Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 19
Capítulo 18 - James


Notas iniciais do capítulo

Acho que o título do capítulo já diz tudo. Boa leitura ♥




James sentiu a claridade do sol bater diretamente em seu rosto, o que foi completamente incômodo. Puxou o canto de seu travesseiro¹, tentando proteger o seu rosto da luz forte. Escutava a respiração serena e adormecida de Lily ao seu lado, e não pôde evitar sorrir. Não tinha hora do dia em que ela estivesse mais tranquila do que aquela: quando estava dormindo.

Assim que acordavam, as preocupações da guerra pesavam sobre os seus ombros, sem que eles tivessem sequer a oportunidade de levantar-se da cama. Muitas vezes, nem os seus sonhos eram livres dos horrores vividos e imaginados, que podiam estar acontecendo naquele exato momento, quilômetros e quilômetros de distância de onde estavam, repousando tão placidamente.

— Ei! Eu preciso fazer o jantar, James! — ele escutou a gargalhada de Lily ecoar, mas sabia que ela estava dormindo, naquele momento.

Abriu os olhos, e viu que estava sentado no sofá da sala de estar. Lily estava sentada ao seu colo, pois ele estava rodeando-a com os seus braços. Um sorriso estava repuxado em seu rosto, mas ele sabia que não estava expressando nenhuma reação.

Aliviou a força com que a segurava contra o seu corpo, e Lily aproveitou isso para soltar-se, um sorriso ainda amplo em seu rosto. Permaneceu como estava, observando como ela caminhava até a cozinha, incapaz de mover-se, sem entender o que acontecia muito bem.

As suas mãos levantaram-se de seus lados e apoiaram a sua nuca no sofá, o seu corpo estava relaxado. Então, ele viu um patrono de rato surgir pela janela. Levantou-se imediatamente, pois sabia que aquilo não significava algum problema da Ordem, e pegou a sua varinha, que estava em cima da mesa.

— James, você pode vir aqui? Estou um pouco enrolado... — a voz de Peter saiu baixa e quase que ele não pôde escutar.

Assim que a forma de luz desfez-se, a luminosidade da sala pareceu bem mais ineficiente. Olhou rapidamente pela porta da cozinha, mas Lily não estava consciente do que tinha acontecido ali.

Ficou indeciso sobre o que fazer, mas sabia que Lily estava bem estressada nos últimos tempos com tudo da Ordem. Resolveu sair da casa sem avisá-la, ele não demoraria tanto assim. Ou sim?

James fechou os olhos e, quando abriu-os novamente, ainda estava deitado na cama, com Lily adormecida ao seu lado. Afastou o edredom de cima de si, o cenho franzido pela confusão, enquanto tentava sentar-se sem alarmar a Lily, que parecia acordar com cada vez mais facilidade.

Tinha certeza de que seu braço tremia, ao tentar sustentar o seu corpo, e não entendia o que causava o seu mal súbito.

Ele tinha voltado rápido, não?

Nada tinha acontecido, certo?

— Peter!

James arrombou a porta da casa do amigo, nervoso pela falta de resposta.

— Estupefaça!

Ele foi rapidamente atingido pelo feitiço, sendo lançado para trás.

Ao bater a cabeça no chão, ficou inconsciente, e sua varinha escorregou de suas mãos, mas ele conseguiu identificar rapidamente Avery e Travis. Não muito atrás deles, Peter Pettigrew observava a cena desenrolar-se à sua frente. Tinha a varinha em mãos, mas em vez de estar apontada para os Death Eaters, estava apontada para ele.

— James?

Seus olhos estavam fechados com força, e ele apertava uma parte do lençol com sua mão cerrada em punho. Algo que acordou a Lily, que apressou-se em tocar o seu ombro, preocupada.

— James! Ei! Está tudo bem! — ela meio que abraçou-o por trás.

Ele abriu os olhos, sentindo que estava com as costas tão tensas quanto jamais tinha estado.

