Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 17
Capítulo 16 - Pain


Notas iniciais do capítulo

Só agora notei que, hoje, faz 1 mês desde a última atualização que DM teve haha
As aulas começaram, gente, e vou dizer que não tá fácil, mas pode piorar (e como).
No começo, confesso ter tido dificuldades para voltar a escrever no ponto de vista do James, mas, conforme fui escrevendo, as ideias foram fluindo, e espero que gostem. QUASE chegou às 5 mil palavras, mas eu quis parar na tretinha... Vocês verão de quem hehe
Boa leitura ♥




Dor.

Era tudo o que James sentia, naquele momento.

A queimação em seu braço esquerdo não sumia, apenas aumentava de intensidade, e ele sentia a própria sanidade escorrendo por entre os seus dedos, tal como água.

Começava a entender o que a dor podia causar a uma mente humana frágil.

Ele estava sozinho no quarto, sentia tontura, mas sabia que não era algo normal. Urrava, mas ninguém parecia escutá-lo. Em um momento, estavam ali. Em outro, estava sozinho, preso dentro de si. Sentia-se claustrofóbico naquele quarto de hospital.

Agarrou um vaso de flores, que tinha do outro lado do quarto individual, que antes era compartilhado, e jogou-o à parede, querendo ser escutado, querendo ser socorrido do que quer que estivesse o sufocando.

A primeira vez que transformou-se em cervo, depois de todo o sofrimento e dificuldade, não era nada comparada àquilo.

Perguntava-se como Remus sentia-se na lua cheia, e achava que tinha obtido a sua resposta, de uma forma que não gostaria.

O relógio não parava de girar. Em um segundo, passavam-se horas.

Como aquilo era possível?

Os fantasmas de seus pais e Marlene o perseguiam, como se tivesse entrado em um mundo alternativo ao seu, onde eles ainda estivessem vivos, sussurrando coisas em seus ouvidos.

Em um certo momento, uma enfermeira materializou-se atrás de si, e James atacou-a, assustado, acreditando que seus cabelos cacheados e bagunçados pertencessem à Bellatrix Lestrange. No segundo seguinte, outras enfermeiras materializaram-se, segurando-o pelos braços, e aplicando uma agulha longa e fina em um de seus braços.

Por mais que tentasse lutar, não foi forte o bastante. Em uma piscada lenta de olhos, o quarto voltou a ficar vazio, mas ele continuava letárgico, e sua inconsciência o puxava de uma forma irresistível.

Por fim, adormeceu, esquecendo-se da dor.

— Sem sombra de dúvidas, um feitiço — acordou, escutando esse veredicto de um dos medibruxos — Possivelmente, criado pelo próprio você-sabe-quem. Pode ser a causa dessa dor em sua marca negra, nunca escutei de Death Eaters suscetíveis aos sentimentos de seu lorde.

A porta abriu-se e fechou-se, o quarto ficou em silêncio, e James perguntou-se se não tinha dormido novamente.

— Isso piora as coisas, não? — escutou Lily perguntar.

— E quando que as coisas ficaram mais fáceis? — disse Sirius.

— Não agora, com certeza.

James abriu os olhos, sentindo a sua visão duplicar e embaçar, sem nem ter erguido-se na cama ainda.

— James! — Lily aproximou-se de sua cama, passando a mão por sua testa, preocupada — Como você está?

Apesar de tê-la ali por perto, James não pôde ficar desconfortável, ao notar o como Sirius e ela estavam próximos. Era ridículo um sentimento de ciúmes assim, considerando que, até outro dia, a única vontade que tinha era de enforcá-la.

— James? — Lily perguntou, preocupada.

Quando olhou novamente para ela, bem fundo em seus olhos verdes, ele acalmou-se quase que instantaneamente. Aquele era o efeito Lily Potter, que funcionava bem mais que um sedativo para ele.

— Você teve uma noite bem agitada — disse Sirius, cautelosamente, parecendo ter identificado algo em seu olhar.

— O que aconteceu? — ele perguntou, por fim.

— Aparentemente, o feitiço que Voldemort usou para modificar as suas memórias foi criação dele — disse Lily, colocando uma mecha de seu cabelo por trás da orelha, desviando os olhos de si.

