Damaged Memories escrita por Clenery Aingremont, Clenery Aingremont


Capítulo 11
Capítulo 10 - Secrets


Notas iniciais do capítulo

Meu objetivo era 3 mil palavras, eu alcancei as 4 mil. Por mais objetivos assim, Senhor! Confesso que me empolguei nesse capítulo hehe
Espero que gostem ♥
Novamente: ponto de vista do James.




A única coisa que James escutava era o som dos tapas sendo desferidos em seu rosto, já que nem a dor ele ainda era capaz de sentir. O auror de rosto tão tenebroso quanto um Death Eater parecia ter uma paciência curta, mas não era qualquer auror. Era o auror mais odiado pelo meio das trevas, e James começava a entender o motivo de tanto ódio.

Excluindo o fato de ser o responsável por prisões de seguidores importantes do Lorde das Trevas, Alastor Moody era intolerante e, aparentemente, apaixonado em usar diversos métodos para conseguir as informações que queria. Ele sequer esperava que James o respondesse, o que fez o homem pensar que o auror não era nada inexperiente.

Em uma outra situação, ele já teria aproveitado as pequenas brechas para debochar e irritar o homem mais ainda, embora fosse uma reação considerada suicida. Contudo, as cenas do último assassinato não saíam de sua cabeça. Por algum motivo, a morte de Marlene McKinnon o incomodou profundamente.

Sentia como podia permanecer ali por horas, na mesma posição, sendo esbofeteado sem cansaço, das mais diversas formas, sem ser capaz de manifestar qualquer sentimento ou reação além da letargia que o assolava.

Contudo, ele não precisou ficar muito tempo naquela situação, apesar de não incomodar-se realmente por isso.

Depois de algumas horas, passos foram escutados, descendo as escadarias do porão de uma casa que James não tinha ideia de onde se tratava, embora lhe fosse, de alguma forma, familiar.

— Alastor, creio que já é hora de dar uma pausa.

Assim que James viu os novos visitantes, sentiu a sua mandíbula trincar de ódio.

Albus Dumbledore ia à frente, acompanhado de um Peter Pettigrew recuado. Ele não estava de algemas, e parecia relativamente confortável com a companhia do diretor, exceto pelo olhar que James o dirigia, não podia acreditar no que os seus olhos viam.

Ele era um traidor.

E o mais velho não parecia de todo repreender a atitude do seu velho amigo auror. É claro que não seria, estava tratando com um Death Eater, um assassino.

De alguma forma, esse pensamento incomodou profundamente a James.

Mas por quê?

Era isso que ele era, não?

— James... — Charlus parecia sentir-se culpado por algum motivo que não lhe vinha à mente.

— Não! — ele interrompeu-o, irritado — Eu não quero ouvir nem mais uma palavra da sua boca!

— James Charlus Potter, não seja grosseiro com o seu pai! — Dorea repreendeu-o.

A visão de sua mãe, embora soubesse que era apenas uma memória, foi o suficiente para fazê-lo sentir-se mais calmo, mas o James da lembrança não acalmou-se como ele, apesar de ter hesitado.

— Eu odeio a sua profissão! — ele disse, rispidamente — Você nunca tem tempo para nós.

— Você sabe que isso não é verdade, Jay — Dorea tentou apaziguar a situação.

— É sim! Eu queria ser um Death Eater. Quem sabe, assim você me daria um pouco de atenção. Quem sabe, assim eu poderia passar um tempo com o meu pai.

A memória finalizou no momento em que ele sentiu uma queimação em seu lado esquerdo do rosto.

James piscou por um segundo, confuso, acreditando ter sido uma despedida de Alastor, que já não se encontrava lá, mas a dor não era sentida como as outras. O seu pai lhe bateu. Ele sentiu o estômago afundar. Oh! Agora ele sabia como o seu pai se sentia sobre isso, embora já desconfiasse. Um auror nunca aprovaria um filho se bandeando para o lado das trevas.