— O que houve? O que aconteceu? Você lembrou de alguma coisa? — Lily voltou a perguntar, quando não teve resposta.

James afastou os braços de Lily de si, levantando-se da cama, ainda desorientado. Assim que ergueu a mão para balançar o cabelo, como costumava fazer quando estava nervoso, paralisou. Tinha uma marca negra em seu braço.

Ele recuou, assustado, mesmo sabendo que não poderia recuar de si mesmo. Quase esbarrou em Lily, que tinha levantado-se e tentou caminhar para onde el estava.

Os Death Eaters tinham capturado-o.

Aquela era mesmo Lily?

Olhando em seus olhos, ele quase que culpou-se por pensar nisso.

— James? — Lily perguntou outra vez, mas, dessa vez, tinha algo de diferente em sua voz.

— O que está acontecendo? — James sentiu o desespero da incompreensão sufocá-lo — Lily, o que está acontecendo?

Lily parecia ter perdido a sua voz pela impressão, e ele dirigiu-se ao banheiro.

Pegou a esponja de aço — que Lily usava para sabe-se lá o quê, mas ele agradecia por existir — e começou a esfregar com força no braço onde estava a marca, tentando apagá-la ou comprovar de que era real.

A única coisa que causou foi que o lugar ficasse vermelho, mas nem sinal da marca se desfazer. O que deveria sair? Tinta? Era magia das trevas, duvidava que fosse algo tão ingênuo. Talvez fosse como um polvo, grudando-se ao seu braço, e ele deveria arrumar uma maneira de arrancá-lo, não que tivesse que levar a sua pele junto. Sentia-se incapaz de encarar aquela tatuagem por mais tempo.

Nem sangue aquela esponja fazia. James sabia que estava sendo irracional, que estava agindo como um sadomasoquista, mas não podia evitar. Sentia repulsa por aquela marca, sentia repulsa de si mesmo por tê-la, mesmo sem entender como isso aconteceu.

Era isso? Foi sequestrado e resolveram castigá-lo assim?

Lily assustou-se quando ele saiu do banheiro com o braço avermelhado.

— James! — ela disse, parecendo ter encontrado um chão para apoiar-se, seguindo-o para fora do quarto.

Ele foi até a cozinha, e Lily apressou-se em sua direção, parecendo entender o que queria fazer.

— James! Pare! — ela gritou, tirando uma faca grande de suas mãos.

Debateu-se, tentando soltar-se sem machucá-la, mas não conseguiu, então manteve-se quieto. Seria incapaz de fazer mal a ela.

— Sente-se! — gritou Lily, irritada — Agora!

Depois de hesitar, James puxou uma cadeira, obedecendo-a.

— Qual é a última coisa que você se lembra? — Lily perguntou.

— Pettigrew.

A forma sombria como disse o nome, fez com que uma onda de compreensão surgisse no rosto de sua esposa.

— Ele nos traiu, James — ela disse, tentando ser suave — Traiu a Ordem da Fênix.

— A emboscada... — disse James, confuso — O que aconteceu? Isso foi ontem!

— Não, não foi. Isso aconteceu há dois meses.

Isso esclarecia as coisas.

James engoliu em seco, olhando ao redor, como se esperasse que sua casa tivesse mudado em algo que fosse relevante o suficiente.

— Lily, por favor, me conte o que aconteceu — ele pediu, pousando a sua mão sobre a dela, evitando olhar para a cobra impressa no braço — Foi algum acidente? Eu tive amnésia?

— Foi um plano cruel de Voldemort — disse Lily, abalada — Ele apagou as suas memórias com um feitiço criado por ele próprio, te fez acreditar que era seguidor dele.

James dirigiu o seu olhar novamente para a marca negra, incômodo. A outra mão de Lily, que não era escondida pela dele, foi até o seu queixo, obrigando-o a desviar o olhar dali.

