A Terra do Amanhã - Interativa escrita por KyonLau


Capítulo 9
A saída é logo ali


Notas iniciais do capítulo

OOOPA, e aí :D
*se abaixa antes de levar pedrada*
Demorei, né? Dessa vez nem avisei e isso não tem perdão ;w; Eu tive vários imprevistos e eu não quero entrar muito em detalhes, já que vocês vão acabar morrendo de tédio e, principalmente, por que não quero que isso soe como uma desculpa esfarrapada. Eu realmente demorei e nem mesmo avisei a vocês, então mereço as pedras... Mas tentem jogar com jeitinho, ok? *chorando*
Para aqueles que estiverem tentando me contatar através do P.A.I. eu vou só deixar avisado que o maldito esqueceu a senha, login, foi hackeado... Eu nem sei ainda, só sei que ele não tá conseguindo entrar na conta dele e estamos tentando resolver isso o mais rápido possível, mas peço perdões pelo imprevisto ;w; Quando eu soube que isso aconteceu, quase dei um tapa na cara dele, mas isso iria doer mais em mim do que nele, né, pq o infeliz é de metal, então deixei pra lá :v
Essa nota inicial está ficando gigantesca e eu tenho mais o que falar, então esperem mais avisinhos e uma pergunta importante nas notas finais, ok?
Por enquanto, é isso!
Uma boa leitura :3




"Para cima e para frente, em direção a uma glória maior!"

    

A cozinha do navio já era pequena, mas naquela noite ela estava particularmente apertada. À exceção do próprio Capitão e do mecânico-chefe, a tripulação se encontrava em peso dentro do aposento mal iluminado, ocupando comprida mesa de madeira maciça que era ladeada por bancos do mesmo material. A balbúrdia era infinita e contrastava com o clima que recentemente vinha se instalando, de silêncio e conversas baixas. Mas não mais. Agora que seu Capitão e sua Intermediária retornaram, livrando a todos do reinado de terror e limpeza excessiva impostos pelo Mestre do Navio, e agora que estavam próximos da Inglaterra estando, por conseguinte, próximos também de conseguir mais membros, a tripulação andava quase que fora de si de tanta animação.

As conversas interrompiam umas às outras e não havia um núcleo específico para onde elas se voltavam. À um canto da mesa, bem na pontinha, encontravam-se Aneliese e o novato, que conversavam animadamente sobre alguma coisa que ninguém mais entendia e, portanto, ninguém mais podia participar. Ambos pareciam se dar muito bem juntos, no entanto, afora a própria Ane, quase mais ninguém parecia ter dado atenção à nova adição no grupo.

No canto exatamente oposto à esses dois estavam os artilheiros, Jay, Natalie e Roland acompanhados por Richard. Aparentemente, o artilheiro e o mecânico pareciam ter-se engajado em uma disputa para ver quem bebia mais rum e embora Richard parecesse um rival formidável não havia muita gente naquela embarcação que pudesse se comparar aos hábitos de Cereda. Richard desistiu da competição, azedo, quando viu o outro homem despejar goela abaixo sua quinta garrafa de rum sem o menor esforço. Enquanto isso, Jay conversava animadamente com Natalie a respeito da melhor forma de limpar uma arma sem estraga-la, fazendo pouco caso dos dois bêbados sentados ao seu lado.

— De qualquer forma — Jay continuou sua conversa após lançar um olhar inquisidor quando Roland atirou os braços para o alto e soltou um grito de comemoração mediante sua vitória — Eu procuro tomar cuidado quando chego no cano, você sabe, se fizer besteira toda a precisão da coisa pode ir por água abaixo.

— Faz um tempo desde a última vez que limpei o meu rifle — comentou Natalie tomando um pequeno gole da própria bebida — Não quero nem ver a cor do pano que vou usar da próxima vez quando eu terminar... Eu queria que você cuidasse disso para mim, a forma como você lubrifica as partes, uma por uma, me deixa espantada. Eu não consigo ter o mesmo cuidado...

Roland soltou uma risada trovejante.

