A Terra do Amanhã - Interativa escrita por KyonLau


Capítulo 8
Para a Inglaterra!


Notas iniciais do capítulo

Olá, minha gente!
Como estão?
Bom, primeiro eu queria falar sobre o novo site. Eu queria que vocês opinassem a respeito dele, se querem algo diferente, algo a mais ou a menos, enfim... Suas ideias e impressões, caso queiram, claro. Só lembrando que, no momento, é uma péssima ideia acessar o site através do celular. A versão mobile tá toda bagunçada e eu ainda não tive tempo de consertar ;w; desculpem por isso também!
No último capítulo eu esqueci de selecionar uma música, então sinto muito por isso *se joga no chão em lágrimas*
E acho que por enquanto é isso! Obrigada pela atenção e tenham uma boa leitura ♥
Link do novo site: http://aterradoamanha.weebly.com/



"​Sempre há uma escolha. E isso é o que torna tudo mais divertido."

      

Rahsaan bocejou pela décima vez naquela noite e se remexeu tentando achar uma nova posição que fosse minimamente confortável. Não que esperasse conseguir. Uma cadeirinha de madeira tosca não era, sob nenhuma perspectiva, desejável para se descansar os ossos. O homem forte e musculoso lançou um olhar de desagrado para a cela atrás de si. As grossas barras de ferro frias brilhavam sob a luz fraca dos archotes que foram posicionados ao longo do extenso corredor de pedra. Atrás delas, sentado no chão duro, amarrado à parede por correntes pesadas que se prendiam ao seu pescoço por uma argola de couro firmemente afivelada, estava o prisioneiro que Rahsaan fora obrigado a vigiar naquela noite.

Não havia nada dentro da cela, nem mesmo uma janela, mas o cativo mantinha os olhos verde-esmeralda erguidos, como se estivesse observando algo levemente interessante acontecer acima de sua cabeça. Ele não emitira som nenhum desde que Rahsaan chegara ali embaixo, em um dos calabouços da prisão onde estavam. Ele não parecia particularmente perigoso, nem ameaçador e Rahsaan, não pela primeira vez, se perguntou o que ele tinha feito para ir parar em uma das três maiores prisões de Norhewei: Gzifa, a que guarda os inimigos do Império Nascente.

— Me falaram que você quase fugiu cerca de quatro vezes — a voz de Rahsaan, grossa e potente, ribombou pelos corredores vazios de repente — Desde o trajeto de do Congo até aqui.

O homem na cela fez um leve movimento com a cabeça, tão imperceptível que apenas o observador mais arguto captaria tal sinal. Por fim, sorriu.

— Sim. E daí?

Sua voz zombeteira era baixa e quase feminina. Ele parecia estar mortalmente calmo, sem o menor medo do que lhe viria a seguir, fosse o que fosse. Rahsaan sorriu, pois gostava desse tipo de gente. Afastou os longos cabelos negros amarrados em dreads. Estava muito quente, mesmo estando enterrados entre quatro paredes úmidas de pedra.

— Nada — replicou por fim — Só estava imaginando quando, exatamente, você iria tentar alguma gracinha comigo por aqui.

O prisioneiro ficou em silêncio por um momento e, quando seu carcereiro pensou em desistir de esperar alguma coisa, ouviu-o falar novamente.

— Eu não pretendo fazer tal coisa — disse simplesmente.

Rahsaan soltou uma sonora gargalhada.

— E eu acredito em Papai Noel.

— Eu falo sério — insistiu o outro com uma sombra de um sorriso entortando seus lábios ressecados — Sabe, é sempre muito importante saber como tentar escapar.

— Isso presumindo que haverá uma chance de fugir, não acha?

— Sempre há uma chance de fugir, amigo — foi a réplica no mesmo tom descontraído, como se estivessem discutindo se iria fazer sol ou chuva naquele dia, algo que, de qualquer maneira, não importava, uma vez que estavam no subsolo — Todos reconhecem quando ela se aproxima. Mas é preciso ter coragem para aproveitar isso.

Rahsaan deu uma breve olhada para o indivíduo na cela. Não queria admitir, mas estava cada vez mais curioso a respeito daquele sujeito. No entanto, era melhor parar por aí. Estava começando a suspeitar que estava levando a pior naquela conversa. Ciente de que aquele par de olhos estavam atentos a cada movimento seu, o vigia levou a mão calejada, prova de suas batalhas passadas, até a pesada maça presa ao seu cinto.

