Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 18
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Notas iniciais do capítulo

Capítulo dedicado a Botiné, que fez o favor de tentar me matar do coração com essa recomendação.




Assim que Lily subiu as escadas, saindo do quartinho de poções, e foi até Remus, carregando uma maleta de poções — como uma de primeiros socorros trouxa —, Dorcas interceptou-a no meio do caminho.

— Deixe que eu cuido disso, é melhor você ir até a cozinha, atrás de James — disse Dorcas, pegando a maleta de sua mão — Ou é capaz de uma segunda guerra acontecer. E olhe que essa daqui ainda nem acabou.

Lily tinha certeza de que estava empalidecida, enquanto caminhava até o lugar indicado, sem ter a mínima ideia do que a esperava.

Assim que entrou pela porta aberta, precisou diminuir a velocidade de seus passos, para não esbarrar em uma figura sombria de pé, Snape. Olhando para o lado, viu a James olhando fixamente para ele, enquanto que Dumbledore comia o seu empadão com uma calmaria que ninguém nunca ousou sentir, quando os dois encaravam-se por mais de dois segundos.

— James, vamos indo! — disse Lily, tentando refletir a tranquilidade de Dumbledore, embora tivesse a boca retorcida em desgosto pela presença do outro bruxo.

— Vá! Eu entendo como é difícil dormir à noite quando se carrega uma marca negra no braço — disse Snape, parecendo esperar por qualquer abertura para começar a atacá-lo, o que já era de se esperar.

— Vejo que o seu rosto já cicatrizou — ela disse, friamente, sentindo a sua mão formigar pela vontade de repetir o tapa dado anteriormente.

Lily voltou o olhar para James, que tinha levantado-se não tão casualmente quanto ela gostaria.

— Bem, eu passei por uma lavagem cerebral — disse James — Mas você não precisou disso para escolher o lado errado. Na verdade, é muito mais conveniente para você estar dos dois lados. Se Voldemort perder, terá o respaldo de Dumbledore nos julgamentos. Senão...

— Severus, por favor! — disse Dumbledore, vendo que a mão de Snape partia em direção ao seu bolso, em procura da varinha — Estão lutando do mesmo lado, e já não são mais crianças. Se puderem agir como pessoas civilizadas...

— Civilidade é uma palavra desconhecida no vocabulário dele — interrompeu-o Lily, indo para o lado de James, uma de suas mãos agarrando o seu antebraço — Creio que o melhor que pode fazer é nos manter o mais afastados possível, para o bem de todos.

Com a última frase, ela deixou uma mensagem bem simples, que esperava ser compreendida: Snape não ajudaria com a recuperação de James.

— Infelizmente, não estamos aqui para uma visita casual — disse Dumbledore, levantando-se também — Há pouco, enviei um patrono para o restante dos integrantes da Ordem, teremos uma reunião urgente.

— Ele vai estar presente? — James perguntou, enquanto que Lily só podia pensar que algo tinha acontecido.

— Não, estou conhecendo a casa — disse Snape, debochadamente.

— Severus — Dumbledore disse, mais uma vez — Lily, eu poderia falar contigo por um minuto?

— É claro — ela disse, rapidamente.

Dumbledore assentiu para Snape, que saiu rapidamente da cozinha. James ainda permaneceu, olhando de um para o outro, antes de seguir o mesmo caminho.

— O que aconteceu? — Lily perguntou, nervosa.

— Houve um ataque à casa de Frank e Alice Longbottom — disse Dumbledore, sem preocupar-se em verificar se não eram escutados — Eu deveria imaginar que Voldemort não se manteria parado por muito tempo, após os últimos acontecimentos.

— O meu sequestro, a suposta traição de Pettigrew para o lado dele, e descobrir que James esteve no St. Mungos? — perguntou Lily — É, acho que sei o que você quer dizer.