— Ei, Natalie, eu posso lubrificar para você, é só você me pedir — Roland deu uma piscadinha em sua direção — Contando que você em dê algo em troca...

Foi a vez de Natalie rir secamente, o seu olhar afiado fuzilando o colega.

— Eu não colocaria meu rifle nas suas mãos fedidas a álcool nem sob pena de morte.

Roland não pareceu ofendido com a declaração e apenas sorriu como se quisesse dizer que sua oferta estaria de pé para ela a qualquer momento. Natalie, no entanto, ainda estava a pleno vapor e estava justamente vasculhando a mesa em busca de algum objeto afiado em que pudesse jogar no outro artilheiro quando Richard lhe chamou a atenção com um estalo de dedos.

— É melhor nem pensar nisso — ele aconselhou — Você sabe o que houve da última vez que alguém puxou briga aqui.

Jay quase gargalhou ao ouvir o tom de voz de Richard. Justamente Richard, aquele que procurava fazer de arma potencialmente mortal até mesmo uma colher de madeira e que frequentemente explodia alguma coisa “sem querer”! Era de fato muito engraçado, embora ela devesse ser mais justa com o mecânico: havia muita liberdade dentro daquele navio e os tripulantes podiam fazer coisas que normalmente em nenhum outro navio seria permitido, mas se havia algo que pudesse colocar suas vidas em risco era puxar briga justamente ali, naquele instante.

Apesar de tudo, a expressão mal-humorada de Natalie e suas intenções mortíferas pareciam ter passado despercebidas pelo resto da multidão que se acotovelava para pegar um pouco mais de caldo de carne no centro da mesa. Ninguém sabia que tipo de carne que era e nem de onde teria vindo, mas ninguém se preocupava em questionar. Estava delicioso demais para se pensar em algo assim. Dentre os que mais comiam estava Ava, sentado quase defronte à grande panela e totalmente concentrado em finalizar seu décimo terceiro prato, a pele morena adquirindo um brilho dourado sob a luz das velas. A boca cheia, todavia, não o impedia de forma alguma de participar da conversa entre Skylar e Lisanne e ele se divertia em contar histórias –na maioria contos ou lendas-  de sua terra natal para os dois sentados defronte à ele.

Skylar encarava o companheiro com os olhos brilhantes, animado com a história a respeito das origens de uma dança chamada Haka. Lisanne, por sua vez, parecia muito mais impressionada com o fato de Ava estar se servindo de caldo pela décima quarta vez com uma cara de quem ainda não pretendia parar tão cedo.

— Impressionante — comentou Skylar — E você sabe os passos dessa dança?

— Bom — Ava pareceu se concentrar seriamente por um tempo, mas deu de ombros — Acho que eu me lembro de alguns passos, mas nem todos. É uma dança tradicional, mas tem cada vez menos gente que saiba fazer, sabe. Dizem que é uma tradição que vem morrendo desde os anos vinte ou trinta, sei lá, não presto atenção em história.

— Se está em extinção, como você aprendeu? —perguntou Lisanne.

— Ah, bom — Ava parecia genuinamente sem graça agora e enfiou diversas colheradas de comida na boca rapidamente, respondendo com a voz embargada — Você sabe, eu tenho minha própria história. Afinal, vocês acham que ainda tem mais daquelas amoras de antes? Eu estou desesperado por alguma coisa doce...

— Nem pense nisso — uma voz calma soou atrás de Ava — Se Bak te pegar entrando na despensa nem você vai conseguir escapar do castigo.

Ava riu com gosto para a dona da voz. Astrid, que passava por entre as mesas, acabou entreouvindo a conversa dos três. Ela carregava alguns mapas enrolados debaixo do braço e parecia estar de saída. Lisanne e Skylar riram também, mas apenas por terem-lhe ocorrido a imagem de uma pessoa minúscula, como Bak, castigando sem misericórdia aquela montanha que era Ava. Astrid não riu de volta, mas ergueu uma das sobrancelhas em resposta.

