AMORES VIRTUAIS escrita por Projeto Literário ColetâneaS, Georgeane Braga, Nicoly Simarque, Hanna Martins, Piper Palace, Sr Devaneio, itsmemare, arizonas, Danna Collins, Amauri Filho, Sabrina Azzar, Leeh, Natasha Alves


Capítulo 15
Conto 15 - Quase Sem Querer


Notas iniciais do capítulo

Bom dia, babys!

Dessa vez, o capítulo é comigo. Para os que não me conhecem, eu sou a Leeh :).

Bem, eu simplesmente tenho que começar dizendo o quanto estou honrada por estar aqui. E, obviamente, agradecer ao anjo que conduziu toooodo esse projeto e deu bastante do seu sangue e suor para que ele ocorresse. Gê, muito obrigada! Eu tenho certeza de que não apenas eu, mas todos os leitores e escritores são demasiadamente gratos a você :D.
Em segundo lugar, como este é o último conto, eu não posso deixar de elogiar cada um que reservou de seu tempo para enviar um comentário a nós. Vocês são incríveis, sério. E o apoio de todos é fundamental. Muito, muito obrigada, gurizada. É super clichê o que eu digo: sem vocês, nada seríamos.
Não posso deixar de lado, obviamente, a Adry, que aguentou meus trezentos áudios sobre essa história ♥. Ela não seria a mesma sem você, sério.
E, muito obrigada à Sabrina pela capa. Ficou simplesmente incrível!

Enfim, é isso.

Sinopse: Lucca é um cara comum, a não ser pelo o fato de ser escritor. Depois de obter, ocasionalmente, o e-mail de sua ex-colega por quem fora apaixonado, ele se julga obrigado a mandar suas poesias a ela assim que uma tragédia ocorre em sua vida.

Classificação: +13 (não sei)

Trilha: Quase Sem Querer - Legião Urbana (os versos em itálico ao lado direito do texto pertencem a essa música).

Nota: As poesias são puramente de autoria do mestre Charles Bukwoski. As fontes delas estarão no final da história. Nenhuma é pertencente a mim. Vale lembrar que, qualquer insinuação religiosa nelas não deve ser levada como ofensa, por favor.

É nóis e boa leitura ♥




Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

De: Andressa < andressaprof.ssora@mail.com >

Para: Maya N. < mimi.nadhur@live.com > +34...

Enviada: 20 jan, 19:25

Assunto: TRABALHO AVALIATIVO

Boa tarde!

Esperam que estejam curtindo o feriado, porque vamos voltar à ativa logo, logo!

Neste mês, o princípio filosófico que trabalharemos será o perdão. Porém, penso que uma atividade prática fará com que vocês o compreendam de uma maneira muito melhor do que simplesmente a teórica. Então, está em anexo o arquivo com detalhes do trabalho (avaliativo, como condiz no título) e eu espero que vocês caprichem, o.k.?

Abraços e até logo,

Professora Andressa Schimdt

Doc.: Perdão – fundamento oriundo da filosofia

Valor: a definir

Grupo: individual

Data de entrega: 29 de janeiro de 2016

Instruções: Enviar, por meio manuscrito, um pedido de perdão a qualquer pessoa que você julga necessário clamar por desculpa.

Observações do professor: –

Loucura – a única explicação sensata para tudo aquilo chegava a ser irônica.

Maya suspirou. A faculdade de pedagogia conseguia surpreendê-la cada dia mais. Era pior que o Magistério em questão de trabalhos, uma vez que estes eram totalmente aleatórios e ela não encontrava uma linha de raciocínio para muitos deles.

Já perto de sua casa, ela havia encontrado uma lista de e-mails de seus colegas do ensino médio em um grupo abandonado no Facebook. Tentaria um por um e, que tudo conspirasse a seu favor. Tinha esperança de que um deles ainda usasse o correio eletrônico e, por fim, pudesse compreender as mensagens que ela enviaria.

{...}

De: Maya N. < mimi.nadhur@live.com >

Para: Lucca < beaumontlucca@mail.com >

Enviada: 21 jan, 14:12

Assunto: Perdão

Olá, Lucca!

Espero que esteja tudo bem com você.

Bem, lembra-se de mim? Maya Nadhur; cursei o Ensino Médio inteiro com você.

De qualquer maneira, não que seja bom relembrar, mas eu caí em cima de você durante a aula de educação física e, como consequência, você quebrou o dedo mindinho. E eu nem sequer pedi desculpa – digo, corretamente.

Eu sei que está um pouco tarde, mas...

Eu realmente sinto muito e gostaria que você aceitasse o meu pedido de desculpas, pois ele é de todo o coração.

Abraços e aguardo respostas,

Maya Nadhur.

 

“Ela deve estar louca” foi a primeira coisa que lotou o pensamento dele.

Mais um líquido forte queimou pela garganta de Lucca e ele teve que conter a vontade de gargalhar – não pelas cócegas da bebida, mas pelo e-mail totalmente aleatório que recebeu há algumas horas. De duas opções, uma: ou ela estava bêbada como ele, ou ela realmente estava louca.

A imagem de Maya Nadhur surgiu com uma rapidez assustadora à mente de Lucca. Ela não era do tipo de mulher que um homem esquecia; ele tinha certeza de que, se em algum dado momento ela fosse tentar contar a quantidade de homens que lambiam o chão por onde ela passava, nunca conseguiria um valor exato – e ele já fizera parte desse time. Sua etnia árabe não lhe negava a beleza: pele dourada; os olhos pretos e o sorriso tão branco e brilhante e absurdamente perfeito por causa de alguns dentes um tanto tortos que explanavam uma imperfeição entre a perfeição. Era estranho.

E agora ele estava ali. O copo de bebida em uma mão e o celular em outra enquanto lia – e relia – várias vezes as rasas palavras deixadas pela sua ex-colega.

“Talvez”, pensou ele, “eu não devesse responder isto aqui; não bêbado”.

Mas ele respondeu.

De: Lucca < beaumontlucca@mail.com >

Para: Maya N. < mimi.nadhur@live.com >

Enviada: 22 jan, 02:55

Assunto: RE: Perdão

Olá, Maya

Estou melhor do que você imagina.

Como esquecer você? Eu acho meio que impossível alguém apagar sua imagem da cabeça, sabe? É do tipo daquelas que gruda e não sai nunca mais, e que faz os artistas pintarem quadros, os músicos criar canções e, bem, os caras comuns – como eu penso ser – responder ao seu e-mail durante um porre.

Devo ficar honrado pela sua memória? Comovido pelo seu gesto de compaixão? Ou, na pior das hipóteses, levar você a um hospício? Porque isso faz dois anos, Maya.

De qualquer forma, eu aceito suas desculpas.

Com carinho,

Lucca Beaumont.

{...}

E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia

O jornal exposto na pequena janela de uma banca era extremamente intrigante: um título talvez chocante, mas era verdadeiro – mesmo que pedisse com todas as suas forças para que fosse apenas uma brincadeira.

Família é vítima de acidente na BR-101

Lucca retirou seus óculos escuros e parecia não conseguir engolir a notícia. Choque. Medo. Pesar. Os sintomas de um possível pânico denunciavam seu estado de espírito.

Uma ideia rabiscou a mente dele. Era um dia quente em Garopaba, mas ele não pediria uma água de coco gelada ou bebida parecida. Comprou um lápis e uma folha de papel – era urgente.

Maya havia respondido a ele há mais ou menos um dia, após três dias de ele ter mandado a sua mensagem. Não havia motivos para Lucca retornar o e-mail, soaria patético e repetitivo.

Mas,

Ele possuía uma ideia.

{...}

De: Gabriel < liberdadeparamar@email.com >

Para: Maya N. < mimi.nadhur@live.com>

Enviada: 25 jan, 23:44

Assunto:

Maya,

A sensação é horrível. Corrói parte de seu fígado, de suas pernas, de seu estômago, de seu coração. Corrói parte de tudo. É como um vírus destrutivo cujo único objetivo é o de lhe matar por dentro. Mas, lembre-se: Uma pessoa não morre por uma doença terminal. Não morre quando ingere veneno. Não morre em um acidente.

Ela morre quando é esquecida.

Não desista.

Você tem que morrer algumas vezes antes de realmente viver.¹

 

Era incrível o quanto aquilo poderia alcançar duas dimensões distintas: numa, tudo daria absurdamente certo; noutra, tudo daria malditamente errado. As consequências de todas as ações eram estas, correto? Não existe meio-termo.

Contudo, a forma a qual os acontecimentos surgiram era surpreendente. Ele gostava de acreditar em conspirações e seus pensamentos giravam em torno delas. Não era por acaso que ele havia conseguido seu e-mail (pelo menos assim pensava) e daria um jeito de torná-lo útil.

De qualquer maneira, sabia que, uma hora ou outra, escreveria algo sobre ela.

As pontas dos dedos de Lucca coçavam para colocar seu nome no final do e-mail. Ele não podia. A mágica era essa e perderia todo o sentido do anonimato caso ele se mencionasse no texto.

{...}

Demorou cerca de sete dias para que Lucca chegasse à conclusão mais óbvia: não havia dado certo. Maya não respondera; talvez por não utilizar o e-mail com tanta frequência, talvez porque aquilo tudo soava como loucura a ver dela.

Ele não se importava, no entanto. A urgência com a qual sua mente clamava por confortá-la era terrível e quase autodestruidora: tornou-se a missão de Lucca ajudar Maya de algum jeito. Ele não sabia se era certo e, obviamente, desejara poder abraçá-la pessoalmente e transmitir todo o sentimentalismo que estava nas entrelinhas de suas palavras. Contudo, ainda havia uma certa dificuldade presente em Lucca que não admitira tão cedo o seu fracasso.

Também, a inspiração chegou a um nível altíssimo nos últimos dias. Era impossível ter uma total noite de sono, visto que seu cérebro latejava em palavras que possuíam uma necessidade gigantesca de serem postas no papel. Maldito fosse o Ser a quem o abençoou escritor. O fuso-horário também não ajudava. Seu organismo ainda estava habituado a seguir a mesma rotina que possuía no Brasil, mesmo que ele já estivesse na Ásia há quase uma semana.

E foi por isso, basicamente, que ele continuou.

De: Gabriel < liberdadeparamar@email.com >

Para: Maya N. < mimi.nadhur@live.com>

Enviada: 01 fev, 23:44

Assunto:

Às vezes, não há nenhum aviso.

As coisas acontecem em segundos.

Tudo muda.

Você está vivo.

Você está morto.

E as coisas continuam.

Somos finos como papel.

Existimos por acaso.²

{...}

De: Maya N. < mimi.nadhur@live.com >

Para: Gabriel < liberdadeparamar@email.com >

Enviada: 03 março, 13:56

Assunto: Oi?

Gabriel,

Não sei quem você é, e me desculpe se eu deveria saber. Não sei, também, como possuí o meu e-mail, mas, já de antemão, aviso-lhe: talvez você deva estar me confundido com outra pessoa.

Você escreve muito bem e, mesmo que eu ache que há algo muito errado aí, suas palavras me confortaram.

Abraços,

Maya Nadhur.

 

Um sorriso maníaco rasgou o rosto de Lucca.

Escrever havia se tornado um hábito desde seus seis anos. Desde então, o mundo dele girava em torno de qualquer superfície sólida e desenhável, acompanhada de algum material que pudesse transcrever as palavras que caiam em enxurrada na sua mente.

Mesmo assim, ele nunca se vira tão viciado quanto agora. Mesmo com o clima frio predominante na Rússia, ele sentia-se suficientemente aquecido quando pegava em qualquer papel e escrevia nele, com sua caligrafia rabiscada e um tanto ilegível, os versos de mais uma poesia. E, ainda que essas ações não fossem indiferentes a ele, algo mais completava-o: então, escrevia para Maya. E agora, ela, talvez admirada pelo seu trabalho, tornou-se a combustão para continuá-lo.

Lucca não sabia ao certo se ela lia os e-mails até então. De qualquer forma, ainda que não recebesse respostas, ele continuava a mandá-los fazia quase um mês. Era um monólogo – mas escritores são monólogos – e seu correio eletrônico com Maya havia se tornado uma pasta de rascunhos terminados. Embora todos os fatores o fizessem acreditar que estava agindo como um psicopata e enfraquecessem sua esperança de um dia ser correspondido, ele ainda gostava de crer que seus versos não eram totalmente em vão.

Felizmente, eles não eram.

{...}

De: Gabriel < liberdadeparamar@email.com >

Para: Maya N. < mimi.nadhur@live.com>

Enviada: 04 março, 01:22

Assunto: RE: Oi?

Maya,

Meu objetivo não é lhe assustar, não se preocupe. Talvez você me conheça. E eu não sou um maníaco como deve achar.

Os e-mails são exatamente destinados a você e fico feliz que tenha gostado deles.

Então, aí vai mais um.

 

quando Deus criou o amor Ele não ajudou a maioria

quando Deus criou os cães Ele não ajudou os cães

quando Deus criou as plantas isto não foi nada de mais

quando ele criou a mim Ele criou a mim

 

e quando Deus criou o suicídio Ele estava deprimido

quando Ele criou você deitada na cama

Ele sabia o que estava fazendo

 

Ele estava bêbado e Ele estava viajando

e Ele criou as montanhas e o mar e o fogo

ao mesmo tempo

 

Ele cometeu alguns erros

mas quando ele a criou deitada na cama

Ele gozou por sobre todo o Seu Universo Abençoado. ³

 

Lucca quis quebrar o copo de vidro, que estava à sua frente, bem no topo de sua cabeça.

“Merda”, ele pensou assim que deu-se conta do quanto as suas palavras declamavam em prol do amor, “eu não posso estar apaixonado.”

Bem, ele estava quase.

{...}

Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira

Por sofrer com a ansiedade desde adolescente, Lucca havia adquirido o hábito de meditar a fim de encontrar um equilíbrio emocional. Além disso, praticava o exercício de limpar totalmente a sua mente e não pensar em nada.

Contudo, desde que mandara o último e-mail a Maya, ele não conseguia se concentrar.

Talvez por que ansiava que ela enviasse uma resposta, mesmo que já fizesse mais de duas semanas desde a sua última poesia ter sido enviada. Até então, ele escrevia versos para confortá-la do acidente que tirara a vida do Sr. e Sra. Nadhur. E, se Maya lia os e-mails, por que não os respondia?

Respirou fundo.

E, abrindo seu notebook, foi inevitável prender seus dedos à vontade de escrever mais um poema.

 

Mais um sobre ela.

 

ela é uma criança

e um manequim

e

é a morte.⁴

 

“Bem”, pensou, “é possível amar um ser humano se você não o conhece muito bem”.⁵

{...}

O verão russo estava iniciando. Faltavam três dias para o 1º de junho em Moscou. O sol iria se pôr após às 23h e o clima ia ser mais quente demais para os russos que estavam acostumados com a temperatura negativa do inverno. Era bom, em suma.

Lucca já havia comprado sua passagem para voltar ao Brasil. Ela estava lá, pisoteada por um livro dos anos 70 e esperando receber a sua utilidade. Era certo de que ela seria usada logo.

Ele, por outro lado, não tinha certeza nenhuma. Obviamente, seu vício só aumentara nos últimos meses e ele, como um bom usuário, cultivava-o. Pelo menos, toda santa semana um poema era enviado para Maya.

Porém,

Ele sabia que estava a ficar louco.

Rabiscando o que não possuía forma de prosa, enviou o que prometeu ser a última mensagem destinada ao e-mail dela.

“Maya,

Sei que você lê meus e-mails e sei também que você não sabe quem sou eu.

Isso não muda nada, mas o.k.

Este é o último e-mail que mando a você e por favor, não o responda porque eu não vou ler.

Isso é uma despedida.

Tenha um bom dia ou seja lá qual a hora que você está lendo isso.

Adeus e abraços.”

Sabia que estava sendo grosso, mas abandonara o sentimento de culpa da mesma maneira que engolia a paixão que nutria por ela. Não existia mais.

Não poderia existir.

{...}

Me disseram que você

Estava chorando

E foi então que eu percebi

Como te quero tanto

Frustrado, o único acontecimento que ainda restaurava o bom humor de Lucca era o fato de ser aniversário de sua sobrinha. O segundo dia de junho era simplesmente o favorito dele há sete anos e, mesmo que mais uma entrevista de emprego havia sido fracassada, ele conseguia sorrir ao atravessar a soleira da porta do apartamento de seu irmão.

— Tio Lucca! — falou a menina enquanto corria em direção a ele. Seus cachos castanhos eram moldados pelo vento enquanto balançavam.

— Oi, princesa — ele disse e a pegou no colo. Ela mexia em seus dreads. — Você está mais velha. E mais gorda.

A menina riu e deu um leve tapa no braço dele. Alice era uma criança saudável e, se Deus fosse bom, viveria por muitos e muitos anos.

Não obstante, a festa de aniversário estava a todo vapor. Incrivelmente, a música infantil e algumas dúzias de crianças correndo pela casa não agravavam a dor de cabeça que Lucca sentia.

— Dia ruim? — seu irmão perguntou enquanto sentava ao seu lado. Lucca bebeu um pouco do refrigerante – que Alice dizia ser cerveja – e umedeceu os lábios antes de responder.

— Muito. — Uma pausa. — Não me aceitaram no emprego.

Érico ergueu as sobrancelhas.

— Por causa do estilo? — perguntou.

— Eu acho que sim. Na verdade, tenho quase certeza.

Bem, era verdade e era cruel: o ser humano ainda não sabe reconhecer a essência. Lucca tinha os braços, peito e costas razoavelmente preenchidos por tatuagens que intercalavam com sua pele mulata. Não o bastante, ele possuía alguns dreads do cabelo castanho-claro. O preconceito nunca acabava. Alguns exageravam, até. Trocavam o lado da calçada, olhavam-no estranho, tinham medo.

Ele só era, em uma minoria, um poeta.

— Lucca — Érico o chamou —, você já conheceu Maya, a amiga de Fernanda?

Ele gelou.

— Maya... Nadhur?

Érico franziu suas grossas sobrancelhas pretas. Ele era o aposto do irmão, quase: pele branca, olhos castanhos negros e nenhuma tatuagem.

— Essa mesma.

Ele hesitou e tomou fôlego antes de responder:

— Sim.

— Ah — foi tudo o que seu irmão disse.

— Por quê? — restou saber.

— Pensei que você gostaria de conhecê-la, mas acho que poupei trabalho.

— Ela ‘tá aqui?

Contudo, não foi preciso que Érico abrisse a boca para responder. No momento em que Lucca virou o rosto para a entrada da sala de estar (onde eles estavam), seus olhos miraram em Maya – ela, com o rosto levemente inchado e as vistas um tanto avermelhadas.

Foi um aperto no coração.

Seus músculos se enrijeceram.

Seu coração bateu mais rápido.

Suas glândulas sudoríparas trabalharam ardilosamente.

E tudo o que ele disse foi:

— Maya.

E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você

Ainda era estranho, claro.

Mas Lucca acreditava que nunca iria se acostumar realmente com o aperto da mão dela na dele. Maya sorria abertamente ao seu lado – seus dentes um pouco tortos eram um charme; e ele, tolo, sorria só por vê-la desta maneira.

Na verdade, era impossível descolar o sorriso do rosto dele. A proposta de que pudessem tentar algo a mais surgiu assim que, após um sucinto ato de coragem e lucidez, Lucca decidira contar a ela sua verdadeira identidade – ou melhor, a verdadeira identidade de Gabriel.

Esse era o plano dele desde o dia em que viu ela na casa de seu irmão, chorando pela solidão que a abraçava aos poucos assim que não recebia mais o apoio de quase ninguém – nem mesmo das poesias que antes eram frequentes. Ele sentiu na pele o significado de “um zero à esquerda” quando se viu de mãos atadas para poder ajudá-la. Tinha decidido a parar de escrever para ela, até então; mas não imaginava que, talvez, a importância de seus versos fosse tão grande para ela quanto para ele.

Após uma persistência dos diabos, ele conseguira fazer com que ela aceitasse seu convite para um jantar. Não foi fácil e as investidas eram ignoradas. Maya via a Lucca como um velho colega do ensino médio, sem ter qualquer noção de que fosse ele o autor dos poemas. Mas, assim que aceitara o convite dele, seu conceito havia mudado perante a seus sentimentos. Naquela noite, inesperadamente, ele havia posto à prova a importância que ela dava às poesias dele e resolvera revelar o anonimato de uma forma um tanto diferente...

“ela é uma criança

e um manequim

e

é a morte.”

Maya franziu as sobrancelhas assim que ele declamara para ela o último poema enviado a seu e-mail. Depois, ela sorriu. Céus, ela havia sorrido. Ele estava no paraíso.

“Eu tenho que escrever sobre isso”, ele pensou durante aquela noite.

E ele escreveu.

Ambos tinham ciência do que estavam fazendo fazia já quase dois meses. Não era um relacionamento oficial, mas também não se passava por amizade colorida. Ela era dele. Ele era dela. Isso bastava.

De: Lucca < beaumontlucca@mail.com >

Para: Maya N. < mimi.nadhur@live.com >

Enviada: 10 set, 13:56

Assunto:

Oh, eu tenho esquadrões

de dor

batalhões, exércitos de

dor

continentes de dor

ha, ha, ha,

e

tenho você.⁶

.

.

.

.

.

.

Simbologia:

¹: Charles Bukwoski em “As pessoas parecem flores finalmente”.

²: Charles Bukwoski em “O capitão saiu para almoçar e os marinheiros tomaram conta do navio”.

³: [ADAPTADO] “Sim sim”, poesia de Charles Bukwoski.

⁴: [ADAPTADO] “Encurralado”, poesia de Charles Bukwoski.

⁵: [ADAPTADO] Charles Bukwoski em “Notas de um velho safado”.

⁶: [ADAPTADO]: Charles Bukwoski em “Numa fria”.



Notas finais do capítulo

That's all, folks ("Isto é tudo, pessoal").
Quis criar uma one bem leve e espero que tenha conseguido :).
Beijões pra vocês!

-------------------AM--------------------------
AGRADECIMENTOS:

Oi Pessoal! Aqui é a Georgeane Braga pegando um gancho do conto da Leeh apenas para agradecer.
Esse projeto foi algo de muito orgulho e desafio para mim e acredito, que para todos os meus colegas que participaram comigo desse trabalho incrível que nos surpreendeu de várias formas. Mesmo aqueles que não puderam permanecer, quero deixar minha gratidão também, por acreditaram no projeto. Em especial a Lis Costa, minha amiga e irmã que deu todo o suporte necessário. Te amo!
Aos meus queridos Amauri, Daniela, Karen, Sabrina, Natasha, Nicoly, Esdras, Mia, Julia, Célia, Manu e Letícia: O que dizer a vocês? O esforço e a dedicação de cada um, mesmo diante de tantas dificuldades, foram peças-chave para que a coletânea acontecesse da melhor forma. Merecem meu respeito! Obrigada por aceitarem o convite. Aprendemos muito juntos e o resultado foi impressionante ♥
E aqui vai, também, dois agradecimentos especiais:
À Leeh, por betar cada conto maravilhosamente com toda paciência e competência. Você é o nosso anjo ♥
E às queridas Sabrina e Daniela, por promover nosso marketing digital com lindos banners e capas. Vocês são demais meninas ♥
E, finalmente, aos nossos queridos leitores que acompanharam e tiraram um tempinho para comentar expressando tanto carinho, tanto aqui quanto no grupo. Sem palavras para definir ♥
AMORES VIRTUAIS acabou, mas tem novidade chegando em breve. Continuem nos acompanhando ;)
Beijão a todos ♥



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