— Não foi um ataque aleatório, Lily — ele disse — Frank e Alice estão tão ligados quanto você e James à profecia. Não era de meu desejo, mas, agora que o traidor está fora da Ordem, acredito que todos devem ter conhecimento da profecia, mesmo que seja apenas uma parte dela.

— James deveria saber antes.

Dumbledore concordou com a cabeça, sabendo que era o tipo de situação pela qual não teriam por onde escapar. Ao escutar o som de passos conjuntos no corredor, ele dirigiu-se à porta.

— Chamarei a James — ele disse.

James não demorou a ressurgir, sozinho, parecendo curioso e um pouco na defensiva, provavelmente pela reação de vários integrantes da Ordem por estar caminhando livremente pela casa.

— O que houve? — ele perguntou.

— Teremos que esperar mais um pouquinho antes de voltar para casa — Lily puxou o assunto, sentando-se em uma das cadeiras, já sentindo as costas doerem pela má posição pela qual adormeceu — Frank e Alice foram atacados.

— Ele não ficaria parado por muito tempo — disse James, sem conseguir dar muita importância a esse fato, por mais que quisesse.

— Dumbledore acredita que tem um motivo para Voldemort ter decidido usar a você antes de todos os outros para o experimento maluco dele — ela disse, depois de inspirar demoradamente — Tem uma profecia que prevê a derrota dele. E essa profecia nos envolve.

— Como poderia nos envolver? — o seu marido franziu o cenho, sem entender — É algum de nós?

— É o nosso filho.

Antes mesmo de dizer aquela frase, ela sabia que a sua reação seria exatamente aquela, levantar-se da cadeira, sem saber o que dizer ou fazer. De certa forma, era bom saber que James não tinha mudado tanto, agora que tinha parte de memórias reais consigo.

— Ele nem nasceu ainda! — exclamou James, indignado — Como que Dumbledore pode dizer que...?

— Eu não sei, eu não sei! — Lily interrompeu-o — Esse ataque aos Longbottom só prova que pode ser tanto nós quanto eles. Não digo que ele desistiu de você, mas quer conseguir um outro objetivo, impedir que tanto Harry quanto Neville sejam...

— Harry? Neville? — ele perguntou.

Lily sentiu o rosto queimar, ao perceber que tinha falado demais.

— Ah! Neville é o nome que Alice decidiu para o filho deles — ela disse, os seus olhos postos em seu colo.

Sirius entrou na cozinha, aparentando estar assustado.

— Vocês ouviram? Os Longbottom... — ele começou a dizer.

— Nós já sabemos, Padfoot — disse James.

Lily levantou o olhar, ao escutá-lo dizer aquele apelido, que parecia ser quase que proibido, em sua lógica modificada. Sirius sorriu levemente para ela, quase como se estivesse adivinhando o que ela pensava.

— Como está Remus? — Lily perguntou, ao ver que não diriam mais nada.

— Bem, as cicatrizes estão cicatrizando — ele deu de ombros, sem importar-se em como aquela frase soava óbvia — E a Dorcas parece ter se divertido em tê-lo feito sentir dor. Depois vocês me dizem que aquela garota não é estranha...

— Por isso que prefiro cuidar de vocês eu mesma — ela disse, descontente.

— Ele vai superar — disse Sirius.

— É melhor irmos — disse James, interrompendo a conversa.

Lily queria conversar um pouco mais com ele, mas sabia que teriam tempo quando chegassem em casa.

James seguiu aos dois, já que não lembrava-se muito bem do caminho para a sala de jantar. Ao ver que Mundungus Fletcher, que ele não sabia quem era, adiantava-se para a cadeira restante, James colocou-se em seu caminho, puxando-a com as mãos.

— Lily — ele chamou-a, no volume perfeito para que ela e as pessoas ao redor escutassem.

Dorcas sorriu satisfeita, ao ver o olhar de insatisfação vindo de Mundungus.

Lily murmurou um “obrigada”, um pouco constrangida. Assim que ajeitou-se em seu lugar, Dumbledore deu início. Ela olhou para a frente, identificando Frank e Alice sem grandes dificuldades.