— Isso eu consegui escutar — disse James — Eu vou...?

Ele não conseguiu terminar de perguntar, vendo como a mão de Lily tremia, e dirigiu-se a Sirius.

— Você foi diagnosticado com dupla personalidade — disse Sirius — É uma doença que não acontece muito com os bruxos, e não tem uma cura nem no mundo trouxa.

— Isso quer dizer que eu nunca vou recuperar as minhas memórias? — James sentiu um leve pânico assomar-se dentro de si.

Diante disso, Lily deu a volta na cama, sentando-se do outro lado, as suas mãos indo diretamente ao rosto do marido, forçando-o a olhá-la.

— Você quase conseguiu! — os seus olhos estavam marejados — A dor que você sentiu foi um conflito entre as suas personalidades. As suas memórias brigando...

— E essa personalidade, que não é minha, ganhou? — perguntou James.

— Não! — Lily passou as mãos por seu rosto, limpando alguns rastros de lágrimas — Não é tão simples assim! Você sentiria mais dor se continuasse, e isso poderia durar dias. Os medibruxos tiveram que te estabilizar...

— O problema foi a transição de memórias — explicou Sirius, enquanto Lily tentava tranquilizar-se para não preocupar mais ainda a James — Se você mudasse de personalidade, instantaneamente, não seria essa dor toda. É claro, os trouxas não passam por isso, mas o seu caso é diferente, foi efeito colateral de um feitiço maligno.

— Se eu mudar de personalidade, perderei todo o progresso que tive?

Sirius olhou para Lily, tão perdido com os acontecimentos quanto eles.

— Eu acredito que seria como um apagão — ele disse, lentamente — Quando retornar à sua personalidade original, você não se lembrará do que aconteceu, será uma continuação da última coisa que você esteve consciente que aconteceu.

— Então, se eu voltasse agora e, depois de um tempo, mudasse de novo, eu acreditaria ainda estar aqui no hospital? — perguntou James, confuso.

— Sim — disse Sirius, dando de ombros.

— A medibruxaria está sempre evoluindo — disse Lily, a voz mais firme — Além do mais, os próprios trouxas têm seus medicamentos.

— Disseram que não tem cura! — retrucou James.

— E não tem mesmo! Mas alguns medicamentos podem ajudar a controlar isso. Se juntássemos princípios de medicamentos trouxas com ingredientes de poções...

Sirius revirou os olhos, repentinamente entediado, sentando-se a um lado da cama, no chão mesmo, e James sentiu aquele sentimento de reconhecimento que o relaxava.

— Na verdade, acho que deveríamos fazer isso com todas as doenças que não tem uma cura — Lily deu de ombros, ao ver a falta de interesse dos dois, embora ainda aparentasse divagar, mas não em voz alta.

— Tem razão — disse James.

Ela sorriu para ele.

O momento de descontração foi interrompido com a chegada de Dorcas Meadowes.

— Pettigrew fugiu.

Algumas enfermeiras aproximaram-se atrás dela, assustadas por sua vinda repentina, e brusquidão ao entrar no quarto.

— Ei! Ei! Tudo bem! — Sirius as dispensou, puxando Dorcas para dentro do quarto, e fechando a porta — Como assim fugiu? Do que você está falando?

Dorcas olhou incrédula para Lily, quase que culpando-a pela pouca informação que Sirius tinha.

— O quê? Não tiveram tempo para conversar? — ela perguntou, irônica.

— Peter traiu a Ordem da Fênix — disse James, casualmente — Ele era espião de Voldemort, muito antes de terminarmos o colégio.

Sirius ficou sem reação, a boca entreaberta, olhando de um rosto para o outro, sem conseguir acreditar.

— Ou seja, ele nos traiu, e depois traiu a Ordem — ele disse, impassível.

— Sirius, por favor! Se acalme! — disse Lily, ao ver o seu rosto apresentar sinais de irritação.

— Acalmar-me? Aquele... — Sirius passou a mão pelo rosto — Desgraçado! Ele nos traiu! Ele...

— Dumbledore quer falar com vocês dois — disse Dorcas, interrompendo o diálogo dos dois — Ele quer entender como que Pettigrew fugiu.

