Two Lives escrita por Lybruma


Capítulo 1
Margaridas


Notas iniciais do capítulo

HEY!
Bem vindos e boa leitura!



Na noite fria uma garota corria por um campo de margaridas.

Ao longe, soava o sino da igreja. Doze badaladas. Meia noite.

A garota trajava uma capa negra, tão escura quanto a noite. A mesma voava atrás de si, tamanha era a urgência da pobre menina. O capuz, que outrora havia sido ajeitado com perfeição em sua cabeça, já havia lhe escapado e acompanhava os trôpegos movimentos – as flores atrapalhavam sua corrida. O claro cabelo estava solto, fazendo com que os fios lhe batessem o rosto, que à junção da leve garoa que caía, causavam um enorme incômodo.

Seus olhos escuros observavam tudo, inquietos, tentando captar algum sinal de perseguição. A garota começou a correr mais depressa quando os pequenos orbes localizaram luzes de tochas de aproximando.

As margaridas estavam atrapalhando a garota, que se esforçava ao máximo para sair daquele campo de flores.

Seu objetivo era chegar até a Floresta Assombrada, onde sabia que ninguém teria coragem de segui-la. Afinal, todos temiam a Floresta. Era lá que as mais poderosas bruxas se reuniam para realizarem seus rituais bizarros. Crianças sumiam e nunca mais se ouvia falar sequer de seus corpos. Barulhos bizarros vinham de lá, animais inimagináveis eram vistos.

Oona engoliu em seco. Sentia o suor escorrer por seu rosto, suas mãos estavam geladas e seus pés lutavam para que ela não continuasse aquele caminho. Mas ela apenas ignorou, apressando-se ainda mais.

Faltava tão pouco para ela chegar ao seu destino...

Tudo estava indo bem, até que ouviu um barulho semelhante a uma explosão atrás de si.

E ela conhecia bem aquele barulho.

Imediatamente o medo começou a crescer em seu peito. Não conseguia pensar em mais nada que não fosse fugir. Mas no fundo sabia que aquilo era inútil.

Não adiantava fugir da Dama.

Mesmo assim Oona continuou correndo. Juntou cada resquício de força que havia encontrado dentro de si e se agarrou à ideia de que a Floresta estava próxima.

Belo engano.

De repente, sentiu seu corpo paralisado. Não conseguia sequer abrir a boca para gritar, muito menos continuar correndo.

E então, a Dama apareceu.

Seus cabelos eram negros, e sua pele, igualmente escura. Trajava um vestido leve, que balançava por causa do vento. E os olhos, completamente brancos, causavam arrepios na garota.

— Minha pequena Oona... Por que foges? – A mulher perguntou, parecendo ter se esquecido de que a pobre garota estava impossibilitada de responder. Havia um sorriso maldoso em seus lábios, e cada palavra que ela dizia parecia estar carregada do mais terrível veneno.

— Não posso negar... És corajosa. Um pouco tola, mas ainda assim... – a Dama riu – Entretanto, tereis que pagar. Simplesmente ignoraste a mais importante lei – a mulher se aproximou, olhando Oona no fundo dos olhos – se apaixonou por um mortal – ela praticamente cuspiu a última palavra. Tamanho era seu nojo – E eu já sei exatamente como você pagará por isso...

Naquele momento os olhos da Dama adquiriram uma cor diferente. Preto. Ela estava usando seus poderes.

E então começou a falar em um tom horripilante. Parecia que mil espadas estavam sendo afiadas ao mesmo tempo. Oona não conseguia pensar ou fazer nada, a não ser chorar.

— Em sua próxima vida você não terá uma das maiores virtudes de uma bruxa; se lembrar de suas vidas anteriores. Você não será uma mortal, claro, mas não saberá que tem poderes e, se por acaso descobri-los, poderá usá-los apenas uma vez por estação. Bons sonhos. – a Dama completou, aproximando um de seus dedos para tocar o peito da garota, mas parou abruptamente. – Não, não... tenho uma coisa melhor. Poderás usar seus poderes apenas no dia de sua morte. Um amor proibido o antecederá. Um belo homem irá se apaixonar por você... Sim, muito belo. Lindos olhos esmeralda. Infelizmente, minha pequena Oona... Não sentirás nada pelo rapaz. Mas, a melhor parte é que... – a Dama fez uma pausa e tocou levemente o rosto da garota com as pontas dos dedos– ...Quebrarás o coração do rapaz. Tamanha será a dor dele... E, por fim, serás a causa de sua morte.

E, com isso, tocou o peito da garota que, logo após, viu apenas trevas e escuridão.

...

Alemanha, março 1943

Campo de concentração Flossenbürg

Trabalho e extermínio

Louise acordou sobressaltada.