Por algum motivo, esse pensamento só fez com que um gosto ruim se instalasse em sua boca. Naqueles momentos em que ele não fazia ideia do que estava fazendo de sua vida.

Bastaram cinco minutos de silêncio para ele situar-se onde estava, voltando à realidade, e percebendo que Dumbledore parecia avaliá-lo de cima a baixo, do fundo de seus olhos até o mais superficial. Imediatamente, ele levantou um escudo mental, pensando que, talvez, estivesse usando legilimência contra ele.

O bruxo não pareceu sobressaltar-se, mas era um ótimo ator, então James não tomou isso em conta para avaliar a sua atual situação. Era como se esperasse que ele iniciasse uma conversa, o que seria grande estupidez de sua parte.

— Boa tarde, James — por fim, ele disse.

Sem resposta, como já era esperado.

Pettigrew equilibrava o peso de seu corpo entre os pés, em intervalos de tempo tão pequenos que parecia estar segurando-se para não urinar ali mesmo.

A temperatura do porão pareceu descer uns bons graus.

— Você tentou salvar Marlene McKinnon — disse Dumbledore, depois de medir as suas palavras por mais um tempo.

— Cuidado!

A sua própria voz ecoou entre seus pensamentos, como se estivesse tentando lembrá-lo do quão estúpido tinha sido. Afinal, ele não parecia a melhor pessoa para declarar o que é estúpido ou não.

— Por quê? — perguntou Dumbledore.

— Atacar pelas costas é covardia — James disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

A sua resposta só pareceu deixar Pettigrew mais incômodo, e ele podia jurar que via algumas gotas de suor transparecerem pela pele pálida do bruxo.

— Não é o tipo de coisa que um Death Eater diria — Dumbledore pressionou, tranquilamente.

As palavras ditas soavam todas como uma mentira, um enigma que, por mais que James se esforçasse, não conseguia desvendar. Ele apenas deu de ombros, sem querer realmente conversar com o diretor.

— Eu diria que é um princípio nobre de um Gryffindor.

James segurou-se para não revirar os olhos, que afirmação mais óbvia. Dumbledore não dizia mais nada, aparentemente esperando a sua reação com essa frase. Parecendo ver algo além de sua compreensão, ele voltou a falar.

— Exceto pelo fato que você assassinou crianças antes...

— Eu não assassinei crianças — James disse, sem conseguir controlar-se.

— Não? — perguntou Dumbledore, calmamente — Acredito que você conheça essa garotinha...

Antes mesmo da foto ser mostrada, James já sabia de quem se tratava.

— Ariella Oris. Ela estava em um vilarejo...

— Cale a boca — ele murmurou, não querendo escutar mais nada.

— ...que foi atacado por seus colegas, Death Eaters — Dumbledore fingiu não escutar o seu pedido — Ela foi encontrada...

— O que foi, Peter? O seu coração amoleceu?

— Eu sei como ela foi encontrada! — James gritou, e debateu-se na cadeira, assustando a Peter, mas o outro não abalou-se.

— Os outros dariam qualquer coisa para encontrar essa garotinha linda aqui...

— É claro que sabe. Foi você quem fez isso, não é mesmo? Você a matou!

— Imagine só se Greyback encontrasse essa garotinha... Seria bem pior.

— Eu não a matei! — gritou James, sentindo um desespero insano dominar cada poro de seu corpo — Eu só... Eu só lancei um feitiço... Um feitiço de...

— Que sorte que somos nós.

— Um feitiço que matou-a — Dumbledore inclinou-se em sua direção, e ele negou-se a olhar a sua expressão, desejando que ele não fizesse isso — O seu feitiço corroeu o rosto dela. Ela foi levada ao St. Mungos, mas isso não foi o suficiente. Ácido mata.

— Aonde você vai, Prongs?

Ele esperava que a memória continuasse com ele confrontando Peter, tal como ocorreu naquele vilarejo. Contudo, a memória modificou-se imediatamente. Não era mais Peter quem dizia isso, e sim Sirius Black.

