Mad Wolf escrita por Liran Rabbit


Capítulo 7
Capítulo VI — Pork and Pepper




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Sua mão ainda doía pelo soco que tinha dado no Valete de Copas, massageava para aliviar não apenas a dor e sim a tensão que crescia, a ansiedade de que algo poderia acontecer nas próximas horas, talvez dias caso a ausência daquele rapaz fosse costumeira. 

Seus sentidos de lobo se afloravam, sua audição estava mais aguçada assim como o olfato, o que a irritava um pouco por sentir os cheiros estranhos vindo das poções do Chapeleiro, mas também salivava um pouco por conta da fome não saciada, sentindo o cheiro de torta caseira lhe inundar os sentidos e estava tentada a deixar-se conquistar pela barriga. 

Amordaçado, talvez demoraria certo tempo para ele recobrar a consciência, dando assim pouco tempo dela e Jefferson, melhor dizendo, o Chapeleiro, de pensarem em algo. Não gostava daquilo, de manter alguém preso. 

— Ainda dói muito? — Um leve susto a fez notar a presença do Chapeleiro e se levantar, derrubando a uma cartola qualquer que ainda estava por ali — Vejo que gostou — Sorriu fracamente e Ruby retribuiu. 

— Não dói tanto, talvez eu não possa falar o mesmo do Valete — Comentou, havia certa culpa em sua voz e não era para menos, pois se ele não utilizava de violência, Ruby muito menos — Sinto muito, estamos nessa situação por minha culpa... — Falou, constrangida e sentindo o rosto aquecer. 

— Não se desculpe — Suspirou, cansado — Precisamos focar em como roubar aquele espelho maldito e tirar você daqui — Massageava a têmpora e Ruby conseguia sentir a tensão vinda dele, era apalpável, seu coração batia mais rápido pela ansiedade e nervosismo de como se encontravam — Mas primeiro vamos focar em sua mão...  

De nervoso, suas mãos se mexiam enquanto falava, talvez um tique novo quando posto sob pressão, o que fez Ruby segurar uma fraca risada, mas apreciando a distração do momento. Quando o Chapeleiro voltou, colocou um pouco de uma coisa pastosa na mão de Ruby, essa que estava gelada e conseguiu fazer a dor passar rapidamente. 

Em um momento, ele pegou a cartola do chão e colocou na cabeça de Ruby, sorrindo fracamente para ela e se retirando para o quarto, local onde o Valete de Copas estava. 

O dia inteiro se passou e até o momento o Chapeleiro ficou perto do Valete e quando se deu a presença, parecia sério e sem falar nada, terminou de cuidar da mão de Ruby. 

— Eu vou leva-la para um lugar seguro até saber o que fazer com aquele cabeça de abobora — Contou e Ruby franziu o cenho — Não se preocupe, essa pessoa tem uma divida comigo e detesta a rainha mais do que qualquer pessoa desse reino — Se explicou, mas uma explicação como aquela não fazia sentindo, aumentando as dúvidas e perguntas para tal ideia repentina. 

— Achei que ficar com você era seguro, foi o que Cheshire mesmo falou, que você poderia me ajudar — Se exaltou, um pouco alarmada e ele sorriu fracamente, atraindo ainda mais a confusão sobre ela — Tem que ter outro meio, não? — Indagou e ele negou. 

— É a Duquesa, ela pode ter um pequeno problema com pimenta, mas vai conseguir lhe manter escondida — Contou. 

— Chapeleiro, o que você vai fazer com o Valete quando eu não estiver? — Ela detestava quando trocavam o assunto, mudavam para não prolongar algo que talvez ela já soubesse, mas ainda queria ouvir. 

— Lobinha, isso não é algo para se preocupar — Riu despreocupado e Ruby ajeitou a cartola em sua cabeça, o cenho franzido em descrença com as palavras dele — Mas não posso simplesmente deixa-lo voltar para o castelo e contar o que viu, preciso convence-lo de alguma forma a nos ajudar — Contou — Eu posso continuar vivo mesmo sem a cabeça por ter nascido nesse reino e a lógica não funcionar tanto aqui, mas estou focado em lhe ajudar desde o inicio. 

