Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 12
Capítulo 11 - Strength


Notas iniciais do capítulo

Primeiro capítulo de 2017!
Eu passei o dia inteiro de ontem escrevendo, mas não consegui terminar a tempo.
Não tive a oportunidade de desejar feliz natal a vocês, então eu aproveito esse capítulo para desejar um feliz natal atrasado e feliz ano novo! Que 2016 tenha sido maravilhoso para vocês, e que 2017 seja melhor ainda.
Agora, o capítulo. Ponto de vista de Lily, finalmente. Preparem-se para algumas emoções (não tão fortes quanto a do capítulo anterior, é claro) e espero que gostem =)




A chuva começou a cair com força, em questão de apenas alguns segundos, e foi o único som que Lily conseguiu escutar. As conversas eram inexistentes, e ela não conseguia apreciar em nada o ambiente da colina, mesmo que antes fizesse sol. Depois de algum tempo, ela era uma das únicas a permanecer ali, ignorando completamente a chuva que molhava as suas vestes, como se essa água estivesse limpando a sua alma.

— Protego pluvia.

Um guarda chuva invisível surgiu em cima de sua cabeça. Ela olhou para cima, e viu Sirius de pé, os olhos fixos na lápide à frente deles, o rosto inexpressivo. Estar ajoelhada na grama não era uma boa forma de escapar da chuva, mas ela não sentia vontade alguma de fugir de mais uma coisa em sua vida.

— James! — ela ofegou, tentando soltar-se.

— Você não deveria ter vindo aqui — ele disse, tranquilamente — Eu te avisei.

Inconscientemente, sua mão partiu para o pedaço de pano que cobria o seu pescoço. Apesar de ter uma proteção ao redor, ainda sentiu latejar ao seu toque. Fechou os olhos, sentindo como algumas lágrimas caíam, tanto pela dor física quanto emocional. Gostaria de dizer algo, mas sabia que não seria uma boa ideia, já que a garganta arderia no menor esforço.

— Vamos, Lils — Remus colocou uma mão em seu ombro — Já está ficando tarde, e você não pode pegar friagem com a garganta assim.

Ele olhou para o amigo, mas, se Sirius notou, não deu a entender, os olhos perdidos.

Lily ergueu a mão, colocando-a por cima da mão de Remus, assentindo com a cabeça, ao ter a atenção novamente dirigida a ela. Com um simples olhar, pediu para que deixassem Sirius sozinho.

O lobisomem ergueu a varinha, conjurando um guarda chuva com o mesmo feitiço do amigo. Lançando um último olhar a Sirius, ajudou-a a se levantar, e não tirou a mão do antebraço dela.

Apesar de Arabella Figg ser uma aborto, era excelente em administrar poções e até mesmo remédios trouxas. Se precisasse de algum feitiço, era só pedir para Emmeline, ou qualquer outro membro da Ordem, que a auxiliaria sem hesitar. Era bom ter alguém de confiança por perto, não podiam ir para o St. Mungus muitas vezes, pois isso chamaria a atenção.

— Tudo certo! — a mulher terminou de examiná-la, virando o seu rosto uma última vez, que Lily finalizou com uma careta.

— Quando ela poderá voltar a falar? — perguntou Remus, os braços cruzados.

— É difícil dizer — Arabella respondeu — Acredito que, quando o inchaço diminuir, e o hematoma começar a desaparecer, ela ficará bem.

— As poções não devem demorar muito para fazer efeito.

Arabella não respondeu, passando as costas da mão pela silhueta de Antrax, que ronronava alegremente em reconhecimento.

— Asfixia é algo complicado, até mesmo para bruxos — disse Arabella, depois de um certo tempo — Se ela tivesse sido atingida por algum feitiço, teria sido mais fácil.

Por fim, a aborto pegou as suas coisas, e despediu-se, sendo acompanhada até a porta pelo gato.

— Está sentindo falta de ar? — Remus sentou-se ao seu lado, encarando-a preocupado.

Lily negou ligeiramente com a cabeça.