— Ninguém te culpa, James — ela disse, firme — Aquilo foi quase um Imperius! Você sabia quem nós éramos, mas... Não sabia, ao mesmo tempo. Sabia os nossos nomes, mas não a nossa história.

— O que eu fiz, Lily? — James foi direto ao ponto.

— Coisas de Death Eater — Lily deu de ombros, o que desesperou-o — Não! Você não matou! Não matou uma pessoa que fosse nesses meses.

— Você tem certeza? — ele perguntou, já que estava do outro lado, onde ela não poderia controlar as suas ações.

— Absoluta.

A sua certeza conseguiu acalmá-lo, mesmo que um pouco. A marca ainda incomodava-o, além de outra coisa.

— Eu sei que eu fiquei sem memória, Lil, mas eu não deveria lembrar-me do que aconteceu? — disse James, lentamente — Pelo que eu saiba, quando uma pessoa recupera as suas memórias, depois de uma amnésia, ela se lembra do que acontece naquele meio tempo.

— Como você saberia disso? Conheceu alguém que já perdeu a memória? — agora Lily não parecia mais tão relaxada, e ele sabia que tinha tocado exatamente no ponto sensível da conversa.

Para tentar dá-la um pouco mais de confiança, ele apenas acariciou a sua mão.

— Não, mas nós já vimos um filme sobre isso, lembra? — ele perguntou.

Lily parecia incomodada por não conseguir adiar aquela parte da conversa para depois.

— Aconteceu uma coisa — ela disse, e ele sabia que o que ela estava escondendo era algo sério — E nós conseguimos te trazer. Então tentamos entender o que estava acontecendo, e te trazer as memórias de volta.

Ele conteve a vontade de repetir o que tinha dito antes, que não lembrava-se disso, mas apenas esperou que a sua esposa continuasse contando.

— Você não poderia lembrar-se, nem se quisesse, eu acho — continuou Lily — Você teve um surto causado pelo feitiço. Te levamos ao St. Mungos e descobrimos que você tinha adquirido dupla personalidade. Agora você voltou, mas antes você era quase que outra pessoa.

— Por culpa de Voldemort — disse James, sem conseguir evitar que sua mão se fechasse em punho.

— O que importa é que você voltou — Lily sorriu, acariciando o seu punho, tentando separar os seus dedos, que não resistiram por muito tempo.

— Você torna tudo mais fácil.

Novamente, ela deu um sorriso hesitante, e ele sabia que não todas as informações tinham sido dadas.

— Bem, dois meses se passaram — sua esposa deu de ombros, incômoda — Como se sente com tudo isso?

— Acho que eu quem deveria me preocupar — retrucou James — Você parecia outra pessoa lá em cima.

Lily deu de ombros outra vez, como se não desse importância a isso.

— Você está me escondendo mais alguma coisa? — insistiu James, preocupando-se com isso.

— Amor, você acabou de voltar. Te encher de informações não vai ajudar em nada!

Novamente aquela palavra. Voltar.

— Eu sei que eu estava diferente, Lil, mas eu nunca fui embora — disse James, afastando a sua mão da dela, incomodado com o uso da palavra — Aliás, eu queria entender melhor essa história. Como que Voldemort conseguiu reconstruir a minha vida a partir de memórias já existentes?

— Ele modificou apenas uma parte — Lily começou a explicar — É complexo, mas você nunca se uniria a ele se ainda fosse amigo de Sirius e Remus. Teria que ter alguma rixa o suficientemente forte com...

— Com você — James completou.

— Eu ia dizer um nascido trouxa, mas... É — ela murmurou.

A luz da cozinha aumentou, como se o sol estivesse em sua maior elevação somente naquele momento, e então James viu o que a luz anterior não permitiu. Marcas roxas, quase que invisíveis pela cicatrização, bem no pescoço dela.

— Lily, o que é isso no seu pescoço? — perguntou James, fingindo uma tranquilidade que ele não sentia.

