AMORES VIRTUAIS escrita por Projeto Literário ColetâneaS, Georgeane Braga, Nicoly Simarque, Hanna Martins, Piper Palace, Sr Devaneio, itsmemare, arizonas, Danna Collins, Amauri Filho, Sabrina Azzar, Leeh, Natasha Alves


Capítulo 14
Conto 14 - Amor Distante


Notas iniciais do capítulo

Olá, meus queridos *-*
Sou eu aqui novamente, postando mais um conto para vocês!
Como eu sou apaixonada por romances de época resolvi escrever nesse estilo.
Quando montei esse enredo, não imaginava que iria gostar tanto dele, e isso me animou para que eu pudesse transformá-lo em livro e assim, estou postando-o no meu perfil pessoal como Anna Selina.

O amor virtual nesse conto se dará através das cartas, afinal, a virtualidade é tudo que aparenta uma realidade inalcançável e não se restringe À tecnologia, não é?

Espero que gostem dessa estória. Fiz com muito carinho ♥

Agradeço aos meus amigos autores que aceitaram fazer parte desse projeto e deram um show de bola! Vocês são demais!

Leeh, obrigada por sua dedicação em cada betagem e o carinho por cada um de nós. Você é nosso anjo, Obrigada mesmo ♥

A todos os leitores, minha imensa gratidão. Pelo carinho e por dar uma chance a esse projeto. ♥

Boa leitura!

Sinopse:
Anna Selina era mais uma das moças de sua época que sonhava em se casar por amor, por mais que, no fundo, tinha consciência do destino da maioria das mulheres.
Em um Baile de Máscaras, conhece um magnífico cavalheiro e acredita que a sorte sorrira para ela: estava prometida ao homem que ganhara seu coração. Será?

Música tema: Wings To Fly (Susan Boyle)




O inverno rigoroso em Viena persistia há meses e as noites ao pé da lareira eram tão comuns nessas épocas quanto sentar-se nos tapetes persas e conversar por horas até o sono chegar.

         As primas Selina e Alexia sempre burlavam as regras da Sra. Becker, após o toque de recolher. No auge de seus dezessete anos, as duas amigas confidentes sempre tinham assuntos sobre os jovens cavalheiros da corte austríaca.

         Porém, o assunto que as tomava aquela noite não era nada empolgante quanto gostariam. O fato é que Selina Becker soubera por seu pai, que um jovem Conde inglês, que há pouco fixara residência em Brno, procurava uma noiva. E Selina estava entra as possíveis escolhidas.

         Filha de Nicolau Joseph Becker, o General do exército de Viena, Selina era uma ótima opção para uma aliança. Aliás, alianças eram feitas todos os dias e a Áustria tinha a Inglaterra como sua aliada armamentista para o caso de serem, outra vez, atacados por inimigos em potencial.

O general Becker era muito reconhecido por suas habilidades estrategistas e guerrilheiras. Seu desejo era desfazer as marcas vergonhosas deixadas por antigos generais e suas batalhas perdidas, deixando a Áustria sob os olhos descrentes de outros países.

Soubera da mudança do conde de Blanchard para Brno, uma província da Republica Theca, e desde então seu interesse em unir as duas famílias pelo prestígio e feliz consórcio.

Selina sempre achou que se casaria por amor, mesmo sabendo que as mulheres não se davam a esse luxo. Os casamentos das jovens recém-apresentadas na sociedade quase sempre eram acordos feitos entre os patriarcas das famílias. Não importasse os sentimentos da moça, elas teriam que cumprir seu destino.

Entretanto, as jovens da Casa Becker ainda sonhavam com seus príncipes apaixonados. Alguém que as encantaria e não como os maridos que elas observavam nos bailes e reuniões promovidas pela família.

─ Percebestes como a jovem Cullmann tens o semblante triste? Acaba de se casar e nem pode usufruir da felicidade. Isso é muito, muito terrível! ─ lamentou Alexia.

─ Queres dizer, injusto? A escolha é sempre deles e nunca nossa, Lexy. Estou com medo... ─ Seus olhos marejaram. ─ E se ele não for bom... vou estar condenada para sempre nas mãos de um completo estranho.

─ Ah, minha prima! Venha cá, deite aqui no meu colo. Tente pensar pelo lado bom. Vocês ainda terão tempo de se conhecerem ─ disse Alexia, alisando os cabelos de Selina.

─ Segundo mamãe, o representante do conde esteve perambulando pelos círculos sociais atrás das jovens com os requisitos que ele impôs, mas já marcou sua presença no baile para papai nos apresentar. ─ Suspirou e logo depois deu um pulo. ─ Veio-me uma ideia!

