Hugo escrita por Rossetti


Capítulo 6
Seis


Notas iniciais do capítulo

EU DEMOREI DE NOVO
Mas agora não estou mais tão na bad. O estresse e a ansiedade moram comigo, mas eu ainda estou de pé e vamo que vamo.
Hoje especialmente feliz porque o Gui, esse pedacinho de fofura, super me animou a postar mais, escrever mais. Obrigada, nene ♥



Não lembro de quase nada dos dias que antecederam a despedida de Hugo, porque eu estava imerso em mal estar. Mas lembro de estar na rodoviária, olhando Sonia e todo mundo abraça-lo.

Até que chegou a minha vez e eu não sabia o que fazer. Abraça-lo seria estranho demais, depois de... Tudo.

— Eu ainda tenho uns quinze minutos. – Hugo falou, olhando para mim. Então se virou para o resto da família, sério. – Queria falar com o Greg sozinho.

Senti meus órgãos se revirando, enquanto eles todos se afastavam em direção a um vendedor de doces. Meu pai foi o último a ir junto, carregando as malas de Hugo, depois de olhar para nós com um ar preocupado.

— Hey. – Meu irmão me chamou e eu tive que olhar para ele. Nem lembrava mais qual tinha sido a última vez que havia olhado para valer pr’aqueles olhos esverdeados.

— Hey. – Respondi, sem ter mais nada para dizer. Ele desviou o olhar e colocou as mãos nos bolsos.

— Eu só queria...

Esperei. E a angustia foi aumentando conforme eu via os minutos passarem no relógio digital da rodoviária, sem que nenhum de nós falasse nada.

— Espero que... Eu queria mesmo... Que você pudesse me perdoar por tudo isso. Algum dia. – Ele disse baixinho. Levantei o rosto para encara-lo de novo, surpreso. Não era o que eu esperava.

Aliás, eu nem sei o que eu esperava.

— Pelo que? – Indaguei, num fiapo de voz. – Você não fez nada de errado, Hugo.

— Não finja que não sabe. – Ele passou a mão pela nuca. – Nem me peça pra explicar. Por favor.

Olhei em volta e localizei um banco para sentar, já que minhas pernas estavam se recusando a me manter em pé. Hugo me seguiu, com as mãos nos bolsos, e sentou do meu lado.

— Eu quis dizer... Você não fez nada de errado, Hugo. – Expliquei, encarando meu próprio braço. Lembrei vagamente do dia que ele riscou meu braço todo com a unha; parecia ter sido em outra vida, muito mais feliz. – Eu não tenho o que perdoar.

— Não é assim. – Eu podia senti-lo, olhando para mim. – O que eu abri mão...

Hugo parou de falar aí. Parecia ter perdido a disposição para falar disso. Então levantou, entrou na minha frente e deu um sorriso triste.

— Estou apavorado. – Confessou. E estava mesmo, aparentemente. Pálido, inquieto.

— Por que?

— Estou indo sozinho para um mundo totalmente novo, não é o suficiente para estar com medo?

Era sim. Eu já tinha virado algumas noites sem dormir, imaginando Hugo solitário, mesmo que cercado de gente numa cidade universitária, tendo que se virar como podia.

— Aposto que você vai adorar a liberdade. – Menti. E ele sabia que era mentira. Eu, que sempre fui mais solitário, não conseguia ficar sozinho por muito tempo sem me sentir triste. Imagina Hugo, meu Hugo, meu pequeno invasor de espaço pessoal, sem ninguém por perto. Era horrível de se pensar.

— Vou em muitas festas. – Ele sorriu e senti meu coração congelar.

— Tenta não esquecer da gente. – Brinquei. E ele balançou a cabeça, concordando. Depois sentou no chão, na minha frente, e segurou minha mão. Estremeci com o contato e me senti imediatamente aquecido, mesmo que sua pele estivesse fria.

— Me sinto sortudo por ser seu irmão. – Ele disse, olhando para minhas unhas. – Porque mesmo que mil coisas aconteçam, nunca vamos perder isso. Sei que é egoísmo meu, mas...

— Não é egoísmo. – Apertei sua mão. – Também me sinto assim, Hugo.

Ele me encarou, com alguns cachos castanhos cobrindo parte de seus olhos. E então beijou as costas da minha mão, suavemente.

— Eu te amo, Greg. – Sussurrou. E, por um breve momento, pareceu perdido, em dúvida. Apenas em minha cabeça gritei para que ele mudasse de ideia, que não fosse. Era só ficar, estar perto de mim, ficaríamos bem. Mas não fiz isso e Hugo encostou o rosto na minha mão e fechou os olhos. – Vai ser difícil sem você.