Talvez essa fosse a diferença entre a sua outra personalidade e ele: ele não sabia fingir.

— Eu me machuquei, não é nada — Lily respondeu, puxando a gola do robe para cobrir a região, sem muito sucesso.

— É, deve ser o que toda mulher que apanha do marido responde — retrucou James, sentindo um nojo de si mesmo crescer.

— Chega! — ela gritou, alterada — James, pare de se culpar! Está vendo? É por isso que eu não te contei! Eu sabia que você reagiria assim!

— E queria que eu reagisse como? — o moreno gritou de volta — Eu tentei te asfixiar, Lily! E, que eu saiba, asfixiação não tem outro objetivo além de tentativa de assassinato.

— Eu quem deveria te culpar, não acha? E não estou fazendo isso, estou?

James passou as mãos pelo rosto, nervoso.

— Como é que eu tiro essa porcaria de mim? — ele perguntou, a marca só seria mais visível se fosse fosforescente.

— O único modo de tirar algo de magia negra é com magia negra — disse Lily — Pouquíssimos feitiços ou poções de magia negra tem uma reversão legalizada.

Essa resposta não o agradou em absoluto. Não sabia o que preferia: usar magia negra para tirar aquela marca, ou permanecer com aquilo pelo resto da sua vida.

— Isso é uma ligação com Voldemort, James — ela continuou, o que só o desagradou mais — Quando o derrotarmos, só restará uma cicatriz. Talvez nem isso!

— Eu deveria ter me infiltrado — James franziu o cenho.

— Duvido que seria uma boa ideia — discordou Lily — Voldemort poderia querer tomar precauções...

— Lily, vocês já sabem quem foi responsável por isso? — ele coçou a nuca, sem saber como dizer o que sabia.

— Já — ela respondeu, simplesmente.

— É, eu também...

Lily assentiu, como se já esperasse por isso.

O silêncio foi interrompido por um barulho vindo da sala, o som das chamas na lareira. James imediatamente tirou a varinha do bolso, indo para até a sala.

— Ei! Que isso! — exclamou Sirius, assustado, quando ele empurrou-o até a parede.

— Quem nos ajudou a nos transformar em animagos? — perguntou James, sério — Responda!

— McGonagall!

Quando ele soltou-o, viu Lily arregalando os olhos pela informação.

— McGonagall ajudou vocês? — ela perguntou, chocada.

— E o meu pai — James deu de ombros.

Sirius parecia ofendido, enquanto desamassava a camiseta com as mãos.

— Ei! Como você sabia disso? Se lembrou? — ele perguntou, ainda arrumando-se.

— Digamos assim — disse James, vagamente.

— Aconteceu alguma coisa? — Lily perguntou a Sirius.

— Não posso vir visitar o meu casalzinho preferido? — ele perguntou, ainda com ar ofendido, mas mais dissimulado.

— Isso ficou gay demais para você — ela retrucou, mais aliviada, já que ele permitiu-se brincar, em vez de brindá-los com notícias ruins — Eu vou fazer o café para vocês.

Lily voltou para a cozinha antes que pudessem dizer mais alguma coisa.

— Ela está andando um pouco estranho — notou James.

— Bem, acho que a barriga pesa depois de um tempo, não — comentou Sirius, parecendo olhar deprimido para as paredes da casa.

— Barriga? — ele franziu o cenho, sem entender.

Sirius, então, voltou o rosto para ele tão bruscamente que James podia jurar que tinha escutado um estalo soar.

— Espere aí! Quando você disse que tinha lembrado... — ele disse, surpreso.

— Mais ou menos — James interrompeu-o — Eu não lembro o que aconteceu desde que resolveram reiniciar o meu cérebro.

Sirius parecia estar sem palavras, o que já queria dizer muito, considerando quem ele era. Contudo, embora o assunto tivesse terminado, James não esquecia o que ele tinha dito.