— Eu vou fazer um chá para você — ele passou a mão por sua bochecha, sentindo as lágrimas já secas, fazendo-a fechar os olhos, antes de levantar-se.

Era capaz de, se mantivesse os olhos fechados por mais tempo, eles fossem incapazes de abrirem-se novamente. Ela não precisava, seu mundo estava mais claro por trás das pálpebras do que quando os mantinha abertos.

Sua melhor amiga estava morta.

Seu marido tentou matá-la.

Aquela casa parecia, mais do que nunca, vazia.

Lembrava-a da época em que seus pais morreram, e ela dividiu a casa com Petúnia. Durou menos de uma semana, mas ficou marcado em sua memória. A relação entre as irmãs não era das melhores, e isso não contribuiu em nada para uma suposta melhora.

Antrax subiu na mesa, parecendo inteiramente convencido de que Arabella não voltaria mais. Lily lembrava-se perfeitamente de como foi difícil convencer a James de adotá-lo. Não teve corujas nem gatos em sua estadia em Hogwarts, já que não teria com quem deixar durante as férias. Embora as aves fossem fáceis de lidar, ela preferia desligar-se do mundo bruxo por alguns meses.

Por isso, quando conheceu Arabella, que tinha o hobby de apanhar gatos na rua e levá-los para dentro de casa, resolveu que era hora. Mas, naquele momento, nem Antrax era capaz de tirar aquele sentimento de solidão de dentro dela. Nem ele era capaz de deixar a casa menos vazia.

As coisas de Marlene ainda estavam no quarto de hóspede, intocadas, assim como o quarto em si, o qual ela não atreveria-se a entrar por um bom tempo.

— Aqui, você se sentirá melhor — disse Remus, colocando a xícara em cima da mesa.

Lily ignorou a xícara, olhando fixamente para ele. Quando teve a sua atenção, apontou para a foto da Ordem, que estava em um dos portas retratos.

— O que tem? — Remus perguntou, suspirando.

A ruiva apontou para o chão repetidas vezes, até que ele entendesse o recado.

— Você quer que a reunião seja aqui? — ele perguntou, engolindo em seco, recebendo um aceno de cabeça em resposta — Tem certeza de que isso é uma boa ideia?

Lily deu de ombros, recostando-se ao sofá, ainda ignorando o chá.

— Está bem — Remus suspirou, antes de levantar-se da poltrona, onde esteve sentado — Mandarei uma mensagem a Dumbledore, mas é provável que alguém tenha que vigiar...

Ele deixou a frase incompleta, mas ela não precisava escutar o resto. Engoliu, sentindo como esse simples ato doía.

Quando desceu naquele porão, a primeira coisa que sentiu foi raiva por ver como Moody o tratou, deixando-o amarrado ali, batendo em seu rosto repetidas vezes. Deixaria cicatrizes, provavelmente.

Depois sentiu apreensão, enquanto o soltava de suas amarras, e deixava a comida ali. E então o choque, e ela parou de sentir. Letargia era o nome do novo não-sentimento. Era tanta dor que era como se o seu cérebro tivesse se desligado para se proteger.

Conversar sobre a morte no meio de uma guerra era um assunto quase que proibido entre as pessoas vivas, e super depressivo, mas Lily gostaria que tivessem conversado sobre isso.

O que Marlene gostaria? Ser enterrada em um dia ensolarado ou chuvoso?

Ser enterrada ou... Qualquer outra forma de despedida conhecida pelos bruxos?

Ela só sabia as flores favoritas da amiga, e que ela não gostaria que parassem as suas vidas por ela. Provavelmente, diria para que vingassem a sua morte, ainda mais sabendo quem havia a matado.

Marlene sarcástica e arisca na maior parte do tempo, mas ela já foi alegre, em um passado distante. Essa mudança de personalidade a enlouquecia, fazia-a questionar se realmente conhecia a amiga, mas, afinal, quem a conhecia realmente?

Adepta do chá gelado, desagradou-se completamente ao encostar-se no pires e perceber que estava quente. Desde o acontecimento, Arabella aconselhou-a a não consumir coisas geladas, mesmo a água deveria ser morna.