James engoliu em seco, entendendo o que ela queria dizer com isso.

— Ele está aí? — perguntou Sirius, parecendo fazer um grande esforço para manter-se calmo.

— Sim, eu vou trazê-lo — disse Dorcas, parecendo indecisa quanto à presença de Lily, que apenas cruzou os braços, ainda sentada a um lado da cama.

Dando de ombros, ela saiu do quarto, sob os olhares irritados das enfermeiras que tentaram retirá-la anteriormente, e voltou com Dumbledore em seu encalço.

— Lily, James, Sirius — ele cumprimentou-os com a cabeça.

James notou que o seu olhar demorou em Lily, como se estivesse repreendendo-a.

— Como descobriram? — perguntou Sirius, incomodado — Sobre Pettigrew?

— Isso não vem ao caso agora — disse Dumbledore, trocando um olhar com Dorcas — O que importa é que não estamos errados, e ele apenas provou isso, fugindo. E é disso que vim tratar.

— Não acharam que seria importante para a Ordem missões com animagos? — perguntou Dorcas — Pior: animagos ilegais! Vocês poderiam ser presos por isso, caso os denunciassem!

— Acho que, no meio de toda essa guerra, ilegalidade é a última de nossas preocupações — resmungou Sirius.

— Quando é que você vai começar a levar as coisas a sério?

Sirius respirou fundo, antes de virar-se para ela, sereno.

— Vamos falar a sua língua, então — ele disse — Elemento surpresa. Não registrados no Ministério, apenas nós sabemos de nossa condição. Perfeito para emergências.

O bruxo levantou as sobrancelhas na direção de Dorcas, que calou-se, considerando as possibilidades.

— Mas ela está certa em uma coisa, rapazes — disse Lily — Deveriam ter dito sobre Pettigrew. Ele escapou!

— Ele está sem saída — replicou Dorcas — Não tem mais confiança no círculo de Voldemort, nem no nosso. Por agora, não terá por onde escapar. Depois, pode ser que tente negociar, ou conosco, ou com Voldemort, mas ele não costuma ser generoso, então será conosco mesmo.

— E que tipo de informação um rato como ele poderia dar? — perguntou Sirius, depreciativo.

— Talvez o feitiço usado para deixá-lo assim — disse Dorcas, indicando a James com a cabeça.

— Ele não era do círculo íntimo — disse James, seguro disso.

— É mesmo? — perguntou Dorcas — Que eu saiba, ele quem esteve sempre do seu lado, te manipulando. Ele podia não ter toda a confiança de Voldemort, mas era o sucesso dessa missão que o faria erguer-se, pois você não confiaria em mais ninguém.

James calou-se, considerando o que ela lhe disse.

— Não importa — disse Lily, aparentando estar cansada — O que está feito, está feito.

— Lily, — disse Dumbledore, que tinha mantido-se em silêncio durante toda a discussão, apenas observando-os — você contou a Alice Longbottom sobre o que falamos?

Lily sustentou o seu olhar, quase que desafiadora.

— Contei — ela concordou — Ela merecia saber.

— Sim, foi melhor — Dorcas apoiou-a — Manter-se preparada. Não é porque todos os indícios apontam para Lily que assim será.

— Indícios de quê? — perguntou James.

— Não é o melhor momento para conversarmos sobre esse assunto — Dumbledore declarou, impedindo Dorcas de responder — A lua cheia é esta noite.

— Seria o momento ideal — disse Sirius, repentinamente — James, na forma animaga, se lembraria da época de colégio.

— Professor, — chamou Lily — se o senhor não sabia da animagia, como sabia que acompanhavam Remus durante a lua cheia?

— Eles nunca foram discretos, Lily — respondeu Dumbledore — Além do mais, tinha minhas conjecturas. Lamentavelmente, nunca cheguei a esta conclusão. Acredito que James não está preparado para ir, precisa recuperar-se...

— E quando ele irá se recuperar? — perguntou Lily — Isso o acompanhará durante o resto de nossas vidas. Remus precisa dos dois com ele.

Novamente, James teve sentimentos encontrados, e coçou o seu pescoço para tentar afastar essas emoções que não deviam de pertencê-lo.

