Casamentos, Amigos e Amores escrita por Nat Rodrigues


Capítulo 14
Capítulo 14


Notas iniciais do capítulo

Postando antes do domingo porque tinha ficado muito tempo sem. Boa leitura!



Se tem uma coisa que eu convenço a mim mesma que sou capaz de fazer, é desviar do que quero pensar e me focar no que é preciso. Entretanto, nenhuma lei universal da razão foi capaz de me fazer prestar atenção no que fazia depois de descobrir que sofri totalmente a toa. A sessão de fotos teve continuidade e só percebi que parou de chover quando algumas pessoas começaram a levar os materiais e flores para fora do salão. Espantada com a mudança de atividade, olhei no relógio para conferir as horas: seis e dez.

— Meu Deus, as minhas fotos! – Exclamei me dando conta que não tinha ido atrás de ver as fotos para minha coluna. Como pude ficar aérea por tanto tempo?

Saí do salão e me deparei com um céu colorido. Metade ainda estava acinzentada, da chuva que acabara de passar, mas em contrapartida a parte oeste se encontrava em um misto de azul, rosa e amarelo, graças ao pôr do sol. Uma vista espetacular se observada de um dos lagos do clube Água Diamante, que além de refletir as cores, ainda possuía enormes árvores ao seu redor, deixando a paisagem ainda mais bonita.

— Minha foto tem que ser aqui... – Murmurei para mim mesma. Entretanto, não queria ir falar com Daniel sobre isso. Sei que é ele quem está comandando por aqui, mas... Não é o único fotógrafo da revista, certo?

Observei atentamente pela multidão de pessoas dentro do salão, a procura do rapaz que havia conversado sobre a chuva, antes de Daniel ter chego, mas não o encontrei. A única coisa que encontrei foi Sofia em um canto conversando e rindo enquanto pousava a mão no ombro de Daniel. Reprimi um revirar de olhos e fui até eles.

— Oi, er, será que posso ver com você as fotos para minha coluna? – Indaguei enquanto me aproximava. Sofia fez cara feia quando me viu, e Daniel apenas ficou sério. Ah, certo, ele ainda não tinha superado o fato de eu ter sido ácida e grossa com ele mais cedo. Com que cara irei pedir desculpas?

— Claro. – Respondeu. Despendurou a câmera que tinha no pescoço e estendeu para mim. – Aqui tem algumas que ficaram realmente boas.

Ah, ele cuidou disso sem mim. Não sei porque imaginei que ele procuraria minha ajuda ou se importaria com minha opinião.

— Não sabia que já tinha tirado as fotos com os casais... – Comecei a falar, me sentindo desconfortável. – Vi o pôr do sol e imaginei que seria um cenário melhor, já que minha coluna não fala especificamente de primavera-verão.

— Pôr do sol? – Interessou-se. Assenti e o guiei até o pequeno lago. Desta vez, o céu estava ainda mais colorido, já que a nuvem cinza já se locomovera na direção contrária, deixando tudo ainda mais bonito.

— O quê acha? – Questionei um tanto insegura. Desviei meu olhar do céu para Daniel, e ele fez o mesmo. Meu coração deu uma pequena falhada ao perceber que ele sorria tanto com os lábios quanto com os olhos.

— Que é um ótimo cenário para um pedido de casamento. – Confirmou, para depois acrescentar enquanto nossos olhares estavam ligados: - Ou de reconciliação.

Fiquei com a voz presa na garganta. Queria poder concordar e dizer tudo que estava se passando dentro da minha cabeça, mas se nós dois nos demorássemos demais ali, perderíamos o cenário para a foto. E também... Não posso tentar perdoá-lo enquanto um simples telefonema, que de nada tinha a ver com traição, me fez criar inúmeras neuras. Para poder voltar com Daniel eu precisava confiar nele, e isso ainda parecia incapaz para mim. Portanto, em resposta, apenas sorri de canto.

— Vou pedir para os modelos se posicionarem. – Daniel sentenciou após meu silêncio.

— Certo. – Concordei. – Vou ver com o pessoal para arrumarem o local...

E com isso nos separamos, com cada um indo para um lado. Alguns minutos depois as fotos já estavam sendo feitas e dentro do salão a equipe se organizava para podermos ir embora. Enquanto ajudava o pessoal da maquiagem, meu celular começou a tocar.

— Alô?

— Mariana, como está a sessão? Falta muito para terminarem? – Reconheci a voz de Paulo.

— Está tudo O.K. Algumas fotos ainda estão sendo feitas, mas parte da equipe já está dispensada. – Aproveitei que estava falando com ele e expliquei novamente como acabou sendo feito por conta da chuva. Apesar de parecer preocupado, Paulo estava feliz em saber que as fotos conseguiram ser realizadas sem precisar adiar.