Remus afastou-se para conversar com alguém pelo espelho de duas faces, que pegou emprestado de James para facilitar a comunicação. Aproveitando que estaria livre de sua vigilância por alguns momentos, Lily partiu rumo a cozinha. Abriu a porta do freezer, de dentro da geladeira, e pegou o tablete de gelo. Mesmo sabendo que isso pioraria a dor de cabeça, pegou um dos cubinhos e colocou na boca, apreciando o frio.

— Lily!

A ruiva colocou o tablete dentro da geladeira, e fechou a porta, antes de apoiar-se no balcão.

— Eles estão vindo para cá — disse Remus, surgindo pelo batente da porta.

Lily concordou com a cabeça, passando silenciosa por ele. Seguiu o caminho até as escadas, aproveitando que estava fora de seu campo de visão para dar uma mordida no gelo.

— Eu escutei isso! — Remus disse, lá embaixo — O que você está comendo?

Lily amaldiçoou a audição apurada do lobisomem, apressando os passos para o andar de cima, como uma criança que foi apanhada fazendo uma travessura.

Precisou esperar apenas alguns minutos no andar de cima, sem receber a visita do amigo, que devia mais era estar rindo de sua atitude, antes de escutar sons do andar inferior, indicando que Remus e ela não eram mais os únicos.

Antrax não permitiu que a porta encostada permanecesse assim por muito tempo, esgueirando-se no pouco espaço que tinha para entrar no recinto.

— Teremos uma reunião, não atrapalhe — Lily sussurrou para ele, rouca, antes de começar a tossir.

— Evans? — a porta abriu-se, e Dorcas Meadowes entrou no quarto, indo rapidamente até ela, ao perceber que não parava de tossir.

Pegou um copo, que estava esquecido na mesa de cabeceira, e apontou a varinha para dentro dele.

— Aguamenti.

Quando o copo ficou cheio, ergueu na direção de Lily, que aceitou, tentando conter as lágrimas e regularizar a respiração. Abriu a boca para responder, mas Dorcas negou com a cabeça.

— Não faça isso — ela aconselhou.

Apesar disso, teimosa, Lily aproveitou que ainda tinha metade do copo para voltar a falar.

— Obrigada — a garganta arranhava, e ela afogou o próximo acesso de tosse.

Dorcas seguia observando as suas ações atentamente, mas Lily percebeu que não desviava os olhos de seu pescoço enfaixado, como se não pudesse acreditar em seus próprios olhos.

— É melhor nós descermos — ela declarou, assim que escutou outro som vindo do andar de baixo.

A casa não era grande como todas as outras, era bem simples, para dizer a verdade, mas nenhum dos convidados parecia incomodado com isto. O olho mágico de Alastor observava atentamente cada detalhe, como se estivesse esperando alguma escuta ou câmera presa à parede.

O seu olho normal fixou-se nela e, logo depois, passou para a sua barriga, o que fez com que Lily paralisasse no último degrau da escada, antes de lembrar que apenas o olho mágico era capaz de ver mais além. Tentou agir com naturalidade, acompanhando Dorcas até o canto da sala, onde a mesa de jantar ficava. Não era muito grande, mas estava servindo para abrigar a todos.

Perguntou-se internamente se o seu bebê já era possível de ser visto, e a atenção que Moody tinha nela só a deixava mais nervosa. Dumbledore tomou o assento do menor lado da mesa, e indicou o outro extremo para que Lily se sentasse, e ela teve certeza de que, pelo menos ele, sabia, mas isso não era de se estranhar.

Dumbledore sempre sabia das coisas.

Os outros membros ocuparam as cadeiras restantes, embora alguns precisaram conjurar o seu lugar. O clima estava tenso, em parte por causa dos hematomas em seu pescoço, que eram uma constante lembrança do que ocorreu a James, e em parte por causa de Dorcas.

Sendo uma das principais pupilas de Moody, ela viu muitas mortes na guerra, além de outras situações bem mais deploráveis, que tiravam a vontade de qualquer pessoa ler a sua mente. Não perdeu um olho nem uma perna, como Alastor, mas enlouqueceu completamente. Não era um perigo para as pessoas, mas estava sempre em alerta, mesmo com pessoas que não poderiam fazer-lhe mal algum.