— Bom, pode ter certeza de que a sua chance não vai acontecer comigo aqui — disse gravemente.

— Ah, não, eu tenho certeza de que não — foi a resposta do prisioneiro, que não pode esconder uma pequena risada — Você é um bom carcereiro.

O homem do lado de fora da cela concordou com a cabeça, satisfeito. Não no seu turno, não senhor. Até por que, de acordo com o que lhe falaram, logo, logo ele não precisaria mais guardar aquele homem tão estranho. E isso o deixaria imensamente feliz. Se era para vigiar alguém, ele preferia que fosse do sexo feminino e com muitas curvas.

Enquanto pensava na possibilidade de pedir isso para o seu superior, Rahsaan não reparou seu cativo deitar no chão da cela e olhar para o teto com uma expressão mais do que satisfeita. Também não ouviu suas próximas palavras, uma vez que foram ditas num murmúrio indistinguível.

— Você é um bom carcereiro... Mas eu sou melhor.

***

Havia um choro insistente que estava causando a Joshua dores de cabeça. Aquilo o deixava exasperado. Quem estava chorando? Por que diabos não ficava logo quieto? Por que ninguém fazia nada? Ainda de olhos fechados, ele se recusava a fazer qualquer coisa. Esse choro trazia recordações estranhas. Ele se lembrava, como ontem. Uma criança pequenina chorando por que não tinha o que comer...

Faça ela parar.

A criança chorou mais desesperada ainda. Nem haviam mais lágrimas, apenas os berros roucos...

Não vê que ela vai morrer? Vai morrer por não ter comida. Vai sobrar só o esqueleto e então, vai virar pó. O vento vai carrega-la embora pois ela nem mesmo vai ser enterrada. Assim como todos nós...

A cabeça de Joshua latejava. Ele se sentiu tentado a fazer coro às lamúrias que enchiam seus ouvidos.

... Quanto tempo você acha que vai durar, Josh?

Joshua finalmente abriu os olhos e, percebendo-se deitado e encolhido, se sentou com dificuldade. Ao fazer isso, se arrependeu quase que imediatamente. O lado direito de seu corpo doía e a mudança súbita de posição o deixou tonto. Parecia que alguém estava constantemente martelando sua cabeça com um martelo bem pesado.

Quando sua visão finalmente clareou ele olhou ao redor. Estava no que parecia ser uma gaiola de pássaro, mas grande o suficiente para comportar uma pessoa de tamanho mediano. Embora a sua gaiola estivesse no chão, outras de tamanhos e formas variados se espalhavam até onde a vista alcançava, içadas por grossas correntes. Ao lado dele, apenas alguns metros acima, ele viu a pessoa que estava chorando. Não era uma criança. Era um homem adulto, pelo menos duas vezes maior do que o próprio Joshua, agachado, segurando os joelhos contra o peito. Apavorado.

Em meio à floresta de gaiolas havia um estreito caminho acarpetado por onde algumas pessoas passavam. Eram homens e mulheres que Joshua conhecia bem, de vista. Suas roupas eram visivelmente caras, da mais alta qualidade. Seus rostos não estavam cavados pela fome, eram rechonchudos, o tipo de rosto que nunca encarara o desespero antes. Eles sorriam, cochichando baixinho entre si, como que temendo acordar os animais aprisionados ao redor deles. Vez ou outra chegavam a apontar uma das mãos enluvadas para alguma gaiola específica.

Um assomo de raiva encheu o peito do mecânico.

— Ei! — gritou ele para o casal de transeuntes mais próximo — Vocês só vão ficar apontando?! Me tirem daqui, AGORA!

Mas eles passaram por Joshua como se ele estivesse simplesmente rosnando uma língua incompreensível aos seres humanos.

Joshua respirou fundo novamente, estufando o peito, pronto para gritar a plenos pulmões até conseguir alguma atenção quando foi interrompido antes mesmo de começar.

— Pare com isso. Você só vai deixa-los mais animados.

Joshua olhou para a direção de onde a voz feminina o cortara e quase abriu a boca em um perfeito “o”. A menina que ele vira há vários, vários dias atrás, numa carroça velha, presa às outras pessoas como se fossem porcos sendo transportados para o abate estava na gaiola ao chão, bem atrás da dele. Seus olhos vermelhos como sangue o encaravam da mesma forma com que o encararam em seu primeiro encontro: quase que com desprezo. No entanto, ela estava mudada. Seu rosto imundo agora também carregava vários cortes que não paravam de sangrar e seus braços finos e expostos tinham hematomas gigantescos.