Alice aparentava estar abalada, mas apenas algumas cicatrizes abertas e sangrentas adornavam o seu rosto. Frank não estava em melhor estado e, apesar disso, Lily não podia deixar de aliviar-se por estar tudo bem com eles, na medida do possível.

— O que aconteceu? — foi Moody quem perguntou a eles.

— Alice acordou cedo porque teve algum pressentimento de que estávamos sendo observados — disse Frank.

— Bons instintos — elogiou Dorcas.

— Então, fomos para o andar de baixo — continuou Alice — E, quando eu fui à cozinha, pegar algo para beber, a janela explodiu. Frank foi bem rápido, ele me puxou para a lareira, e fomos até a casa de Augusta.

— Eles não entraram na casa? — perguntou Moody.

— Talvez tenham entrado depois, eu não sei — disse Alice — Nós escapamos rápido.

— Seria melhor que fizéssemos uma vigia, antes que vocês voltem — aconselhou Dorcas — E também dar uma camada extra de proteção, só para o caso de eles terem conseguido entrar.

— Só de terem conseguido lançar feitiços à distância já é preocupante — disse Remus — Os escudos deveriam protegê-los.

— Seria melhor que vocês fossem ao St. Mungos — comentou Dumbledore, assim que Remus terminou de falar — Principalmente Alice.

Frank concordou rapidamente, já que era de conhecimento geral que os meios bruxos de locomoção não faziam bem às mulheres grávidas, nem aos seus filhos.

— Contudo, eu gostaria que fossem acompanhados — completou Dumbledore — O hospital é protegido, mas só até certo ponto. Voldemort soube que James esteve lá, e pode estar mais atento.

— Inclusive, ferí-los poderia até ser uma estratégia para atraí-los até lá — disse Dorcas — O melhor seria que trouxéssemos algum medibruxo especializado até aqui.

— Dispensados — disse Dumbledore aos outros, levantando-se em seu lugar para ajeitar as suas vestes.

Permaneceram apenas ele, Moody, Dorcas, Alice e Frank para decidir o que fariam em relação ao ataque ocorrido.

Lily levantou-se com cuidado, começando a sentir o peso que a barriga fazia, embora ainda fosse pequena. James estava parado atrás de si, e distanciou-se quando ela afastou a cadeira para conseguir um pouco mais de espaço.

— Venha! — disse Lily, caminhando com James até o corredor.

— Espere! Vamos pela lareira? — perguntou James, preocupado.

— Para aparatarmos, teríamos que ir para o lado de fora, e isso nos tornaria alvos fáceis — ela respondeu, tranquilamente — Podemos pedir a Dumbledore para nos fazer uma chave de portal, mas ela daria um alerta ao Ministério da Magia, e não sei se podemos confiar inteiramente em quem age lá dentro.

— Certo — disse James, desconforme.

Os dois eram os únicos a se dirigirem à lareira. O resto preferia arriscar uma aparatação do lado de fora, ou resolveram ficar por ali por mais um tempo, discutindo estratégias ou assuntos particulares.

— Potters Hallow — Lily murmurou ao ouvido de James, e não tentou criar muitas expectativas ao vê-lo arrepiar-se — Tente não errar.

— Quem inventou isso? — James perguntou, embora parecesse já saber a resposta.

— Você.

Ele assentiu, sem mover-se, e Lily entendeu que deveria ir primeiro, embora temesse que ele errasse.

— Ei!

Lily virou-se, e James colocou cada mão em um lado de seu rosto para que ela o olhasse.

— Eu não vou me perder, eu prometo — ele disse, e Lily perguntou-se se ele tinha aprendido a ler a sua mente, não que fosse reclamar por isso.

— Certo — ela disse, tentando esquecer a preocupação.

James afastou-se, e Lily pisou na madeira apagada, jogando o Pó de Flú, que estava em um pote em cima da lareira, enquanto dizia o nome de sua casa, em alto e bom som.