─ O que há?

─ Se eu me mostrar rebelde, o conde me rejeitará e então estarei livre! ─ comemorou.

─ Sei. E seu pai lhe cortará a cabeça! Não que eu seja a favor de tais regras, Selina, mas sabemos que não é tão simples assim. E, além disso, a questão é mais visual do que qualquer outro requisito, pode acreditar.

Olhou para a prima que fitava o crepitar do fogo da lareira na mais completa tristeza. Queria poder ajudá-la mais do que palavras, mas como poderia? Em breve, ela mesma teria o mesmo destino.

Assim, a abraçou e deixou o silêncio ser o único cúmplice entre as duas.

—----------AS---

─ John, entendeu o que tens que fazer? E não faça essa cara, pois já me livrastes muitas vezes. ─ O conde George deu um sorriso afetado para o lacaio.

─ Sim, porém, não se passando por você. Eu posso ser preso, senão enforcado, por usurpação! ─ contrapôs o rapaz.

─ Oras! Deixe de bobagens! É um baile de máscaras, e além do mais, temos a mesma altura e cor de cabelos. És um pouco mais magro, mas ninguém reparará. De qualquer maneira, é minha primeira vez na sociedade vienense, ou melhor, a sua. ─ Riu com gosto.

John era um jovem lacaio da família Campbell, da Casa Blanchard. Cresceu muito próximo a George, o filho primogênito de Lorde Thomas. Como o patriarca não se importava com a proximidade dos dois, tornaram-se amigos. John tinha a liberdade para conversar com jovem conde, pois era muito astuto e sábio, aconselhando-o quando perdia a cabeça ou mesmo acobertando-o quando o assunto era mulheres.

Várias vezes ele se passara por porta-voz quando este se encontrava numa enrascada amorosa. John era bom com as palavras e sabia persuadir uma moça a desistir de se tornar a futura senhora Campbell.

Por sua vez, George não podia mais fugir das responsabilidades matrimoniais.  Aos vinte anos, seu pai viera a falecer deixando com ele todos os encargos de seu título. Ele não queria nada disso. Queria viver sua vida e a morte de seu pai o transformou num rebelde. Agora, aos vinte e cinco anos de idade, e sob os constantes rogos de sua mãe, precisava encontrar uma esposa.

As responsabilidades aumentaram e com elas, algumas obrigações que sua posição exigia. Entre as quais: um consórcio bem-sucedido com alguma família austríaca, mantendo assim, alianças confiáveis e duradouras.

E para que o processo não fosse tão doloroso, nada melhor que uma dama cheia de atributos, sendo o maior deles, a beleza.

─ O nome dela é Selina. Filha de Nicolau Becker.

─ O General? ─ indagou John.

─ Sim. Segundo as cartas que recebi de meu representante, ela é apta para o posto de futura condessa, de acordo com os meus requisitos; mas não confio nos olhos dele para avaliar aspectos físicos. Ela não pode ser feia!

─ Entendo ─ respondeu John, desanimado. ─ Então, eu serei seus olhos? Estás certo disso? ─ Levantou uma sobrancelha desafiadoramente.

─ Confiarei em você. Não me faças firmar um compromisso com uma mal-apessoada! Ou te colocarei amarrado num buraco de formigas-ceifeiras.

─ Tudo bem.  Cumprirei essa tarefa com muito desvelo. E que Deus me ajude ─ disse o lacaio, se dando por vencido.

—------------AS---

 

─ Pare de esfregar essas mãos, Selina, vai rasgar as luvas! ─ ralhou a senhora Becker. ─ O conde deve chegar a qualquer momento. Precisa estar bem apresentável, e, por favor, sorria.

Sorrir era a última coisa que Selina queria. O baile, que sempre fora para ela um evento divertido, estava sendo torturante. Seu coração disparava toda vez que alguém mencionava a chegada de um convidado.

“Tomara que ele não venha”, pensava ela.

A prima, percebendo seu quase infarto, resolveu intervir:

─ Minha tia, gostaria de cumprimentar as senhoritas Hauser; Selina pode me acompanhar? ─ perguntou Alexia.

─ Permito, mas não se demorem.

As jovens então posicionaram suas máscaras à frente dos olhos e caminharam pelo salão. Agradecida, senhorita Becker resolveu tentar se esconder, mas a cada passo que dava, era barrada por alguma dama faladeira.

Enquanto isso, do outro lado do salão, o suposto conde adentrava ao recinto e, sendo já abordado pelos anfitriões, após ser identificado pelo anel com seu brasão, no dedo mínimo ─ somente homens importantes usava ─, começou uma conversa com poucas palavras com um grupo de nobres do qual fora direcionado.