— Lily, você tem mais alguma coisa para me contar? — ele foi atrás dela, deixando a Sirius na sala ainda estupefato — Algo urgente?

— O quê? — ela perguntou, distraída, tentando alcançar uma frigideira, ignorando completamente o uso da sua varinha.

James apenas estendeu a sua, tirando-a de lá por arte da magia.

— Eu podia ter feito isso — reclamou Lily, pegando-a no ar, mas parecia mais frustrada consigo mesma do que com ele.

— Lily, por favor! — dessa vez, ele quem resmungou.

— Eu preciso fazer o café da manhã, James!

Então, ele resolveu mudar a tática, vendo como ela equilibrava as panelas habilidosamente.

— Quantos meses? — perguntou.

— Três.

Assim que percebeu o que tinha respondido, Lily parou o que fazia, olhando assustada na direção de seu marido.

— Uma notícia boa no meio de tantas ruins — suspirou James, saindo da cozinha.

Era um sentimento estranho. Não ruim, era bom, mas ele ainda estava confuso demais para conseguir encaixar tudo que tinha descoberto. Lily tinha razão quando disse que descobrir tudo não ajudaria se fosse em pouco tempo, mas ele não podia evitar, precisava saber, odiava não saber.

— Ei, cara! Tudo bom? — perguntou Sirius, parecendo tão perdido quanto ele.

— Eu engravidei a minha mulher do dia pra noite — James não pôde evitar brincar.

— Sempre apressadinho! — ele colaborou, sorrindo divertido.

Mesmo que não precisasse dizer com palavras, James sabia que ele tinha sentido a sua falta. Duvidava que qualquer personalidade dele, boa ou má, pudesse completar os momentos que passou com Sirius e Remus.

Quanto à marca negra, nada podia ser feito, pelo que tinha entendido, mas não desistiria de afastar a outra personalidade de si. Não queria que Lily voltasse a sofrer.

Lily entrou na sala, e Sirius percebeu que queriam conversar, então foi exatamente para o caminho do qual ela tinha acabado de sair.

— James, eu... — ela disse.

Ele não deixou-a terminar de falar, colou os seus lábios suavemente. Não deixou o beijo aprofundar-se, ficando apenas em um selinho. Afastou minimamente os seus rostos, ainda segurando os cantos de seu rosto, olhando-a com todo o carinho que sentia por ela. Acreditava que aquilo podia valer mais do que qualquer palavra.

— Eu sei que há mais coisa — disse James — Conte-me quando estiver pronta para isso.

— Não se trata de mim! — protestou Lily.

Ele abaixou as suas mãos, apenas negando levemente com a cabeça.

— Trata-se sim — respondeu — Eu estou pronto. Já passamos por muita coisa juntos.

Dentro de si, algo gritava para que ela lhe contasse, ele precisava saber desesperadamente, mas resolveu acalmar-se. Apenas estando calmo daria confiança para Lily, que não demorou em relaxar os ombros.

— Tem razão — ela disse — Eu só...

Interrompeu-se, jogando o cabelo para trás, nervosa.

— É difícil ter que relembrar de tudo, sabe? — disse Lily — Eu não falei desse assunto, sinceramente. É como passar por tudo outra vez.

— Você pode usar uma penseira — comentou Sirius, sem fingir não ter escutado a conversa deles, segurando uma taça com algumas uvas.

Lily apontou o dedo em sua direção.

— Não toque nas minhas uvas, Sirius Black — ameaçou — Você não quer ver uma grávida furiosa.

— Você já é perigosa normalmente, imagine grávida — Sirius fingiu um escalafrio.

Por um momento, James olhou aquele momento com saudosismo, há muito tinha desistido de perguntar-se onde residia o bom senso de seu melhor amigo.

— Que bom que você sabe — disse Lily, sorrindo com uma inocência falsa, enquanto pegava a taça de suas mãos — Com licença.