Eu, roubar alguma coisa da despensa, bem debaixo dos olhos atentos do nosso amado cozinheiro?! Que tipo de suicida você pensa que eu sou, Trid? — Ava colocou a mão no peito e lançou seu melhor olhar inocente, o que não ajudou muito, uma vez que sua estatura, os músculos pronunciados, as várias cicatrizes ao longo de sua pele além do braço mecânico de aspecto ameaçador pareciam gritar justamente o contrário.

Astrid apenas revirou os olhos e, jogando os longos cabelos por cima do ombro, continuou seu caminho até as escadas que levavam para fora da cozinha. Para ela, já bastava de bagunça e aquela era uma boa oportunidade de estudar os novos mapas que adquirira recentemente em paz. Passou direto por Alice, a única que não estava sentada à mesa com os outros. Em vez disso, a artilheira tinha preferido se sentar em um dos inúmeros barris que continham bebidas à um canto do aposento, sozinha. Tinha uma arma nas mãos e parecia estar acariciando o objeto inconsciente enquanto mantinha os olhos inexpressivos pregados em outro ponto. Quando a navegadora seguiu seu olhar, deu um pequeno sorriso, entendendo o que estava acontecendo.

Para variar, Ira e Bak estavam brigando.

Ninguém sabia como tinha começado, talvez à exceção de Alice, que vinha acompanhando a cena sabe-se lá há quanto tempo com seu sorrisinho satisfeito, mas suas vozes agora pareciam mais altas até mesmo que a gritaria de Ava ou de Roland.

— Da próxima vez que você tentar algo parecido, eu mato você. 

Bak continuava inexpressivo, mas seu olhar indicava que faltava muito pouco para ele começar a cuspir veneno na cara de Ira, que estivera sentada defronte a ele até agora a pouco. Agora os dois estavam de pé e, não fosse a larga mesa separando-os, talvez já estivessem no chão se estrangulando.

— Ah, é? — retrucou Ira com um sorriso de escárnio — Sinto muito, mas não vai ser você e seus cinquenta quilos que vão me derrubar à essa altura do campeonato, colega.

Os que estavam sentados mais próximos nem olhavam mais para a cena que aqueles dois causavam. Na verdade, procuravam por tudo no mundo evitar de encará-los, procurando pela cozinha qualquer coisa em que pudessem fingir algum interesse, os rostos pálidos, pois sabiam o que iria vir em seguida e queriam ter certeza de não se envolverem.

Logo a cozinha caiu em silêncio mortal e apenas Ira e Bak pareciam berrar um com o outro sem perceberem o que estava acontecendo em volta.

Dagna, que estava sentada logo ao lado de Ira, inclinou-se para Lilith.

— Será que não é melhor avisá-los...? — murmurou.

— Não... — respondeu a outra em uma voz igualmente baixa — Deixe eles. Isso vai deixar esses dois mais calmos, pelo menos por algum tempo.

Entrementes, Ira e Bak continuavam como se nada tivesse acontecido.

— Caso não tenha notado, eu e os meus “cinquenta quilos” já cuidamos de brutamontes maiores e mais espertos do que você — retrucou Bak azedo — E eu estou lhe avisando pela última vez, mas se você continuar a agir dessa forma relaxada, eu farei questão de te largar na nossa próxima parada e nunca mais voltar, não importa o que o Capitão diga.

— Como você fez da última vez em Murmansk? Tente a sorte, tampinha.

Ira sorria, mas não era nada agradável de ver. Com seus dentes arreganhados, era como se ela estivesse esperando a melhor oportunidade para avançar no pescoço de Bak. Este, por sua vez, se posicionava para contra-atacar, caso fosse necessário, os pés bem afastados um do outro, os dois punhos erguidos na altura do próprio queixo. Ambos tão concentrados um no outro que já não percebiam mais nada.

Não se sabe quem realmente avançou primeiro. Se foi Ira, que saltou com um movimento rápido por sobre a mesa, obrigando todos a retirarem os próprios pratos e copos do caminho, ou se foi Bak, que pegou o garfo mais próximo num movimento quase que imperceptível e preparou-se para mirar bem nos olhos de sua oponente. Tudo o que se sabe é que, ao mesmo tempo, um estalar de punhos sobrenaturalmente alto se fez ouvir e logo em seguida duas mãozorras calejadas voaram na direção dos dois bagunceiros. Uma apanhou o braço inteiro de Bak, que gritou de dor e largou o garfo que estava prestes a jogar. A outra mão voou velozmente até Ira, ainda em cima da mesa, e derrubando-a, prendeu-a pela cabeça na superfície de madeira, produzindo um baque surdo.