Fechou os olhos, tendo a imagem de James como a última coisa a ver, enquanto viajava pelas lareiras bruxas. Por sorte, não demorou muito tempo para que os seus pés se firmassem à lareira de sua casa. Com as mãos estremecendo, e ainda de olhos fechados, Lily saiu daquele espaço, procurando estabilizar a respiração e manter a comida dentro do estômago.

Não sabia quanto tempo ficou ali, apoiada à uma das paredes, mas escutou o som de fogo na lareira, e os passos de James aproximando-se.

— Lily?

Ela não conseguiu controlar as lágrimas ao escutá-lo dizer o seu nome.

A quem queria enganar?

Amava a James, mas essa personalidade não era ele.

Distante demais, por mais que tentasse lembrar das coisas e aproximar-se dela. Eram apenas tentativas, que a iludiam de que, de um momento para o outro, o seu James voltaria.

E o fato de que era uma das primeiras vezes em que pisava ali, após a morte de Marlene, não ajudava. De qualquer forma, podia colocar a culpa nos hormônios da gravidez.

— Ei! Está tudo bem! — James abraçou-a.

— Não, não está! — Lily agarrou-se a ele, mesmo sabendo que isso não aliviaria as suas angústias.

O seu lado racional sempre era mais forte que o emocional, por isso negou-se tanto tempo a admitir o amor que sentia por James, em Hogwarts. Negou-se a acreditar em suas juras, por medo de machucar-se. De que tinha adiantado esse medo? Ela estava destruída agora, e só queria ter tido mais tempo, evitado o que aconteceu.

Com a ajuda dificultosa de James, Lily conseguiu chegar ao seu quarto. Ao quarto deles. Sentou-se calmamente à cama, sentindo a barriga e o peito doerem pela força dos soluços.

— Eu já volto! — disse James, saindo nervoso e um pouco assustado do quarto.

Assim que a crise de choro acabou, Lily só conseguiu sentir-se patética.

Não tinha mais controle de suas emoções, não tinha mais controle de sua vida.

Como que poderia cuidar de um filho assim?

E então, todas as inseguranças da maternidade, que ela nunca parou para pensar, surgiram, como se estivessem sempre ali, apenas não tendo a importância que ela estava dando agora.

Um filho no meio de uma guerra. Aquilo era loucura. Como não pararam para pensar na possibilidade de acontecer?

Sentiu-se mais depressiva ainda, ao lembrar-se da profecia que tinha descoberto há não tanto tempo. A culpa era sua, tinha levado o seu filho para aquele destino. Não acreditava em adivinhação, mas não era estúpida. Sabia que não era um alerta falso, ainda mais com Dumbledore dando tanta importância a isso.

Tinha visto a garota da foto no St. Mungos, estava com metade do rosto coberto por bandagens, mas ela tinha reconhecido-a. Ao lado de Dorcas Meadowes, o que era bem suspeito, mas já sabia que James não tinha matado-a, como acreditou anteriormente. Mesmo assim, a dupla personalidade de James era preocupante, embora ela se sentisse mal sempre que pensasse naquilo.

Era como se estivesse admitindo um fracasso, não sendo corajosa o suficiente para enfrentar as primeiras dificuldades que surgiam. Sabia que não eram simples obstáculos, mas sua mente se negava a enxergar isso.

Ela tinha que ser forte por si, por James e por Harry. Principalmente por Harry.

— Aqui.

Lily levou um pequeno susto, vendo como James estendia um copo de água em sua direção.

— Obrigada — ela disse, pegando o copo, a voz saindo um pouco rouca demais.

Era apenas pelo choro, mas James pareceu ter interpretado como outra coisa, pois olhou culpado para o seu pescoço. Lily bebeu um longo gole da água, colocando uma de suas mãos no braço de James, tentando confortá-lo de sua dor, enquanto afogava-se em sua própria.