— Onde estamos? — disparou Joshua.

A garota sorriu com escárnio.

— Você ainda pergunta? Olhe em volta.

Foi o que ele fez. Seus olhos percorreram mais uma vez o local escuro. Estavam no que parecia uma gigantesca antessala. O caminho por onde aqueles que eram livres o bastante para tal ia dar à uma porta grande, em forma de arco, toda trabalhada no metal. Ela estava escancarada, mas Joshua, de onde estava, não podia ver o que havia dentro. Só podia ouvir um burburinho de conversas excitado que ia crescendo até virarem gritos de vaias ou aplausos e risadas.

Ele olhou para si mesmo e percebeu que estava usando uma bata suja feita do que parecia serem sacos de batata. Sua perna mecânica estava descoberta, estirada de um lado. As palmas de suas mãos começaram a suar e seu coração foi se acelerando sem parar até ele perceber que estava ofegando.

Ele estava no Domo.

Virou-se violentamente para a garota. Ela era pequena, assim como Joshua, mas não parecia nada frágil.

Como eu vim parar aqui?

Ela deu de ombros.

— Vai saber — disse vagamente — Deve ter aborrecido alguém importante.

Joshua só estava prestando atenção em parte. Ele começava a murmurar febrilmente. Não, não e não!

— Eu não fiz nada disso... Eu fiquei na minha, de cabeça baixa. Sempre funcionou... Não, não é possível que...

— Pense bem — rebateu a voz firme da menina — Você tem absoluta certeza de que não chamou atenção indesejada para si?

Joshua estava com o “não” na ponta da língua, mas algo o fez engolir a negativa de volta. Uma lembrança perpassou sua mente. A de um homem gordo de aspecto simpático que parecia levemente interessado na...

Minha perna... Há quanto tempo eu estou aqui?!

— Cerca de algumas horas? — arriscou a outra — É difícil saber quando não dá para ver nem o lado de fora.

Joshua não captou essa última frase. Sua cabeça doía, mas ele se forçava a raciocinar. Ele se lembrava de ter trabalhado o dia inteiro. Estava exausto. Só queria voltar para o velho quarto que alugara e dormir. Ele tentou se lembrar do trajeto que percorrera e concluiu que só podia ter sido aí que o emboscaram quando as lembranças começaram a faltar. Sendo assim, ainda deveriam estar em plena madrugada.

— Isso é um engano — murmurou Joshua febrilmente — Não tem como eu... Não depois de tudo, não assim...

Acorda — a voz da garota era como um balde de água fria — É assim, sim.

— Eu vou sair. Vou fugir. De jeito nenhum vou deixar que acabe desse jeito.

— Não, não vai — insistiu a outra quase que imediatamente — Só tem dois jeitos de sair daqui. Ou um daqueles — e ela indicou com o olhar os homens de terno e cheios de pompa que passavam em frente à gaiola de Joshua — te compra e te leva para casa para fazer o que quiser com você ou você sai dentro de um saco preto. A maioria sai no saco, mesmo.

Joshua olhou irritado para a garota. Parecia que ela estava achando prazeroso minar todas as suas esperanças. E, agora, ele não precisava disso. Naquele instante, ele precisava de um plano, qualquer coisa em que pudesse se agarrar. No desespero, ele foi até o cadeado que selava sua gaiola e começou a examiná-lo com as mãos trêmulas. Era um pesado corazzati, enferrujado, mas firme. Seu formato retangular era característico. O coração de Joshua deu um salto. Ele sabia abrir aquela coisa! Contanto que tivesse algo bom o suficiente para empurrar os cilindros dentro do mecanismo de trava, ele poderia fugir! Havia esperança...

Entretanto, ele precisava ser cauteloso. Precisava saber o momento certo para arriscar uma fuga. Não podia ser na hora de pleno funcionamento daquele lugar infernal e, mais importante, ele tinha que ter certeza de que nenhum dos prisioneiros ao seu redor iria perceber o que ele estava prestes a fazer ou, no desespero para serem libertados juntos, poderiam entregar Joshua.