A figura alta e musculosa do cozinheiro, Al-Wali Balestrini, pareceu preencher o ambiente. Ninguém ousava soltar um pio enquanto assistiam Ira e Bak lutando para sair do seu aperto poderoso. Ele não era um homem de muita expressão facial, mas era muito fácil ver quando ele estava zangado: seus olhos de ônix emitiam um brilho perigoso e ele mantinha sua expressão mais severa do que o normal por debaixo da barba.

O silêncio foi se intensificando. Ninguém conseguia tirar os olhos da cena. Alguns sorriam diante da situação da Imediata e do Mestre do Navio, outros pareciam fascinados pela aura que o cozinheiro, que até então se mantivera nas sombras do aposento, sem ninguém lhe dar atenção, emitia. Alguns outros suspiravam, cansados, como se aquela não fosse a primeira vez que isso acontecia. Mas no geral, todos estavam extremamente tensos.

E quando todos estavam pensando o que Balestrini faria a seguir, imaginando se ele jogaria aqueles dois na parede –o que era bem capaz, devido à sua força, o cozinheiro abriu a boca para falar, e uma voz profunda e grossa ressoou.

— Na minha cozinha, não.

Balestrini falava baixo, mas era sempre ouvido. Sempre.

Depois disso, ele finalmente soltou Ira e Bak de seu aperto e, no segundo seguinte, já estava de volta ao canto escuro ao lado do fogão, os braços cruzados, recostado à parede enquanto mantinha o olhar afiado nos dois encrenqueiros.

Aos poucos, as conversas foram retornando e o barulho animado se intensificou. O pior já tinha passado e, como Bak e Ira prezavam por suas vidas, não houve mais nenhum tipo de incidente desse tipo pelo resto da noite.

***

Já houveram vezes em que Joshua acreditou piamente que ele tinha feito a escolha errada e não pela primeira vez ele soube que estava se metendo em uma baita encrenca, mas ali, parado no meio da escuridão, cercado por gaiolas sombrias e lamentações que ressonavam e fitando aquele par de olhos grandes e brilhantes como rubis, pela primeira vez ele sentiu que as consequências por sua má escolha estavam nas mãos de qualquer um, menos dele próprio. Uma palavra. Bastava uma palavra dita em alto e bom som da parte daquela garota e tudo estaria perdido para sempre, ele sabia disso.

E ela também. Seu sorriso indicava a consciência do poder que tinha em mãos.

O silêncio sepulcral prosseguia, régio. Joshua não ousava mover um músculo. Sua perna mecânica começava a incomodá-lo. Muito menos a moça parecia dar sinal de sair do lugar. Ela apenas o encarava. Em um momento o mecânico quase se sentiu tentado a quebrar o silêncio, mas isso seria também suicídio. Sobrava para ela fazer o primeiro movimento.

Após o que pareceu ser uma eternidade em que ela aparentava estar quase se divertindo, fazendo os dentes de Joshua rilharem, ela finalmente se mexeu. Ela era pequena e seus movimentos leves não provocaram nenhum barulho quando ela se endireitou e, com um olhar significativo, tocou com o dedo indicador os lábios e então, logo em seguida, apontou-o para o cadeado da própria jaula. Sorriu.

O gesto não podia ter sido mais claro.

Ou você me tira daqui também, em silêncio e com calma, ou vai ter que tirar todos esses outros prisioneiros, aos berros e na velocidade da luz. Você decide.

Joshua precisou conter a resposta amarga dentro de si. Não é como se ele tivesse muita escolha, para começar, não é?