Nesse grupo, encontrava-se o pai da tal moça a ser analisada, e com grande orgulho, o general contava sobre suas condecorações e estratégias militares. 

Não poderia ficar por muito tempo. Deus sabe o quanto estava suando por baixo daquela máscara negra. Tinha medo de dizer algo que não devia, ou, não dizer algo que devia. Não sabia ao certo; nunca fora um nobre, apesar de conviver bem de perto com alguns.

Resolveu ir direto ao ponto:

─ A senhorita Becker se encontra presente?

─ Oh, mas é claro! ─ respondeu rápido demais, a mãe orgulhosa. ─ Tenho certeza de que se agradará dela, Conde Campbell. Olhe, ali está ela. ─ E apontou a frente para um grupo de damas, e assim, a viu. ─ É a de vestido lilás ─ completou a senhora Becker.

Não precisava dizer, pois, no momento em que a olhou, descuidada com sua máscara nas mãos e não no rosto, sentiu o coração falhar uma batida. Ela era tão linda! Seus cabelos levemente ruivos estavam presos num coque com algumas mechas ondulada caídas indo até o meio das costas. Sua boca era pequena e bochechas róseas. Simplesmente graciosa!

Tinha um semblante um pouco tenso, como se estivesse preocupada, mas que não tirava a delicadeza de sua tez e nem a extrema beleza que a compunha.

“Estou no céu e ela é um anjo?”, pensou ele. Ao virar-se para falar com os pais da moça, percebeu que ficara além do devido, admirando-a. Disfarçou e perguntou diante dos olhos divertidos dos pais da moça:

─ Senhor Becker, concede-me uma dança com vossa filha?

─ Mas é claro, Conde Capmbell! Terei muito gosto. Mandarei chamá-la.

─ Não se faz necessário, senhor general. Irei até ela.

E com um cumprimento formal, saiu de encontro à moça. Contudo, ela já não se encontrava no seu campo de visão. Caminhou pela borda do salão a fim de avistá-la. De vez em quando, era parado por algum cavalheiro para dar-lhe as boas-vindas a Viena.

E outra vez a avistou. Estava na soleira da porta de acesso a uma varanda. Ela olhou de um lado para o outro e saiu. “Hum! Muito suspeito!”, disse consigo mesmo e tentou desvencilhar de uma mãe com apresentações infindáveis sobre suas três filhas.

Foi, então, em direção às sacadas que ladeavam o salão. Olhou todo o espaço, mas estava deserto. Deu alguns passos e apoiou-se no parapeito da varanda; havia um imenso e bem cuidado jardim a sua frente, mas não era isso que queria ver. Pôs-se a pensar na moça e isso o forçou olhar para si. Não era um Conde, ao menos um nobre cavalheiro. Era um simples lacaio e Selina era a futura condessa de Blanchard. Seus extintos diziam que deveria voltar e dizer ao conde que sim, ela era a mulher mais linda que já vira. E pronto. Cumprira seu papel sem mais dispersões.  

Ao dar meio volta para sair, ouviu um espirro baixo que o fez olhar para o lado. Estreitou os olhos e percebeu um vulto atrás de uma balaustrada que separava uma ala da outra dentro da mesma sacada. Era um espaço escuro, porém sabia que ela era escondida ali.

Aproximou-se devagar e apoiou-se novamente no parapeito da sacada.

─ Então é aqui o refúgio dos descontentes? Vou lembrar-me disse na próxima vez ─ ele disse e ela se assustou.

Isso era estranho e imprudente, pensou Selina, soubera várias histórias de moças e rapazes descobertos em lugares inapropriados e forçados a se casar.

─ Não tenhas medo. Não lhe farei mal e não insistirei para que saias daí. Mas se achares em mim alguém para compartilhar suas mazelas, as ouvirei com prazer. Veja, não sei quem és e você não sabes quem sou. Poderemos ser amigos confidentes por uma noite. O que me diz?

Selina deu um leve sorriso e mesmo que ele não visse, sentiu sua respiração mais leve. Era um bom sinal. Mais uma vez ela espirrou.

─ Deves estar se resfriando. O clima de Viena é bem frio nessa época do ano. Tome o meu lenço. ─ E passou para ela através do vão da balaustrada e no momento em que ela o pegou, tocou seus dedos. Mais uma sensação estranha se apossou dele, mas tentou não pensar nisso.

─ Obrigada ─ respondeu baixo. ─ O senhor é daqui? Seu sotaque é diferente...