— Como você se sente? — aquele James não era muito comunicativo, mas ela sabia que ele estava esforçando-se para ajudar.

— É só que... É difícil voltar para cá — disse Lily, olhando para o copo com metade da água.

— Entendo.

De repente, Lily sabia o que estava odiando nesse James.

As suas respostas monossilábicas e sem emoção a lembravam Severus, quando ainda eram amigos em Hogwarts. Sabia que, se dissesse isso em voz alta, James se desagradaria tanto quanto ela, mas resolveu não mencionar.

— Como sabe que é um garoto? — James perguntou, repentinamente.

— Eu não sei — ela deu de ombros — Pressentimento, suponho.

— É... Deve ser.

Conforme as horas se passavam e a noite ia caindo, Lily sentia-se cada vez mais estranha por toda aquela situação. Quando passava por algum lugar onde James estivesse, via-o puxar algum objeto para perto de si, olhando com o cenho franzido para ele, como se esperasse ter algum fragmento de memória, mas sem sucesso.

A uma certa hora, ele já devia ter decorado a casa mais do que Lily, que lembrava-se de cada dia que passaram por lá, desde que se mudaram.

Começava a questionar-se como teria sido a sua vida se tivesse decidido esconder-se, como fez Mary, mas sabia que aquela alternativa nunca esteve em suas opções. Não podia simplesmente fugir, covardemente, sem lutar, sabendo que milhares de pessoas como ela estavam sendo mortas por um maníaco.

Mas agora ela estava grávida. Dumbledore a obrigaria a esconder-se por isso?

Estava dividida. Queria ajudar, mas não podia arriscar Harry. Mais do que o garoto da profecia, ele era o seu filho, e ela não suportaria perdê-lo por uma irresponsabilidade sua. Seria capaz de qualquer coisa, ou quase.

Não tinha aceitado a proposta de Voldemort.

Seu filho não estaria seguro, de qualquer forma. Se unissem-se a Voldemort, ele poderia vencer aquela guerra, e seu filho seria alvo do outro lado. E ela não sabia o que era pior.

Olhou para a varinha emprestada de Dorcas com desgosto. Era como se uma parte de si tivesse ficado na Mansão Malfoy e, embora soubesse que era loucura, queria voltar apenas para buscá-la.

Naqueles tempos de guerra, o comércio quase não trabalhava, apenas domiciliarmente. Os ataques ficavam cada vez mais violentos, e Lily acreditava que as coisas só seriam piores se Dumbledore não estivesse por perto para acalmar as coisas, para comandar um lado que lutasse contra o mal proeminente da sociedade bruxa.

Os que seguiam a Voldemort, eram culpados por si só. Não eram obrigados a fazê-lo, como ele fez com James, eles acreditavam naqueles ideais.

De certa forma, saber que Voldemort precisou apagar a verdadeira Lily da memória de James para que ele pudesse segui-lo fazia com que um peso saísse de seu coração. Ele a amava e, mesmo que não o fizesse, tinha tido pais que o ensinassem. As confusões de James apenas provavam que nem isso fazia sentido para ele.

Um feitiço tão defeituoso para alguém como o grande Lord Voldemort.

Isso só facilitava as coisas para eles.

Lily nem lembrou-se de comer, até que o seu estômago começou a reclamar. Inclusive, não devia nem ser apenas o estômago.

Estava perguntando-se se um bebê podia ser prejudicado pela demora a comer, já descendo as escadas, depois de passar horas dentro de seu quarto sozinha, quando viu James deitado no sofá.

Já era tarde, e ele não dava sinais de que se levantaria dali até a manhã seguinte. Apesar do incômodo que isso causou a ela, sabia que era uma situação estranha pela qual passavam. Parecia ser a única certeza de que tinha, e pensar nisso só fazia com que, cada vez mais, sentisse como se suas mãos estivessem atadas.