Com o coração na garganta, ele lançou mais alguns olhares ao seu redor. Parecia que ninguém havia notado que ele estava do lado de fora. O fato de terem muitas jaulas entulhadas no mesmo lugar, apesar de se apresentar como ameaça, também podia ser usado como uma espécie de cobertura. As pessoas ao redor de Joshua e da moça pareciam estar exaustas demais, machucadas demais, desesperançadas demais, para sequer erguerem os olhos.

Respirando fundo, ele arriscou alguns passos até a gaiola da moça, rezando para o deus que quisesse ouvi-lo, implorando para que sua prótese não fizesse todo o barulho que ele estava imaginando fazer. Cada passo no chão gelado de metal fazia parecer que ele estava martelando com toda a força que tinha em um sino gigantesco. A expressão de sua chantagista também indicava que era melhor ele tomar cuidado. Mordendo o lábio inferior com força, Joshua prosseguiu sua jornada.

Menos de um metro os separavam, mas a impressão era de que não podia ser menos de dez quilômetros. Quando finalmente chegou à porta da jaula, Joshua já estava tremendo e ofegando descontroladamente. Mas, devido à alguma espécie de milagre, ninguém parecia tê-lo notado ainda.

Com a peça de seu joelho ainda em mãos, Joshua se curvou até o cadeado que, por sorte, era da mesma marca que o de sua própria jaula e começou a trabalhar. Ele não via mais nada além do cadeado à sua frente, mas era surpreendente como tinha completa ciência da albina, agachada logo a sua frente, o nervosismo estampado no rosto, as mãos pequenas segurando com tanta força as barras de sua gaiola que os nós de seus dedos já estavam completamente brancos.

E então, o pequeno clique se fez ouvir e o cadeado cedeu. Joshua se afastou um pouco, para dar espaço para a outra poder passar, mas ela não o fez. Em vez disso, parecia estar em uma espécie de transe. O rosto marcado de machucados, alguns recentes, outros quase cicatrizando, estava imóvel, inexpressivo. Joshua queria dizer que aquela não era a melhor hora para se ter uma epifania ou o que quer que fosse, mas era imperativo que ele se lembrasse de não fazer barulho.

Ao longe, um trovão ribombou. Não fez muito barulho, mas algumas gaiolas presas ao teto balançaram de leve. Joshua se encolheu instintivamente.

E então, finalmente, a garota dentro da jaula se moveu. Como se tivesse esperado todo esse tempo pelo trovão, ela abriu apenas um pouco a portinha. Foi só uma pequena fresta, mas foi o suficiente. Ela estava praticamente desnutrida e não teve dificuldades para passar pela abertura.

Ela mal tinha saído se arrastando da jaula, e nem sequer teve tempo de se colocar de pé direito, mas Joshua já lançou a mão em sua direção e a agarrou com força pelo pulso ossudo. O par de olhos vermelhos se virou para ele, como que perguntando o motivo daquilo, mas Joshua não respondeu, é claro. Fora um reflexo, principalmente por que ele temia que ela saísse correndo e o deixasse para trás. Ela já se provara rápida e esguia, enquanto Joshua, com aquela perna mecânica, caminhando por um piso de metal, se tornaria lento demais e provavelmente seria um estorvo. Mas isso não importava. Ela estava naquele lugar a mais tempo que ele e provavelmente sabia que caminho tomar. Ele precisava dela e não a soltaria por nada nesse mundo.

E ela parecia ter entendido.

Apesar do aperto forte de Joshua, ela se esticou até o ouvido dele, e ele pode sentir sua respiração se misturando com palavras.

— Por aqui — murmurou.

E passaram pelo caminho acarpetado por onde Joshua viu os homens de terno caminharem, indiferentes. Ali, cercado de ambos os lados por muralhas de jaulas de tamanhos e formatos diferentes, com as silhuetas dos cativos imóveis só faziam o mecânico se sentir claustrofóbico e vigiado de um jeito incômodo. Era impossível saber como aqueles burgueses não saiam correndo com todas as suas forças para a porta dupla que se erguia adiante.

Mas, é claro, isso não era uma opção para ele e a moça que caminhava adiante. Ela se encolhera em quase uma bola e avançava com toda a cautela do mundo. Por estar na frente, Joshua não via sua expressão, mas ficou se perguntando se estaria tão tensa quanto ele.

