MELLORY — entre Deuses e Reis escrita por Lunally, Artanis


Capítulo 9
Alfa ilegítima ou escolhida? — a verdade por detrás do imperio


Notas iniciais do capítulo

Não tem como resumir a intensidade deste capitulo.

Just Enjoy it.



TRÊS

Uma. Duas. Três. As gotas não paravam de tamborilar no carpete branco que recobria a imensa sala de estar do castelo. Serena tentava contá-las, na ilusão de afastar a cena angustiante a sua frente. Aos seus pés, estava estirado o corpo sem vida de seu irmão, as orbitais dos olhos do garoto olhando para um destino incerto e um talho aberto em seu peito, escorrendo seu sangue puro e legítimo no chão.

A forma hábil como o líquido avermelhado aderia ao tecido claro era tão medonha, que parecia dizer com todas as letras que naquele lugar a verdadeira dona era a Senhora Morte, herdeira da dor alheia. O tronco da mulher pesou para frente e ela se ajoelhou, colocando delicadamente a cabeça de Nathaniel sobre suas pernas trêmulas. Descansou a mão sobre o tórax do príncipe, a procura dos batimentos preciosos que por tantos anos lhe conferiram uma atitude vivaz. Mas, não havia nada. Apenas um silêncio que fustigou os nervos de Serena, fazendo-a gritar, espernear, mas nunca chorar, ela não podia se dar ao direito de se entristecer, não tinha tempo para sentir a perda.

Ergueu-se, com o auxílio de seu outro braço e avançou, como em uma marcha, rumo aos assassinos, que do outro lado pareciam estáticos. Se um espectador qualquer resolvesse focalizar sua visão na expressão dos traidores, veriam algo semelhante a culpa em seus olhos. Só que a princesa nem questionou seus extintos. Jogou-se, impulsionando seu corpo com força, para cima de seu pai e madrasta, que naquele momento, lembravam os vermes que iriam descarnar os restos mortais de seu doce irmão.

Para ela, eles cheiravam a lixo. Meros ratos de esgoto. O ódio percorria suas entranhas, dando-lhe um poder e domínio da situação considerado impossível por muitos. Estava tão cega que não viu a legião de betas que se aproximava. Mãos começaram a segurar seus ombros, impedindo que estes delicados membros derramassem ainda mais sangue.

Foi tudo muito rápido. Parecia o pior dos pesadelos que uma garota poderia ter. Só que era real... A aura de Nathaniel se unia aos flocos que anunciavam a Primeira Neve, tida como a peregrina surda e a amiga dos inocentes. Serena observava atenta, a luz dourada irradiar de dentro para fora, preenchendo o ambiente com uma risada gostosa que só seu irmão daria. Ele parecia andar, andar contra opiniões, contra sua deficiência e logo atrás dele, um espírito bom e calmo, o acompanhava.

Até breve, querida irmãzinha. — Foi o último som a ressoar no salão.

[...]

QUATRO

A garota estava farta do clima caótico do castelo. Seus pais eram assassinos, seu irmão morrera e ela fora tida como bastarda, quando o novo Alfa, Brutus, assumiu o trono de Premin. A jovem Alfa perdeu tudo, até mesmo sua dignidade, que levava com orgulho estampada no brasão de sua família.

Sem dizer uma palavra, deixou a grande sala do lugar que um dia chamou de casa, e seguiu, maltrapilha e sem rumo, para os lugares mais imundos do reino, com a esperança de que um bom cidadão lhe estendesse a mão, mas ninguém sequer virou a face para olhar seu sofrimento. Ela tão acostumada com os luxos da nobreza, se tornou invisível para os que a cercavam, como uma leprosa. E finalmente, entendeu que a realidade é cruel e que só é possível confiar em si mesma.

Até seus pais, os antigos líderes de Premin, não passavam de abutres, que escravizavam crianças e mulheres para trabalhos deploráveis e mandavam os garotos, ainda muito novos, para os campos de batalha, em destino a morte evidente. Estes jovens lutavam para sustentar uma ganância sem precedentes de uma aristocracia corrupta e egoísta. Serena não queria ser mais parte dessa chacina de inocentes, sua alma era de guerreira, mas seu coração era misericordioso.