Olhou para a menina atrás de si. Ela parecia estar num meio cochilo. Sua cabeça balançava de um lado para o outro como uma sinistra boneca de porcelana quebrada, as mãos firmemente agarradas às barras de ferro que a prendiam. Teria ela desistido realmente? Teria se entregado àquela apatia fria como garras que vão fatiando seu interior até não sobrar nada além de um buraco vazio?

Não, ela não tinha desistido. Joshua tinha certeza disso, por sua expressão.

Ele conhecia muito bem a expressão de uma pessoa que desistira de viver e não era bem isso o que aparecia nas feições machucadas da garota. Tampouco era desespero. Era algo diferente, algo a que Joshua já estava familiarizado.

Era uma vontade absoluta de continuar vivendo.

Com um suspiro, o rapaz tentou se ajeitar da melhor forma possível dentro da jaula, mas era impossível uma vez que era pequena demais até para ele se deitar enrolado como um gato, então se recostou nas grades, deixando as pernas deslizarem pelos espaços entre elas.

E então, fechou os olhos novamente, deixando-se mergulhar em sonhos agitados.

***

Tudo transcorreu numa espécie de lentidão gráfica que obrigou Dimitri a recapitular o que tinha acontecido. Muitas vezes ele se pegara imaginando como era um navio pirata. Nunca tivera uma imagem exatamente formada a respeito, mas conseguia invocar à mente coisas como pranchas, crânios quebrados ao chão em meio à imundície geral e olhares selvagens que faziam coro às risadas estridentes. No entanto, quando o rapaz pela primeira vez colocou os pés à bordo da Excelsior percebeu que aquele chão brilhava mais do que o do hospital de Murmansk. Quase não havia ninguém ali para recebe-los, apenas umas cinco pessoas que Ira apresentou à Dimitri como sendo “Bak”, “Lisanne”, “Richard”, “Day” e “Lilith”. A única que tinha um aspecto amigável era a moça chamada Lisanne, que tinha um sorriso gentil assim que Dimitri foi apresentado e estendeu-lhe a mão enluvada de couro antes de todos para dar-lhe as boas-vindas.

O homem chamado Richard apenas deu um meio sorriso, mas Dimitri não acreditou que ele tivesse a mesma intenção que o de Lisanne. Ele tinha o rosto sujo de graxa e carregava milhares de coisas metálicas nos braços fortes, como engrenagens, placas de ferro e outras bugigangas disparatadas. Ele estava obviamente ocupado com algo, mas parou para cumprimentar Ira com um aceno de cabeça antes de seguir seu curso.

As mulheres que Ira chamou de Day e Lilith estavam mais distantes. A primeira segurava uma longa adaga de aspecto letal e a outra estava desarmada, mas com os punhos em riste. Pelo aspecto ofegante de ambas estava claro que andaram lutando entre si, mas como Dimitri não percebeu nenhuma animosidade entre as duas, julgou que estivessem treinando juntas. Quando Ira chegou perto delas, as três se cumprimentaram com sorrisos cheios de malícia e, embora nenhuma delas tivesse se dado ao trabalho de olhar duas vezes para Dimitri, nenhuma delas encarou o rapaz com a mesma raiva implacável que o garoto chamado Bak.

Este último era a pessoa mais assustadora que Dimitri teve a infelicidade de conhecer. Ele era claramente o mais novo entre os dois, mas tinha uma presença de espírito que superava até mesmo a de Ira. Se fosse apenas isso já era algo passível de apreensão, no entanto, o que mais espantou Dimitri foram os olhos de Bak. Assim que os viu, não pode desviar o olhar mais. Eram olhos mecânicos que emitiam um brilho azulado que pulsava. E, pior do que isso, estava claro que ele desprezava a Imediata do navio com todas as fibras de seu ser.

— O que é que você apanhou dessa vez, Ira? — perguntou rispidamente ele enquanto apontava para Dimitri.

Ira apenas soltou uma risadinha fria e passou um braço pelo ombro de Dimitri, que se sentiu extremamente desconfortável com o gesto, mas não conseguiu se afastar do aperto.

— Novo recruta — explicou — Acontece que eu tenho a permissão de trazer quem eu quiser à bordo, ao contrário do que você pensa.

— Se isso significa trazer cada vira-lata que você encontra pela frente como se fossem mascotes seus então talvez eu deva conversar com o Capitão para você ter esse direito revogado.