E assim prosseguiram, devagar, quase parando, num ritmo extremamente irritante que os obrigava a se esconder em meio às jaulas ao chão no instante em que ouvissem o menor ruído. A porta de metal adiante parecia estar se aproximando a contragosto e quando só faltavam poucos metros, Joshua precisou se controlar para não se levantar e correr –ou saltar, uma vez que sua perna mecânica ainda estava um tanto desajustada, até a imponente linha de chegada.

No entanto, quando finalmente Joshua pode colocar os dedos na superfície gelada, notou que a albina não parecia querer parar ali. Em vez de juntar-se a ele para tentar decifrar a melhor forma de abrir caminho, ela virou-se para a esquerda e começou a entrar por um caminho lateral e estreito formado pelas gaiolas.

— O que está fazendo?! — ele sibilou, enraivecido — A saída está bem aqui, não está vendo?

Mesmo que a porta fosse maciça e seu aspecto não fosse nem um pouco acolhedor, era possível ver, através da fina fresta entre sua base e o chão, uma tênue luz irradiar, tímida. Sem falar de que, quando Joshua viu os homens e mulheres em trajes imponentes passarem por ele naquele corredor sinistro, sempre iam na direção dessa porta. Não poderia haver enganos. Por outro lado, o caminho pelo qual a albina apontava era escuro, repleto de gaiolas com pessoas dentro e parecia levar a lugar algum.

Mas ela parecia irredutível. Seus lábios se moveram sem que nenhum som saísse, mas Joshua compreendeu.

Confia em mim.

Aquilo não parecia tentador, sob nenhum aspecto. Ela o chantageara para que ele a ajudasse em sua fuga. Até aí, até que era compreensível, afinal, Joshua faria o mesmo, provavelmente. Todavia, ele sabia que, com sua perna, seria um estorvo na hora de uma possível corrida pela própria vida e a moça só não o tinha abandonado por que ele mantinha a mão forte fechada em torno se seu pulso magro e frágil. Talvez ela só estivesse tentando se livrar dele o quanto antes.

Seus olhos cor de sangue pareciam brilhar no escuro. Seu rosto escavado pela fome e maus tratos não tremia diante de Joshua. Isso o fez lembrar de que, embora fosse provável que ela não desejasse sua companhia em uma fuga, era óbvio quem aqui tinha mais conhecimento sobre aquele lugar.

O jovem mecânico sentiu um gosto metálico invadir sua boca e percebeu que andara mordendo o lábio inferior com força demais. Engoliu o sangue, sentindo uma imensa vontade de vomitar, mas não era hora. Seu tempo estava acabando e ele precisava se decidir.

***

Faltava muito, muito pouco para o nascer do Sol. A estrela d’alva já estava começando a perder seu brilho no céu rosado e uma brisa fria embalava o rosto desprotegido dos que se aventuravam do lado de fora da Excelsior naquele horário. Embora geralmente ninguém que não tivesse alguma obrigação a fazer no convés superior teria a coragem de sair de seus próprios buracos, aquele novo dia era uma exceção. Pouco a pouco, mais cabeças foram surgindo subindo as escadas que levavam ao andar de baixo com olheiras embaixo dos olhos e bocejos monstruosos.

Dimitri foi um dos últimos a chegar lá em cima, seguindo Aneliese de perto, sem saber o motivo de ela tê-lo arrastado para fora da cama daquela forma tão violenta.

— Você não vai querer perder isso — foi a sua única explicação quando ele lhe perguntou o que estavam fazendo tão cedo e lhe deu um sorriso animado, fazendo brilhar seus olhos.

Então lá se foi ele, um tanto contrariado, mas curiosíssimo para saber o que estava acontecendo. A maioria estava debruçada na amurada, conversando entre si, rindo, fazendo piadas ou apenas encarando o horizonte. O mar, vários e vários metros abaixo deles estava calmo e suas águas escuras formavam pequenas ondas. Dimitri gostava de acompanhar aquele movimento. Um pouco à esquerda dele, Astrid mantinha os olhos cinzentos fixos na última estrela da manhã. Dimitri estranhou ao vê-la ali parada, mas logo raciocinou que ou Ira ou o Capitão do navio deveriam estar na ponte de comando naquele instante, pilotando a embarcação no lugar da navegadora.