Passei a outra mão em seu cabelo e segurei a vontade de chorar.

— Vamos nos falar todo dia, não vamos? – Perguntei baixinho.

— Claro. – Sussurrou, sem abrir os olhos. – Você é a pessoa mais importante da minha vida.

Não senti a necessidade de responder que ele também era o mais importante para mim. Ele sabia.

Nenhum de nós ousou se mexer pelos próximos minutos. Até que todo mundo voltou feito um furacão, falando que se Hugo demorasse mais um minuto, perderia o ônibus. Nos levantamos correndo e fomos pegar as malas.

Antes de entrar no ônibus, Hugo virou para mim.

— Estamos bem, não estamos? Essas últimas semanas foram...

— Vamos esquecer as últimas semanas. – Foi um alivio dizer isso. Ele concordou, balançando a cabeça. Então deu dois passos na minha direção e me abraçou. Porem foi um toque meio vazio, diferente do de sempre. Durante todos esses anos, ele sempre fazia questão de me abraçar pela cintura, de um jeito carinhoso, atencioso; dessa vez ele me puxou pelo ombro, provavelmente tentando fazer como outros caras fazem. Nenhum de nós sabia como se encaixar num abraço assim, meio bruto.

Ele entrou correndo no ônibus e, antes do que eu estava preparado, o veículo tinha saído e sumido de vista.

Eu tentei tanto não chorar. Tentei mesmo. Mas não deu certo e quando dei por mim, estava abraçando Sonia, soluçando em seu ombro. Senti a mão de meu pai em minhas costas, Adassa segurou minha mão e Nina abraçou minha barriga. Tentei dizer a eles que eu nem merecia aquele apoio todo, porque Hugo estava sozinho e se ele estava só eu deveria estar também. Mas não consegui fazer nada além de chorar mais.

 

Realmente falei com Hugo todos os dias. Quase todo dia falávamos no celular até de madrugada e na maioria das vezes um de nós dormia no meio da ligação. E mandamos milhares de mensagens.

 

 

Arrumei um emprego dois meses depois que ele foi, o que ocupou um pouco da minha cabeça e do meu tempo, então eu ficava um pouco menos deprimido.

Fins de semana Hugo me ligava pelo Skype. O resto todo da família corria para falar com ele também. Mas logo cansavam e voltavam ao que estavam fazendo. E eu continuava falando com ele por horas, até não aguentarmos mais ficar com a cara no monitor.

Apesar disso, eu sentia sua falta o tempo todo. Do seu cheiro, seu calor... Sentia saudades até de acordar cheio de baba. Houve dias em que acordei e demorei para entender porque ele não estava no quarto. Esses eram os piores.

— Estou pensando em ir passar uma semana aí, nas férias. – Ele disse, um domingo aleatório. O pessoal estava lá no gramado fazendo churrasco (eu podia ouvir eles rindo), mas eu estava na sala, falando com Hugo. Precisava comprar um notebook para mim com urgência.

— Isso é maravilhoso. – Falei, com sinceridade. Eu não sabia como seria, mas se eu pudesse dar ao menos um abraço nele, já valeria a pena.

— Sim, eu andei trabalhando numa lanchonete aqui, deu pra juntar uma grana e eu vou poder viajar sem gastar o dinheiro do papai. – Hugo parecia muito satisfeito consigo mesmo.

— Bom, estou orgulhoso. – Declarei. E Hugo deu um sorriso enorme, do tipo que derreteu meu coração.

Eu fui esperar ele chegar, na rodoviária. Nina e Sonia estavam comigo, ambas falando sem parar. Fiquei meio aliviado que elas não estivessem prestando atenção em mim, assim não me veriam suando de ansiedade e roendo as unhas, sem conseguir respirar direito.

Quando o ônibus encostou, parecia que meu coração tinha parado junto com o motor.

Hugo desceu e olhou diretamente para mim. Havia um furacão dentro de mim, me senti como se fizessem mil anos que eu não o visse, ao mesmo tempo que eu me lembrava perfeitamente e amava cada pequeno detalhe referente a ele, como se tivesse sido a um mero segundo que nos despedimos.

Eu não sabia como me mexer mais. Tinha medo de fazer algo de errado, tinha medo de estragar as coisas, de ultrapassar algum limite e voltarmos a nos afastar. Antes de Hugo ir, estava tudo meio fora do eixo, mas definitivamente tinha melhorado durante nossas conversas. Porém, sobre contato físico, eu ainda não sabia onde estávamos.