Ao chegar na misteriosa floresta, símbolo da separação nojenta entre os reinos, a menina permitiu-se chorar abertamente. Aquele seria o seu fim, ela morreria ali, como uma donzela indigente ou devorada por animais que nunca houvera visto antes. De joelhos, ela clamava aos deuses por piedade, porém eles pareciam surdos perante seus clamores. Eu não mereço isso. – Repetia, duvidando de suas próprias palavras. E então... Ela viu.

No horizonte, um espírito todo tomado por uma luz indescritível, com a forma de um leão em um dualismo interno constante. Que ao mesmo tempo que parecia feroz, caminhava manso ao encontro da moça, seu rugido acalentava o coração devastado da princesa. A fera era uma divindade, com toda certeza. A medida que avançava, seu corpo se metamorfoseou em um homem, que parecia revestido com um manto de estrelas, em contraste com seus cabelos loiros e opacos que pendiam em camadas.

Ele caminhava com os olhos fechados, como se não realizasse tal ação a séculos. O barulho de seus ossos sendo postos no lugar era reconfortante e Serena estava prestando atenção a cada majestoso movimento que o homem realizava, aguardando-o com indagações presas na garganta e uma esperança inesperada nele, que não passava de um estranho. Quando estavam frente a frente, ela prostrada no chão e ele em pé, com um sorriso sereno no rosto, o homem tomou a palavra e manifestou-se:

— Minha cara, por que choras? Não conhecesses a sua força? Está a questionar a si mesma? - Bradou, sua voz adentrando os ouvidos da garota. - Recebo-te como filha da natureza, para que cuide desta casa na qual derrama suas lágrimas. Não tema, se o destino te trouxe aqui, é aqui que tu deves ficar. De hoje em diante, a senhorita zelará deste santuário, como zela de sua vida. Será isolada do mundo e irá se tornar uma Ômega, sem nome, sem riquezas, apenas com a vontade de amar que está impregnada a sua pele. Bem-vinda ao seu novo lar, Dama do Sol.

[...]

CINCO

Mellory era um grande enigma a ser desvendado. As plantas de seu interior pareciam cantar uma melodia que variava, impecavelmente, entre tons melancólicos e alegres. Os animais eram medrosos, mas vigilantes e espertos o suficiente para detectar um invasor. E ali estava Serena, perdida naquela imensidão de segredos.

As águias do Norte traziam notícias dos reinos e junto com elas, Amom, o Leão Guerreiro, patrono de Premin. Seu espírito forte era perceptível a distância e estremecia terra batida aos seus pés, levantado uma nuvem de poeira que acabava camuflando-o.

Serena gostava de Amom. Principalmente, pelo seu ar de liderança palpável e sua confiança inabalável.

— Serena, você deveria aprender logo os caminhos ocultos da floresta. Não é sempre que estarei aqui. - Amom fitava Serena sério, enquanto sobre o pouco de sal que despejou no chão esboçava um mapa.

— O que você sugere que eu faça?  Sou boa em decorar caminhos, mas preciso que alguém me ensine primordialmente. - Respondeu a Ômega.

— Esse alguém serei eu. Por isso, só preste atenção no meu desenho. - O Leão fazia pequenos círculos nas localidades principais. - Ao Leste, vivem as tribos canibais. Não vá até lá, antes de conhecer Dominus, o líder dos ciganos e nosso aliado. É um sujeito maleável, fácil de dialogar. Mas, os famintos por carne humana, só o respeitam entre todos os moradores de Mellory.

Serena agachou, ressaltando suas curvas na calça de montaria preta e justa que usava. Amom a espiou, sutilmente, mas ela pediu que ele continuasse, despertando-o de seu devaneio.