James cruzou os braços, olhando um pouco incomodado para Sirius.

— Vocês não podem me esconder as coisas para sempre — ele disse, um pouco irritado.

— Quem dera pudéssemos — Sirius respondeu, sinceramente.

— Você não está me ajudando!

Lily não voltou, e James supôs que ela precisava de um tempo para ela mesma. Mesmo que isso não o agradasse, ele respeitou o seu espaço, perguntando-se se ela tinha se acostumado a ficar sozinha, naquele tempo em que ele não estava muito são.

Resolveu caminhar pela casa, procurando ocupar a sua mente com outras coisas, e acostumar-se com qualquer mudança que pudesse ter acontecido.

Sentiu algo peludo roçando em sua perna e ficou tenso imediatamente, mas, antes que pudesse ter qualquer outra reação, escutou um miado, e lembrou-se que era Antrax. Conteve a sua vontade de dar um chute no gato, que parecia feliz por ele estar ali, o que era bem estranho.

Por um momento, Antrax lembrou a ele mesmo, quando corria atrás de Lily, em Hogwarts, e parou de odiar tanto o gato.

Nem todos os gatos eram como Madame Norra, certo?

Andou mais adiante, vendo como a bola de pelos — ele não podia evitar chamá-lo assim, era o costume — permanecia parada no meio do corredor. Tropeçou com uma caixa de papelão e quase caiu ao chão. Tentou conter um palavrão, observando estranhado para aquela caixa, cheia de roupas femininas.

Lily estaria fazendo uma doação? Iam mudar-se?

Contudo, uma blusa foi bem reconhecida por James. Ele mesmo havia comprado e dado de presente. Não para Lily, mas para Marlene. Levantou o olhar, vendo que, logo atrás do amontoado de roupas, uma porta estava encostada, apenas um cachecol vermelho e dourado enrolado à maçaneta que a impedia de fechar-se por completo.

Reconheceu aquele quarto como o que eles tinham decidido ser o das visitas. Se a caixa estava cheia de roupas de Marlene, certeza de que ela estava passando uns tempos ali. Talvez estivesse desde que ele tinha sido levado e manipulado por Voldemort.

Nunca sentiu-se tão agradecido pela presença de Marlene em suas vidas. Ela não só era a irmã que ele nunca teve como tinha se tornado uma amiga maravilhosa para Lily.

Chutou a caixa e afastou um pouco o cachecol, podendo ter uma visão melhor do quarto. Não estranhou que a cama estivesse desarrumada, era típico dela, mas uma fina camada de poeira tinha acumulado-se ao chão, o que era bem estranho de acontecer.

Não deu importância a esse detalhe, concluiu que Marlene estava pegando as suas coisas, talvez para partir, agora que ele já tinha retornado.

Pensando bem, não lembrava-se de tê-la visto desde o seu sequestro.

Estaria em alguma missão?

Olhou novamente para a caixa de papelão e tirando algumas roupas lá de dentro, encontrou uma varinha. Segurando-a, o seu estômago afundou, em um choque de realidade.

Marlene nunca jogaria a sua varinha dentro de uma caixa, ainda mais em tão boas condições como estava.

“Deve haver uma explicação” pensou consigo mesmo.

Desde que acordou, estava em uma bolha que recém notava existir. Ele parecia ter perdido todas as suas percepções obtidas no treinamento de auror. Qualquer mínimo sinal, poderia tê-lo alertado daquilo, mas ele negava-se a ver. Mais do que o seu cérebro, o seu coração o impedia de acreditar nos seus piores temores.

— James! — escutou Lily gritar o seu nome.

Antrax ainda o observava de longe, e miou quando passou direto, sem mover mais do que a cabeça. James segurava a varinha de Marlene em mãos, sem saber direito o que fazer, enquanto ia em direção à sala de estar.

— Você sumiu! — comentou Lily, um pouco nervosa por isso, secando as mãos em um pano de prato — Está tudo bem?