Mas foi ele quem deu o primeiro passo; quando dei por mim, Hugo tinha soltado a mochila no chão e vinha em minha direção, correndo. Estendi meus braços para ele espontaneamente, sem pensar. E ele se jogou em mim com tanta força que quase caímos para trás. O segurei contra mim e todas minhas neuras evaporaram imediatamente. Nós rimos e nos apertamos e rimos mais. Seu cheiro era familiar, doce, delirante, seu calor era meu motivo para estar vivo, seu cabelo era tão macio que chegava a ser ridiculamente perfeito.

— Eu te amo, eu te amo, eu te amo. – Ele sussurrou. Eu respondi uma mistura de “eu sei” com “eu também” embolados pela emoção.

— Deixa um pouco pra gente também. – Nina disse, me lembrando que as duas estavam ali também.

— Rainha da minha vida e princesinha! – Hugo exclamou, estendendo um braço para elas, sem me soltar. E as duas se juntaram ao abraço também.

O caminho para casa foi alegre e divertido. Hugo falava sem parar sobre a faculdade, Nina fazia um milhão de perguntas e eu apenas fiquei quietinho, apreciando o momento. Quando chegamos foi praticamente uma festa, que durou até a noite.

Foi quando um pouco da neura voltou a me dominar. Sentei em minha cama e fiquei perdido em pensamentos, com a garganta muito seca, até Hugo entrar. Sentou na sua própria cama, de frente para mim.

— Eu vou dormir aqui. – Anunciou, hesitante, pegando o próprio travesseiro.

— Bom, é sua cama.

— Uma hora eu precisaria aprender a dormir sozinho, né? – Ele sorriu, mas parecia triste.

— Acho que sim. – Tentei não parecer tão deprimido quanto eu me sentia, mas acho que ele percebeu.

— Mas amanhã podemos deitar na grama.

Me senti um pouquinho melhor e sorri para ele.

Ao menos, quando acordei no meio daquela madrugada, pude ouvir sua respiração tranquila na cama ao lado.

Não existe nenhuma forma de explicar como foi incrível, sublime, apenas deitar do lado de Hugo por algumas horas. Aquela ação tão simples fez todos os meus sentimentos ruins esvaecerem e eu tive algum tempo de paz.

Queria que ele jogasse o braço por cima de mim, como fazia as vezes, mas não aconteceu. Mas, em algum momento as costas de nossas mãos estava encostadas e eu aproveitei como nunca aquele contato. As folhas balançavam suavemente acima de nós, o vento fazia meus braços se arrepiarem, a grama estava fresca e pinicava, mas a mão de Hugo continuou lá, quente e macia, sua pele pressionada contra a minha, apenas um pequeno (e maravilhoso) ponto de contato físico entre nós.

Fiquei com sono, conforme a tarde foi se transformando devagar em noite. Até que o rosto de Hugo surgiu na minha frente e eu levei alguns segundos para assimilar que estava inclinado sobre mim. Os últimos raios de sol iluminaram seu rosto, se tornando a visão mais linda que eu poderia ter.

— Vamos para dentro? Tá ficando frio demais aqui. – Ele disse. Eu não queria ir, mas concordei e acabei levantando. Tinha grama e folhas secas no seu cabelo.

Entramos juntos. Minha vó estava no sofá e Hugo foi para seu lado, abraça-la.

— Você tá com uma carinha melhor, Gregório. – Ela comentou, olhando para mim, quando sentei na poltrona diretamente de frente para a dela. Sorri um pouco e Hugo beijou seu rosto. – Você precisava ver, Hugo, a saudade que seu irmão ficou de você.

— Espero que sim. – Ele me olhou de canto de olho e eu senti tido o constrangimento do universo cair sobre mim. – Porque eu achei que poderia morrer, só pela falta dele.

Meu coração bateu mais rápido.

 

 

 

Alguns dias depois de Hugo voltar para sua nova cidade, eu estava um lixo de novo.

Tinha estado deitado por uma boa parte do sábado, sem fazer nada, já que ele não tinha me ligado. Estava esticado na minha cama, com fones de ouvido. Adassa bateu na porta, mesmo que estivesse aberta, e entrou.

— Oi, chato. – Falou, entrando de vez e fechando a porta.

— Hey. – Desliguei a música. – Tudo bem?

— Aan... – Ela deitou do meu lado. – Na verdade vai tudo mal.

— O que?

— Meu irmão mais velho tem 22 anos e só sai de casa para trabalhar. – Ela deu um suspiro dramático, então ficou séria. – Você tem que viver, Greg.

