AMORES VIRTUAIS escrita por Projeto Literário ColetâneaS, Georgeane Braga, Nicoly Simarque, Hanna Martins, Piper Palace, Sr Devaneio, itsmemare, arizonas, Danna Collins, Amauri Filho, Sabrina Azzar, Leeh, Natasha Alves


Capítulo 8
Conto 8 - Último Romance


Notas iniciais do capítulo

Fala aí, minha gente cheirosa!

Pra quem não me conhece, sou a arizonas. Faz muuuuito tempo desde a última vez que participei de qualquer projeto de fanfics originais, então estou muito feliz de estar trabalhando com os autores maravilhosos que fazem parte dessa coletânea. Gratidão pela Georgeane Braga por idealizar essa nossa "festa", e um muuuito obrigada, de coração, à nossa beta Lê.

Aviso aos navegantes: Como podem perceber, o conto não é muito comprido. Os personagens não estão cheios de muita análise psicológica. Quis que a essência dessa pequena história estivesse na sutileza das palavras. Espero ter conseguido :)

Sinopse do conto: Era da natureza de Jamie não se apegar a nada. Quando ele se apega rápido demais a uma moça chamada Ava, por e-mails, ainda por cima, ele sabia que tudo iria mudar.

Classificação: +13 (mas provavelmente tô exagerando)

Trilha Sonora: Último Romance - Los Hermanos. Os trechos em itálico durante a narrativa são da mesma música.

Boa leitura! :)




 

Eu encontrei-a e quis duvidar, tanto clichê, deve não ser

 

Jamie não se apegava a nada.

Tendo crescido órfão no sistema de adoção, não havia muitas coisas que pudesse chamar de exclusivamente suas. Roupas, brinquedos, cobertores, comida e até mesmo sua cama tinham de ser divididos, com uma, duas, três ou mais crianças tão necessitadas quanto ele. Mesmo depois de ser adotado aos oito anos, manteve seus hábitos, o que deixava os pais — abençoados fossem o Sr. e a Sra. O'Donoghue — ambos maravilhados e preocupados.

Apesar de o cachorro que corria no quintal na casa — um pouco grande demais — ser seu, o robô de plástico que emitia luzes no baú cheio de outros brinquedos ser seu, as vestimentas cheirosas e bem passadas que a mãe comprava para ele sempre que tinha a chance serem suas, ele não se sentia dessa forma. Era como se estivesse pegando tudo emprestado, acumulando dívidas que Deus sabe quando iria pagar. E como estava acostumado demais a ser devolvido, resolveu que com os O'Donoghue não seria diferente. Logo se cansariam dele, e ele voltaria para o orfanato. Nada mais lógico do que tratar de não gostar demais de sua família nova os suas coisas.

No entanto, foi diferente. Os anos se passaram muito rápido, mas o amor do Sr. e da Sra. O'Donoghue, que ele aprendeu a chamar de pai e mãe sem um incômodo lhe fechar a garganta, apenas aumentou. Foram os seus pais adotivos que colocaram moedas debaixo do travesseiro depois de todos os dentes de leite perdidos, foi o Sr. O'Donoghue que lhe ensinou a andar de bicicleta e a cortejar uma garota bonita da escola, e foi a Sra. O'Donoghue que escolhia seu corte de cabelo e o consolava depois de cada um de seus pesadelos, até mesmo quando ele ficou muito velho para tê-los. Ambos aplaudiram orgulhosos na sua formatura do colegial, e choraram saudosos no dia em que ele foi embora para a faculdade.

Hoje, ele era feliz, o garotinho órfão inseguro há muito tempo enterrado num canto cinza de sua memória. Para o desgosto de sua mãe, no entanto, alguns hábitos não desapareciam. Jamie tinha a sua cota mensal de garotas que chegavam no seu apartamento na sexta-feira e iam embora no sábado de manhã sem saber o nome dele e com um número de telefone falso nas mãos.

Ele não se apegava. Nada era verdadeiramente seu.

E era por isso que não entendia o que estava acontecendo com ele.

Fazia mais ou menos um ano desde que se inscrevera em um programa de amigos por correspondência, o conhecido You've Got Mail. Jamie sempre gostara de escrever, e no início, lhe pareceu interessante se comunicar por e-mail com uma pessoa aleatória que podia estar tanto do outro lado do globo como do outro lado da calçada. Assim que pagou a taxa de inscrição, foi pareado com uma garota de sua idade chamada Ava, e desde então, bem, ele tinha se apegado.