Sirius, no entanto, engoliu em seco, olhando diretamente para a mão abaixada de James. Ele tinha reconhecido a quem pertencia aquela varinha com apenas um olhar. Quantas vezes já não teria visto-a sendo apontada diretamente para ele?

— Eu encontrei isso — disse James, desnecessariamente.

Lily não teve uma reação muito diferente da de Sirius, ficando um pouco mais pálida do que de costume.

— Eu... — de repente, ele não tinha vontade de continuar.

Olhou para baixo, somente para evitar os seus olhares, fixando-os em sua mão fechada sobre a varinha. Engoliu em seco também, sentindo como a saliva se acumulava em demasia.

Sem saber o que dizer a seguir, apenas percebeu quando Lily abraçou-o com um pouco de dificuldade pelo volume da barriga. Jogou a varinha com cuidado, em direção ao sofá, e retribuiu o abraço com a mesma intensidade que ela, procurando um pouco de conforto para aquela dor que apenas crescia dentro de si.

Em poucos segundos, depois do choque, suas costas começaram a convulsionar-se, um soluço preso em sua garganta. Aquela devia ser a segunda vez que chorou em frente à Lily, a primeira tinha sido no enterro de seus pais. Quanto a Sirius, ele já devia tê-lo visto em algumas de suas crises de depressão pelos foras de Lily.

Demorou algum tempo para que pudesse acalmar-se o suficiente para perguntar:

— Como aconteceu?

Ela ficou incomodada por sua pergunta, e afastou-se ligeiramente de seu aperto.

— James, por favor! Você não está em condições.

Ele não mudou de ideia, e conseguiu transmitir isso somente com o olhar. Lily olhou para Sirius, suplicante, mas ele não estava em melhores condições para convencê-lo a desistir nem para contá-lo. Conhecia o melhor amigo muito bem.

— Sente-se — disse a ruiva, afastando as lágrimas do seu olho esquerdo.

Não sentiu-se capaz de desobedecer, jogando-se ao lado da varinha de Marlene, tirando-a do caminho para que ninguém sentasse em cima e a quebrasse.

— Eu fico com isso — disse Sirius, a voz rouca, pegando a varinha de sua mão e afastando-se, seguindo pelo mesmo caminho de onde James veio.

— Por isso eu não queria vir para cá — sussurrou Lily, olhando para os seus joelhos, sentada na poltrona à frente dele — Estava pensando em chamar Dorcas para levar as caixas, mas... As coisas têm sido tão difíceis.

— Eu tenho dificultado tudo — ele concluiu.

Ela começou a negar com a cabeça.

— Não, é claro que não! — protestou.

— Então, me diga! — exclamou James — Como eu reagi à sua gravidez? Você não precisa me contar, Lily! Eu vejo como vocês reagem, ao se referir à minha outra personalidade! Eu não era uma boa pessoa! Eu devo ter feito valer a minha marca negra...

Aquilo foi demais para Lily. Rápida demais para uma grávida, ela levantou-se de seu lugar, e estalou a mão em seu rosto, virando-o com força.

— Não diga mais isso! — ela gritou — Nunca mais! Escutou-me? Quantas vezes preciso dizer isto? O que preciso fazer para você entender...?

Sirius entrou correndo na sala, alertado pelos gritos de Lily.

— O que houve? — ele perguntou.

— Se quer saber, você... Eu não sei como você reagiu! — Lily continuou a dizer, como se não houvesse tido interrupção — Eu tinha sido sequestrada.

— Você o quê? — gritou James, dessa vez, levantando-se do sofá.

— Os ânimos estão um pouquinho agitados por aqui — murmurou Sirius, afastando-os com um Impedimenta, mais por medo de Lily pular no pescoço do marido do que o contrário.

Só a sua outra personalidade foi capaz disso, e eles precisavam esquecer-se desse detalhe.