Foi até a janela, correndo a cortina, que estava aos lados do vidro. Sem poder evitar, olhou para fora, temerosa, como se acreditasse que Voldemort pudesse surgir a qualquer momento, reclamando por seu plano ter sido atrapalhado por uma sangue ruim.

Dorcas continuaria tentando, mesmo depois de saber que era um caso bem mais complexo do que memórias trancadas? Ela deveria continuar tentando?

Lembrou-se de James gritando de dor, no porão. Ele sentiria aquela dor se tentasse unir as personalidades, isso era fato, e ela já não sabia se isso era algo bom a se tentar, mesmo que ele quisesse — e ela sabia que ele queria, mesmo que não falasse sobre isso.

— Lily?

Ela assustou-se, acordando de seus pensamentos.

— Sim? — respondeu, soltando o tecido da cortina.

— Talvez eu não me lembre — disse James.

Apesar de parecer uma frase fria, Lily sabia que ele estava transtornado por isso.

Ela não era a única que estava pensando demais, naquela tarde.

— Não diga isso! — pediu a grávida.

— Precisamos ser realistas — ele disse — Não podemos ficar pensando no que vai ser das nossas vidas.

— Então, por que pegou o lençol para ficar no sofá? — retrucou Lily.

— Estava com frio — James encolheu-se, mas ela não acreditou.

— Você está sugerindo o quê? Para esquecermos isso?

Aquela conversa estava dando cansaço em Lily, e ela só queria comer algo ligeiro, e subir de volta para o quarto, mesmo que sozinha.

— Seguirmos em frente — disse James.

— Se as coisas fossem tão simples assim, já teríamos feito isso — Lily deu de ombros.

Sabia que o que ele diria a seguir seria “recomeçar”, mas ela não queria apagar tudo o que passaram antes. Se tinha um pior momento para recomeçar, era agora.

— Não nos esforçamos o bastante — disse James, o contrário do que Lily esperava.

— O que você quer dizer com isso? — ela perguntou.

— Ainda deve ter várias outras formas de fazermos isso dar certo!

Naquele momento, ele estava soando exatamente como o James que ela conheceu.

— Eu estou pesquisando alguma poção que possa inverter essa situação, mas eu não vou poder ficar perto da fumaça das poções daqui a algum tempo — Lily explicou — Você usou legilimência enquanto nos beijávamos, talvez isso ajude.

— Você notou? — perguntou James, um pouco surpreso.

— Sim.

— Mas eu não consegui pegar muita coisa. Esperava que fosse mais...

Quando uma ideia veio à cabeça de Lily, ela não pôde evitar ficar constrangida demais para compartilhá-la.

— Eu vou pegar alguma coisa para comer — ela afastou-se o mais rápido possível — Quer alguma coisa?

James não respondeu, mas ela não importou-se.

Abrindo a geladeira, pegou um prato tampado com um pedaço de Summer Pudding, e repreendeu-se mentalmente.

— Lily, é para você comer algo decente, e não uma sobremesa! — ela resmungou para si mesma.

Contudo, já não conseguia desviar o olhar do pudim vermelho. Irritada com sua pouca força de vontade, fechou a porta da geladeira e pegou uma colher. Queria evitar abrir a gaveta debaixo do freezer, pois sabia que ali tinha grande parte das coisas que Marlene deixava, quando vinha vê-la. E não podia deixar de lembrar-se da amiga, que não conseguia deixar de ser bêbada nem na hora de tomar um café.

Isso só a lembrava que ainda precisava tirar as caixas com as coisas dela, mas sentia que não teria forças para isso. Marlene não tinha parentes vivos, então não tinha para quem deixar as suas coisas, e duvidava que faria bem para Sirius ficar com elas.

Talvez Dorcas pudesse ajudá-la a tirar de lá, já que ela não se abalava tão facilmente com as mortes que aconteciam.

Quando terminou de comer a sobremesa, a fome já tinha passado, e estava cansada demais para pensar em comer algo a mais. Deixou o prato dentro da pia, decidida a lavá-lo somente no dia seguinte.

