Bohémienne escrita por Anánke


Capítulo 10
...devant Notre-Dame?


Notas iniciais do capítulo

Oi nenês!! Tô atrasada, eu sei, me perdoem... Esse capítulo foi um pouco mais trabalhoso, com pesquisas e tals, e eu estava cheia de coisas da escola para fazer. Acabei me enrolando... Mas o importante é que cheguei, e tá sensacional!
Continuação do título: "...diante de Notre-Dame(Nossa Senhora)?"
Link da ceninha/música, se quiserem: https://www.youtube.com/watch?v=w0nmLo1TnDs
Temos mais um flashback, e esse é um pouco (talvez muito) maior que o outro, mas acho que vocês vão gostar...
Tem um link de um som ambiente lá pro meio que, não sei vocês, mas eu surtei quando ouvi... Espero que ouçam é rapidinho ;)
Enfim, boa leitura, meus amores!! ♥ Vejo vocês nos reviews!



Naquele mês o dinheiro acabara antes de pagarem o aluguel do casebre em que moravam. Gringoire, disse à Hélène que passariam o dia à passeio por Paris, assim quando chegassem para cobrar a dívida e tomar o que estivesse na casa não estariam em ali. Porém, com o cair da noite, a menina percebeu que nunca chegavam à lugar algum, apenas vagavam pelas ruas.

— Papa, estou cansada. – Choramingou.

— Venha aqui, minha menina. – Disse pegando-a nos braços. E Hélène abraçou o pescoço do pai.

— Estou com frio. – Ela sussurrou. – Quero ir para casa.

Ele pôs a mão sobre a menina. Sua pele queimava em febre.

— Ah, Hélène... – Lamentou-se, abraçando-a, vendo que ela piscava os olhos de fraqueza e cansaço. – Eu preciso que tente se manter acordada, está bem?

— Mas, eu estou com sono. – Ela falou com a voz mole.

— Olhe ali, está vendo a lua? - Disse apontando a lua acima dos dois.

Ela abriu os olhos para a lua crescente e rodeada de estrelas entre os telhados das casas e concordou com a cabeça.

— Eu vou te contar uma coisa. E quero que se lembra disso para sempre. Está bem? – Disse olhando vagamente para a fonte de luz prateada. Prosseguindo a caminhar com ela em seus braços.

Ela anuiu novamente com os cabelos ruivos.

— Foi a Lua que te deu para mim. – Cochichou em seu ouvido. Ela ergueu a cabeça fitando-o sem entender. – Em troca de todos os meus poemas.

Hélène pedia, com os olhos, por uma explicação.

— Ela olha por cada ser. Seja rei, plebeu, princesa ou cigana. Ela cuida de todos que ficam debaixo da luz dela. Ela é por todos os desvalidos. – Disse ele beijando-lhe a testa quente.

Foi quando Gringoire percebeu, estavam na praça diante de Notre-Dame.

— E, claro, a Senhora também. Senhora do Céu e da Terra. – Sorriu, com a possibilidade de encontrar Asilo para aquela noite. Principalmente com a febre de Hélène.

Então, apressou-se em atravessar a praça e chegar às portas da catedral. Porém, estava quase certo de que as encontraria fechadas. Mas, quisera, a Santíssima Virgem que não estavam.

O interior escuro da igreja, estava ainda mais, pela pouquíssima luz que adentrava das janelas compridas e altas da catedral. Insuficiente para iluminar as rosáceas e colorir o ar. Gringoire foi andando, abraçado com Hélène. Fazia muito que não colocava os pés naquela igreja.

À direita, sob o arco principal, a imagem da matrona da catedral. A Nossa Senhora de Paris. Magnificamente coroada, com seu Santo Filho no braço esquerdo e no direito o lírio de sua pureza. Por mais que sua face estivesse voltada ao Filho, seu olhar parecia permanecer sobre quem estava diante dela.

Gringoire abaixou-se e desvencilhou os braços de Hélène ao seu redor.

— Fique aqui, quietinha. Vou procurar alguém aqui que possa nos ajudar. – Falou ajudando a menina a manter-se sentada.

Hélène queria convencer o pai a ficar ali com ela. Seu corpo inteiro tremia, e sentia seus dentes rangerem uns contra os outros.

— Não permita que nada aconteça com ela! – Ele rogou a imagem.