Então seria assim? Ela teria que aceitar sem mover um dedo enquanto ele se arriscava? Ela não era do tipo que deixava todos fazerem as coisas em seu lugar, não era fraca. 

— Deixe-me falar com ele — Pediu e o Chapeleiro bufou, levantando do sofá ficando de costas para ela. 

Então ela tirou a cartola de sua cabeça e a deixando repousada ali, levantando e ignorando os chamados do Chapeleiro com seu nome. 

Do quarto do Chapeleiro, o Valete de Copas já estava acordado, parecia ter acabado de desistir de tentar se soltar. Receosa, tirou o pedaço de pano que cobria a boca dele e ignorava o olhar reprovador que ele lhe lançava, deveria lembrar muito bem do soco que ela lhe deu, ainda mais com o roxo estranho envolto do olho. 

— Veio me torturar? — Zombou — Olhando para você agora, posso confessar que subestimei apenas um pouco sua força, mas nem tanto — Sorriu com ironia, talvez amargo. 

— Eu vim barganhar — Falou, mantendo o tom tranquilo em sua voz e tentando disfarçar o nervosismo, ficando de pé a frente dele. 

Claro que ele riu de suas palavras, mas ele tinha visto apenas uma parte do que Ruby era capaz de fazer, não conseguia ver a outra metade como o Cheshire e o Chapeleiro, não era uma criatura magica e falante como o coelho branco, então ele a subestimava novamente. 

— Pelo visto atrapalhei algo entre você e o Chapeleiro — Comentou com malicia e Ruby não sabia se conseguiria disfarçar o rosto corado, mesmo que a suposição do Valete fosse falsa — Quem diria... 

— Você parece arriscar tudo pela Anastasia — Falou, esperando e vendo a expressão do outro deixar a ironia e malicia de lado para ficar sério — Ela parece ser uma boa pessoa — Sorriu na tentativa de descontrair, mas não funcionando. 

— Esse tipo de coisa não funciona comigo — Rebateu e Ruby negou. 

— Eu ouvi a troca de farpas entre você e o Chapeleiro, ele parece saber assim como todos sobre Anastasia, falam dela como se já esperassem o pior e você está aqui, tentando provar algo — Argumentou e ele bufou — Você quer salva-la, mas do quê? — Indagou. 

— E isso importa 'pra você? — Respondeu, sem paciência — Você só quer sair daqui o mais rápido possível, do que adiantaria ajudar alguém? A é, sei responder isso, porque lhe traria uma vantagem contra a rainha — Sorriu com escárnio. 

— Você a ama — Falou o óbvio e o Valete ficou sério novamente. 

— A mulher que eu amo parece não existir mais — Sorriu amargo, triste até mesmo em sua voz e Ruby sabia que estava começando a ter um progresso ali — E graças a você e seu amigo maluco, talvez ela não vá existir... 

— O que você quer dizer com isso? — Indagou, calma. 

— Quero dizer que Anastasia não nasceu nesse reino, se ela perder a cabeça, ela morre — Contou com pesar e raiva — Eu posso perder a cabeça, mas não tenho curiosidade em saber como é e não tenho vontade de ter meu coração arrancado e morrer por uma rainha louca e insana — Contou — Eu não sou o Chapeleiro, sei o meu lugar e o que devo fazer que é entregar você para a rainha e ela fazer o que tem vontade com aquele maldito espelho. 

— E você não mede as consequências que pode acontecer caso a obedeça? Que talvez exista uma forma de fazer Anastácia ser livre? 

— Você acha que não tentei? — Rebateu, ficando sério e Ruby não se intimidou — Admiro sua intenção falha de tentar me ajudar, mas esse reino mesmo sendo chamado de maravilha, não existe nada de maravilhoso nele — Sorriu sem mostrar os dentes — Me manter preso aqui não vai adiantar de nada... 

— Por isso mesmo que vim aqui, vim barganhar — Repetiu novamente — Eu encontro Anastasia e arrumarei um jeito dela se afastar da rainha enquanto você ajuda o Chapeleiro. 