Cada palavra que Bak dizia soava dura e um tanto sem emoção, mas cada uma pingava veneno. Ira estreitou os olhos, um tanto irritada. Dimitri pensou em ficar irritado por ter sido chamado de vira-lata, mas reconsiderou a decisão ao sentir as faíscas saindo dos olhos de ambos.

— Não se preocupe, ele vai servir para alguma coisa — garantiu ela — Nem que seja para esfregar o chão.

A expressão de Bak indicava que era exatamente aquilo que ele pretendia fazer com Dimitri. As três outras tripulantes se mantinham atrás dele, caladas enquanto observavam a discussão. Embora Lisanne parecesse um tanto transtornada as outras duas agiam como se aquilo não fosse nada demais.

Ira pareceu dar um ponto final da discussão com um sorriso bem humorado enquanto esquadrinhava cada canto do convés com o olhar.

— Onde está o John?

— Nos aposentos dele. E chame-o de Capitão.

— Eu vou lá falar com ele — decidiu Ira, ignorando sumariamente Bak e então, virando-se para Lisanne — Pode levar esse novato até uma das camas vazias? Coloque-o no mesmo quarto do Jayden e da Ane, combinado?

E sem sequer dizer palavra para Dimitri, ela saiu andando.

Bak o encarou com uma expressão fulminante por mais alguns segundos antes de ele próprio se retirar a passos duros, deixando o novo recruta com as três mulheres que ainda permaneceram ali.

— Eu gostaria que eles fizessem as pazes logo — comentou Lisanne vagamente.

— Mais fácil pedir para ser absolvida pela Égide — foi o comentário sarcástico de Lilith, que se dirigiu então para Dimitri — Espero que você não morra muito cedo. Não gosto de guardar rostos que vão desaparecer logo — a forma leviana como ela falava fazia Dimitri acreditar que aquilo era um dos cumprimentos mais cordiais da pirata — Vamos, Dagna? Eu quase te desarmei nessa última vez, mas você foi salva pelo gongo.

Dagna corou de leve com a provocação e as duas se afastaram, deixando Dimitri e Lisanne a sós.

— Não se preocupe com o que a Lilith disse — foi a primeira coisa que Lisanne falou num sorriso tranquilizador — É só provocação. Ao contrário do que o Bak mostrou, a Ira não sai recrutando qualquer um. Os padrões dela podem ser um pouco... Diferentes... Mas se ela deixou você subir aqui, significa que tem algo em você que de que ela gostou.

Dimitri acenou com a cabeça em concordância, sem saber direito o que responder. Na verdade, ele tinha que concordar um pouco com o tal Bak a respeito de como Ira parecia irresponsável. Todavia ocorreu-lhe que talvez, se ele se descuidasse, ele realmente poderia morrer de uma hora para a outra. Sua expressão pensativa fez Lisanne sentir quase uma espécie de simpatia por ele.

— O que você não entender, eu explico — disse ela — Meu nome é Lisanne Aigner, mecânica da embarcação. Qual o seu nome?

— Dimitri Soloviev...

— Certo! Então, vamos por aqui.

O rapaz a seguiu até o andar inferior enquanto conversavam num tom despreocupado que o fazia se sentir quase que fora de lugar. Lisanne não se parecia nem um pouco com o estereótipo de pirata que ele já vira por aí. Não que ele tivesse visto muitos de qualquer forma. Ela era animada e conversava bastante sobre todos os tipos de assuntos de forma bem calma e sem nunca faltar ao respeito. Quando descobriu que ela estava naquele navio há mais de três anos, Dimitri se surpreendeu.

Logo abaixo do convés principal ficavam os quartos de todo mundo, exceto os aposentos do capitão, que ficavam acima deles. Eles passaram por um corredor estreito e de teto baixo que, ainda por cima, estava atracado com caixas, cordas e outras coisas aleatórias das quais Dimitri tinha que se desviar constantemente para não tropeçar e cair. Em ambos os lados havia uma série de portas de tamanhos e formas diferentes. Algumas estavam claramente consumidas por cupins e outras pareciam ter sido arrancadas dos postais e então enfiadas novamente com violência e total falta de jeito nas dobradiças.

Os dois finalmente pararam em frente à uma das portas que não era nem um pouco especial em comparação com as outras.

 — Aqui, Ira pediu para você ficar aqui — anunciou Lisanne e abriu a porta com delicadeza.