— O que você colocou? — James perguntou, piscando os olhos com força, e vendo como Dumbledore fazia menção de sair da sala.

— O que disse? — o bruxo perguntou, o que só o enfureceu ainda mais.

— O que vocês injetaram em mim?

— Não sei do que está falando. Nós não injetamos nada, James.

Pelo modo como falou, o diretor dava a entender que nunca fazia isso, o que quase fez com que James jogasse a cabeça para trás, gargalhando.

— Com licença. O Ministério da Magia me espera — Dumbledore declarou, antes que ele abrisse a boca mais uma vez — Querem saber o que fazer com Bellatrix Lestrange.

O homem saiu da sala, sem estranhar o fato de Pettigrew não segui-lo, enquanto que James ficava paralisado. Ele não era o maior fã de Bellatrix, mas seria uma perda imensa para o Lorde das Trevas.

— Pro... — Pettigrew aproximou-se dele, parecendo um pouco mais calmo com a saída do bruxo.

Ele assustou-se, quando James debateu-se, tentando sair de seu lugar na cadeira para alcançá-lo.

— Seu traidor! Traidor! — ele gritou.

Pettigrew arregalou os olhos, o seu rosto ficando branco.

— O quê? Do que você está falando, James? — o rato olhava para o teto, nervoso que escutassem-nos.

— Você traiu o Lorde das Trevas! Você o traiu! Seu traidor! Você é um maldito de um espião! — James continuou gritando, sentindo a garganta começar a arranhar.

— Milorde, não seria melhor disseminar os ideais todos de uma vez? — ele escutou Bellatrix perguntar, e tentou lembrar-se de quando que esse diálogo ocorreu.

— Está questionando as minhas decisões, Bella? — a voz fria de Voldemort respondeu, fazendo um arrepio percorrer por sua espinha.

— É claro que não, milorde — a sua mais fiel seguidora apressou-se a responder.

O silêncio perdurou, e ele esperava para ver se ela seria castigada.

— Se quer saber, uma única memória será o suficiente — ele disse, desinteressado — Quando ver que protegem àquela a quem mais odeia, um lobisomem e um traidor do sangue, será o suficiente.

— Sim! Eu sou um espião! — Peter gritou, aliviado — Mas não do jeito que você está pensando! Eu...

Ele olhou novamente para cima, antes de diminuir o tom de voz.

— Certo. Quando saí de Hogwarts, eu já era um Death Eater, e milorde disse para que eu me infiltrasse na Ordem. Dissesse todos os nossos passos para ele — ele explicou.

— Espião duplo? Você passa informações a Dumbledore? — rosnou James.

— O quê? Nunca! — Peter arregalou os olhos, horrorizado.

— Porque tem um espião entre os Death Eaters. A Ordem sempre descobre os nossos passos.

Peter parecia pensativo.

— Eu vou te colocar dentro de uma reunião — ele decidiu, sombrio.

— E como planeja fazer isso? — perguntou James, franzindo o cenho.

— Deixe comigo! A questão é que vou te provar que não sou espião duplo, a minha lealdade é somente a um lado. Se eu fosse espião duplo, seria homem de confiança de Dumbledore, e não sou. Você verá isso na reunião e, talvez, descubra quem está fazendo isso.

James pareceu um pouco surpreso por tal plano ter vindo de Peter, mas logo recompôs-se.

— Pode ser — disse, dando de ombros, mas logo cerrando os dentes pela dor que o atingiu.

— Eu preciso subir agora — Peter declarou, por fim, olhando ligeiramente nervoso para ele — Provavelmente, alguém virá aqui mais tarde curar essas feridas.

— Não adiantará — retrucou James.

Com essa simples frase, ele referia-se tanto às feridas quanto à reunião.

— O Lorde das Trevas não deixará isso impune — Peter disse, seguro — Você e Bellatrix, os dois serão...

— Bellatrix! — James quase pulou da cadeira — Você precisa se certificar...