Desde que a possibilidade de haver um espião foi implantada na percepção de todos, Dorcas tomou como uma missão interna apresentar quem poderia ser. O seu mais descabelado palpite tinha sido justamente o seu mentor, o que causou uma boa discussão que, apesar do tempo passado, não amenizou. Ela não parecia arrependida de ter sugerido isso, e Moody, que estava orgulhoso no começo da investigação, ficou profundamente ofendido.

— O foco dessa reunião é falarmos sobre James, não quero comentários sobre o espião — Dumbledore lançou um olhar diretamente para Dorcas, que cruzou os braços.

— Screw-Doe — Sirius sussurrou, ao lado de Lily, revirando os olhos.

Ele parecia estar aproveitando o fato de ela não poder falar, mas Lily ficou feliz de que ele parecia bem mais recuperado dos acontecimentos de mais cedo.

— Eu escutei, Black — Dorcas virou-se para ele, os olhos pegando fogo.

Uma possível discussão foi interrompida com a porta se abrindo.

“Screw-Doe” era um apelido que veio da cortesia dos gêmeos Prewett. “Screw-die” era o nome de um parafuso, e foi só eles escutarem Edgar chamando-a pelo apelido de escola que formaram um novo.

— Ela tem uns parafusos a menos, não é mesmo? — Lily podia lembrar do sorriso que Fabian deu, sem afetar-se pela irritação da bruxa.

James e Sirius adoraram o apelido, sempre usavam-no para referir-se a ela.

— Desculpe a demora — disse Peter, fechando a porta, antes de aproximar-se do grupo, que continuava encarando-o.

— Pensei que ficaria com James — comentou Remus.

Olhando para ele, Lily percebeu o que ele tentava esconder nos últimos dias. Ele não estava bem, e não se tratava da nova atitude James, nem da morte de Marlene. Tinha a ver com a missão dele, fosse qual fosse, e Lily decidiu que iria encurralá-lo assim que o grupo se dispersasse.

— Alguns elfos domésticos ficaram lá na casa — ele respondeu, simplesmente.

— Espero que não o deixem escapar — disse Dorcas, rudemente, olhando atentamente para ele, e Lily já sabia quem era a sua nova vítima.

— Sente-se, senhor Pettigrew — disse Dumbledore, com uma seriedade incomum.

— Professor Dumbledore — ele tentou dizer, mas o diretor de Hogwarts ergueu uma mão, pedindo silêncio.

— A captura de James Potter não agradou em nada a Voldemort — o bruxo recomeçou a reunião — E ele fez questão de demonstrar isso.

— Não há muitas coisas que o agradem — Sirius murmurou para si mesmo.

— Seja lá o que Voldemort tenha feito, foi efetivo — disse Moody.

— Só há uma maneira de descobrir o que ele fez — Dorcas pronunciou-se — Descobrimos o espião, e o obrigamos a trabalhar para a gente.

— Como? Lançando uma maldição imperdoável? — perguntou Frank, impaciente.

— Não seria uma má ideia — retrucou Moody.

— Não vamos agir igual a Death Eaters — Alice ergueu-se de sua mesa, mas logo encolheu-se.

— Ali, está tudo bem? — Frank perguntou, preocupado.

Alice não respondeu, pousando a mão na barriga, e voltando a sentar-se. Quase que automaticamente, Lily também alcançou a sua, ainda lisa, ciente de que a atenção de Moody se voltava para ela, mas não sentia a mínima vontade de ser discreta.

— Lord Voldemort é um excelente oclumente e legilimente — disse Dumbledore — Tenho algumas conjecturas do que ele pode ter feito. Mais do que nunca, devemos estar atentos. James Potter pode ter sido apenas um teste para algo bem maior.

— Então isso é péssimo, pois me parece que esse teste saiu muito bem nos planos dele — comentou Edgar, observando a superfície de um anel, rodando-o entre seus dedos.