— É! O melhor é ajudarmos James a se controlar desde agora — Sirius apressou-se em concordar — Vai que... Sei lá! Sempre dizem que é melhor medicar no começo do que depois.

— Eles têm razão — disse Dorcas, mesmo que desnecessariamente.

— Está bem — concordou Dumbledore, mas não parecia totalmente seguro de sua decisão — Sirius, Dorcas, poderiam dar-me um momento, por favor?

Os três saíram do quarto, deixando James e Lily sozinhos.

— Como está?

Lily franziu o cenho para James, sem entender a pergunta.

Ele engoliu em seco, desviando o olhar, incomodado.

— Oh! — ela exclamou, as suas mãos cobrindo a sua barriga quase que automaticamente — Ha–Ele está bem! Não tem dado tanto trabalho...

— Isso é bom — James disse, rapidamente.

— Sim.

Ele não demorou a notar uma inquietação por parte dela, como se quisesse dizer algo, mas não ousasse. Não podia culpá-la, era culpa inteiramente sua por aquele clima estranho entre eles.

Olhou mais uma vez para a barriga, já avantajada, de Lily, e sentiu um gosto amargo em sua boca.

— Eu já volto — ele murmurou, desfazendo-se dos feitiços que o monitoravam, e indo para o banheiro anexo.

Escutou um muxoxo vindo de Lily, antes de fechar a porta e trancá-la.

Agarrou os fios fronteiros de seu cabelo, puxando-os com força, a respiração já forçada pelo afogamento de seus sentimentos.

Como aquilo podia estar acontecendo com ele?

Lily realmente queria que ele estivesse por perto dela? Pelas barbas de Merlin! Ela estava grávida! Ele tinha matado uma criança, que poderia muito bem ser o seu próprio filho. Além do mais, não era a pessoa mais constante. A qualquer momento, ele poderia descontrolar-se, mudar de novo... E não queria nem pensar no que poderia acontecer.

James ignorou a batida na porta, o rosto ainda abaixado, as mãos apoiadas à pia.

— Potter, saia — disse Dorcas, do outro lado da porta, com um tom de voz estranho, que alarmou a James.

— O que é? — perguntou, ríspido.

Ao não ter resposta, ele abriu a porta, a sua curiosidade vencendo a sua vontade de permanecer ali, como costumava acontecer quando se tratava da Ordem.

— Tem uma pessoa que quer te ver — ela disse, a voz quase que meiga.

James observou como ela saía do quarto. Lily não estava mais lá, e ele sentiu um vazio em seu estômago por isso.

— James — Dorcas voltou, mas não sozinha.

Dessa vez, James precisou segurar-se à cama. Tinha perdido completamente a fala, sem conseguir acreditar no que os seus olhos mostravam.

Uma garota de oito anos o encarava de volta, tímida. Agarrada a um urso de pelúcia, ela parecia não reconhecer o homem à sua frente, metade do rosto coberto por um pano, mas ele sabia perfeitamente bem o que estava por trás daquilo.

— Que tipo de brincadeira é essa, Meadowes? — James dirigiu-se a Dorcas, mas sem parecer tão irritado quanto gostaria.

— Bem, o que quer que eu diga? — ela deu de ombros, sem sentir-se culpada — Eu menti. Dumbledore não concordou, mas era a melhor ideia que eu tinha. Você não matou ninguém, durante o tempo que passou realmente com os Death Eaters.

Por mais que quisesse pular no pescoço da bruxa, por mais que temesse que aquilo mudasse completamente a percepção de sua atual personalidade, ele sabia a verdade. Dorcas tinha tido uma estratégia perfeita, deixou-o vulnerável a ponto que pudesse enxergar o que eles queriam lhe dizer. Não sentiu medo, pois sabia que estava no controle de sua personalidade, naquele momento. E saber que Ariella Oris estava viva o tranquilizava de uma forma que nunca poderia imaginar o quanto que a sua suposta morte tinha o afetado.

— A memória dela foi apagada, para não lembrar-se dos acontecimentos daquele dia — Dorcas voltou a explicar, sendo quase que carinhosa com a criança, o que era bem estranho de se ver vindo dela — E, quando ela sair oficialmente do St. Mungos, será totalmente apagada. O vilarejo foi reconstruído, a história foi criada...