— Não se preocupe! — ele repetiu.

O bruxo abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas passos desceram as escadarias, e ele decidiu ficar calado.

— Peter, o que está fazendo aqui? — perguntou Frank Longbottom, intrigado.

— Você não quis ficar em casa com Alice? — Peter não respondeu.

Frank ficou mudo, mas seus olhos deixavam claro o seu desconforto.

— Dumbledore... — ele limpou a garganta ruidosamente — Pediu para que eu cuidasse... Bem...

— Ah! Certo! — Peter olhou estranho para ele — James está bem. Acredito que não há necessidade de deixá-lo sob vigília vinte e quatro horas por dia. Como confiará em nós assim?

— Eu não iria — disse Frank, tranquilamente — Só vim trazer umas poções para consertar a burrada de Moody.

— Eu não preciso da pena de vocês — James cuspiu, sem conseguir conter-se.

O auror lançou um olhar triste para ele, mas não respondeu.

— Eu cuido disso — disse Peter.

— Fico feliz que ele confie em você — comentou Frank, entregando as poções para ele — Vamos resolver sobre hoje mais tarde.

— Certo...

O homem despediu-se, e saiu, apenas com um aceno de Peter.

— Cheira! — ele abriu o pote da poção, e colocou-a sob o nariz dele — Não está envenenada, como pode perceber.

James não pareceu convencido, mas não lutou quando o frasco foi oferecido a ele. Como estava de braços e pernas amarradas, precisou da ajuda do parceiro de missões, e ele logo sentiu o alívio da dor.

— Eu vou ver se consigo que te liberem daqui também — prometeu Peter.

— Eu preciso ficar sozinho, por agora, mas obrigado — murmurou o outro.

Não demorou muito para que o espião saísse do porão, deixando o bruxo com os seus pensamentos.

— Será o suficiente. Uma única memória será o suficiente.

Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, sentindo o começo de um torcicolo. Aquela posição não era nada favorável.

De qual memória ele estava falando?

Essa conversa era real?

Drogaram-no enquanto ele estava... Não, ele não esteve desacordado.

Ele lembrava-se perfeitamente da ordem dos acontecimentos.

Assim que Marlene McKinnon foi atingida pelo feitiço verde, Bellatrix foi contida pelos aurores, ela gargalhava, e ele foi aparatado para fora da casa. O corpo de Marlene ficou lá, nos braços de Sirius, que não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Por um momento, ver aquela cena despertou algo em si. Desde então, não parou de ter memórias estranhas, as quais não se lembrava.

“Mas isso já aconteceu” o seu subconsciente lembrou-lhe “Desde que você acordou”.

Ele sempre dizia “acordar” quando ele despertou confuso, após um ataque que Bellatrix disse ocorrer, mas ele não lembrava-se dele. Por que “acordar”? Ele acordava todos os dias e, no entanto, era como se aquele acontecimento fosse o mais relevante de sua vida até então, o momento mais realista.

Onde ele sabia o que estava acontecendo.

— James! Eles estão te manipulando! Eles te enfeitiçaram! Você não é assim!

Oras, não passava de uma tentativa frustrada de não morrer.

Ela só estava enrolando-os, sabia que a Ordem não demoraria a chegar.

Então, por que James não conseguia acreditar nas próprias conclusões? Por quê?

— Eu não sei se servimos de algo, mas eu deito na minha cama à noite com a consciência tranquila. A tranquilidade de que eu não matei alguém e, se matei, não passava de um assassino asqueroso.

Tranquilidade? Ele podia dizer o mesmo? A sua consciência estava tranquila?

Após saber que Ariella Oris estava morta, ele já não tinha tanta certeza.

Mas ele não tinha se importado no dia. Tinha? Então, por que agora?

Se não estivesse amarrado, com certeza levaria as suas mãos à cabeça, apertando cada fio de cabelo que encontrasse, arranharia, arrancaria... Tudo isso para compreender, para ver se ativava alguma área de seu cérebro que estava sem trabalhar, oculta.