Ele sabia quando os e-mails dela iam chegar, conhecia a rotina dela, a hora em que chegava em casa e a hora em que ia dormir. Sabia que sua cor preferida era amarelo, mas não amarelo ovo, um amarelo suave do céu de fim de tarde. Ela gostava de sorvete de chocomenta, apesar de ninguém gostar de chocomenta, e seu nome do meio era Michelle. Ela tinha uma cicatriz no lábio inferior por ter lambido a tampa de uma lata de leite condensado aberta quando era pequena, seu escritor preferido era Fitzgerald e, meu Deus, ela era simplesmente a coisa mais linda que Jamie O'Donoghue já havia visto em toda a sua vida.

Todos conheciam Ava, desde sua mãe até seus amigos na faculdade. Todos o provocavam sobre, o que lhe deixava bem constrangido, mas ultimamente, apreensivo. Já fazia um ano que se comunicavam, mas nenhum dos dois havia mencionado qualquer coisa sobre se conhecerem pessoalmente. Ava morava em Londres, onde cursava Veterinária (puta merda, ela podia ser mais perfeita? Ele achava que não) o que fazia da distância um problema. Sempre que pensar nela se tornava doloroso, ele demorava um pouco mais para escrever o e-mail do dia e dedilhava as cordas de seu violão, procurando em vão palavras para descrever Ava Herondale.

Naquela noite, todavia, ele sabia que as coisas iriam mudar. Ele ia se certificar disso.

Tinha voltado um pouco tarde demais para o seu apartamento depois de um show animado no bar indie preferido de Harvard, o Patinho Feio. Jamie não sabia o porquê do nome, mas o deixavam cantar todas as quintas-feiras, e ele ganhava uma boa comissão. Para a preocupação dos pais, Jamie sempre quisera uma carreira na música, sabendo que não seria feliz de outra maneira. Por mais que demorasse a crescer no ramo, ele não se importava. Havia demorado oito anos para encontrar uma casa; podia esperar uma eternidade para achar o sucesso.

Estava um pouco alto da tequila que tomou com Robin e Gerry, seus melhores amigos do Direito após o show, e talvez fosse justamente a coragem líquida que precisava. Deitou-se na cama de solteiro, abriu o laptop e o e-mail e começou a digitar. Normalmente, levava tempo com palavras cheias de floreios e conferia a correspondência quinhentas vezes antes de enviar, mas não hoje. Aquilo pouco importava.

De: jamieodonoghue19@gmail.com
        Para: avabearhh@gmail.com
        Assunto: PRECISO TE VER

Oi, Ava.

Espero que o assunto do e-mail não te assuste. Estou MEIO bêbado e sozinho e minha garganta ‘tá ardendo por causa do show, e não tenho muitas certezas agora além de uma: Eu quero te ver.

Já te conheço, mas quero conhecer mais. Mas não assim. Quero ver você, abraçar você e olhar nos seus olhos. Posso ir para Londres, se quiser. Só me diga em qual fim de semana pode me receber, eu pulo no próximo avião e vou direto pr’aí. Desculpe jogar tudo assim num e-mail só de uma vez, mas faz muito tempo que queria te pedir isso, e ‘tô nervoso, e acho melhor eu dormir agora.

Esperando sua resposta,

Jamie.

Apertou o botão 'enviar' antes mesmo que pudesse se arrepender, fechou o laptop e caiu nos travesseiros com um suspiro satisfeito. A tequila o esquentava por fora, e a perspectiva de que pudesse ver Ava num futuro próximo, por dentro. Usou seus cachos louro-arruivados como cortina para a luz do poste que passava diretamente pela sua janela e dormiu como uma criança.

 

E ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim

 

Os lábios dela eram quentes e doces, uma mistura de algum drink caro demais do bar do hotel com uma pasta de dente de qualquer supermercado. Os cabelos longos e loiros — ou seriam ruivos? Ele não sabia dizer, o quarto apenas uma penumbra — se enroscavam no zíper do vestido colado de couro preto, o que apenas aumentou a pressa dele.

Ela afastou-se dele com um riso de criança e lambeu os lábios enquanto cuidava do zíper ela mesma. Ele procurou os olhos dela, queria olhar neles. Eram azuis. É claro que eram azuis. Não importava mais o zíper, ou o vestido. Ela voltou a beijá-lo, e os dois se despiram, e encontraram prazer entre lençóis brancos e beijos desleixados.