— E se os Death Eaters voltarem para lá? — perguntou James, preocupado.

— Nós tomaremos as nossas precauções para protegê-los — disse Dorcas, como se já tivesse pensado naquilo, o que James não duvidava que fosse o caso.

Assim que viu que ele não reagiria, ela pegou a garotinha pela mão, saindo do quarto junto com ela. Quase que ao mesmo tempo, Lily retornou, um copo de café na mão.

— Você não pode beber — disse James, automaticamente.

Lily desviou o olhar da porta para ele, aparentando surpresa.

— Não é para mim — ela disse, estendendo para ele — Achei que te ajudaria a lembrar de algo. Você sabe... Além do mais, terá uma noite sem sono.

— Ah! Obrigado! — ele pegou o copo, olhando estranhado para o líquido escuro — É uma bebida trouxa?

— Sim, é muito boa — Lily sorriu — Melhor que chá, pelo menos. Minha opinião!

Ele retornou o sorriso, tomando um gole do líquido quente.

— É, mas qualquer coisa é melhor que chá — James deu de ombros, sem ter definido se gostou ou não.

— Gelo, então, é maravilhoso.

Ele deu uma dolorida engolida, impedindo por pouco um engasgo.

— Gelo? — perguntou.

— Desejos de grávida — disse Lily, constrangida — Dizem que é falta de ferro.

— Eu fico feliz que você tenha crescido no mundo trouxa — disse James, solene — Já escutei cada desejo bruxo...

— Não conte tanto com isso — ela sorriu — Sou grande conhecedora dos dois mundos.

— E é isso o que eu amo em você.

Assim que as palavras lhe escaparam, os dois olharam-se, surpresos.

Para evitar dizer algo, James tomou outro gole do café, sentindo uma tranquilidade, mas um certo receio também. Duvidava que, algum dia, a tranquilidade viesse desacompanhada, ou durasse por muito tempo.

A sua outra personalidade era tão pessimista quanto aquela? Ele sentia que sim.

— Eu voltarei para cá, depois da lua cheia? — James perguntou, assim que a questão lhe veio à mente.

Lily voltou a olhá-lo, parecendo distraída, uma emoção diferente oculta em seu olhar.

— Acho que você irá direto para casa — ela respondeu.

James olhou para ela novamente também, pego de surpresa pelo final da frase.

— O quê? O porão? — ele perguntou.

— Nossa casa, James — Lily disse — Não temos mais o porquê adiarmos isso.

A conversa deles foi interrompida com a entrada de Sirius.

— Andou flertando com quem? — perguntou Lily, dando tempo a James, sem querer pressioná-lo demais.

— Você me conhece bem, cunhadinha — disse Sirius.

— Lily Mary Evans, você aceita se casar comigo?

Ele estava ajoelhado à frente do sofá, onde Lily estava sentada, o livro esquecido em seu colo, diante do pedido do namorado.

— James — ela disse, sem palavras, surpresa pelo pedido repentino.

— Responda antes que ele tenha um ataque, cunhadinha! — gritou Sirius, do outro lado do salão comunal, recebendo um tapa vindo de Remus, logo depois, pela interrupção.

James sorriu, automaticamente.

Sabia que as memórias eram inevitáveis, e ele não queria evitá-las, só temia por ter outro ataque como o de antes. Queria voltar à sua antiga personalidade, mas também queria que essa nova se adaptasse a todas as descobertas, para que o estrago não fosse tão grande. Quem sabe, quebrar a barreira que as separava.

Não importava se doesse, ele precisava fazer aquilo. Tinha uma família para cuidar agora.

O quarto estava bem silencioso, e ele percebeu isso rapidamente, vendo como os olhos de Lily estavam fixos em seu rosto.

— O quê? — o seu sorriso sumiu, mesmo contra a sua vontade, um pouco na defensiva.

Ela apenas sorriu, negando com a cabeça.

— Deixo o casal sozinho? — perguntou Sirius, pegando o copo de café das mãos de James, e dando um gole — Asqueroso!