Assim que as mãos de seu pai deixaram de apoiar-lhe as costas, Hélène sentiu seu peso puxar-lhe para o chão. Ficando deitada de lado, puxou os joelhos para cima, encolhendo-se. A menina tentava, com todas suas forças, manter os olhos abertos.

Sua visão embaçada, conseguiu ver quando seu pai correu até ela. Seguido por um homem numa veste escura. E não mais que isso.

 

Quando acordou, em cima de uma cama, sobre o ombro de seu pai, ainda sentia-se extremamente cansada e com a cabeça a girar. Tentou erguer-se, mas foi impedida por uma mão que tocou seus cabelos.

— Shhh, ma petite lune. – Sussurrou, rindo sozinho. –Você desmaiou assim que voltei com o sacristão e ele nos deixou ficar aqui.

Nesse exato momento, a porta da cela abriu-se. E o sacristão entrou com panos e um prato de caldo.

— E como está essa menininha? – O velho homem perguntou a Gringoire.

— Sede. – Hélène foi apressada em dizer. Pois sentia os lábios racharem de secura.

O homem pôs a mão sobre sua testa. A febre cedera durante a noite, deixando-a pálida.

— A febre e a vermelhidão estão cedendo. Deve ter sido o Sol, uma insolação. – Diagnosticou o padre. - Você disse que haviam passado o dia pelas ruas, não é? – Gringoire assentiu, baixando a cabeça. - E ela não vem alimentando-se direito, estou certo? – Disse olhando a menina com o canto do olho. E, encharcando um dos panos limpos que trouxera no balde de água fresca e, depois, espremendo sobre a boca sedenta da menina.

— Fome. – Hélène resmungou, em seguida.

— Parece que alguém está ansiosa por se recuperar, logo. - O sacristão deu uma risada contida. – Isso é bom. Pensei que estaria com fome quando acordasse.

Ele pegou o prato de caldo. Porém, estendeu-o a Gringoire.

— É o suficiente para vocês dois. Peço desculpas, mas não havia pratos o suficiente. – Desculpou-se ele.

Gringoire tomou o prato, ainda morno. E fez o possível para endireitar-se, e também deixar Hélène um pouco mais reta para comer.

— Vou deixá-los, por enquanto, tenho alguns a fazeres. Depois de comer seria bom se ela descansasse mais um pouco. – Recomendou o bom homem. – Retornei, em breve, para vê-los.

— Muito obrigado, por tudo que está fazendo. – Gringoire agradeceu enquanto o padre se retirava. Colocando-se sentado, diante da filha, foi fazendo-a comer.

Ele roubava uma colher de caldo, a cada três que Hélène tomava. Logo o prato esvaziou e ela adormeceu. Finalmente dormia, de sono, ao invés do desmaio.

Quando teve certeza de que ela dormia profundamente, acalmou-se e, pela primeira vez desde que entrara naquele lugar no meio da noite com a filha nos braços, levantou-se e caminhou pelo quarto.

 A porta abriu-se suavemente.

— Como estão? – Perguntou o padre, entrando pela segunda vez.

— Ela dormiu. – Respondeu o homem.

— Ah, que bom. E você? Como está se sentindo? Percebi pelo seu rosto quando estive aqui mais cedo, meu filho. – Interrogou o sacerdote.

— C’est ma faute. Mea culpa. Mea maxima culpa*, padre. – Disse Gringoire, culpando-se pela estado da filha. Caminhando até a janela estreita, por onde entrava o ar e apoiando-se na parede.

O padre olhou, com compaixão, para o poeta. Vendo seu tormento, transparecer sobre o semblante exaurido de cansaço.

— Qual pecado que lhe faz buscar ajuda na igreja? – Tentou consolar.

— O pecado que cometi ao fazer-me vadio. Não sei o que eu estava pensando. Sou poeta. Pouco ganho com meus versos. Não ganho dinheiro o suficiente para manter a mim e minha filha, padre. Não pago meu imposto há meses, por isso, fugi de casa mais a pequena. – Confessou Gringoire.

— Você ama também sua filha? – Indagou.

— O mais belo verso que já fiz. – O homem olhou, ternamente a menina adormecida sobre a cama. Os cabelos ruivos desgrenhados, o vestido amassado, as bochechas coradas da insolação sob as sardas. Mas sorria enquanto sonhava. – Eu a amo de todo meu ser.

— Não vejo pecado nenhum nisso, poeta. – Disse-lhe o padre, colocando-lhe a mão no ombro. – O amor por um filho. Não existe nada mais divino do que isso.