Dentro parecia ser um armário de vassouras que, de tanto guardarem coisas dentro, acabou expandindo seus limites à força. À um canto, um beliche de metal fora enfiado à força contra a parede de madeira tosca e no lado oposto, uma rede de dormir estava pendurada sem transmitir muita firmeza. E cada espaço livre restante fora ocupado por pertences pessoais, alguns indubitavelmente letais. Os que mais chamaram a atenção de Dimitri foram os aparelhos eletrônicos despejados à um canto. A maioria era sucata e mesmo que isso já fosse um tesouro aos olhos de Dimitri, nada poderia se comparar ao belo computador embutido numa maleta. Ele brilhava convidativo, em meio ao caos de fios de cobre, pedaços de rádio descartados e tomadas adaptadas de forma bem criativa, diga-se de passagem.

— Se você ousar babar em cima disso você vai perder a língua.

Uma mulher estava sentada na cama de cima do beliche, as pernas estiradas cruzadas uma na outra com um livro de aspecto velho no colo. Ela era altiva, com cabelos cacheados e repicados de uma forma arrumada. Seus olhos examinaram Dimitri e ele viu, pelo pequeno canivete que repousava ao lado da mão direita dela, que ela não estava brincando quanto à ameaça. Tratou de fechar a boca direito.

— Desculpe — disse ele rapidamente — É só que... Parece que foi muito bem feito.

Ele apontou para o computador. A mulher seguiu seu dedo com o olhar e então, um brilho de orgulho encheu seu olhar.

— Que bom saber que mais alguém sabe apreciar essa belezinha — disse — As pessoas andam subestimando e muito o valor desses eletrônicos. É realmente difícil fazê-los funcionar hoje em dia, mas quando você consegue, acaba descobrindo um verdadeiro tesouro...

Dimitri arregalou os olhos. De repente sentiu-se tão animado quanto a mulher na cama. Nunca antes na vida encontrara alguém que compartilhava o mesmo entusiasmo que ele. Lisanne sorriu para a cena.

— Ane, esse daqui é o... É o... — ela parou, perdida por um momento — Qual o seu nome mesmo?

— Dimitri Soloviev — completou o rapaz olhando admirado para Lisanne. Ele se apresentara para ela não tinha meia hora ainda!

— Ah, é verdade! E, Dimitri, essa é a Aneliese, ou Ane. Ela é hacker e uma muito boa, diga-se de passagem.

Aneliese sorriu com o elogio.

— Ane, Ira disse que era para ele ficar aqui, com você e o Jayden, tem problema?

— Nem um pouco — replicou Ane brandamente.

— Ótimo! O Jayden ainda usa aquela rede ou ele finalmente decidiu usar a cama?

— Não, ele continua na rede.

— Então você deu sorte, Dimitri. Pode ficar com a cama de baixo — concluiu Lisanne dando um tapinha nas costas do garoto.

Dimitri entrou no quarto sentindo-se repentinamente encabulado sob o olhar penetrante de Aneliese. Então, tomando fôlego, se dirigiu até a cama abaixo da dela.

A cracker, que estava observando o garoto o tempo todo, de repente arregalou os olhos ao vê-lo tirar a mochila das costas e fazer menção de jogá-la no colchão.

— Ah! Eu não faria isso se fosse você...

Mas o rapaz o fez antes de ouvir a advertência da outra. Ele olhou para ela, se perguntando o que tinha feito de errado e eles se encararam. Houve um breve momento de silêncio e então do nada, um rosnado irritado veio de debaixo dos lençóis e uma sombra do tamanho de um gato saltou da cama, exatamente do lugar onde Dimitri atirara a mochila com total descaso. O bicho lembrava um mangusto, mas era totalmente diferente. Seus pelos eram cinzentos e grossos e havia uma fileira de esporões que desciam por toda sua coluna vertebral até a ponta do rabo, que balançava ameaçadoramente. Ele flexionava suas garras e seus olhinhos negros pareciam estar dominados pela raiva.

Ele se eriçava e rosnava, arreganhando os dentes que pareciam sinistramente com os de um humano, mas então, quando era certo de que ele iria dar o bote em Dimitri, ele correu em disparada, passando por entre as pernas de Lisanne e sumindo pela abertura da porta atrás dela.

Dimitri levou a mão até o coração, tentando se acalmar do susto.

O que foi aquilo?!