— Então por que ainda bebe? — Lily tirou o copo de suas mãos, e James admirou a pequena vermelhidão que surgiu em suas bochechas, pela irritação.

Sirius deu de ombros, as mãos dentro de seus bolsos dianteiros da calça trouxa que usava.

— Vamos? — ele virou-se para James — Já vai começar a anoitecer.

James terminou o seu café em mais alguns goles, antes de levantar-se, decidido.

— Você vai precisar da sua varinha — disse Lily.

— Eu vou ficar bem — ele disse, tentando passar confiança a ela.

Sirius deu um empurrão de leve em seu ombro, antes de virar de costas para os dois, indo em direção à janela, em uma mensagem não tão sutil.

— Se cuide! — pediu Lily.

James pousou uma das mãos em sua cintura, e a outra puxou o rosto dela para perto do seu. Puxou o seu lábio inferior com os seus próprios, sentindo como ela ofegava, surpresa por sua reação repentina, pela terceira vez naquele dia.

— Desculpem-me!

Lily empurrou a James, rapidamente, assustada pela interrupção.

— Mãe! — ele reclamou, ao ver Dorea sorrindo, parada à porta, mas, mesmo assim, parecendo envergonhada por tê-los interrompido.

— Vocês são um casal tão lindo! — ela não pôde evitar dizer, depois de meditar por alguns instantes.

— Mãe!

Ele afastou o seu rosto, feliz por ter tido outra lembrança real.

Talvez precisasse de lembranças assim, caso precisasse conjurar um patrono.

— Vamos! — disse a Sirius, deixando a Lily paralisada no meio do quarto.

— Que a Lily te enlouquece, nenhuma novidade, mas agora você é quem está enlouquecendo-a — disse Sirius, brincando.

— Eu só quero retomar a minha vida.

Seu amigo bateu de leve em seu ombro, como se o apoiasse, enquanto eles caminhavam pelos corredores brancos do St. Mungos, indo até a saída do hospital.

Assim que alcançaram o lado de fora, apressaram-se para um beco, aparatando em Hogsmeade, no processo. O povoado, que antes era tão cheio de vida, agora sustentava uma nuvem negra de tensão. As pessoas passavam pela rua tal como faziam no Diagon Alley, olhando ao redor, nervosa com uma possível aparição repentina de Death Eaters.

Sirius e James seguiram à lateral da rua principal, camuflados na escuridão que o pôr do sol proporcionava àquele lado.

— Ele já está lá — disse Sirius, olhando torto para o Hog’s Head, onde vários aurores e Death Eaters faziam negócios.

— Não temos tempo para nos concentrarmos na carreira de auror, que era o que planejávamos seguir, antes da Ordem da Fênix surgir — disse James, repentinamente — Como que, em meio a tantas missões, conseguimos ajudar a Remus?

— Infelizmente, nem sempre conseguimos — respondeu o outro, um pouco culpado — As missões são cansativas, e ocupam grande parte de nosso tempo, como você disse.

James apenas assentiu, insatisfeito com a resposta dada. Afinal, o que poderia responder? Derrotar a Voldemort era tão importante quanto ajudar a Remus. Se pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo, certamente o faria.

Dois lugares ao mesmo tempo, como em um vira-tempo.

Teria Pettigrew contado a Voldemort que ele tinha ganhado confiança na Ordem da Fênix?

Se o seu plano com Dorcas tinha resultado, Snape e Pettigrew estavam fora do caminho, e ele poderia usar isso a seu favor. Contudo, estaria ele disposto a matar uma pessoa, só para ganhar a confiança de Voldemort?

— Você não matou ninguém, durante o tempo que passou realmente com os Death Eaters.

Não queria dar a Harry um pai assassino, mas ele ajudaria na guerra. Não ajudaria? Teria sangue frio para isso?

— Chegamos — Sirius tirou-o de seus devaneios, já estavam à frente da Casa dos Gritos.

Olhando ao redor, lembrou-se dos boatos que Dumbledore ajudou a espalhar, para que as pessoas tivessem medo de se aproximarem, e justificar os uivos e gritos que eram escutados dali. Embora James acreditasse que um feitiço silenciador seria mais eficiente. Naqueles momentos, agradecia pelo Ministério da Magia nunca ter tido a ideia de mandar verificarem a casa abandonada.