— Bom dia, vocês dois — era Lisanne, que veio se aproximando por detrás de Aneliese.

Ela parecia estar extremamente bem-disposta e quase provocou inveja em Dimitri com seu sorriso e seu rosto lavado e sem olheiras, que contrastava com o de todos os demais. Ela pareceu ter notado o olhar de Dimitri e sorriu.

— É importante tratar da pele também, Dimmy — provocou.

— Dimmy?!

Lisanne soltou uma gargalhada diante da expressão do jovem.

— Desculpe, mas como a Ira te chama assim, achei que não teria problema...

Isso era claramente um problema aos olhos de Dimitri, no entanto, percebendo que protestar poderia ser pior do que ficar calado, ele simplesmente deu de ombros e tentou não demonstrar o quanto aquilo o incomodava.

Ao lado do barco um bando de gaivotas passou voando em formação e uma nova brisa soprou, enchendo os pulmões de Dimitri de ar. Era uma sensação diferente, com certeza. Assim como na noite anterior, todos estavam lá, reunidos, mas ao contrário do que era de se esperar, uma calmaria gostosa predominava. Ninguém queria interromper aquele silêncio natural.

A despeito do frio de gelar os ossos, Ava estava lá também e causando um reboliço logo pela manhã, para variar. Sua forma musculosa e esguia já não era segredo para ninguém, uma vez que ele sempre desfilava por aí sem blusa alguma, mas naquela manhã ele não se dera ao trabalho de sequer vestir suas calças. Tinha um olhar morto de quem acabara de acordar e não parecia ligar para os olhares que os demais lançavam às suas intimidades. Dimitri só olhou tempo o suficiente para ver que em suas pernas também havia um número incontável de cicatrizes de vários tamanhos, mas o rapaz não se atreveu a olhar para nada além disso, achando que seria mais sábio continuar a ver o Sol nascer à Leste enquanto sentia o rosto arder.

E, de fato, isso não demorou a acontecer. Em poucos minutos, os primeiros raios da manhã finalmente apagaram Vênus do céu e iluminaram as últimas sombras noturnas. A carcaça de bronze da Excelsior brilhou suavemente e a grande bandeira com a caveira usando uma máscara de gás se agitou com o vento.

Dimitri, que até então sempre acordara após o amanhecer, estava embasbacado com a beleza do quadro e, talvez pela primeira vez, se sentiu em completa paz em meio àquele bando. De fato, foi um espetáculo magnífico, algo que ele jamais teria visto, se não tivesse tomado aquela decisão tão precipitada.

Virou-se para Aneliese.

— É realmente muito bonito. Não sabia que vocês observavam o amanhecer de tempos em tempos...

Aneliese simplesmente o interrompeu com um abanar de mãos.

— Ah, me poupe — disse — Não é por isso que viemos aqui em cima. Olhe bem.

Dimitri seguiu com o olhar o dedo que a hacker apontava e, naquele mesmo instante, uma voz irrompeu do alto de suas cabeças. Era o mecânico Skylar, que estivera todo esse tempo encarapitado no mastro maior, observando o horizonte com os olhos brilhando de excitação.

Terra à vista!

Um coro de gritos animados e punhos sendo jogados para cima interrompeu da forma mais grosseira a quietude daquela manhã. Adiante deles, uma massa cinzenta se erguia, cada vez mais próxima. Era feia, encardida e não combinava em nada com o belo cenário logo atrás deles. Dimitri logo fez uma careta, sem entender o motivo de todos estarem tão animados ao verem aquela... Coisa se erguer no mar adiante.

Olhou para Lisanne, procurando alguma explicação da parte dela, mas antes que ela pudesse responder qualquer coisa, a porta da cabine de comando se abriu e Ira saiu descendo as escadas de madeira ruidosamente enquanto berrava ordens.