— E o que você faria com a rainha? A convidaria para uma partida de toque-emboque? — Zombou — A que custo?  

Talvez fosse a ideia mais louca que ela tivesse, mas era a única no momento e a mais cruel. 

— Anastasia não é desse reino — O relembrou de suas palavras, ela mesma sentia empatia do Valete e a dor que ele sentiria ao falar sua ideia — Ela poderia fugir comigo, para o meu reino... — Sugeriu. 

Então o Valete vacilou, seu rosto ficou pálido e abaixou a cabeça, negando e murmurando que Ruby conseguiu ouvir com sua audição de lobo. 

— Antes de você aparecer e estarmos nessa situação, conversei com o Chapeleiro, ele vai me ajudar, mas gostaria de por um fim na tirania da rainha deste reino mesmo que ele me lembre que é loucura — Contou e o Valete ainda não tinha reação. 

— Todos somos loucos nesse reino... — Sussurrou — É a melhor e pior qualidade, uma maldição — Falou — Você a levaria? Como devo acreditar em você, que garantia eu tenho? — Indagou, desconfiado e Ruby não o repreendia por desconfiar dela — Você é apenas uma mulher sem magia, treino ou arma, não conseguiria passar nem pelo Jaguadarte... 

— Um pouco mais de fé em mim seria um bom começo, não? — Brincou e Valete deu uma risada fraca — Deixarei que converse com o Chapeleiro por momento — Falou, afastando-se e retirando-se do quarto. 

Mesmo saindo do quarto, não fechou a porta e respirou fundo ao olhar para o Chapeleiro que estava apoiado na parede, os braços cruzados e sem sua cartola. Seu olhar era sério e Ruby não abaixou a cabeça, ela tinha tentado. 

Chapeleiro não demorou e quando ele voltou-se para Ruby, parecia um tanto surpreso ao olhar para ela, quase admirado e não precisou de palavras para perguntar seu feito, ela sabia que ele a tinha ouvido conversar com o Valete.  

Ruby ficou surpresa quando o Chapeleiro lhe contou que Cheshire a guiaria para a casa da Duquesa, a orientando tirar a capa vermelha e usar um dos sobretudos dele, a fazendo abraçar a capa escarlate contra si. 

Ainda estava de dia e para tentar algo a mais, se utilizou da cartola que estava na sala. Os únicos avisos que recebeu antes de partir foi "não confie demais no Cheshire" e "cuidado com o porco e a pimenta". Claro que ela ficou confusa com a segunda parte, apenas concordando e se retirando. 

Talvez quando ela chegou a uma casa caindo aos pedaços, mas ainda requintada com portas e janelas grandes, entendeu o porque de "cuidado com a pimenta".  

Das janelas o cheiro forte de pimenta conseguiram retardar seu olfato, seus olhos arderam e Cheshire desmanchou fracamente seu enorme sorriso, sumindo por poucos segundos e voltando quando a porta da casa se abriu, mostrando não só ele como uma mulher maior do que ela, maior do que o Chapeleiro, talvez do mesmo tamanho dos cogumelos onde viu a lagarta azul. 

— Jefferson, achei que iria me visitar quando tivesse terminado o lençol do porco — A voz grossa da mulher fez Ruby se arrepiar de medo — Espero, você não é o Jefferson... É menor do que ele — Resmungou e Ruby engoliu em seco — Você é a garota que o gato risonho falou para mim... Entre, criança — Falou, dando passagem para Ruby entrar. 

Ela apenas esperava que o Chapeleiro e o Valete conseguissem se entender e mesmo que o Valete usasse a chance ou trapaça, enxergasse a chance que tinha, uma a qual teria ajuda e Ruby faria de tudo para conseguir. 


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Notas finais do capítulo

Voltei meu povo! Sempre falo que vai ter ação, mas não dá, acabo tendo de ter que montar o enredo :v
Acho que citando o Jaguadarte dá pra ter uma noção do que vai acontecer, mas sem spoilers.
Bem, espero que estejam gostando. Obrigado por acompanhar a fic, de verdade, muito obrigado mesmo.



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