— Vamos! — disse Sirius, atravessando o portão e indo para um dos lados da casa, já que a porta da frente estava tampada pela madeira.

Internamente, James perguntava-se como fariam, já que qualquer abertura era prejudicial para a transformação de Remus, que poderia escapar para Hogsmeade, e eles sempre estavam acostumados a entrar pelo Salgueiro Lutador. Teria sido mais fácil ir pela lareira até Hogwarts, embora isso fosse chamar a atenção, já que ainda era período de aulas, mesmo que não parecesse, pela presença constante de Dumbledore na Ordem.

Como o céu já estava escuro, e aquela parte do povoado não era iluminada, talvez para manter mais ainda os mistérios que rondavam aquela casa, Sirius não importou-se em transformar-se em cão, de um minuto para o outro.

Cavou pelo chão de terra, infiltrando-se naquele espaço.

— Está de brincadeira comigo! — reclamou James — Eu não consigo entrar aí!

Escutou apenas um latido como resposta. Impaciente, fechou os olhos, tentando recuperar a sua essência animaga.

— É como andar de bicicleta. Quando você aprende, nunca esquece.

Quando abriu os olhos, já estava sendo sustentado por quatro patas, e continuava a perguntar-se como passaria os seus galhos pelo buraco da terra. Infiltrou-se ali, assim como Sirius, fazendo bem mais sujeira do que o cachorro, ágil e esquivo. Por um momento, temeu que os galhos se quebrassem, mas, com grandes dificuldades, conseguiu entrar na casa, dando uma patada no rosto de Sirius, que rosnou, para demonstrar o seu descontentamento.

Voltando à forma humana, sem importar-se em verificar se Remus já estaria transformado, ele empurrou um móvel na direção da terra escavada, por pura precaução.

— Nada mal — debochou Sirius.

— Se eu quebrasse os meus galhos, você veria só — retrucou James, mal humorado.

Um uivo alarmou-os, e eles apressaram-se em voltar às suas formas animagas, partindo para o andar de cima da casa. James subiu as escadas com dificuldades, sentindo o peso da idade sobre si.

O lobisomem choramingava, a um canto do quarto. Quando eles entraram, ele colocou-se sob posição de ataque, antes de reconhecer os seus cheiros, embora estivesse um pouco desconfiado sobre o cervo.

Será que a sua dupla personalidade era identificada com tanta facilidade?

O problema não foi nas primeiras horas dentro daquela casa, mesmo que Remus estivesse descontente por não poderem passear, como faziam nos tempos de Hogwarts, mas as últimas horas, sucedendo o nascer do sol.

Assim que transformou-se novamente, James sentiu uma dor na região do seu tórax, como se tivesse dado um daqueles soluços que doíam no coração.

— Prongs? — perguntou Sirius, cautelosamente, ao ver que ele estava ajoelhado com a parte superior de seu corpo quase que grudada ao chão, uma de suas mãos apoiada ao peito.

— Estou bem — ele sussurrou, sem conseguir falar mais alto — É sério!

— É melhor você voltar para o St. Mungos — disse Remus, fazendo careta a cada movimento que repuxava alguma de suas recentes cicatrizes.

— Não! Eu não posso! — disse James.

Ele queria continuar a sua frase, mas engoliu em seco, sentindo o formigamento na região.

— Estamos velhos, essa é a verdade — disse Sirius, com pesar — Deve ser cãimbra.

— É, deve ser — disse James, não muito seguro disso.

Já vestidos, eles levantaram-se, sentindo alguma parte de si doer pela noite não dormida.

— James, corra! — gritou Peter, olhando de olhos arregalados para ele.

“Não” ele respondeu à sua lembrança.

— Vamos! É a sua oportunidade! — disse Marlene, sorrindo de leve para ele.

Qual era o problema de suas memórias, que uniam-se de diferentes situações, tentando convencê-lo a afastar-se do que ele deveria mais aproximar-se? Era consequência do feitiço de Voldemort? O quão desgraçado ele poderia ser?

— Se quer saber, uma única memória será o suficiente — ele disse, desinteressado.