— Aquilo foi o Io — explicou Aneliese dividida entre o próprio susto e a vontade de rir da cara de Dimitri — Eu tinha me esquecido, mas ele costuma fazer ninhos nas camas dos outros.

— Permitem animais aqui? — questionou o garoto se atirando no colchão que Io abandonara com um bufo mal humorado.

— Não... Quero dizer, o Capitão disse que não vê problema, ele adora animais, sabe — respondeu Lisanne — Mas o Mestre do Navio não permite de jeito nenhum.

— O Mestre do Navio?

— Falo do Bak. Sun Bak. Ele diz que fazem muita sujeira.

Um brilho de compreensão transpassou as feições de Dimitri.

— Então o que aquela coisa estava fazendo aqui?

— Bom, digamos que ele é um caso à parte. E eu te aconselharia a nunca, nunca mesmo, chamar o Io de “coisa” perto do dono dele — comentou Aneliese com uma cara séria.

— Por quê? Quem é o dono dele?

— Bom! — interrompeu Lisanne, juntando as mãos e esfregando-as com energia — Se não se importam, eu tenho que ir. O Balestrini pediu para alguém concertar o fogão dele e o Richard deve ter ido, mas eu tenho quase certeza de que se alguém não vigia-lo ele vai acabar transformando o fogão em uma bomba.

Aquilo fora dito em um tom displicente. Aneliese deu uma risadinha e, após terem trocado as devidas despedidas, a jovem mecânica pediu licença e se retirou do quarto, deixando os dois à sós.

Dimitri se sentiu repentinamente cansado e se atirou na cama com um suspiro. Aneliese, por respeito ao novo companheiro ou por simplesmente não ter tido muito mais interesse nele, voltou-se para o livro que ainda repousava em seu colo e, pouco tempo depois, pode ouvir o leve ressonar do novo companheiro que adormecera.

***

Marz respirou fundo e se arrependeu quase que imediatamente. A brisa marítima trazia o cheiro de sal misturado ao fedor do lixo que ia se acumulando cada vez mais no mar. Eles estavam numa espécie de navio cargueiro muito, muito velho e muito, muito lento, uma vez que ele não tinha mecanismos para voar. Então eram obrigados a ir pelo mar. Até ali estava tudo bem, no entanto, quando pela primeira vez avistaram a silhueta escura escondida atrás de uma fumaça espeça da costa da Inglaterra o cheiro começou a crescer na mesma velocidade em que se viam detritos boiando na água. Aos poucos Marz nem mais conseguia ouvir o som das gaivotas.

— Pela sua cara dá para ver que você nunca viu a Inglaterra antes, acertei?

Jayden, que viera de algum lugar qualquer, se aproximava de Marz para poder observar a vista por completo. Marz o encarou por um curto período de tempo e então voltou os olhos para a mesma direção de antes.

— Não — respondeu — Eu sabia que não era exatamente o orgulho do continente, mas não pensava que fosse tão sério. Deve ser bem desagradável viver ali.

— O cenário é uma desgraça, mas não seria tão insuportável se não fossem as pessoas— comentou Jayden com desgosto na voz.

— Mas não tinha um lugar melhor para marcar de encontrar com o seu Capitão?

— Não — Jayden riu — Acredite, quando você for marcado como a escória que todo pirata é, vai começar a achar esse lugar até bem charmoso.

Marz teve uma leve ideia do que Jayden quis dizer, mas não tentou insistir no assunto. O cheiro fétido estava começando a deixa-lo enjoado. O que era incrível, já que Marz tinha um estômago bem forte com relação à maioria das coisas.

***

Joshua não conseguiu adormecer direito. Era a todo momento atormentado pelo desconforto de sua jaula, pelos resmungos e gritos de alguma outra pobre alma e pela devastadora realidade que o acometia de tempos em tempos. Nessas horas seu coração acelerava dentro do seu peito e ele sentia a adrenalina fluir por cada fibra de seu ser e ele ficava ali, inevitavelmente restringido de se movimentar e até de pôr-se de pé, desejando que fosse forte o suficiente para entortar aquelas malditas barras que o cercavam, mas sem poder fazer nada. Aquilo, mais do que qualquer outra coisa, o deixava maluco e o impedia de adormecer.