Porém, aquelas palavras lhe escaparam. Pois ainda havia o problema de que não poderia ficar ali com Hélène para sempre. Foi quando viu que, abaixo, na praça do adro da catedral aconteciam festejos pagãos.

— Padre, o que é aquilo na praça? – Perguntou.

— Ah, a Festa dos Loucos. – O sacerdote revirou os olhos. – A festa pagã, conhece? Em pleno dia de Santos Reis, esses vândalos vem atormentar a praça da catedral...

— Como pude me esquecer? – Indagou a si mesmo. Se tivesse percebido o passar dos dias teria feito algo para apresentar e ganhar dinheiro junto dos pagãos, como costumava fazer.

Então, ocorreu-lhe uma ideia. Infalível.

— Padre, posso confiar que ela está segura em tua igreja? – Perguntou ao sacristão.

— Mas é claro, homem. Ora, é a Casa de Deus! – Exclamou ele.

— Pois vou descer à praça. Tenho algo a fazer lá. Não me demoro. – Disse, saindo em disparate pela porta.

Num instante, o poeta já estava nas escadarias do lado de fora da catedral. E a música cigana lhe invadiu de imediato. Colocando-se no meio do público, empurrou e espremeu-se até chegar bem perto dos pagãos. Procurando um em específico.

As bailarinas que volteavam ao centro, lhe recordaram a bela imagem que tanto custara a esquecer. Não eram tão formosas quanto aquela que lhe cativara, com um só olhar, obviamente. E nem dançavam tão esplêndida como ela, com a graça de uma abelha, dançava como se zunisse pelo ar. Em seu próprio turbilhão e com as asas em seus pés.

Porém, o ferrão veio depois. A culpa. O espinho, ainda cravado em seu peito, doía de vez em quando. Quando lembrava-se dela. E como doía naquele momento, até que um mendigo rompeu-lhe:

— Uma esmola, homem. Por caridade!

Gringoire reconheceu o imundo.

— Capaz de Vossa Majestade ter mais dinheiro que este poeta que vos fala. – Disse encurvando-se para olhar nos olhos do cigano.

O homem deu uma gargalhada e puxou o pelo braço para longe da multidão.

O infeliz que intitulava-se Rei dos Ciganos, porém disfarçado de velho, manco e leproso, abraçou-o.

— Poeta de uma figa! – Exclamou, sorrindo.

— Como tens passado? – Perguntou Gringoire.

— Muito bem. Apesar das dificuldades que nos impõe o Rei de França, sua Santa Igreja e todo seu povo. – Respondeu tentando soar otimista.

Quando Clopin, por fim, aterrissou os olhos no semblante angustiado do poeta. Soube que aquela visita não era por frivolidades.

— E você? Parece que finalmente alguém lhe deu a surra que não levou no Pátio dos Milagres. O que houve, homem?

— É Hélène. – Respondeu ele.

— A sua menina? Que há com ela? – Preocupou-se antecipadamente o cigano. – Ela está com amuleto, não é?

— Adoeceu subitamente. E, por minha culpa, Clopin. – Admitiu. – Estamos sem casa, e sem coisa alguma.

— Sabes bem que eu não hesitaria em abriga-los no Pátio dos Milagres. Mas prefiro que isso seja o último recurso. Lá não é lugar para vocês. – Disse o boêmio.

— Eu compreendo muito bem, meu amigo. Temos que protege-la da melhor forma. De qualquer maneira, estamos em Asilo em Notre-Dame. – Contou. – E, sobre o amuleto, eu não permito que ela o tire do pescoço.

— Bom, bom. – Resmungou Clopin, suspirando.

Após alguns instantes em silêncio, Clopin revirou os olhos com a decisão que suas emoções impulsivas o faziam tomar.

— Gringoire, eu proíbo você de deixar minha afilhada com aqueles beatos. – Falou Clopin. Jogando no ar a bolsa de couro com os ganhos do dia da festa e mais o que restou das vezes anteriores que viera ás ruas.

— Não me recordo de tê-lo chamado para padrinho, Clopin. Mas... – Riu Gringoire, pegando a bolsa do ar.

— Ora vamos, seu poeta de um figa. – Interrompeu o cigano. - Como se houvesse outra pessoa em Paris que você confiaria sua filha se algo lhe acontecesse.