“Assassino asqueroso”. Era isso que ele era?

— “Boa pessoa por natureza”? E o que define a bondade e a maldade? Acham mesmo que vocês, da Ordem da Fênix, estão acima de tudo?

Ele queria focar no que Bellatrix disse, tornar isso a sua verdade universal.

O que a Ordem da Fênix sabia? O que poderiam dizer sobre eles?

Contudo, ele focou-se em Marlene, novamente. Ele não conseguia explicar o que sentia ao escutá-la falar sobre ele, como se conhecesse o mais fundo de sua alma. “Boa pessoa por natureza”. Ela o considerava bom, mesmo sabendo que era um Death Eater? Que tipo de pessoa chegava a um Death Eater, um assassino, como ela disse depois, e dizia algo sobre isso?

Inclusive, “assassinos asquerosos” ela tinha dito. O quê? Ela não o incluía?

James tentou puxar qualquer memória de missão em que deram de cara com a Ordem, em que ela estivesse inclusa, e ele matava alguém, só para provar o seu ponto, mas ele não conseguia lembrar de coisa alguma. As suas memórias pareciam só querer aparecer no momento em que ele menos precisava.

Ou, talvez, quando ele tinha contato com pessoas de quem não gostava.

“Parece que as memórias ruins são mais fortes que as boas” pensou James, olhando para um canto do porão.

Pelo menos, não estava empoeirado. Ele não tinha alergia, mas aquele seria o cúmulo de seu cárcere. Nem mesmo Azkaban devia ter celas empoeiradas.

Isso, talvez, mostrasse que o dono da casa era um bruxo sangue puro. As casas costumam ter feitiços especiais para manter a casa em ordem, mesmo que fique desocupada por um tempo. Feitiços ou elfos domésticos.

Eram tantos “talvez”, James odiava não ter certeza sobre o que o rodeava.

— Eu pensei que sua irmã te odiasse — ele disse, friamente, assim que viu uma cena amável entre irmãs.

— E você acreditou nisso? — Lily levantou uma sobrancelha, olhando-o quase debochadamente.

Eles estavam parados à frente de uma das portas de saída do longo trem, sem incomodarem-se com o fato de estarem atrapalhando o fluxo de alunos. Contudo, quando James viu Sirius e Remus aproximando-se, ele afastou-se, segurando a sua vontade de gritar com a garota.

— Peter, posso ir com você? — ele aproximou-se do amigo, já que não tinha para onde ir, basicamente.

— Claro! — o garoto parecia maravilhado com a ideia.

Ele já sentia-se exatamente como naquela época. Impotente, sem ter para onde fugir, sem saber em quem acreditar. E se cada coisa que já escutou não passava de uma mentira? Estava cansado de ser manipulado, e o pior era não saber quem estava por trás de tudo.

Ou ele sabia?

— Eu gosto dessa garota! — Dorea sorriu carinhosamente para o filho, vendo como Lily Evans juntava-se à sua família.

— Eu também gosto — ele respondeu, sorrindo.

— Ela parece ser uma ótima pessoa! — disse Charlus, também olhando para ela.

— E ela é.

Sua mãe nunca errou quando conhecia uma pessoa, mesmo que de vista. Ela tinha um sexto sentido maravilhoso. Por muito tempo, ele pensava em como era possível que um simples erro pudesse cometer tantos estragos.

Mas ela errou?

Já estava havia horas ali, mas não conseguia pegar no sono. Em muitas missões para Voldemort, precisou ficar acordado por uma noite inteira. Se não tivesse conforto, passaria a noite em claro. Talvez o mandassem uma poção do sono, para que não tentasse uma fuga ou coisa do gênero.

Se fosse uma casa usada apenas para reuniões, o que ele descobriria muito em breve, não teria quem o vigiasse, mas ele duvidava que isso ocorresse. Talvez a reunião daquele dia seria, justamente, para decidir rondas pela casa.