— Acham que as pessoas que... Morreram — sussurrou Alice, olhando para os lados — Não morreram?

— Não! Eles teriam feito o mesmo com o Potter — Dorcas logo descartou a ideia — Não iam querer ser interrompidos para poder aperfeiçoar o feitiço, seja qual for.

— Mas teriam que testá-lo, certo? E não poderiam testá-lo mantendo-o por perto, com pessoas que ele aprendeu a confiar — argumentou Frank.

Remus dirigiu um olhar preocupado a Lily, que manteve seu olhar na mesa polida.

— Bem, nós só temos que recuperar a confiança dele então — disse Peter, esperançoso — E deixá-lo preso não irá fazer isso por nós.

— E você acha que gostamos de deixá-lo lá? — rosnou Sirius, repentinamente, assustando-o — Ou você não notou que ele poderia ter matado Lily, se não tivéssemos chegado a tempo?

— N-Não! Não foi o que eu quis dizer! Eu só... — Peter encolheu-se na cadeira, nervoso.

— Não podemos soltá-lo — declarou Dumbledore, pesaroso — Na primeira oportunidade, voltará para Voldemort. Precisamos arrumar uma maneira...

— Mas você só tem conjecturas sobre o que aconteceu — disse Dorcas.

— Eu averiguarei melhor — ele prometeu.

— Então estamos reunidos aqui para constatar o óbvio — Sirius deu palavra aos pensamentos frustrados de Lily.

— Não é bem assim, Sirius — Remus disse, apaziguador — Estamos tentando chegar a uma solução.

Dorcas ajeitou a sua postura na cadeira, apoiando os cotovelos na mesa.

— Certo... Está aqui o que vamos fazer — disse, decidida — Vamos confundi-lo.

— Como assim? — Dumbledore perguntou, curioso.

— Se as suas conjecturas referem-se a modificar memórias ou apagá-las, como eu entendi ser — ela começou a explicar — Precisamos encontrar um “ponto” que o faça lembrar-se. Ou entender onde que as coisas começaram a mudar, na mente dele.

— Nós o desmaiamos, e vasculhamos as suas memórias — disse Moody — Simples!

— Voldemort não o deixaria tão desprotegido — Dumbledore negou com a cabeça — Ele pode ser bem seguro de si mesmo, mas não é tolo.

— E é por isso mesmo que, se o tratarmos como um assassino, ele acreditará ser um — Peter retomou a palavra.

— Até agora você tem reclamado, reclamado e reclamado — disse Dorcas — Não apresentou uma solução plausível.

— Se o tratarmos de uma forma diferente de como trataríamos um Death Eater, ele vai se confundir — ele insistiu, usando o seu argumento anterior — Precisamos fazê-lo entender...

— Qual é a sua próxima sugestão? Trazê-lo para uma reunião da Ordem?

Peter não respondeu, fazendo com que todos os outros olhassem-no incrédulos.

— Não podemos fazer isso — Frank deu voz ao que todos estavam pensando.

— Estamos em um beco sem saída — Alice constatou — Precisamos confundi-lo, mas não podemos tratá-lo inteiramente como um dos nossos. Ele, evidentemente, não tem ideia de quem nós somos. Pelo menos, não a ideia certa.

Dumbledore levantou-se de sua cadeira, dando as costas para o grupo, olhando pensativo para o quadro pendurado na parede.

— As memórias... — ele devaneou — São a coisa mais importante de uma pessoa. São elas que definem quem nós somos. Sem elas, não somos nada. Sem elas, somos completamente manipuláveis.

Passou um de seus dedos pela superfície irregular da moldura, ainda perdido em seus pensamentos.

— Nenhum feitiço pode ser tão poderoso. Mesmo o “Obliviate” tem suas falhas.

— Mas o feitiço “Obliviate” só pode ser desfeito por aquele que o conjurou — pronunciou-se Remus — Se a pessoa morrer, a solução vai junto com ela.

— Até onde sabemos, senhor Lupin — concordou Dumbledore — Contudo, não podemos nos esquecer que feitiços não são infalíveis. E James Potter pode ter as suas memórias tiradas de si, mas continua a mesma pessoa. A conversa que tive com ele, acompanhado do senhor Pettigrew, apenas comprovou isso.