Consequentemente, acabou percebendo algumas mudanças com o decorrer do tempo que ia se arrastando. As pessoas que caminhavam pelo caminho das gaiolas de repente sumiram. Ninguém mais passava de um lado para o outro. Ao constatar isso, viu que guardas de aspecto forte e com fardas apareceram e jogaram cerca de quatro indivíduos de volta às gaiolas. Joshua imaginou o que acontecera à eles. Um, em particular, parecia em estado muito grave. Havia um longo ferimento na sua anca que jorrava sangue sem parar. Joshua se encolheu em sua gaiola, sabendo exatamente o que aconteceria à perna do sujeito se ele não recebesse tratamento. Dois outros tinham o rosto lavado de lágrimas e pareciam aterrorizados demais para reagir aos empurrões violentos dos guardas. A outra, a única mulher no grupinho, também estava machucada, embora superficialmente em comparação com o primeiro. Era bem mais velha. Seus cabelos brancos bagunçados caíam sobre a face enrugada conferindo-lhe um olhar lunático.

Depois disso a movimentação cessou por completo.

Joshua mantinha os olhos fechados, tentando escutar qualquer coisa além do próprio coração. Notou que mesmo quando aquelas quatro pessoas chegaram, ninguém fez um ruído em suas jaulas. Agora ele só ouvia os gemidos de dor do homem que provavelmente perderia a perna em breve e mesmo eles estavam começando a ficar cada vez mais baixinhos. Aos fundos ele ouviu o barulho metálico de uma grande porta sendo trancada e então... Silêncio.

O mecânico abriu os olhos. Estava tudo escuro e não haviam janelas. Sendo assim, ele não saberia dizer se era manhã, tarde ou noite. Mas isso não importava. O que importava era que talvez aquela fosse uma boa chance de escapar.

Com delicadeza, Joshua levou a mão até a perna mecânica e retirou um dos pinos do joelho. Retirar aquele pino significava que ele andaria com mais dificuldades, mas não havia outra forma. Joshua duvidava muito que ele teria a oportunidade de encontrar outro pedaço de metal conveniente para abrir fechaduras caído em qualquer lugar por ali.

Ele se inclinou para a frente e começou a trabalhar na fechadura, tentando por tudo no mundo não fazer nenhum barulho desnecessário. A bem da verdade, ele não estava causando barulho algum, mas a consciência de estar tentando algo perigoso fazia com que ele ouvisse coisas que estavam em completo silêncio. Ele imaginava o olhar de todos ali em cima de sua figura e todos os seus nervos gritavam para que ele parasse com aquela tentativa suicida e tentasse outra hora. Joshua lutou contra essa vontade e continuou remexendo no cadeado enquanto mordia a ponta da língua, concentrado.

As pontas de seus dedos já estavam insensíveis quando ele finalmente ouviu o pequeno “clique” indicando que conseguira seu intento.

O coração dele parecia estar tentando saltar pela boca quando Joshua tentou dar um leve empurrão na porta da gaiola. Como esperado, ela rangeu assustadoramente e fez o fugitivo parar no ato para observar e ouvir se alguém tinha percebido aquilo. Vários minutos se passaram sem que nada acontecesse e Joshua tentou empurrar mais alguns centímetros a porta.

Joshua era magro o suficiente e conseguiu de alguma forma que nem mesmo ele sabia dizer, finalmente se espremer pela abertura que tinha criado na porta da gaiola. Do lado de fora, quando ele pensou que ia sentir alguma espécie de triunfo, só conseguiu sentir-se mais apreensivo. A ideia de continuar o apavorava. A ideia de voltar era insuportável.

Sua mão gelada segurava o pequeno pino que ele retirara de sua perna mecânica. Ele não o recolocou no lugar, pois sabia que se, por algum milagre conseguisse chegar até uma porta, provavelmente precisaria arrombar a fechadura dela também.

Então, sentindo que era melhor fazer aquilo sem pensar realmente, como se estivesse tirando um curativo, ele respirou fundo. Ia fazer aquilo. Sem espaço para dúvidas.

Foi ao dar o primeiro passo em direção à sua liberdade ou à sua sentença de morte (àquela altura ele não sabia dizer qual seria) que ele sentiu um olhar perfurar suas costas. Ele se virou lentamente para ver, já sabendo o que iria encontrar.

O par de olhos vermelhos como sangue da moça na jaula atrás de si eram quase impiedosos. Ela não piscava. A boca parecia uma fina linha. Sua expressão era impossível de se interpretar.

O que ele faria? Pensou Joshua desesperado. E, mais importante, o que ela estava pensando em fazer?



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado :3