AMORES VIRTUAIS escrita por Projeto Literário ColetâneaS, Georgeane Braga, Nicoly Simarque, Hanna Martins, Piper Palace, Sr Devaneio, itsmemare, arizonas, Danna Collins, Amauri Filho, Sabrina Azzar, Leeh, Natasha Alves


Capítulo 4
Conto 4 - Incomunicáveis


Notas iniciais do capítulo

Olá! Tudo bem com vocês? Eu sou o Amauri e talvez alguns de vocês já me conheçam de algumas fanfics de Harry Potter e de Jogos Vorazes. Prazer em revê-los. Agora, acredito que uma boa parte ainda não me conheça. Então, prazer em conhecê-los.

Antes de mais nada, quero fazer dois agradecimentos especiais: à Georgeane Braga, pelo convite incrível para fazer parte dessa coletânea de histórias, e à Leeh, que fez um trabalho de betagem maravilhoso!

Bem, espero muito que gostem da história.

Sinopse do Conto:
Como qualquer moradora da enorme cidade de São Paulo, a jornalista Bruna vive atarefada e estressada por causa do trabalho: uma rotina responsabilidades e compromissos da qual ela apenas consegue uma trégua na companhia do marido, Paulo, e de seu melhor amigo, Felipe, com o qual se comunica apenas pelo WhatsApp e pelo Facebook. Mas, quando ela é impedida de contactar Felipe após um terrível evento, Bruna finalmente entende o valor de sua amizade e que um laço como esse pode ser sólido e saudável, mesmo sem jamais tê-lo visto pessoalmente. Incapaz de se comunicar com Felipe, ela aprende que o amor é um sentimento que independe da distância e do contato físico.

Trilha Sonora:
Born to Die (Lana Del Rey)




As milhares de lâmpadas acesas cruzavam as janelas dos escritórios, ainda em atividade, e iluminavam a Avenida Paulista de tal forma que quase não era possível perceber que o dia estava chegando ao fim. As pistas capazes de informar o momento certo daquela sexta-feira eram os inúmeros relógios digitais estrategicamente colocados no meio-fio (que, naquele momento, indicavam 18h52min) e a linha dourada visível no céu, avistada por qualquer um que olhasse no sentido Consolação, indicando que o sol se punha. Com o pequeno e redondo pote de sorvete na mão, Bruna parou em frente a uma vitrine de uma loja de sapatos por um momento. O vendedor no interior da loja encheu-se de esperança por alguns rápidos segundos; ele chegou a dar um passo em direção à saída da loja, com o habitual “Posso ajudar?” preso na ponta de sua língua, mas parou quando percebeu que a jovem estava apenas arrumando o cabelo, sem sequer deixar que sua atenção fosse tomada por nenhum dos produtos expostos.

            Bruna ainda estava no saguão principal do Conjunto Nacional quando uma idéia lhe veio à cabeça. Ela riu sozinha, retirou o celular do bolso e fotografou o sorvete em sua mão. Em seguida, selecionou um de seus contatos no WhatsApp e enviou-lhe a foto, colocando como legenda as palavras “doce de leite uhm!!!”. Rindo de seu ato diabólico e tentando imaginar a reação que receberia, a jovem avançou para a saída do prédio e caminhou velozmente no sentido Paraíso. Em frente ao Parque Trianon, ela fingiu estar falando ao celular para se livrar da abordagem de um voluntário do Greenpeace que tentava, inutilmente, conquistar adeptos à sua causa. Por um lado, ela até admirava a ação de qualquer um dos vários voluntários que andavam por aquela avenida todos os dias, mas havia desistido de fingir prestar atenção no que eles diziam. Por várias vezes, Bruna os ouvira falar sobre as causas que defendia e prometera fazer algo para ajudar; como cada abordagem demorava, no mínimo, cinco minutos, ela decidira nunca mais tomar o tempo deles com uma atividade que seria inútil, preferindo, assim, fingir estar falando ao celular para que eles pudessem abordar alguém realmente interessado pelo assunto.

            Antes de chegar à esquina, contudo, algo lhe chamou a atenção: um homem (que estava parado no ponto de ônibus ao lado da banca de jornal) estendeu o braço. Bruna olhou para trás e viu que ele fazia sinal para um gigantesco ônibus avermelhado cujo letreiro luminoso exibia os dizeres “669A-10 – Terminal Santo Amaro”. Desesperada, a jovem quase engasgou com o sorvete: era seu ônibus. Temendo perdê-lo, ela correu desajeitadamente pela calçada fendida devido ao crescimento irregular das árvores nela plantadas, lutando para se equilibrar em seus saltos altos ao mesmo tempo em que tentava evitar que sua bolsa e seu sorvete não caíssem de sua mão. A porta do veículo havia se fechado no momento em que ela o alcançou; desesperada, Bruna bateu três vezes a porta e o condutor abriu-a novamente, dando uma nova chance à retardatária mas sem, contudo, evitar lançar-lhe um olhar desagradável quando ela subiu os dois degraus para se dirigir ao cobrador, uma mulher terrivelmente gorda que, por detrás de seus óculos vermelhos, lia o livro “A Guerra dos Tronos” ao mesmo tempo em que sua respiração ainda conservava o cheiro de seu último cigarro.

            Por sorte, os assentos atrás da catraca estavam praticamente vazios; uma realidade que não se sustentaria até o momento em que o ônibus virasse na Avenida Joaquim Eugênio de Lima. Bruna adiantou-se pelo corredor e escolheu um assento próximo à porta onde (em quarenta minutos, se o trânsito colaborasse) desceria para começar uma caminhada de três quarteirões até chegar à sua casa. A jovem caiu completamente desajeitada no assento e permaneceu imóvel, em uma posição nada ergonômica, por quase cinco minutos antes de respirar fundo e se ajeitar no assento. Estava exausta! Naquele 13 de novembro, ela deveria ter entrevistado, no final da manhã, o idealizador de uma franquia de fast-food brasileira que estava se espalhando pelo mundo; seu chefe queria essa matéria na capa da revista e ela precisava editar toda a entrevista durante o final de semana para, enfim, poder enviá-la à gráfica. O grande problema era que o endereço que a secretária do empresário havia lhe dado era uma casa destruída nas imediações da Zona Cerealista; Bruna passou quase uma hora tentando obter o endereço certo mas devido a um mal-entendido, acabou passando pela Liberdade antes de, finalmente, descobrir que o seu alvo gerenciava a sua franquia a partir de um escritório ao lado do MASP, na Avenida Paulista. Ele, contudo, não estava lá e Bruna precisou esperar por quase quatro horas até que ele chegasse ao escritório (furioso porque não queria dar entrevista, uma vez que não fora avisado de nada). Após um dia tão estressante, a jovem acreditou que aquele sorvete era um prêmio de consolação por todo o seu esforço: gastar quase quinze reais naquele potinho minúsculo e sair de sua dieta tão rigorosa (e que já tinha dado resultados tão bons) era o mínimo que ela merecia por não ter matado ninguém até então.

            Mas mesmo o sorvete não era o suficiente para matar a sua fome: quando o ônibus, enfim, adentrou a Avenida Joaquim Eugênio de Lima, um cheiro delicioso invadiu suas narinas. O cheiro de dezenas de porções de petiscos que, naquela sexta feira, eram preparadas para o happy hour de pessoas que, ainda vestidas com camisas e gravatas ou saias apertadas e sapatos de salto alto, já estavam sentadas às mesas dos bares, cada um com um copo de cerveja; os “firmeiros”, como Bruna ironicamente os chamava, em referência à monstruosa e repugnante palavra que muitas pessoas ali usavam para se referir aos seus locais de trabalho: a firma. Qual é o problema com “escritório”? Mas o cheiro que realmente chamou a atenção de Bruna foi o aroma engordurado do cachorro quente do Black Dog, localizado antes da primeira esquina. Era um cheiro tão delicioso que a jovem sentiu vontade de saltar do ônibus apenas para comprar um; com o Bilhete Único, poderia subir no próximo ônibus que passasse por ali sem pagar mais um único centavo. Contudo, uma voz em sua cabeça a freou. “Você já comprou esse sorvete e ainda quer mais comida? E a porra da sua dieta? O casamento da sua prima é daqui duas semanas e se você continuar comendo assim, feito uma porca, você não vai entrar naquele vestidinho vermelho de jeito nenhum!” Sabendo que a sua consciência estava correta, Bruna se conteve e nem sequer chegou a se levantar. O vibrar do celular em seu bolso a distraiu. Ela destravou o aparelho e abriu o WhatsApp.

            mancada! kkkk vc sabe que eu amo isso

            fica mandando essas fotos só pq aqui não tem isso

 

            Imediatamente, ela riu. Sabia que a reação dele seria essa. Conhecera Felipe há três anos em um grupo no Facebook sobre música e literatura. Ela já o vira comentar em várias postagens e, vez ou outra, haviam interagido nos comentários. A amizade surgiu aos poucos, mas ganhou força e velocidade como uma bola de neve: apesar de nunca terem se visto pessoalmente, os dois se falavam quase que diariamente via Facebook ou WhatsApp. Segundo o próprio Felipe, a amizade dos dois era tão intensa que ela achava que conversava mais com Bruna do que com a própria namorada dele, uma moça branquela e loira, com jeito de modelo, chamada Astrid que morava em Berlim (há quatro anos, Felipe, que era nascido no Rio de Janeiro, trabalhava e morava em Londres e, vez ou outra, visitava outros países na Europa; em uma dessas viagens, ele e Astrid, que estava de férias, se conheceram em um pub em Budapeste). O fator que transformou a relação dos dois de uma simples interação online na mais profunda e verdadeira amizade virtual de Bruna foi o fato de ela e Felipe serem completamente fascinados por doce de leite. Um fato do qual os dois não conseguiam se esquecer e que ela achou por bem lembrar quando lhe enviou a foto do seu sorvete, uma vez que, na Inglaterra, o gosto de Felipe pelo doce era um capricho difícil de sustentar não só pelo preço, mas pela escassez.

            minha vez de fazer invejinha

            No instante seguinte, uma imagem surgiu na tela do celular de Bruna. Após fazer o download, a jovem viu Felipe e Astrid ao lado de um casal de amigos; ao fundo, via-se uma bem iluminada Torre Eiffel, contrastando com o céu noturno de Paris.

            tá em Paris? foi fazer o que ai?

 

            não, to em veneza

            claro que é paris kkk

            vai ter um show

            eagles of death metal

            algo assim

            a astrid ganhou quatro ingressos na internet

            Por um rápido instante, Bruna engoliu o orgulho. Jamais assumiria que a tentativa de Felipe de fazê-la sentir inveja fora mais bem-sucedida que a dela ao lhe mandar a foto do sorvete de doce de leite. Mesmo assim, ela não o odiava por isso: estava tão exausta que, naquele momento, não iria a lugar algum além do seu chuveiro ou da sua cama. Nem mesmo a um show. Não iria a lugar algum nem mesmo se o próprio Papa lhe pedisse. Queria apenas descansar para que, na manhã seguinte, tivesse a disposição necessária para editar toda a entrevista com o empreendedor mal-humorado da franquia de fast-food.

            onde vc tá? tá tudo bem?

            Nesse momento, Bruna achou que poderia falar tudo o que queria. Conhecia Felipe há um bom tempo e a amizade dos dois já haviam passado do estágio de perguntar “Tudo bem?” apenas por conveniência social. Era uma forma de os dois falarem um pouco sobre o que estavam acontecendo com suas vidas. E foi nesse momento, após ela lhe perguntar “está com o fone de ouvido” e ele responder “sim”, que Bruna começou a gravar um áudio de quase cinco minutos, apenas lhe enviando quando o ônibus chegou à altura do Monumento às Bandeiras. Aparentemente, o trânsito estava colaborando. Se tudo desse certo, chegaria em casa em mais vinte minutos no máximo.

            O ônibus estava passando ao lado da Oca quando Felipe finalmente respondeu.

            que puta babaca!

            além de ter feito vc esperar esse tempão ele foi grosso com vc? que cara bosta

            ele chegou tarde no escritório e queria ir pra casa

            não queria perder mais tempo dando entrevista

            certeza

            mas pelo menos vc convenceu ele a responder as perguntas mais importantes né?

 

            Imediatamente, após ler essas palavras, Bruna riu. Talvez, “cumplicidade” fosse a melhor expressão para definir a amizade dos dois. Felipe não conhecia o homem (provavelmente, nunca ouvira falar dele), mas já se referira a ele como “babaca”, “cara bosta” e “grosso”. Talvez, por causa do teor agressivo do áudio que Bruna lhe lançara, ele julgara que era exatamente isso que ela precisava ouvir para se sentir um pouco melhor.

            pelo menos né?

            meu fofo, preciso ir

            meu ônibus chegou no meu ponto

            curte o show!

            Bruna quase perdera o ponto. Distraída pela conversa, ela se levantou velozmente, pediu licença ao senhor de idade sentado ao lado e jogou-se no corredor do ônibus que, àquela altura, estava cheio de pessoas. Com certa dificuldade, ela conseguiu passar pela porta e descer à plataforma. Já estava escuro e os postes já emitiam uma luz amarelada e forte. Cansada, mas feliz com a perspectiva de chegar em casa, a moça começou a caminhar pela calçada da Avenida Santo Amaro antes de virar à esquerda, aproximando-se cada vez mais do prédio onde morava.

            –Oi – disse uma voz masculina grave quando ela abriu a porta.

            –Oi – disse Bruna, fingindo estar animada.

            Ela trancou a porta e jogou a bolsa sobre a mesa de centro da sala antes de caminhar até a cozinha, onde o dono da voz, seu marido, parecia estar com dificuldades para cuidar de duas panelas ao mesmo tempo. Ela beijou os seus lábios no exato momento em que sentiu o cheiro de noz moscada sair da panela com o molho branco e adentrar seu nariz.

            –Como foi o seu dia? – ele perguntou.

            –Um inferno – ela desabafou. – Sabe quando tudo o que você faz no dia dá errado? Pois é! Foi exatamente assim. Com certeza, não tem como ficar pior.

            Após dizer isso, Bruna olhou para o marido. Assustado, ele até parara de cozinhar. Na casa, os dois dividiam de forma igualitária as tarefas domésticas, mas, como Paulo era um completo desastre na cozinha, a função de preparar o almoço ou o jantar só era dele quando Bruna fosse chegar muito tarde em casa, como era o caso. Ao ver que a esposa estava tão estressada, o primeiro pensamento que passou pela cabeça dele foi que o dia dela poderia sim ficar pior caso o macarrão ao molho branco que ele tentava preparar não ficasse minimamente degustável (o que ele duvidava muito). E, conhecendo Bruna há mais de doze anos, ele sabia muito bem que apenas três coisas conseguiam deixá-la tão irada a ponto de ela perder completamente todos os seus instintos racionais e sociais: sono, fome e comida ruim.

            –Quer falar sobre isso? – ele perguntou.

            As palavras saíram da boca de Paulo com uma certa timidez, o que foi o necessário para que a moça, conhecendo-o da forma como o conhecia, soubesse exatamente o que ele estava pensando. Ligeiramente culpada por vê-lo com medo dela (um sentimento que apenas piorou quando ele engoliu em seco), Bruna avançou contra ele e o abraçou.

            –Não, tudo bem. Já acabou. Amanhã vai ser diferente.

            –Espero que sim – ele respondeu. – Eu estava querendo ir no cinema amanhã. Já faz um tempo que a gente não sai juntos... E, se você quiser sair pra jantar antes, eu topo também. O que acha?

            Sentindo sua cabeça pulsar devido ao estresse do dia, Bruna voltou a beijá-lo antes de responder:

            –Sabe de uma coisa? Eu estava esperando você fazer um convite desses...

            Imediatamente, ele sorriu.

            –Agora, vou deixar você apanhando das panelas um pouco – ela terminou o abraço antes que Paulo pudesse dizer qualquer coisa em resposta. – Vou tomar um banho e já volto pra gente jantar. Tudo bem?

            Paulo concordou com a cabeça e Bruna saiu da cozinha, avançando pelo curto corredor que levava até um dos dois quartos do apartamento. Um pouco mais animada com a perspectiva de, finalmente, poder descansar pelo resto da noite, ela tirou as roupas e as jogou sem sequer dobrá-las no cesto de roupas sujas que ficava ao lado da porta do banheiro (arrependeu-se disso no exato momento em que adentrou o chuveiro, pois vivia brigando com Paulo quando ele fazia o mesmo; jurou para si mesma que as dobraria corretamente assim que terminasse o banho).

            “O jantar tá pronto, amor!” Ela ouviu Paulo gritar.

            –Já ‘tô indo!

            Ouvindo seu estômago roncar, Bruna terminou o banho o mais rápido possível e desligou o registro. Ainda com os cabelos bem úmidos, ela se vestiu e disparou para a cozinha, onde encontrou Paulo esticando o pescoço para, enquanto colocava pratos e talheres na mesa, tentar ver alguma coisa que passava na televisão ligada na sala de estar.

            –O que aconteceu? – perguntou Bruna, curiosa ao ver a atitude do marido. Afinal, eram raras as coisas que tiravam tanto a atenção dele daquela forma.

            –Não sei direito – ele respondeu, finalmente se rendendo à curiosidade e abandonando a cozinha para ir até a sala. – Mas parece que aconteceu outro atentado terrorista.

            –Meu Deus! – por um instante, Bruna conseguiu silenciar a própria fome e seguiu Paulo até a televisão. – Onde?

            –Paris, eu acho – foi a resposta. – Parece que atacaram vários lugares. Já têm 37 mortos confirmados.

            A espinha de Bruna congelou. Por alguns instantes, algo em sua mente lhe dizia que Felipe era um desses 37 mortos. Após alguns segundos de pânico em que ela sentiu o seu coração acelerar e uma gota de suor frio escorrer pelo seu rosto, ela, finalmente, começou a se acalmar. A estatística estava a seu favor: por que raios Felipe seria um dos mortos? Esses 37 poderiam ser qualquer pessoa que morasse na cidade. Qualquer uma das milhares de pessoas por lá. Mas ele havia dito que fora a um show. E este era o principal lugar para a realização de ataques terroristas: grandes aglomerações de pessoas. Novamente, o coração de Bruna voltou a acelerar até que, mais uma vez, a racionalidade permitiu que ela se acalmasse: mesmo em um show, a quantidade de pessoas era muito grande; era estatisticamente improvável que Felipe fosse um dos mortos. Era uma forma horrível de pensar: independentemente de quem tivesse morrido, aquelas pessoas não eram menos humanas e menos dignas do que Felipe e não mereciam ter morrido. Mas Bruna não as conhecia. Ela conhecia Felipe. Era com ele que ela se preocupava.

            Mesmo assim, ela precisava tirar a dúvida. Correu até seu quarto, onde havia deixado o celular, e, com os dedos tremendo, digitou.

            tá tudo bem com vc?

 

            Pronto. Estando do outro lado do oceano e em outro hemisfério do planeta, mandar uma mensagem pelo WhatsApp era o máximo que ela podia fazer. De volta à sala, Paulo parecia não ter notado a ausência da esposa: seu olhar estava fixo em um William Bonner sério na televisão, que ainda transmitia informações sobre o atentado.

            –Onde foram os ataques? – perguntou Bruna.

            –No centro de Paris – Paulo respondeu imediatamente. – Perto de um estádio de futebol... parece que o presidente da França, inclusive, ‘tava vendo o jogo... e em dois restaurantes. Mas parece que tem mais. Não entendi direito.

            Na televisão, Bruna via pessoas feridas recebendo atendimento em calçadas. Apesar de, por motivos óbvios, a câmara não focar nos ferimentos, era impossível impedir que a visão de pessoas ensanguentadas se sobrepusesse à voz da repórter.

            Como se estivesse vendo uma notícia qualquer sobre uma celebridade fútil ou algum projeto de lei inútil, Paulo se virou para Bruna.

            –Vamos jantar?

            Por alguns instantes, Bruna chocou-se com a falta de sensibilidade do marido. Como era possível que ele estivesse se preocupando mais com o próprio estômago do que com as dezenas (ou talvez centenas) de pessoas que haviam morrido na França? A moça pensou em apontar o dedo para a cara de Paulo e gritar o quanto era insensível, mas, antes que pudesse fazer isso, a verdade a consumiu: Paulo até podia se sensibilizar (e muito) com a notícia do atentado, mas, o que ele, como um simples e insignificante brasileiro de classe média, podia fazer para mudar aquela realidade? Absolutamente nada. Nada que ele fizesse iria mudar o que aconteceu. Os mortos não voltariam à vida, os feridos não se curariam sozinhos... A aparente insensibilidade e apatia de Paulo eram frutos, única e exclusivamente, da sua impotência. E, diferente de Bruna, ele não tinha nenhum amigo na cidade com quem se preocupar.

            –Vamos – ela disse, engolindo em seco. – Estou com fome.

            Era mentira. O atentado e ausência de notícias de Felipe haviam lhe roubado todo o seu apetite. Mas, assim como o marido, Bruna não podia fazer absolutamente nada. No máximo, podia dedicar um Pai-Nosso adicional em suas orações antes de dormir para as vidas que haviam sido perdidas. O fato de Felipe estar em Paris e, até aquele momento, não ter respondido a sua mensagem, no entanto, a deixava preocupada. Era como se um nó estivesse em sua garganta, impedindo-a de sentir qualquer forma de emoção que não a ansiedade. Fora, definitivamente, era a última coisa que ela sentia.

            No momento em que Paulo se dirigiu à cozinha, Bruna agarrou o controle remoto e aumento o volume da televisão: assim poderia ouvir as atualizações sobre o atentado enquanto estivesse jantando.

            –Quer que eu coloque pra você?

            –Por favor – respondeu Bruna, entregando o seu prato para o marido antes de se sentar. – Então? Foi tudo bem no trabalho hoje?

            –Uhum – ele respondeu afirmativamente.

            Bruna odiava quando o marido lhe respondia monossilabicamente. Geralmente, ele fazia isso quando os dois brigavam, mas não era o caso. Dessa vez, ela sabia que ele estava apenas se concentrando em colocar o macarrão nos dois pratos e que formular uma resposta devidamente construída poderia lhe roubar a atenção. “Homens”, ela pensou, reprimindo um sorriso quando ele pousou os dois pratos sobre a mesa.

            –Foi tudo bem, sim – ele disse, por fim. – A única coisa mais emocionante que aconteceu foi uma mordida que eu levei no dedo depois do almoço.

            –Uma criança?

            –A filhinha do André.

            Paulo era dentista e alugava um consultório do lado de uma escola. Por um lado, a localização acabou lhe dando vários clientes: ele tratava não só as crianças, mas os pais e mães. Mesmo assim, atender crianças era algo que ele sempre reclamava: a maioria delas, assustadas, acabava se tornando agressiva e, frequentemente, ele anunciava que fora mordido. E, quase sempre, isso era acompanhado de alguma constatação de Bruna sobre o quanto ele não tinha jeito com crianças.

            Mas não foi isso que aconteceu dessa vez. No momento em que pensou em zombar do marido, Bruna lembrou-se que jamais poderia ser mãe. Não biologicamente, pelo menos, devido à sua esterilidade. Quando descobrira isso, ela ficara muito mal mas, naquele dia, quase um ano depois, ela já não se incomodava tanto: havia poucas semanas que o advogado dela e de Paulo havia entrado com a papelada para a adoção. Mas o que a manteve quieta foi o fato de, dessa vez, ter se lembrado de que fora Felipe a primeira pessoa a quem ela contara sobre a sua infertilidade e fora ele que, mesmo longe, apoiou-a e a reconfortou com longos áudios enviados pelo WhatsApp. E, mais uma vez, seus pensamentos voltavam para o rapaz em Paris, sem notícia alguma sobre ele.

            –E você? – perguntou Paulo. – Quer falar sobre o seu acesso de raiva? Ou já está tudo bem?

            Sem sequer prestar atenção no que o marido dissera, Bruna pousou os talheres na lateral do prato após engolir a primeira garfada, levantou-se e disse:

            –Preciso ir no banheiro. Já volto.

            Sem esperar por uma resposta, ela saiu da cozinha e correu até o seu quarto. Da mesa, Paulo apenas conseguiu dizer um “Eu falei alguma coisa? Desculpa...” mas, novamente, ela não lhe deu atenção. Chegando ao seu quarto, ela pegou o celular, deslizou o indicador sobre a tê-la para destravá-la e abriu o WhatsApp. Felipe ainda não vira a mensagem.

            Ansiosa, ela jogou o aparelho com força no colchão sem travar a tela e retornou à cozinha. Passando pela sala, ela ouviu a jornalista comentar que um tal de teatro Bataclan também fora atacado pelos terroristas. Em silêncio, ela voltou a ocupar seu lugar ao redor da mesa da cozinha.

            –‘Tá tudo bem?

            –Uhum – ela confirmou.

            Paulo olhou por alguns instantes. A esposa era uma pessoa muito expansiva e eloquente e ele, por conviver com Bruna há anos, sabia muito bem disso. Vê-la recolhida e tímida era sinal de que alguma coisa não estava bem. Mas, também pela convivência, ele sabia que não devia insistir: se ela quisesse dividir sua preocupação com alguém, ela mesma o chamaria; a insistência de Paulo poderia levar a uma briga. Por isso, nos dois minutos que se seguiram, imperou um silêncio constrangedor no qual Bruna sabia que o marido havia detectado que algo de errado estava acontecendo com ela e no qual ele também sabia que ela estava ciente de sua constatação. Tentando agir da forma mais normal possível, ela apenas se limitou a perguntar:

            –Passou alguma coisa no dedo? Por causa da mordida...?

            –Álcool – ele respondeu, sem olhar pra ela. – Pra desinfetar.

            –Ah...

            Em silêncio, os dois terminaram de comer e, querendo ocupar sua cabeça com alguma coisa que pudesse distraí-la (mesmo que por alguns minutos), Bruna se ofereceu para lavar a louça. Mas, mesmo com o som da água correndo na pia, ela conseguia ouvir a televisão, que transmitia atualizações sobre o atentado.

            “No presente momento, reféns estão sendo feitos pelos terroristas no teatro Bataclan, onde se apresentava a banda de rock Eagles of Death Metal. A polícia já chegou ao local, mas não temos informações se há um plano de resgate em curso.”

            Em um primeiro momento, as palavras adentraram os ouvidos de Bruna como se não tivessem importância alguma. Mas, quando seu cérebro as processou, a jovem sentiu seu corpo paralisar. O copo de vidro escorregou de suas mãos e se estilhaçou no fundo de metal da pia. Felizmente, o som da água e da televisão impediram Paulo de, da sala, ouvir o copo se quebrar. Sentindo todo o seu corpo tremer, a jovem desligou a torneira, enxugou as mãos no pano-de-prato sobre o fogão e correu para o seu quarto, sem sequer notar que era acompanhada pelo olhar ansioso e preocupado do marido.

            Novamente com o WhastApp aberto, ela revisitou as mensagens que trocara com Felipe no ônibus. Não podia ser verdade... Não podia... Tinha que ser uma coincidência. Uma infeliz coincidência. Um erro... Não era possível que fosse verdade. Mas era. O nome Eagles of Death Metal parecia piscar como um letreiro de neon na tela do celular quando a mensagem surgiu na tela. Era lá que Felipe estava. No teatro Bataclan. O teatro que fora atacado.

            O coração de Bruna pulava em seu peito e ela sentia gotas de um suor frio escorrerem pela sua têmpora. Uma dor de cabeça pulsante pareceu impedi-la de se concentrar em qualquer coisa à sua volta e seus dedos tremiam enquanto ela, chorando, tentava digitar.

            pelp amor dr deus rseponde

 

            Uma Bruna em uma situação normal iria se martirizar pelos erros de ortografia que a faziam parecer uma analfabeta. Mas a Bruna desesperada que segurava o celular nem sequer se importou com isso. Ela só queria ver o sinal no canto inferior direito de suas mensagens assumirem uma coloração azul metálica. Queria que Felipe respondesse. Queria saber se estava vivo.

            Mas, nos cinco minutos em que ela permaneceu na cama, Bruna não recebeu resposta nenhuma. Não se incomodava quando seus amigos não lhe respondiam imediatamente: sabia que eles tinham uma vida para viver e que responder mensagens no WhatsApp não é a prioridade de uma pessoa normal. Na verdade, uma pessoa normal também não priorizaria responder mensagens caso estivesse em um teatro lotado de terroristas: priorizaria encontrar alguma forma de sobreviver àquele pesadelo. Mas, estando tão nervosa, ela não conseguiu refletir sobre isso: apenas xingou Felipe de “cretino filho da puta” mentalmente por não a responder de uma vez por todas e acabar com aquele sofrimento.

            Bruna respirou fundo e enxugou a lágrima que escorria pelo seu rosto. Ele não podia estar morto. Não podia... O que ela faria sem ele? Apesar de nunca tê-lo visto pessoalmente, Felipe era um de seus melhores amigos. Um não. O melhor amigo. Ele sabia mais sobre a vida dela que algumas de suas amigas mais íntimas ou do que suas amigas da época da faculdade. Depois de passado um momento de cumplicidade (no qual ele ajudava Bruna a xingar Paulo), era Felipe quem a fazia ponderar sobre seu ponto de vista e a ajudava e terminar algumas brigas com o marido. Era ele que lhe arrancava risadas com fotos ridículas no WhatsApp ou a marcando em gifs constrangedores no Facebook, animando a longa volta para a casa de Bruna após um dia de trabalho. Mesmo morando em outro país, Felipe era uma pessoa muito mais presente na vida de Bruna que algumas pessoas que ela via diariamente. A idéia de viver em um mundo onde não acordaria com um “bora levantar na segunda feira e ir trabalhar que quem ganha a vida na cama é puta” era simplesmente insuportável.

            Confusa, ela se levantou da cama e voltou à cozinha. Lá, ficou irada ao descobrir que Paulo havia recolhido os cacos do copo e terminado de lavar a louça. O copo quebrado era apenas mais um fator para reforçar a idéia na mente do marido de que ela não estava bem e a louça lavada era uma atividade a menos com a qual Bruna poderia ocupar seu tempo e se distrair. Ciente de que precisava se acalmar, ela foi até a despensa e pegou um sachê de chá de camomila. Para ela, usar chá de camomila para se manter calma era uma daquelas receitas antigas e inúteis que avós passavam para avós através dos séculos, mas, diante do seu estado nervoso, ela aceitava acreditar na eficácia de qualquer método ao seu alcance.

            No momento em que o micro-ondas apitou, anunciando que a água de seu chá já estava quente, ela ouviu a voz de William Bonner desejar “boa noite” e uma música estrondosa, metálica e irritante tocar por uns cinco minutos antes de uma segunda voz, grossa e sedutora, anunciar a novela. Imediatamente, Paulo mudou o canal, possivelmente para um filme; nervosa, ela não conseguia traduzir as falas em inglês dos personagens, mas reconhecia a música de fundo como a de algum filme que já vira. Com o chá pronto, ela caminhou até a sala e fingiu estar completamente distraída ao lado do marido no sofá enquanto olhava o celular; internamente, um monstro lhe dizia que o pior havia acontecido enquanto ela deslizava o dedo pela tela, passando pelas inúmeras notícias no aplicativo da BBC News.

            Mas as matérias que encontrava não lhe eram muito reveladoras: as únicas atualizações eram sobre o número de mortos, que não parava de crescer. Pensando estar à beira da paranoia, Bruna não deixou de pensar se um daqueles 89 mortos não era Felipe. Ela não percebeu o tempo passar: metade do chá já estava fria em sua mão quando Paulo se levantou do sofá.

            –Eu vou dormir – ele disse. – Você vem também?

            –Já estou indo – Bruna respondeu, sorrindo-lhe enquanto usava todas as suas forças para produzir um tom de voz normal e que não traduzisse o desespero que assolava seu peito. – Boa noite, amor.

            Paulo sumiu no corredor escuro do apartamento, mas Bruna não retirava os olhos da tela. Como ela poderia dormir sem uma notícia? Qualquer uma que fosse... Ela deitaria na cama e rolaria de um lado para o outro sem conseguir adormecer. Obviamente, queria que Felipe estivesse bem. Mas não se incomodava nem um pouco de saber que ele estava ferido. Se estivesse vivo, ela já ficaria calma e satisfeita. Percebendo que o aplicativo da BBC não mais lhe seria útil, ela caminhou até o corredor e fechou a porta que o separava da sala: não queria que o marido ouvisse a repórter do Band News falando sobre o atentado e que isso pudesse fazê-lo, por fim, descobrir o real motivo do estranho comportamento de Bruna.

            Novamente, ela achou que mandar uma nova mensagem poderia ser útil.

            por favor responde logo!!!

            to preocupada

 

            Era tão ridículo aquilo... Ela estava sendo tão completamente egoísta. Quantas vidas haviam sido perdidas àquela noite? Dezenas! E com quantas ela se importava? Com apenas uma. Apenas a de Felipe era importante. Lembrava-se muito bem de ter prometido rezar um Pai-Nosso a mais pelas vítimas, mas isso era o máximo que a sua sensibilização por elas lhe permitia fazer. Mas, e por Felipe? Ah, sua sensibilização permitia-lhe muito mais... Acabar com a paciência dele com intermináveis mensagens no WhastApp era apenas uma dessas coisas. Ficar sem dormir, acompanhar notícia na Internet e na televisão ao mesmo tempo... Pouco se importava com o motivo do atentado, quem o provocara ou com a cronologia dos eventos (que os repórteres pareciam dedicar toda a sua atenção). Sua única e verdadeira atenção era Felipe. E isso era a maior prova de egoísmo possível.

            Mas era um egoísmo justificado pelo amor que ela sentia por ele. Um amor que os dois construíram ao longo de três maravilhosos anos de amizade e do qual ela não conseguia se ver sem. Felipe, não só como pessoa, mas como companheiro e amigo, iria lhe fazer muita falta caso já não estivesse mais aqui. E, diante disso, Bruna encontrou a desculpa perfeita para se sentir melhor consiga mesma, e não se ver como o monstro que não se importava com as várias outras mortes.

            Seus devaneios foram rompidos quando a repórter do Band News anunciou uma operação policial no teatro Bataclan que libertou os reféns. A palavra “tiroteio” em meio à matéria fez o seu coração dançar em seu peito, como um animal furioso que estivesse tentando fugir de sua jaula: Felipe, se já não estivesse morto há muito tempo, poderia ter morrido no novo tiroteio ou, quem sabe, estaria entre os reféns libertados. No momento em que a televisão mostrou policiais escoltando pessoas para fora do teatro, Bruna aproximou-se da tela na esperança de tentar ver o rosto do amigo entre os sobreviventes. Mas estava escuro e ela não conseguia ver bem os traços dos rostos das pessoas que passavam correndo desesperadas em busca do auxílio médico e das ambulâncias paradas no meio da rua.

            Por um instante, ao ver uma loira saindo do teatro, Bruna se desesperou. Seria Astrid? Por que raios ela estaria saindo sozinha e não acompanhada de Felipe? Seria por que ele jamais sairia daquele teatro?

            “Deixa de ser louca, sua burra!”, ela ouviu a sua própria consciência. “A Astrid não é a única loira no mundo, não sabia? Deve ter umas mil loiras dentro desse teatro.”

            Era verdade. A possibilidade de aquela moça na televisão ser Astrid era muito remota. Diante de tudo o que já havia acontecido àquela noite, alimentar essa pequena possibilidade era a coisa mais insensata a se fazer: era como tentar apagar fogo com álcool e...

            Quando seu celular vibrou em suas mãos, Bruna se assustou de tal forma que quase deixou o aparelho cair. Desesperada e sentindo a garganta seca, ela demorou alguns segundos até conseguir destravar a tela.

            estou bem

            fica tranquila

            a gente preciso ir pro hospital pq meu amigo tomou um tiro de raspão

            já volto a falar com vc

 

            A calma e a vergonha tomaram conta de Bruna ao mesmo tempo: por um lado, ficava muito feliz em saber que ele estava vivo, mas, por outro, sentiu-se um monstro por tê-lo incomodado tanto a ponto de ele respondê-la enquanto outras pessoas poderia estar precisando de sua ajuda.

            A dor de cabeça, o rápido bater de seu coração, o tremor nas mãos, o suor frio... Tudo isso desapareceu gradativamente após ela desligar a televisão. Bruna deixou o copo cheio de água dentro da pia para lavá-lo no dia seguinte e se dirigiu ao banheiro para escovar os dentes. Leve e tranquila, ele se deitou na cama e deixou que Paulo, ainda acordado, a envolvesse em um abraço.

            –Está tudo bem? – ele perguntou.

            –Perfeito – ela disse. – Até amanhã, amor.

            –Até amanhã.

            Paulo beijou o ombro de Bruna e ela permitiu-se fechar os olhos para dormir. Sabia que, na manhã seguinte, não iria acordar com uma das mensagens exageradamente animadas de bom dia de Felipe mas, sinceramente, já nem ligava mais pra isso. Tudo acabara bem e ela sabia que ainda viriam centenas de dias para ele fazer isso.



Notas finais do capítulo

E ai? O que acharam?

Espero muito que tenham gostado ;)

Quero agradecer a todas as pessoas que estão acompanhando a coletânea. É graças a vocês que esse projeto incrível está indo pra frente!

Abraços e beijos a todos!



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