Jamie deixou-a no dia seguinte, aquela garota sem nome, aquela moça bonita de olhos azuis e cabelos lisos, mais uma fã obcecada, nada parecida com a mulher de seus sonhos. Não era a primeira vez que a procurava nos braços de outra - e não seria a última. Ava Herondale ainda era uma ferida aberta em seu peito que nem mesmo o sexo mais alucinante podia curar.

Já fazia dez anos.

Hoje, não havia ninguém que não soubesse quem era Jamie O'Donoghue e que não conhecesse pelo menos duas músicas de sua autoria. Ele fazia o que amava, cantando e tocando para encantar os ouvintes, e nesse aspecto, era feliz. Seus pais ainda estavam vivos e bem, graças a Deus, e tinha bons amigos, tanto do ramo quanto da faculdade. Jamie era feliz.

Já fazia dez anos, e não havia um dia que não pensava naquele antigo endereço de e-mail.

 

Eu encontrei-a quando não quis mais procurar o meu amor

 

Ava Herondale era incrível.

Jamie sempre quisera visitar Londres, mas desde que saíra do aeroporto, pouco prestou atenção às paisagens e pontos turísticos passados pelo táxi. Pouco importava que suas roupas eram finas demais para o frio severo do inverno, não ligava para a fortuna que iria gastar no quarto de hotel. Todas as consequências daquela viagem pareciam um preço muito pequeno para ele pagar.

Checou o celular logo antes de chegar ao Starbucks no qual haviam combinado de se encontrar. Havia um e-mail dela.

De: avabearhh@gmail.com
        Para: jamieodonoghue19@gmail.com
        Assunto: A RAINHA DESEJA BOAS VINDAS

Bem, não a Rainha literalmente, mas eu desejo, o que é basicamente a mesma coisa.
Ansiosa pra te ver.

Ava.

Assim que ele a viu sentada em uma mesa redonda pequena de dois lugares parecendo uma boneca, seu coração quase saltou para fora da boca. Fazia parte do regulamento do You've Got Mail não trocar fotos, mas ele sabia que era ela, com sua pele cor de avelã, os cabelos crespos envoltos por uma faixa vermelha como o seu cachecol, os lábios carnudos levemente agraciados pela cicatriz cuja origem ele conhecia tão bem.

Não teve tempo de se preocupar com uma insegurança tola de se ela o reconheceria. Assim que entrou, seus olhos âmbar se iluminaram com um reconhecimento que apenas uma alma gêmea poderia ter. A moça de pouco mais de um metro e cinquenta levantou-se da cadeira como se pegasse fogo, e o abraçou como se o tivesse esperado por toda uma eternidade.

Segurando-a em seus braços pela primeira vez, Jamie sabia que ele certamente tinha esperado toda uma eternidade.

 

Você me falou pra eu não me preocupar, ter fé e ver coragem no amor

 

Ela tinha dito a ele que não deveria ficar com ele em locais não públicos. Os pais de Ava sempre haviam sido muito preocupados, e era claro que não gostaram muito da ideia dela conhecer o amigo virtual que tinha há seis meses, por isso decidiram pelo Starbucks.

De qualquer forma, ela parecia não se importar muito com isso agora. Eles haviam ficado no café por horas, até o céu ir de cinza para preto. A chuva tinha começado, parado e começado novamente, os copos descartáveis de café se acumulando na mesa pequena enquanto conversavam até as bocas doerem. Ele achava tudo o que ela dizia fascinante, tão fascinante que teve de beijá-la, interrompendo-a no meio de uma sentença sobre o sistema circulatório de felinos.

Foi ideia dela que fossem para o hotel dele, um sorriso tão conspiratório naqueles lábios carnudos que poderia muito bem pedir para ele esconder o corpo de um assassinato, e ele o faria. Parecia surreal que ele tivesse conseguido ficar tanto tempo sem vê-la, e agora, não sabia como faria quando tivesse que voltar para casa.

— Vou ter que escrever uma música sobre isso — Jamie sorriu enquanto Ava desfazia os botões da blusa dele com rapidez. Ela levantou uma sobrancelha.

— Quantas das suas músicas são sobre mim? — Havia provocação em seu tom, mas Jamie corou.

Decidiu não responder, temendo assustá-la com a resposta. Preferiu beijá-la novamente, e deixar que se perdesse nela naquela cama cara demais com serviço de quarto absurdo. Ela ainda tinha gosto de café e algo mais, algo que era só Ava, e ele se perdeu na mistura intoxicante de seus cabelos com os dela, castanho, ruivo, castanho, ruivo.