— Acho que não foi uma ideia tão boa assim — disse Remus, ao notar o seu silêncio.

— Foi ótimo — disse James, sentindo como a sua resistência às lembranças tornava-se cada vez mais forte — Onde Lily deve estar?

— Desde o sequestro, Dumbledore aconselhou-a a sempre estar na casa de alguém da Ordem — disse Sirius.

Casa dos Bones, ele concluiu.

Imaginou que sentiria-se rancoroso por aquela casa, ao ter passado tanto tempo no porão, mas o desviar de olhos culpados dos seus antigos amigos fizeram com que ele pensasse mais racionalmente do que emocionalmente, o que estava adiantando bastante em sua recuperação.

Remus quase não conseguia manter-se em pé, queria ir direto para a sua casa, mas James e Sirius agarraram-no, cada um por um braço, decididos a levá-lo para a casa dos Bones. Lily poderia ajudá-lo na cura das cicatrizes, o que eles nunca foram bons em fazer.

Surgiram à frente da porta da casa, e entraram tranquilamente, sabendo que nenhum alarme dispararia. O feitiço fidelius podia deixá-los relaxados, mas tendo o traidor desmascarado, e um fiel do segredo que nunca os trairia, eles podiam se deixar a esse luxo.

Entraram à sala, e James viu uma cabeleira ruiva deitada no sofá, respirando profundamente, os olhos fechados.

— Dumbledore está aí!

Sirius e ele viraram-se, o sussurro vinha de Dorcas, que aproximou-se ao sofá, balançando levemente o braço de Lily.

— Ei! Seu marido chegou! — ela disse, a voz mais alta.

Lily sentou-se rapidamente, fingindo nunca ter adormecido.

— Vocês chegaram! — ela disse, casualmente.

— Você não devia ter nos esperado — disse James, suavemente, sob o camuflado olhar surpreso de Dorcas.

— Vocês precisam dormir! — Lily levantou-se o mais cuidadosa que pôde — Sente-se, Remus, vou pegar as poções para você.

— Onde ele está? — James virou-se para Dorcas, assim que ela desapareceu pelo quarto de poções.

Dorcas apenas apontou a direção da cozinha, e James seguiu para lá, ciente de que seria a primeira vez em que se dirigiu diretamente a ele.

— Professor Dumbledore — ele chamou.

O ancião estava degustando de algum empadão que, pelo cheiro, tinha sido feito por Alice Longbottom. Como ele sabia, não tinha ideia.

— Oh! James, meu rapaz! Sente-se! — disse Dumbledore, tranquilamente, como se nunca tivessem passado pelas hostilidades subentendidas e desconfianças.

— Soube que Pettigrew foi capturado — ele disse, aceitando o convite, e pegando um pouco do empadão, já que estava faminto.

— Sim, o seu plano e de Dorcas funcionou mais ou menos.

James parou a colher a alguns centímetros de sua boca.

— Como assim mais ou menos? — perguntou.

— Planejavam desmascarar a Pettigrew e prejudicar Snape. Contudo, temo que apenas a primeira parte do plano cumpriu-se — disse o bruxo.

Sentia que Dumbledore usava legilimência em si, mas já tinha passado da fase de importar-se com isso, queria as suas respostas.

— Esse plano de vira-tempo é engenhoso, não tenho dúvidas quanto a isso. Não estou descartando-o, mas é melhor que o usemos quando realmente precisarmos — ele completou, após terminar de ler o plano de James, em sua mente.

— Isso quer dizer que Snape continua com a confiança de Voldemort? — perguntou James.

— Exatamente.

Os seus punhos fecharam-se, ao escutar a voz daquele que mais odiava, tanto em uma personalidade, quanto na outra. Virou-se na cadeira, apenas para não deixar as costas expostas, mesmo que Dumbledore estivesse à sua frente.

— Snivellus — disse James, friamente.

— Potter.



Notas finais do capítulo

Vão ver o Oscar hoje? Tô muito ansiosa para ver se "Animais Fantásticos e Onde Habitam" vai ganhar nas três categorias que foi indicado. Espero que sim, achei três categorias um sacrilégio, merecia mais u.u
Até o próximo capítulo, bom feriado :)



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