— Skylar, Ava, amarrem as velas da mezena! Lisanne e Richard, desçam até lá embaixo, vamos baixar a pressão dessa coisa, menos vapor, mais impulso! Cereda, Guerra, quero os dois amarrando aqueles cabos agora! Movam-se, movam-se, vamos descer essa banheira antes que ela chegue na baía, ordens do Capitão!

Como que de repente, a calmaria foi completamente estilhaçada e todos começaram a correr de um lado para o outro para cumprir as ordens da Imediata sem questionamentos. Não que isso se fizesse necessário. Ira Rowan podia fazer as besteiras que quisesse, mas tinha um motivo para ela ter sido escolhida como o braço direito da figura de maior autoridade dentro daquela embarcação.

Dimitri ficou ali, um tanto atordoado, sem saber para onde ir, exatamente.

— Não deveríamos ajudar? — ele perguntou para Aneliese, sem ter certeza do que fazer.

— Não, você pode ficar por aqui e observar o show. Mas se segure firme, a descida não é fácil para quem já não está acostumado.

E, para frisar o que ela acabara de falar, o navio deu seu primeiro tranco que iniciava sua descida até os mares ingleses. Ele não poderia ter caído nem mesmo meio metro, mas Dimitri sentiu as pernas travarem e foi jogado para a frente, sem conseguir encontrar equilíbrio. Atrás de si, ele ouviu uma risada zombeteira que só poderia ser de uma única pessoa em todo esse mundo.

Ira mantinha-se de pé, as mãos na cintura e uma expressão de quem estava visivelmente adorando a expressão confusa de Dimitri.

— Segure-se, Dimmy, nós ainda temos cerca de cinquenta metros para cobrir até chegarmos ao nível do mar.

Outro tranco jogou o rapaz ao chão. A queda fez com que ele sentisse que seu estômago tinha parado na cabeça e deixado um espaço vazio no lugar onde deveria estar. Naquele momento, ele decidiu que era melhor continuar caído ali mesmo. Afinal, do chão não se passa...

O típico pensamento de quem nunca realmente embarcara num navio na vida.



Notas finais do capítulo

Agora, os avisos! :D
Como vocês notaram, a música que escolhi hoje não é de personagem algum, é tipo a música tema que eu elegi para a tripulação como um todo. Só fiz isso pq achei que ela combinava melhor com o clima geral, então me perdoem por mais esse desapontamento ;w; na próxima escolherei de um personagem, normalmente~

Segundo, essa é uma pergunta que quero que todos me respondam, se possível. Um ou outro de vocês (não todos obviamente) já deve ter recebido do P.A.I. uma MP contendo opções de ações que seus personagens podem tomar de acordo com as suas escolhas. Eu ainda pretendo mandar para muitos outros, já que a diversão é essa mesmo, mas como eu não posso ficar esperando para sempre uma resposta que nem eu sei se vai vir, eu quero perguntar sobre um período de tempo que vocês achem razoável para vocês entrarem no nyah e responderem com calma. A princípio eu dou cerca de 3 dias, mas já aconteceu de um dos leitores quase perder o prazo, então vou perguntar a vocês nesse capítulo e já deixar isso avisado no próximo, assim não gera dúvidas. Três dias? Uma semana? Levando em consideração suas vidas pessoais, me respondam, ok? Pode ser por MP, comentário, sinal de fumaça se preferirem, mas por favor, não deixem de opinar ♥

Outro aviso: ainda não temos uma versão mobile organizada do site, então, fica aí a dica para quem entrar lá pelo celular e encontrar o furacão katrina passando UHASUHAUSHA meu namorado cuida disso e ele está em semana de provas, então assim que isso acabar ele me ajuda (sim, preciso de ajuda nas versões mobiles e eu não tenho vergonha de admitir)

Aaaaacho que é isso! Essa foi gigantesca, né? Desculpem por obrigar vocês a lerem tudo isso ;w;
Anyways, espero que tenham aproveitado! Como de costume, qualquer erro que quiserem apontar, estou às ordens e não mordo (só se for com carinho)!
Beijinhos e até logo :3