Suava frio e seu coração estava descompassado.

Já era o terceiro mês que ela tinha o mesmo pesadelo. Todos os dias desde janeiro, sem exceção.

Parte dela sabia que era por tudo que estava acontecendo, afinal, ser judia em plena Segunda Guerra Mundial com certeza era motivo para um milhão de pesadelos diferentes. Mas... Por que ela tinha um pesadelo tão perturbado?

Suspirou, remexendo-se no fino colchão – responsável por terríveis dores nas costas – e ajeitando alguns trapos de roupas velhas que lhe serviam como travesseiro na esperança de que pegasse no sono novamente.

Ah, como estava enganada!

Alguns segundos depois ela ouviu gritarias do lado de fora de sua cabana, indicando que o primeiro grupo estava sendo levado para o extermínio. Seu coração se apertou naquele momento, mas não havia nada que ela pudesse fazer a não ser continuar trabalhando e esperar sua vez.

Assim que as gritarias ficaram distantes, a porta de seu abrigo foi chutada, assustando todas as outras pessoas que ali estavam, inclusive ela. Louise se sentou e conseguiu ter uma clara visão do soldado responsável por sua cabana.

Ninguém sabia o nome dele, mas o apelidaram de Olhos de Vidro, já que os mesmos eram de um azul claro como o céu, quase angelicais. Quase, se não fosse por seu portador. Um soldado de no máximo 30 anos, com o coração semelhante ao do próprio diabo.

— Vamos, vermes! Acordem! Levantem-se! Vocês têm trabalho a fazer! – Olhos de Vidro gritou, chutando alguns infelizes que tiveram a má sorte de se deitarem perto da porta – O dia de vocês morrerem não é hoje, mas enquanto esse dia não chega... Continuarei fazendo da vida de vocês um verdadeiro inferno! – Berrou, gargalhando logo em seguida.

Louise revirou os olhos. Ele não dava medo em ninguém. Mas era melhor para todos que ele pensasse que sim.

Por fim, levantou-se, logo depois ajudou uma senhora que estava ao seu lado.

As duas se juntaram a uma pequena fila, seguindo a multidão. A menina olhou em volta, procurando Rachel – uma amiga que havia feito em sua primeira semana no Campo. Rachel era um ou dois anos mais velha que ela, porém sua beleza nem de longe se comparava com a de Louise.

Depois de caminhar um pouco, garota sentiu um cutucão em suas costas, e rapidamente virou sua cabeça para ver quem era.

Deu de cara com o sorriso malicioso de Rachel, e seu permanente olhar de que estava planejando algum plano que daria muito errado.

— Bom dia, minha bruxinha. Posso ler sua mão hoje? – Ah, sim. Na cabeça de Rachel, Louise em alguma vida passada havia sido uma bruxa, o que “explicava” seus pesadelos. Ela era uma cigana, e seu passatempo preferido era tentar adivinhar o futuro de Louise.

Ela apenas revirou os olhos, estendendo sua mão.

— Rachel, você sabe que é impossível eu ser uma bruxa. Impossível. Mas bem que eu poderia. Usaria meus poderes para acabar com todos os guardas desse lugar! – ela fingiu mexer em um caldeirão com a mão livre, enquanto Rachel dava pequenas risadas.

— Alguma coisa deve estar bloqueando seus poderes. Deixa eu bater sua cabeça na parede, vai que resolve! – foi a vez de Louise gargalhar.

E aquilo era a coisa da qual ela mais se orgulhava; por mais que fossem tempos difíceis e diariamente centenas de pessoas morressem, ela e Rachel nunca abandonariam o bom humor.

— Bem, não é hoje que vamos morrer... – Rachel falou, analisando a palma da mão de sua amiga. – Hm... fome, como sempre. Dores na coluna e... – Rachel simplesmente engasgou. Como se tivesse lido a pior coisa do mundo. – Louise... Você... Ah! Isso não é bom.

Louise, por sua vez, não estava entendendo nada. Rachel não estava conseguindo respirar, então achou melhor sair da fila e esperar até que a amiga se recuperasse.

Sentou-a em um lugar um pouco afastado (ela sabia que teria que pagar o preço por sair da fila e por se afastar, mas não se importava, desde que Rachel melhorasse).

Não demorou muito para que ela ouvisse passos em sua direção.

— Ei, vocês! De pé, rápido! – uma voz autoritária se fez ouvir.

Louise imediatamente levantou-se, ajudando Rachel, que já estava melhor.

Os passos foram ficando mais perto, até que uma figura alta parou ao lado da garota.

A mesma olhou para cima e o que viu foram apenas lindos olhos cor de esmeralda.



Notas finais do capítulo

É ISSO!
Não esqueçam de comentar, obrigada! Isso deu muito trabalho.