 

Praça do Adro da Catedral de Notre-Dame, Île de La Cité, fevereiro de 1499.

Quando os sinos da catedral soaram, foi como se estivessem lhe chamando. Luce foi, aos poucos, distanciando-se da roda de festejos onde ao centro Aimée e outras ciganas tamborilavam seus pandeiros. As portas da catedral encontravam-se abertas. Jogou o xale azul escuro sobre os cabelos e os ombros e adentrou na igreja, sem dificuldade.

A missa das três horas iniciou-se pontualmente com as badaladas das Trois Maries e do Jacqueline. Conforme os ritos iam estendendo-se, Luce foi esgueirando-se pelo lado escuro das colunas. Com os pés descalços sobre o chão frio e liso da catedral, foi aproximando-se, curiosamente, da celebração.

Nunca adentrara tanto na igreja. Há duas colunas do altar. Luce não preocupava-se com o que estavam celebrando ali. Não entendia uma palavra do que dizia o sacerdote. Mas apenas ficar ali, lhe despertava um sentimento, a lembrança que não vinha em sua mente. Então ficava olhando as histórias contidas nas paredes e os anjos nos cantos das paredes, no teto.

De repente, o padre que presidia a celebração calou-se. E virou-se para a assembleia.  

— Aproxime-se aquele que deseja ser ordenado presbítero. – Ordenou.

E levantou-se do coro um jovem rapaz. Luce reconheceu-o. Era, efetivamente, o mesmo moço que estava sob o capuz e que ela pensou ser Peter quando dançava na praça.

Um homem levantou-se com ele e impôs-lhe a mão sobre o ombro. E juntos dirigiram-se ao altar. 

— Vos que pede tal ordenação, sabes se ele é digno? – Perguntou o sacerdote.

— Segundo o testemunho do povo cristão e o parecer, dos responsáveis que o apresentam, atesto que foi considerado digno e apto para receber tal grau da ordem. – Respondeu o homem.

— Antes de ser admitido à Ordem dos presbíteros, deveis manifestar diante do povo o propósito de receber este ministério, a ti ser confiado a serviço da santa igreja. – Disse ao jovem. - Quereis exercer sempre o ministério do sacerdócio no grau de presbítero, como zeloso cooperador da Ordem dos Bispos, mantendo-se leal àquele que é vosso pastor diocesano, apascentando as ovelhas do Senhor sob a ação do Espírito Santo?

— Sim, quero. – Respondeu o rapaz, por fim.

— Prometes-me a mim, e aos meus sucessores e ao Sucessor do apostolo São Pedro, o Santo Padre, o Papa, lealdade e obediência? – Indagou.

— Sim, prometo.

— Queira Deus consumar o bem que em ti começou. – Pediu o padre.

Em seguida, o rapaz prostrou-se no chão. E todos os presentes ajoelharam-se. Teve início uma enorme ladainha saudando à infinitos nomes de santos e santas.

O rapaz levantou-se somente ao findar da ladainha, para pôr-se novamente de joelhos.

Luce observava atenta, de trás das colunas. O jovem estendeu ao padre suas mãos, o sacerdote passou ao redor delas uma corda. Amarrando-as simbolicamente. E, em seguida, ungiu-as com óleo.

— Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o Santo Sacrifício. – Disse o homem.

Os sacristãos trouxeram, um a um, objetos litúrgicos.

— Recebe a oferenda do povo santo para a apresentares a Deus. – Disse entregando ao rapaz um cálice e uma patena**. - Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor. – Avisou o sacerdote.

— Recebes a estola símbolo de tua dignidade e autoridade sacerdotal a ti confiada pelo Cristo sacerdote. – Falou colocando uma faixa ao redor do pescoço do jovem. - e a casula símbolo do bravo guerreiro, que revestido de sua armadura vai a batalha confiante em sua missão, em Cristo. – Em seguida, revestiu-o com um manto. – E que a paz esteja contigo.

— Também contigo. – Respondeu ele. E finalmente levantou-se.

Desceu do altar e deu a comunhão aos presentes. Luce fitou-o todo o resto da missa. Mas ele estava tão preso às outras coisas que não percebeu os olhares furtivos da cigana por trás das pilastras.

Ao término da celebração, das parabenizações ao jovem, todos os sacristãos, padres e demais haviam dirigido-se para a sacristia e Luce sentiu-se livre para andar pela catedral.