Quando ele partiu dois dias depois, vários dólares mais pobre e com a promessa de que se veriam em breve — da próxima vez, Ava iria para os Estados Unidos, mesmo que na companhia dos pais — sabia que nunca mais um e-mail seria suficiente para matar a saudade dela.

 

Ah, vai, me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar

 

Os pulmões dele doíam.

Era como se aspirasse veneno, algo que o corroía por dentro e ainda escapava de forma incontrolável pelos olhos. Sabia que chorava, mas não estava em controle de si; seu corpo continuava vivo por si só, como se estivesse separado de sua alma. Há dias que não se sentia mais como um ser humano.

Desde que se mudara para Boston para fazer faculdade há pouco mais de metade de um ano, não havia voltado para a casa dos pais, e não sabia nem como havia chegado até ali, se por um táxi, talvez por carona, ou talvez o pai o tivesse buscado. Poderia muito bem estar em qualquer outro lugar; nada iria mudar o fato de que ela havia ido embora, que não havia mais Jamie e Ava, que a distância intercontinental entre os dois era agora dimensional.

Ela não iria mais para os Estados Unidos, e ele não iria mais para Londres. O primeiro encontro dos dois, aqueles dois dias de fantasia e pura bênção, também havia sido o último.

— Meu menino — a mãe lamentou, puxando-o para si. Ele sentiu o cheiro familiar dela, daquela mulher que não era seu sangue, mas o amava como se fosse. Agarrou-se a ela como um homem que se afogava. — Eu sinto tanto. — Os dedos delicados dela passaram pelo cabelo comprido dele, mas ele não sentiu.

— Ela me deixou, mãe. — Sua voz saiu rasgada, embargada, não a voz de um moço que cantava, mas de um moço que sofria e parecia nunca querer parar de sofrer. — Ela me deixou.

 

Do nosso amor, a gente é quem sabe, pequena

 

Já fazia dez anos desde que a havia visto, e dez anos desde que estivera em Londres.

Era a sua primeira turnê mundial, e era por isso que estava no Reino Unido. Sabia que não deveria, que o certo a fazer era preocupar-se com seus afazeres, seus compromissos com os fãs e as entrevistas que tinha de dar, mas ainda assim, a primeira coisa que fez quando chegou foi procurá-la, procurá-la no único lugar que podia encontrá-la.

Estava sozinho pela primeira vez em muito tempo. Era difícil não ser acompanhado por assessores, seguranças ou admiradores, mas naquela tarde de garoa, seus desejos foram respeitados. Passou pelos portões de ferro sem ler o nome do local, levado ao automático pelos seus pés até o lugar que havia visitado há tanto tempo.

Tudo o que havia restado de Ava Herondale era uma placa de mármore no chão. Não haviam flores em seu túmulo, e como não poderia haver? O local de descanso de uma deusa deveria ser ornamentado por todas as flores do mundo. Girassóis, ele trouxera, e foi o único buquê depositado ali naquela tarde, e havia sido um entre as dezenas de outros há tantos anos.

Ele passou os dedos pelo seu nome, pela sua data de nascimento e de partida, pensando como aquilo não dizia nada dela, de sua história, de sua imortalidade. Não dizia como ele a ouvia no vento, como a sentia na pele como se dormisse do seu lado todas as noites, como a via até mesmo numa noite sem estrelas. Não havia nada que pudesse descrever a mágica que era Ava Herondale, nem mesmo nenhuma de suas composições.

Ouviu a voz dela ecoar, aquela frase num quarto de hotel em uma outra vida.

"Quantas das suas músicas são sobre mim?"

— Todas elas, pequena — Jamie sussurrou para o chão. — Todas elas.

Os olhos fechados como se numa promessa, a pergunta que ele havia evitado enfim respondida, a pergunta do seu último romance, e do que seria uma vida de imaginar o que poderia ter sido, e de agradecer pelo pouco que foi.

 

E até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei...



Notas finais do capítulo

Então... É isso aí. Eu espero do fundo do meu coração não ter feito ninguém chorar, mas se vocês seguiram meu exemplo, choraram, então... Sinto muito pelo final tristão :( Espero que, apesar disso, vocês tenham gostado da história.

Não deixem de acompanhar a coletânea! Sábado que vem tem mais, amores!!

Um beijo e um ótimo fim de semana,

arizonas.



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