Dumbledore e seu complexo de Hogwarts...

Tentou lembrar-se, mas não conseguia, quando tentava colocar-se no lugar dos estudantes atuais. O diretor não ausentava-se tanto em seu período escolar. Exceto, é claro, quando o desastre aconteceu, e ele precisou, mais do que nunca, conversar com ele. McGonagall devia tê-lo alertado, e ficaram ignorando-o até o final do ano letivo.

Depois ainda tiveram a coragem de querê-lo em sua Ordem da Fênix.

Peter foi sábio, decidindo ficar dos dois lados da guerra. De Gryffindor, ele nada tinha.

Estava muito tempo imerso em seus pensamentos, quando escutou passos pela escadaria novamente. Ele nunca via uma luz extra, talvez para que evitassem que ele soubesse a posição da porta. De certa forma, gostava daquele silêncio e escuridão, dava um espaço para ele pensar, mesmo que não ajudasse na noção de dia e noite, dava para ele dormir quando quisesse.

Quando a pessoa surgiu por trás dele, percebeu que podia haver mais de uma entrada, ou o feitiço servisse para confundi-lo, quase como um departamento de mistérios.

Essa pessoa não pronunciou-se, ele só pôde escutar a sua respiração descompassada, até o momento em que parou em sua frente.

Lily Evans trazia uma bandeja, e conjurou uma mesa para deixar.

Sua mente estava em branco, ele não conseguia reagir nem falar, apenas olhá-la.

— Eu vou te soltar agora — a ruiva disse, e ele notou que ela não mudou com o passar dos anos — para que você possa comer.

Ela voltou para trás da cadeira onde ele estava, e tocou a varinha tremulante para a corda, que soltou-se imediatamente.

A casa estava silenciosa, e James temeu. A marca negra não estava no céu, mas seu pai, como um auror, tinha muitos inimigos, e não precisavam seguir a Voldemort para querer vingar-se.

— Pai? Mãe? — ele sentiu o coração bater fortemente contra o seu peito, o pressentimento de que algo de ruim estava acontecendo.

Ele passou por todo o primeiro andar em segundos, sem resultados. Então, olhou para a escadaria, vendo um braço caído ao topo. O estômago embrulhado, ele pulou de três em três degraus, mas preferia ter adiado ao máximo a visão.

O corpo morto de sua mãe, os olhos vidrados no teto, sem realmente vê-lo, a palidez em seu rosto, a falta de expressão.

Encontrou o seu pai também, em seu escritório, confirmando ainda mais suas suspeitas de que era alguém que queria vingar-se de sua família. Era como se a alma tivesse deixado o seu corpo, ele não sentia dor nem nada, parecia que tinha sido atingido por um Imperius, talvez por fazer tanto tempo.

Quando desceu as escadas, viu um movimento pela janela. Lily Evans corria para fora da propriedade. O que Evans estaria fazendo ali, se estava em sua casa para o funeral da avó?

Uma de suas principais teorias era que ela colaborou com Snape, o que só fazia o seu ódio pelo homem aumentar mais ainda, só que não tinha provas. Não poderia matar um companheiro sem sofrer as consequências por Voldemort. Agora, ele estava perto o suficiente da Ordem da Fênix, como nunca esteve antes, e poderia desmascarar todos aqueles hipócritas.

Quando saiu de suas memórias, conseguindo focar-se na situação em si, ele estava passando as mãos pelos pulsos, mas Lily Evans não tinha saído do porão ainda.

Ela soltou-o e permaneceu ali.

Ele podia não ter uma varinha, mas ela cometeu o maior erro de todos. Abaixou a sua guarda.

Quase contra a sua vontade e consciência, tão rápido como um apanhador indo de encontro ao pomo de ouro, ele lançou-se na direção da bruxa desprevenida. Ela ainda tinha a varinha em mãos, pelo feitiço de soltar a corda de seus pulsos, mas deixou-a cair pela surpresa, arregalando os olhos.