Ela parou, sob o arco principal. Admirando, intrigada, uma imagem. Uma mulher coroada, com uma criança nos braços. Olhava para a cigana, apesar de estar com a cabeça virada para o filho. Subitamente, sentiu um ferrão transpassar sua cabeça e seu coração. Agachando-se, não lutou contra seu peso que puxou lhe para baixo, até deitar-se no chão.

E chorou. A vontade de lembrar o que não conseguia invocar em sua memória crescia compulsivamente. Algo que não deveria ter esquecido. Algo!? Alguém!? O quê!?

— A senhorita precisa de ajuda?

A voz preocupada, veio ajudando-a a erguer-se. Era a mesma voz que ecoara durante a missa para jurar serviço à instituição. Ainda revestido com a seda e os fios de ouro que recebera. Ao reconhecer-lhe, Luce desvencilhou-se dos braços que a acudiam. Pronta para sair correndo.

Porém, uma mão a impediu. Segurando-a pelo cotovelo, mas como ainda estava com óleo, escorregou até seu pulso.

— Por favor, espere. – Insistiu.

Contudo, o rapaz arrependeu-se da insistência, assim que a garota virou seu rosto para ele. E o xale escorregou de seus cabelos, mostrando por completo seu rosto. Era, efetivamente, o anjo que dançara com os diabos na praça.

— O que está fazendo aqui? – Questionou-a.

— As portas estavam abertas, eu entrei. – Respondeu ela. Enxugando as lágrimas com as costas das mãos, tilintando as pulseiras.

— E por que veio chorar diante da Virgem Santíssima? – Perguntou ele.

— E, por acaso, ela não pode ver que a tristeza assola os que não desistiram da ideia de que salvem os proscritos? – Bateu de volta a cigana. – Você prostrou-se diante Dela no altar. Não acredita que Ela olha para nós também?

— Você, cigana, estava na missa. – Riu-se o rapaz. – Como se chama?

— Se vou ser interrogada, exijo saber qual crime consta contra mim. – Defendeu-se precipitadamente.

— Não estou aqui para acusar-lhe, criança. – Falou ele. – Chamo-me René. René d’Haine.

— Luce. E não chame-me de criança. Não deves ser nem três anos mais velho que eu. – Disse fitando o moço, recém instituído padre.

O rapaz era esbelto, embora a batina não revelasse-lhe os contornos do corpo. A tez pálida, sem manchas. Os cachos castanhos cobriam-lhe da testa a nuca sem uma falha. E os olhos claros como céu de julho, porém um tanto fugitivos, desviavam de Luce para as paredes e para imagem de Nossa Senhora a todo instante.

— É belo que, alguém como você, - Começou René, parando um momento sobre os olhos da garota. Tão claros, pareciam ser feitos de completa luz. – consiga ter tanta esperança em Deus.

— Não, se iluda. Não sou secretamente uma praticante da sua fé. – Falou Luce. – Alguém como eu, deposita sua fé, e suas preces, nas pessoas. Não me importa quem vá atende-las.

René impressionou-se com a sinceridade da cigana. Os pagãos eram pintados em seu imaginário com todos os trejeitos dos demônios do Inferno. Era difícil crer que ela pudesse ser um deles. Tão angelicais eram seus olhos, desejava tocar tamanha luz que emanava deles.

— Eu devo ir, antes que notem minha falta. – Luce distanciou-se ao perceber como ele estava centrado nela.

Quando virou-se para, pela segunda vez, sair correndo. Foi, novamente impedida por René, com a mão sobre o véu em seu braço.

 - Você vai voltar? – Questionou-a.

— Eu não sei. – Respondeu seca.

E, violentamente, deu-lhe as costas e correu pela Porte de Saint-Etienne.

Ao tentar segurá-la entre seus dedos, tudo que restou dela foi o lenço. Apertou o tecido fino nas mãos e escondeu-o sob a batina. Tinha, agora, uma prova da existência de seu anjo.



Notas finais do capítulo

*"Minha culpa. Minha tão grande culpa", expressão pertencente ao rezo do "Confiteor", ou "Eu Confesso" no nosso português, oração rezada antes das confissões.
**Cálice, eu suponho que não preciso explicar. Mas patena é aquele prato, de ouro ou, nos dias de hoje com a atual economia, banhado a ouro, no qual se deixa a hóstia a ser consagrada na missa.
E AE??? Me digam o que acharam ali nos comentários!!! *-* Tô curiosa pra saber o que vocês acharam...



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