Ao voltar para a sala, sabia que tinha que dizer algo sobre onde James dormiria, mas sentiu-se como se estivesse pisando sobre algo invisível.

— Você sabe que eu posso ler a sua mente, sem precisar manter contato visual ou chegar perto? — ele comentou, casualmente.

O rosto de Lily queimou de vergonha, e ela tinha certeza de que não passava por isso desde o começo do namoro deles, já que depois acostumou-se com o jeito indiscreto do marauder.

— Desculpe-me — ela disse.

— Venha cá! — ele pediu, os braços apoiando a nuca para cima.

Lily aproximou-se de onde ele estava, e James sentou-se, dando espaço para que ela fizesse o mesmo, já que antes estava deitado.

— E então? — Lily perguntou, sem entender, após sentar-se também.

— Eu quero tentar uma coisa — James disse.

Ela esperou ele tomar alguma atitude, e James não demorou em aproximar os seus rostos. Lily fechou os olhos, já sabendo o que ele pretendia. Temia era pelas memórias não tão superficiais em sua mente, aquelas mais profundas, que ela sabia que não iriam à superfície com tanta facilidade.

Agora que parava para pensar, era a primeira vez que ficava sozinha com James, desde o que aconteceu.

Aquele pensamento desvaneceu-se assim que a boca de James tomou a sua com ferocidade. Não conseguia lembrar-se da última vez que tinham beijado-se assim, e não pensou em mais nada, quando flashes de memória dela começaram a tirá-la de onde estava.

— Se tivéssemos um filho... — James começou a dizer.

Eles estavam no Salão Comunal da Gryffindor, e Lily não conseguia lembrar-se de quando aquilo passou-se. Estava tendo as mesmas dúvidas de James? Aquela legilimência era tão confusa!

— James, mal começamos a sair, e já está pensando nisso! — disse uma Lily de dezessete anos, rindo do namorado.

A sua voz ecoou, mais ampliada do que realmente tinha estado na ocasião, como se tivessem ligado um rádio no meio do nada.

— Mal sabe você — disse James, sorrindo carinhosamente, de um jeito que fazia com que Lily se sentisse a mulher mais especial do mundo — Eu já planejei tudo da nossa vida.

— Qualquer pessoa se assustaria com isso — observou Lily, ainda sorrindo.

— Mas você não — ele disse, seguro.

— Temos outras preocupações no momento...

Seu rosto tinha ficado sombrio repentinamente, e James apressou-se em beijar a sua bochecha, chamando a sua atenção, e relaxando a sua expressão.

— Sim, temos — ele disse, sorrindo — O nome do nosso futuro filho.

— E se for menina? — perguntou Lily, entrando na brincadeira.

— Pode ser também. Se fosse menino, eu queria que fosse Henry, é o nome do meu avô — disse James.

Lily fez uma careta, e ele perdeu o sorriso.

— Não ia ficar legal, né? — perguntou.

— Que tal Harry? — ela sugeriu — É parecido! E bem mais moderno!

— Certo, Harry — decidiu James — E qual sua sugestão para menina, senhora Potter?

Lily riu com gosto, apoiando a cabeça nas costas do sofá.

— Certo, eu me rendo — ela disse — Diga você!

— Eu gosto de Ambrose — murmurou James.

— Gostei — dessa vez, Lily sorriu, aprovando.

Ela afastou-se, olhando de olhos arregalados para James, que parecia perdido em seus pensamentos.

— Deu certo! — Lily sussurrou, surpresa.

— Sim, deu — disse James, olhando novamente para ela.

Dessa vez, foi Lily quem aproximou-se, puxando o seu rosto para si.

Se um beijo podia fazer aquilo, o que aconteceria se eles fossem mais além?

Sentiu uma euforia agitar-se dentro de si, sem poder evitar.

— Mãe, essa é a Lily — James a abraçava de lado, estavam na estação de trem.