— No Norte, temos o Mercado Negro. Onde os nômades vivem e onde, também, órfãos e viúva de Premin e Findoram são vendidos para trabalho escravo. Quem os compram, são chamados Mercadores Fantasmas e seu número varia entre 15 ou 20. Há uma mulher entre os ciganos que você também precisa conhecer, a Velha Dalila. Não se engane com sua aparência dócil, é perigosa como uma serpente e sabe, mais do que ninguém, sobre o jogo dos reis.

— Jogo dos Reis? - A Alfa questionou curiosa.

— Basicamente, vende informações dos quatro cantos do continente. Informações valiosas e privilegiadas. Capazes de fazer um império sucumbir se reveladas. - o deus explicou paciente.

— Como ela consegue?

— As informações? - Amom sorriu, arqueando uma sobrancelha ao olhar a mulher a sua frente. - As Virgens dos Sussurros ou simplesmente, Noivas da Noite as trazem para Dalila.

— Ardilosas ou inofensivas? - Serena estremeceu ao imaginar as mulheres.

— Mansas, desde que não se cite o nome de seus amados. - O homem riu de sua constatação.

— Algo mais que eu deva saber?

— Por enquanto, nada. Desarmaremos nosso acampamento e iremos para o Norte, procurar por Dominus, ele traz notícias de Premin. Pelo que as águias me disseram, sua volta de um furto acontecerá por volta das dez horas da noite hoje.

[...]

A caminhada até o outro lado da floresta era brutal. Serena estava destreinada. Passara um tempo na prisão de seu próprio reino, depois que o novo Alfa assumiu o trono. Brutus era um tirano, ex-companheiro de seu pai, Mathias, em batalhas. Mas, que não perdeu tempo em trair o amigo. O pensamento fuzilou a mente da Ômega, enojada com a situação. O sol ardia sobre a sua pele morena e gotas de suor respingavam em seus pés. Amom se prontificou em propiciar água para que ela pudesse se refrescar. Ao contrário dos humanos, espíritos não cansam, pois, sua matéria é infinita. Por isso, o Leão demorou tanto para perceber a mazela que Serena enfrentava.

— Obrigada. - Agradeceu ela ao receber a moringa de água, que tomou em um só gole.

—  O que eles te ofereceram para comer? Sabe, em sua cela. - Perguntou Amom preocupado com a fraqueza da Alfa.

— Pão e água.  Assim como os mineiros comem. - Respondeu Serena, um nó se formando em sua garganta ao pensar que foi presa em sua própria casa.

—Por que não disse antes? - O leão assobiou e seres luminescentes começaram a aparecer. - Esses são vagalumes de cristal. Eles iluminam o caminho de belas mulheres para um local de repouso.

— Amom, nós não temos tempo. - Disse Serena preocupada com a chegada de Dominus.

— Pare de falar besteiras! Você é a Dama do Sol, deve estar à altura de seu novo reino. - O deus respondeu, revelando seus dentes incrivelmente brancos em um sorriso. - Além disso, sua saúde é essencial para o equilíbrio desta floresta. Vocês estão conectados, seu coração é o coração deste lugar.

Um sentimento nostálgico invadiu a Alfa. Lembrou de seu irmão e as promessas que fizeram. O mantra que firmaram ficou marcado na alma da jovem. Para sempre... Sim, meu irmão, para sempre.

Os vagalumes se alinharam, indicando uma trilha curvilínea.  Amom puxou Serena pelo braço e a levou na direção deles.

— Siga-os. - Disse apontando para os seres encantados. - Homens não podem prosseguir a partir daqui.

— Quer dizer que você é um homem? Pensei que você um deus. - Serena socou de leve o peito do leão.

Amom brincou, fingindo estar gravemente ferido e repetiu, bagunçando os cabelos pesados da Alfa:

— Vá com eles.

— Ok.



Notas finais do capítulo

Avisamos que não eramos boazinhas. Alertamos que gostávamos de mal tratar os personagens.
Onde? Ora, caro leitor, você não foi no blog?

Trate de ir e ler tudo!

https://melloryking.wordpress.com/



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