O feitiço da sala não permitia-o ver a dimensão de onde estava, mas, às cegas, Lily Evans descobriu por ele onde ficava a parede.

Uma mão não era o suficiente para o que ele queria fazer, e ele logo apoiou a outra em volta do pescoço fino e esbranquiçado da mulher.

— James! — ela ofegou, tentando soltar-se.

— Você não deveria ter vindo aqui — ele disse, tranquilamente — Eu te avisei...

Assistiu quase como um telespectador, e não o ladrão de oxigênio, como a cor deixava o seu rosto, prazerosamente, e ela desvanecia por entre os seus dedos.

Contudo, antes que o seu joelho perdesse a sustentação de seu peso, e o corpo amolecesse, James foi atingido por um feitiço. Eles não seriam estúpidos de lançar um feitiço Flipendo, já que ele poderia levá-la consigo, e isso seria fatal. Um feitiço paralisador também de nada adiantaria.

— Confundus!

Mesmo escutando o feitiço, ele diminuiu a pressão sobre os dedos, sem entender o que estava acontecendo, e o porquê fazia aquilo. Se duvidar, nem sabia quem ele era.

— Destruccio!

Ele soltou o pescoço de Lily no mesmo instante, sentindo uma dor imensa em seu braço. Ele conhecia perfeitamente bem aquele feitiço. Em alunos marotos e inexperientes, quebrava um nariz. Em aurores, quebrava uma perna ou um braço.

Reconheceu Remus Lupin, o lobisomem, correndo na direção da ruiva caída no chão. Foi difícil, já que o bruxo estava com o rosto e todo o corpo machucados, provavelmente foi ferido pelo que causou na visita de Voldemort ao seu bando.

— Quando ver que protegem àquela a quem mais odeia, um lobisomem e um traidor do sangue, será o suficiente.

— Lily! Lily! — ele deu leves tapinhas em seu rosto.

Sem resposta, apontou a varinha em direção ao seu rosto, e sussurrou uma série de feitiços. James só pôde reconhecer dois:

— Anapneo! Aguamenti!

Assim que o último feitiço foi pronunciado, ela abriu os olhos, que estavam avermelhados. De onde estava, pôde reconhecer as marcas roxas de seus dedos bem marcados no pescoço da bruxa.

— Vamos, Lily! — ele disse, carinhosamente, tentando levantá-la.

Sem sucesso, mesmo com o apoio de Kingsley, eles decidiram levá-la com um Mobili Corpus. Não olharam para ele uma única vez, enquanto levavam-na, parecendo o suficientemente chocados com a situação.

James foi deixado sozinho, sem sequer amarrarem-no novamente, o que ele estranhou.

Tentando olhar nos olhos dos presentes, eles evitavam-no, como se não existisse, parecendo temerosos, o que era um milagre, considerando que muitos ali eram aurores. Pareciam reconhecer o Death Eater por trás do prisioneiro.

Seu estômago implorou por comida, já que não parou para tomar café da manhã e nem teve oportunidade de almoçar, mas ele só deu atenção à bandeja para jogá-la em uma parede, furioso. Seu rosto suava, e ele passava uma das mãos (já que a dor do outro braço era profunda demais para isso) repetidas vezes nele, para tentar acordar de seu torpor.

— Eles não vão me envenenar! — sussurrou para si mesmo — Não vão!

Ele virou-se para o lado em que ele acreditava terem ido.

— Não vão! — gritou, e teve certeza que, apesar de todos os feitiços, eles puderam escutá-lo.



Notas finais do capítulo

Sobre essa cena da asfixia: pensei em parar sem que ela fosse socorrida, confesso, mas estou louca para voltar a escrever o ponto de vista da Lily. O que não impedia, mas é bem melhor pelo ponto de vista dele, esse tipo de cena. Outra coisa sobre essa cena: eu lembrei muito de Hunger Games (Jogos Vorazes). Quem é fã, sabe do que estou falando ;)