— Não está sugerindo que Lily deveria voltar para lá...? — Sirius disse.

— Se há uma coisa que Lord Voldemort nunca poderia compreender, senhor Black, — ele virou-se — essa coisa é o amor. Ele é incapaz de amar e, portanto, incapaz de entender o amor verdadeiramente. Ele o subestima, mas é a maior força que pode existir.

— É, força — Dorcas fez uma careta, olhando rapidamente para o pescoço de Lily.

— Fazê-lo se lembrar dos tempos de escola pode ajudar em algo — Dumbledore disse diretamente para os marotos ali presentes — As mortes que ele presenciou também ser úteis.

— Isso é cruel! — protestou Alice.

— Ele precisa acordar para a realidade, Longbottom — disse Dorcas — E nem sempre lembranças felizes podem fazer isso por uma pessoa. Dementadores que são bons em trazer isso à tona...

— Não vamos trazer um dementador! — Frank replicou.

— Se todos fizerem a sua parte, tudo dará certo — Dumbledore olhou para os presentes, que calaram-se — A reunião está encerrada. Sirius, Dorcas, preciso falar com vocês dois.

— Professor Dumbledore! — Peter alcançou-o primeiro, falando algo que Lily não conseguiu escutar, mas o diretor, após considerar por um momento, negou com a cabeça, decidido.

Peter parecia irritado em como as coisas não saíram do jeito que queria, sendo o primeiro a levantar-se e sair da casa. Edgar, trocando um olhar com Dorcas, decidiu ir atrás dele, para garantir que James continuava onde tinha sido deixado.

— Ele acha que, trazendo James para uma reunião, ele poderá identificar quem é o espião da Ordem — Remus explicou a ela, vendo a direção de seu olhar.

Lily levantou-se da cadeira, puxando o braço do lobisomem, que a seguiu para o andar de cima, entendendo que ela queria conversar com ele, embora não tivesse a menor ideia de qual assunto poderia ser.

Assim que chegou ao quarto que compartilhava com James, Lily desenrolou o pano de seu pescoço, sentindo como a brusquidão apenas deixava o local mais dolorido.

— Eu acho melhor você ficar com isso por mais algum tempo — aconselhou Remus, mesmo que não fizesse algo para impedi-la.

Lily derrubou propositalmente a varinha no chão, e Remus abaixou-se para pegá-la, provando o que ela já desconfiava. Ele devolveu, tentando disfarçar a dor que sentia, e cobrindo uma mancha vermelha com a mão.

— Senta — Lily apontou a varinha para ele, indicando a cama — Agora.

A sua voz estava quase que incompreensível de tão rouca, mas a mensagem era mais clara que água.

“Accio” ela apontou a varinha para uma das prateleiras do quarto, invocando uma caixa de primeiros socorros, tanto com elementos trouxas quanto bruxos.

— Senta — ela repetiu, ao vê-lo ainda de pé.

— Você não deveria esforçar-se — Remus sentou-se, fazendo uma careta.

— Você também não. Tira a camisa. E deixe de ser teimoso.

Antes de decidir conversar sobre a missão secreta, curou as suas feridas como pôde. Arranhões profundos e até mesmo mordidas, que não deixavam sombra de dúvidas sobre o que se tratava.

— Lobisomens — ela voltou a dizer, antes de pigarrear para tirar um nó inexistente da garganta — Era essa a sua missão.

— Dumbledore me pediu para não contar sobre isso — Remus olhou para a janela que tinha no quarto.

— E deixar todos acreditarem que você era o espião?

Apesar de não ter a audição apurada, como ele, Lily pôde escutar passos no chão de madeira, antes da porta se abrir.

— Lily... — Sirius parou no batente — O que é isso?

— Por que Dumbledore te chamou? — perguntou Remus, pegando a camiseta de cima do travesseiro para vesti-la.

— E a Dorcas — disse Lily, puxando Sirius para dentro do quarto, e fechando a porta.