— Ah, e antes que eu me esqueça, passe uma folha para cada um, recolhendo a assinatura na hora de ir embora. Precisa ter o nome, e horário em que deixou o clube. Inclusive as modelos. É só. Até amanhã. – E desligou, nem me dando espaço de perguntar porque raios eu estava encarregada de fazer isso.

Sem muita escolha, fui correr atrás do que Paulo me pediu. Eram tantas pessoas e tanta coisa para organizar que fiquei tentada a dar uma escapada e roubar mais alguns sonhos na mesa, mas não deu tempo. Quando finalmente restavam apenas umas cinco pessoas, já se passara das oito da noite. Alguns funcionários do clube já estavam fazendo a limpeza e pude roubar uma fruta antes de darem fim na mesa de comida.

— Estamos indo. – Um dos responsáveis pelo equipamento de luz avisou, acompanhado de mais três pessoas.

— Tudo bem, não esqueça de assinar! – Pedi. Joguei a casca da banana no lixo e caminhei até a folha de listagem. Faltava apenas duas assinaturas: a minha e de Daniel. Olhei em volta, procurando-o, mas dentro do salão ele não estava.

— Daniel... Daniel! – Chamei indo até a porta de vidro. Nada.

Caminhei mais um pouco, e quando encontrei um funcionário do clube perguntei se ele não tinha visto um rapaz com uma câmera na mão passar por ali.

— Tem um jovem lá no lago, mas não vi se estava com uma câmera ou não. – O senhor me ajudou e agradeci. O que Daniel ainda estaria fazendo ali?

Quando cheguei ao lago, surpreendi-me novamente com o cenário. Desta vez não era o céu que ganhara espaço, mas sim as luzes em volta do lago, que refletiam na água dando a impressão de que havia lanternas dentro d´água. Alguns arranjos de flores da sessão de fotos estavam dispostos entre os postes, dando cor e vivacidade. E, sentado sozinho no banco de madeira, estava Daniel.

— Hum... Daniel? – Arrisquei. Não queria conversar com ele. Não queria ter que lembrar o quanto fui patética por causa de uma ligação que nem mesmo tinha significado. Mas estávamos sós, em uma paisagem digna de filmes clichês de romance.

— Mari? – Virou-se, assustado. Pelo visto nem tinha visto o tempo passar.

— Oi. Então, todos já foram embora e preciso recolher sua assinatura para poder ir também... – Expliquei.

— Todos já foram? – Questionou e assenti. – Nossa, estava vendo umas fotos e nem percebi... – Comentou se levantando do banco. Fez menção de vir até mim, mas parou no meio do caminho. – Mari... Será que podemos conversar?

Depois dessa acho que vou em um benzedeiro tirar essa má sorte da minha vida.

— Não pode ser outra hora? Já está tarde e eu ainda tenho que devolver o carro da revista e pegar o meu. – Desconversei.

— Por favor. Prometo que não vou tomar muito tempo. – Pediu.

Se eu queria sentar em uma cena romântica com Daniel e escutá-lo pedir desculpas e me desculpar também? Queria. Por isso que ao invés de benzedeiro, acho que vou à procura de um terapeuta. Vai fazer mais efeito, acho.

Mesmo com minha consciência me mandando ir embora tomar um banho, sentei-me junto com ele no banco, observando as águas cristalinas do lago.

— Domingo... – Começou a falar, mas eu o interrompi.

— Eu sei. Você não estava com ninguém. Sofia conversou comigo.

Minha interrupção fez com que ele enrugasse sua testa, confuso. Pelo jeito eu já o deixei sem ter o que falar, olha que beleza. Devia ter mantido minha boca fechada.

— Sofia te explicou? – Perguntou por fim e concordei com certa vergonha.

— Eu... Me desculpe por ter sido tão dura com você. É só que... – não quero contar sobre o sonho. – Que... Que... – Com um suspiro, desisti de falar e encarei minhas unhas. Não consigo falar a ele que passei o domingo inteiro esperando uma ligação que não veio e que isso havia me chateado tanto quanto pensar que ele estava com outra.

— Tente resumir o que está sentindo com uma única palavra. – Pediu gentilmente. Ah, cara, porque ele tem que ser tão... tão... Argh. Não tinha necessidade de ele pedir exatamente como fazia quando namorávamos e eu não sabia me expressar.

Pensei com cuidado antes de voltar a falar. Não sei realmente o que quero, o que penso e o que sinto. Estou uma completa confusão.

— Confusão. – Murmurei colocando o cabelo atrás da orelha.

