanecer na superfície quando se está quase se afogando. Eu me afoguei nela incontáveis vezes e enquanto a vejo vestir a lingerie preta de renda e colocar de volta as meias sete oitavos, percebo que estou longe de voltar à segurança.

Ela é o oceano que me arrasta para dentro. Não tenho, nunca tive, nada para me agarrar e conseguir evitar isso. Sempre gostei de estar no controle de tudo e nunca imaginei que isso aconteceria comigo; mas agora, assistindo-a colocar de volta o vestido vermelho e subir nos saltos altos, percebo que ela é quem está no comando de tudo.

Desde o começo.

Ela sabe exatamente o que fazer para me manter por perto, completamente à sua mercê. Então, quando termina, pega a bolsa sobre a cômoda e se vira com um sorriso encantador, caminhando em minha direção com passos resolutos.

Recebo seu beijo sem protestar. Na verdade, sempre espero que ela perceba o quanto eu quero que ela fique apenas com o toque de meus lábios nos seus, com o calor de minha língua provando a sua.

Nunca funciona como o esperado e, como sempre, ela dá meia volta e se vai após sussurrar um “até logo, meu bem”. Ela sabe mesmo que vou chamá-la outra vez. Sempre soube — desde a primeira noite, talvez.

Eu devia me sentir envergonhado, mas no momento estou tentado demais pela ideia de ir atrás dela, puxá-la pela cintura, beijá-la e amá-la outra vez. Talvez assim ela permaneça e só vá embora pela manhã. Ou nunca mais vá.

Em vez disso, permaneço imóvel sobre a cama, ouvindo seus passos se afastando até se tornarem inaudíveis. É inútil falar qualquer coisa a respeito e implorar sóbrio seria ridículo — deixo isso para quando o álcool sobe à cabeça e posso colocar nele toda a culpa por uma fraqueza que é minha.

É sempre a mesma coisa quando ela se vai.

Fico para trás, entorpecido demais até mesmo para sair do lugar. Como um drogado tentando ficar limpo, sempre prometo que será a última vez, que nunca mais farei aquilo de novo. Juro a mim mesmo que recuperarei minha vida de sempre, apagarei esse passado e seguirei em frente, mais forte e pronto para um relacionamento de verdade com alguém que me ame de volta sem mentiras e sem promessas vazias.

Só que, de alguma forma, a lembrança sempre vem. Seja quando beijo a única outra boca em que ponho a minha além da dela — a de um copo cheio com a bebida mais forte que consigo encontrar —, quando ouço sua música preferida, ou sinto seu perfume, que parece tão entranhado em mim e nesse quarto.

Nesses momentos, as memórias sempre puxam outras e acabo revendo como um filme todos os beijos que trocamos, todas as vezes que seu corpo esteve embaixo do meu, todos os momentos em que minhas mãos percorreram suas curvas sabendo exatamente aonde ir e o que fazer.

Então a certeza me atinge mais uma vez, como um soco inesperado vindo do escuro. Não importa o que eu faça ou quantas vezes eu tente cortar esse laço definitivamente. Ela sempre vai, mas eu sempre volto... Rastejando, completamente entregue, para que ela faça comigo o que quiser.



Notas finais do capítulo

Se vocês chegarem até aqui, por favor, deixem um comentário ♥ Minha escrita não é movida a reviews, mas eu adoro saber o que vocês têm a dizer sobre os textos. Elogios, críticas, sugestões, dicas, etc. são sempre bem-vindos. Obrigadinha a todo mundo que leu até o final e... desculpa qualquer coisa, amiguinho(a) secreto(a).



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