— A famosa Lily? — perguntou Dorea, surpresa.

— Mãe! — o garoto reclamou.

Lily sorriu com a troca verbal. Era tão bom ver James agindo normalmente, relaxado, sem tentar exibir-se para chamar a sua atenção, pois ele não precisava disso fazia tempo.

Ela sentiu as suas costas batendo no assento do sofá, grogue com as sensações que as lembranças e os beijos de James lhe traziam. Enterrou a mão em seus cabelos, puxando-os com força, tentando aproximar ainda mais os seus rostos.

— Então... Você é aquele garoto que Lily vivia reclamando do colégio? — perguntou o seu pai, fazendo uma careta na direção de James.

— Pai! — reclamou Lily, sentindo que aquele jantar estava sendo mais humilhante para ela do que para James, que era a função que seu pai parecia ter em mente.

A sua mãe deu uma cotovelada discreta, fazendo-o calar-se.

James apenas olhou para Lily, as sobrancelhas arqueadas, como se perguntando o que mais ela falava sobre ele durante as férias. A ruiva repetiu a atitude da mãe, dando uma cotovelada nele, para que parasse de olhá-la fixamente, como estava fazendo.

Lily sentiu um arrepio subir pela espinha, quando James resolveu descer os seus beijos para o seu pescoço. A falta de contato de seus lábios não impediu que as memórias continuassem surgindo.

— Estava preocupada com você — sussurrou Lily, despindo a capa de invisibilidade, que tinha pegado emprestado de seu baú para poder vê-lo na enfermaria, depois do horário permitido.

— Imaginei — James respondeu, no mesmo tom, dando um sorriso sonolento.

Estava com a cabeça enfaixada pela pancada  do balaço, que aconteceu durante a partida de quidditch daquele dia.

— Não era suposto que os apanhadores recebessem mais balaços que artilheiros? — perguntou Lily, mordendo o canto do lábio para tentar conter-se para não abraçá-lo e machucá-lo.

— Você sabe, eu sou um ímã para muitas coisas...

Aquela conversa nem completou-se, pois fez Lily lembrar-se de uma outra vez em que esteve naquela situação, na enfermaria.

— Senhorita Evans!

Lily literalmente caiu da maca, ao escutar o grito escandalizado da madame Pomfrey.

— Eu não acredito nisso! — ela continuou a gritar, acordando também a James que, ao contrário de Lily, continuou tranquilo — Dormiu aqui?

— Eu... Eu... — Lily tentou dizer, corando.

— Saia daqui!

Ela não ousou nem despedir-se de James, temendo despertar mais da fúria da mulher. Daquela vez, não tinha ido com a capa, apenas aproveitou que a porta da enfermaria estava sempre  aberta — mesmo depois do horário de visitas —, e ficou por ali.

Ela arqueou as costas, e pôde sentir as costas das mãos de James acariciando acidentalmente os seus braços, enquanto as alças de sua blusa eram deslizadas.

— Lily Mary Evans.

Lily sentiu o seu coração retumbar em seus ouvidos, enquanto embasbacada via como, no meio do baile de formatura de Hogwarts, James ajoelhava-se à sua frente, tirando uma caixinha do bolso de seu paletó.

— Você aceita se casar comigo?

Lily fechou os olhos.



Notas finais do capítulo

Nota escrita há 84 anos (mais conhecido como: um dia depois do Oscar):
E AFEOH GANHOU MELHOR FIGURINO! COLEEN ATWOOD DIVA!
E um site muito ignorante anotou “Design de Produção” e “Direção de Arte” como se fossem categorias diferentes, por isso eu disse que AFEOH concorria a três categorias, nas notas finais do último capítulo.

Nota escrita hoje:
Eu considerei aumentar a classificação da fanfic por causa dessa cena do final, mas resolvi deixar bem light mesmo. O que importa são as lembranças que ele consegue, e um pouco dos sentimentos da Lily também.



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