— Eu estou vivendo. – Menti. Eu estava claramente vegetando e qualquer um podia perceber.

— Gregório. – Adassa se virou de lado para me olhar. – Você tem que tentar também. Sabe, construir sua própria vida.

Não perguntei por que o uso do também; não se faz perguntas em que você sabe que não quer ouvir a resposta.

— Eu não sei se quero falar sobre isso. – Fechei os olhos e coloquei o braço sobre o rosto.

— Você nunca quer falar sobre nada! – Senti, pelo movimento da cama, que ela tinha sentado. – Você guarda tudo para si, sendo que não precisa. E as vezes você simplesmente deixa as coisas como estão, em vez de tentar resolver! Não pode ser assim para sempre!

— Adassa, me deixa em paz. – Pedi, em voz baixa.

— Não, Greg! – Ela tirou meu braço da frente dos meus olhos e me encarou. – Você não pode depender do seu irmão para sempre, como se fosse uma criança! Quando ele estava aqui, ainda dava para entender, mas ele foi embora, ele está tentando ter uma relação mais equilibrada com você!

— Adassa...

— Se ele consegue e quer tentar, o mínimo que você pode fazer é tentar também. – Ela nem parava para respirar. – Já ficou claro que ele não quer ficar aqui, você vai só sentar e definhar? Para que? Fazer que ele se arrependa da decisão que tomou? Como se ele tivesse culpa por querer outra coisa?

— Cala a boca! – Mandei, em voz alta, me levantando depressa. – Não abra sua boca pra dizer uma palavra do que não sabe, sua idiota. – Rosnei.

Minha irmã arregalou os olhos. Eu nunca tinha falado assim com ela ou com qualquer pessoa da família.

Ficamos nos olhando, em silencio, o clima pesado demais para fazermos algo além de respirar mais depressa que o normal.

Até que eu fechei os olhos e sentei na cama de Hugo.

— Desculpa. – Pedi, tentando fazer com que parecesse mais sincero possível. Por dentro, ainda estava com raiva.

— Eu só quero o bem de vocês. – Ela falou baixinho.

— Você não sabe como é. – Confessei, balançando a cabeça. – Mesmo que eu explique, não tem como, porque vocês nunca vão se sentir da mesma forma que eu. Ou ele.

Ela ficou me olhando, enquanto eu absorvia a verdade das minhas próprias palavras. Não existia um exemplo de como agir em uma situação, mesmo a mais corriqueira situação, quando a pessoa por quem você é apaixonado é seu irmão. Porque não parecia existir a possibilidade de superação, como tentar se recuperar de um namoro que acabou, já que não havia nenhuma distinção de onde começava o amor de irmão e onde acabada aquele outro amor. Era tudo parte de um grande bolo de sentimentos, um pacote completo, você não esquece uma parte e segue em frente. Hugo era uma constante na minha vida, além disso; chegou muito cedo e ficou em cada lembrança minha. Meus sentimentos por ele estiveram comigo toda a minha vida, eu não sabia ser eu mesmo sem Hugo. E havia uma grande chance de que ele se sentisse exatamente da mesma forma, que tenha tomado um banho frio de realidade quando percebeu. Mas eu não podia falar por ele; mal podia falar por mim mesmo.

— Eu só queria te chamar pra... Sei lá. Sair. – Ela levantou e passou a mão no cabelo. – Se divertir um pouco.

Olhei ela se afastar, já me sentindo sinceramente mal por gritar.

— Talvez sábado que vem. – Anunciei. Ela olhou para trás e levantou o polegar, num sinal de ok.

 

Eu consegui sair alguns dias. Meus amigos eram divertidos e segurar vela de Dressa e Paulo era menos esquisito uma vez que a paixão dos dois tinha diminuído e eles não ficavam se atracando em público. Mas nada disso chegava aos pés de como era quando eu tinha Hugo por perto; me pegava sentindo sua falta sempre que fazia algo que ele gostava ou imaginando como seria experimentar algo com ele, a cada coisa nova. Um exemplo foi quando percebi que nós dois nunca fomos pra um barzinho juntos e comecei a criar uma lista mental de quais lugares Hugo gostaria, levando em consideração cada detalhe.

Acabava sempre com alguém estalando os dedos na minha frente, perguntando em que mundo eu estava.

 

Estava em meu mundo castanho-esverdeado.



Notas finais do capítulo

Vocês já sabem, né? Comentários salvam vidas, ainda mais a dos autores sem autoconfiança o bastante. Deixem-me saber se vocês gostaram dessa leitura.
Abreijos!



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