— Ele queria que conversássemos com Regulus — ele fez uma careta — Convencê-lo a juntar-se a nós. Não entendo o porquê, eu tenho certeza de que ele já tem algum espião, além de que é perigoso demais.

— Pensei que ele tivesse sumido — disse Remus.

— E sumiu. Esse é o problema!

Lily tirou Antrax de debaixo da cama, deixando-o sentado em cima de sua perna.

— É muito perigoso — ela disse, sem conseguir parar de tentar pigarrear.

— Regulus nunca aceitaria uma coisa dessas — disse Sirius, seguro disso — De qualquer forma, é como disseram, ele sumiu. Deve estar focado em alguma missão internacional, ou algo do tipo.

Lily tinha a ligeira impressão de que não era isso o que tinha ocasionado o seu sumiço, mas manteve-se em silêncio, já tinha falado demais. Antrax arranhou o seu braço, insatisfeito, conseguindo soltar-se, e voltar ao chão.

— Carinhoso — comentou Remus, olhando para o gato.

Sirius soltou uma risada debochada, ele gostava de Antrax tanto quanto o animal gostava dele. Ou seja, nada. Era uma amizade fadada ao fracasso desde que Lily o adotou.

— Você deveria descansar, Lily — sugeriu Remus — Foi um dia... Cansativo.

— Eu preciso contar uma coisa a vocês — ela disse, os olhos fechados.

— Você nem deveria estar falando — Sirius cruzou os braços — Aliás, onde está o seu lenço? Por que você o tirou? Não deveria deixar o pescoço desprotegido! O tempo está esfriando...

— Tente viver um dia que seja sem mencionar uma palavra — Lily retrucou — É importante!

— Está ficando tarde, é melhor conversarmos amanhã — sugeriu Remus.

— Eu não queria falar isso antes de recuperarmos James, mas ele não está sendo ele mesmo nesse momento — ela não deu ouvidos a ele — Eu tenho certeza de que Moody já sabe, e Dumbledore também.

— Está bem, você está me deixando nervoso! — Sirius apontou o dedo para ela, acusador — Fale logo!

— Eu estou grávida.

Os dois ficaram em silêncio, os rostos inexpressivos, olhando para ela.

— Desculpe, eu não estava prestando atenção. O que você disse? — disse Remus, repentinamente.

“Não mate o melhor amigo do seu marido, Lily. Não o mate! James não gostaria disso” Lily pensou consigo mesma, respirando fundo.

— Eu estou grávida. De umas sete semanas — ela repetiu — E eu estava com vontade de comer gelo antes da reunião, e você quase me impediu. Então, saiba que eu vou comer o que eu quiser, e você não vai me impedir. Se você tentar, eu te azaro.

— Você estava com a garganta ferrada! — protestou Remus, abismado.

— Dane-se! Eu vou te azarar, estou te avisando — Lily apontou a varinha na sua direção, para provar que estava falando sério.

— Gelo? É sério isso? — Sirius franziu o cenho — Você não podia ter vontade de comer alguma coisa normal?

Lily olhou fixamente para o bruxo.

— Sirius, sai! — aconselhou Remus, identificando corretamente a expressão dela.

Sirius engoliu em seco, antes de sair do quarto, sem virar as costas para não ser pego de surpresa.

— Boa noite, então, ruivinha — ele disse, fechando a porta.

— Você também! — Lily apontou a varinha para a porta.

— Boa noite, Lily — disse Remus, segurando uma risada.

Beijou a sua testa, e então acariciou a barriga dela, para surpresa da bruxa.

— Boa noite, pequeno.

Antes de sair do quarto, ele dirigiu um olhar preocupado para a amiga.

— Tome cuidado, Lily — pediu — Não seja imprudente.

— Eu vou fazer o que eu tiver que fazer para que James volte — disse Lily, séria — Desculpe-me.

— Você não está sozinha. Saiba disso.

O bruxo saiu, seguindo o mesmo caminho que Sirius.

Naquele momento, finalmente sozinha, Lily deitou-se de lado na cama, sentindo-se mais só do que nunca sentiu.