— Foi depois da morte de Marlene — disse Lily, e isso os levou de volta ao assunto inicial — Ela ia visitar os seus pais. Bellatrix Lestrange e Lucius Malfoy estavam lá, “brincando” com os pais dela. Quando ela chegou, distraíram-se, a senhora McKinnon enviou um patrono à Ordem. Quando eles chegaram, só Marlene estava viva, mas...

— A minha prima querida soltou-se, e terminou o serviço — completou Sirius, vendo como a mão da melhor amiga tremia — Não pudemos fazer nada. Sequestraram a Lily, tentando conseguir-te de volta, mas, quando Alice disse que você estava grávida, o outro James nos ajudou.

— A questão é que aquela personalidade não é você — Lily interrompeu-o — Ela só habita o mesmo corpo.

— E o marca também — indicou James, olhando carrancudo para o braço.

— Você deve ter sido marcado inconscientemente — palpitou sua esposa — Afinal, te fizeram acreditar que já tinha unido-se a eles desde o final do colégio.

Abriu a boca, lembrando-se repentinamente de Dumbledore, mas ela continuou falando, sem dá-lo chance de intervir.

— Ainda tinha algo de você lá. Eu sei que tinha, eu senti isso.

James deu uma risada seca, sem acreditar muito. Ela deveria estar desesperada para encontrar algo dele em um assassino à sangue frio, que tinha machucado-a deliberadamente. A esperança tornava as pessoas cegas.

— Vamos fazer o seguinte — disse Sirius.

Observaram como ele pegava o pano de prato esquecido e o enrolava em torno do antebraço do melhor amigo, impedindo a visão da tatuagem.

— Pronto, bem melhor — concluiu, sem dizer o que fariam.

— Não deveriam avisar a Dumbledore? — perguntou James, sentindo-se cansado, embora ainda fosse cedo demais para descansar.

— Eu irei procurar por Dorcas na sede — disse Sirius, repentinamente.

Não precisou dizer o motivo para isso.

— É claro — Lily apoiou-o — Eu precisarei da ajuda dela. Ah! E pergunte por Dumbledore também.

— Por que ajuda dela? — ele perguntou, assim que Sirius afastou-se.

Ela apenas sorriu, segurando a sua mão.

— Sei que você quer dar um jeito nessa situação toda.

James, novamente, sentiu nojo de si mesmo, e a insegurança tomá-lo por completo.

— Lily, por que você não me deixou? — ele perguntou — Eu te machuquei. Capaz de eu ficar com essa personalidade para o resto de minha vida.

— Eu não acredito nisso — ela respondeu, sinceramente — Por isso que tenho planos do que podemos fazer. Só precisamos fundir as suas personalidades.

— Eu... Irei lembrar-me do que aconteceu nesse meio tempo?

Assim que perguntou, já sabia que era possível de acontecer.

Em vez de responder, Lily soltou a sua mão, colocando cada mão a um lado de seu rosto, fazendo-o olhá-la.

— Por que não te deixei? — ela repetiu — Porque você é meu marido, pai de meu filho, eu te amo. Ponha isso em sua cabeça! De tudo, ao meu amor serei atento antes. E com tal zelo, e sempre, e tanto. Que mesmo em face do maior encanto. Dele se encante mais meu pensamento². Lembra?

James sorriu, reconhecendo aquelas palavras de imediato.

— É claro que eu me lembro — respondeu.

— Pois então! Vamos passar por essa juntos. Vai ficar tudo bem.

Sentiu o antebraço coçar, talvez pelo contato com a renda do pano de prato, mas ignorou esse fato. Não podia deixar aquilo atrapalhar aquele momento.



Notas finais do capítulo

¹ A magia das fanfics: dormiram na sala e acordaram no quarto.
² Trecho do “Soneto de Fidelidade” de Vinicius de Moraes. Eu super imagino Lily dizendo-o como voto de casamento ♥



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