— Eu estou te confundindo? – Indagou. Assenti, desanimada. – Bom, já é um começo. – Riu e não entendi como ele podia rir de uma coisa dessas.

— É só que... – Comecei a falar, num fio de voz incerto. – Eu quero poder confiar em você. Mas... Não consigo.

Daniel riu novamente, mas desta sem humor algum.

— Entendi. Nunca serei o poço de confiança que André é. – Falou e virou a cabeça para o lado contrário do meu. Isso fez com que a luz refletida da água desse a ele uma aparência esbranquiçada e melancólica.

— Isso não tem nada a ver com André. – Irritei-me. – Não foi ele quem traiu minha confiança com outra mulher.

— Mas ele está com outra mulher, não é? Então porque não se esforça ao menos um pouco para enxergar as pessoas ao seu redor? – Bradou. Desta vez que riu foi eu. Qual o sentido de colocar André na conversa?

— E você ainda acha que eu não faço isso?! Não foi para André que liguei de madrugada, não foi a ligação de André que esperei o dia todo e não é André que passou o domingo com outra, não é André que me fez ir ao cinema sozinha por estar me sentindo solitária, não é André que está me deixando confusa! É VOCÊ.

Pois é, se antes eu não conseguia me expressar, desta vez até exagerei e chamei a atenção de quem passava ali por perto. Nós já havíamos tido uma discussão parecida antes no restaurante. Não me agrada recordá-la. Durante a minha fala, acabei levantando do banco, e Daniel também.

— Mariana... Me desculpa... Eu ia te ligar, mas como surgiu um trabalho, fiquei sem tempo...

Não sei se o que me doeu mais foi ele ter me chamado pelo nome inteiro ou ter ignorado tudo que eu havia dito demonstrando que eu ainda me importava com ele. Reuni coragem para dar fim a toda aquela conversa.

— Foi por isso que pedi para pormos fim a essa história de namoro falso. Enquanto eu não confiar em você e você não conseguir parar de se comparar com André, isso não vai dar certo.

— Mas caso coloquemos fim a esses problemas não precisamos fingir o namoro. – Disse e segurou uma de minhas mãos. – Se você confiar em mim você pode me perdoar, não é?

— É por isso que eu disse que você me deixa confusa... – Reclamei e sorri triste. Soltei de sua mão, e mesmo sem dar uma resposta direta, saí dali.

Daniel me seguiu até o salão, e em um silêncio estranhamente bem-vindo, terminamos de arrumar nossas coisas e fomos embora. Não sei o que toda aquela discussão significou a ele, mas a mim pelo menos parece ter trazido uma bandeira de paz entre nós dois. Não consigo amá-lo, mas também não preciso odiá-lo. Ou deveria dizer o contrário? Amor, ódio... Bichinhos difíceis de lidar.

Assim que entrei na garagem do prédio estranhei, pois a minha vaga estava ocupada por um carro preto que eu não conhecia. Aproveitei que ao lado estava vazio e deixei meu gol ali, imaginando o que poderia ter acontecido para alguém estacionar errado. Talvez um morador novo, não sei.

Mesmo me sentindo esgotada, fui primeiro a recepção falar com Joaquim sobre a vaga. Chegando lá, encontrei Dona Marli fofocando, como de praxe.

— Como que pode um moço bonito daqueles fazer um escândalo desses? – Exclamou estupefata.

— Pois é. Tenho que esperar a Dona Mariana chegar para perguntar... Ah! Mariana!

Ah que surpresa, a fofoca era sobre mim.

— Aconteceu alguma coisa, Joaquim? – Questionei um tanto preocupada.

— Na verdade aconteceu sim, o seu... – Joaquim começou a explicar, mas Marli o cortou.

— Aquele seu amigo chegou aqui perguntando de você, e como você não estava ele veio brigar com o coitadinho do Joaquim! É uma falta de respeito! Onde já se viu estar naquele estado na casa de alguém?

— Meu amigo? – Surpreendi-me. Será que é André? Mas o que será que aconteceu? – Onde ele foi depois de ver que eu não estava? – Perguntei preocupada. André não faz escândalo desses tipos. Mas não poderia ser Theo, porque Marli não o conheceria e ele não sabe onde moro.

— Eu pedi para ir embora, mas ele quis esperar em frente ao seu apartamento. Desculpa, Dona Mariana, se a senhora quiser eu ligo para a polícia.

— Meu Deus, não. Não precisa. Alguma coisa deve ter acontecido... Obrigada e me desculpe. Vou resolver isso o quanto antes. – Falei e corri para o elevador. O que será que aconteceu?



Notas finais do capítulo

Se encontrar algum erro, por favor em avise ♥ Obrigada por ler!



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