─ Não sou. Mas não vamos falar de mim. A senhorita tem algum segredo para compartilhar? Aproveite ou amanhã lamentarás por perder essa chance. ─ Seu tom era divertido, o que fez Selina rir.

─ Bem, senhor “diário” ─ E John riu mais ainda, fazendo-a acompanhar ─, na verdade, apenas fujo de um destino injusto.

Ele suspirou e sorriu compreensivo. Acabava de saber o que era isso. Nunca tinha almejado nada além de ter uma casa no campo e cuidar de alguma plantação. Quem sabe casar-se com uma mulher simples como ele e ter seus três ou quatro filhos. Um cachorro também seria bom. Mas a vida estava colocando ele numa difícil situação. Seu coração sinalizava algo que nunca sentira antes, e ele estava com medo.

Estavam sentados lado a lado no chão, separados apenas por uma escultura de pedra, mas podia sentir o seu calor; a leveza de sua presença; o encantamento que ela transmitia a ele.

Ficaram quase uma hora conversando. Riram juntos contando histórias engraçadas de suas infâncias, falaram de preferências. Ela soubera que ele não cortejava nenhuma moça e seu coração, por um momento, desejou ser livre para que talvez, pudessem conhecê-lo melhor. Sentia-se segura ao lado dele; confiante; feliz. Soubera também que seu momento preferido era sentar e olhar para o céu num fim de tarde. Isso lhe transmitia paz, esperança.

─ Meu nome é Selina. ─ Surpreendeu quando ela disse. Já sabia, mas foi diferente. Ela o disse. Tinham criado uma espécie de elo.

─ É um belo nome. Como tenho certeza de que a dama que o possui, também é.

─ Obrigada ─ agradeceu após alguns segundos. ─ Minha mãe disse que significa “céu” ou “paraíso”. ─ Deu um risinho. ─ O que posso dizer? Cada um tem uma forma de ver as coisas.

Soou como um lamento. Lembrou-se de algumas aulas em alemão que George tinha quando criança e ele presenciava.

Mein himmel.  Mein paradise* ─ saiu da boca dele sem pensar e ela estremeceu.

─ Como?

─ Guarde essas palavras consigo. ─ Suspirou mais uma vez. ─ Jamais subestime o poder de um nome, Selina. Tornaste nesse momento o meu céu. O meu paraíso.

Seus olhos marejaram. Nunca pensara dessa forma sobre si. Levantou-se para sair dali e olhar para o homem que tocou profundamente seu coração, mas ao fazer, um burburinho na entrada da varanda a fez recuar. Era sua mãe a procurando e não podia vê-la ali com um estranho.

─ Eu vou sair ─ sussurrou ele. ─ Fique mais um pouco e depois vá. Há outras entradas, não há?

─ Sim, mas...

─ Shhh! ─ pediu ainda no escuro. ─ Eu nunca a esquecerei, Selina. Mein himmel. Mein paradise.

E se foi.

Ela o observou caminhar de volta para a porta que dava acesso ao salão e pensou se o veria de novo. Como eles saberiam? Pensou perguntar o nome dele antes de partir, mas dois senhores conversando, tomaram lugar na varanda e quando ele passou perto, o cumprimentaram:

─ Conde Blanchard!

E este retribuiu levemente com a cabeça, desaparecendo porta adentro.

Era ele. Seu futuro noivo e marido.

—--------------AS---

Os pais da jovem Becker não podiam estar mais radiantes com a carta que chegara a eles dois dias após o baile, confirmando a presença do Conde no jantar oferecido.

Alexia não sabia mais o que fazer com a euforia da prima. Ela não dizia nada além de que ele era encantador e o quanto ansiava por vê-lo novamente. 

 ─ Estou muito feliz por ti, minha prima. Ainda bem que tiveste tão agradável conversa com ele, ou estaria em sérios apuros se apaixonando por outro ─ brincou.

Mas o golpe certeiro veio sem piedade quando dois dias mais tarde, Selina entrara na sala de chás para receber o tão esperado noivo. Era bonito. Alto. Cabelos escuros e um belo sorriso. Parecia um pouco mais corpulento, entretanto, só o vira uma vez tão rapidamente, que esses detalhes nem eram importantes.

Mas, havia algo que não se encaixava ali e quando o Conde abriu a boca para falar mais abertamente... Não era ele. Não era.

O observou atentamente e quanto mais ele falava, mais certeza tinha de aquele não era o seu amigo confidente de dois dias atrás. Estaria ficando louca?

Fechou os olhos e lembrou-se da sua voz, que não era nada parecida com aquela presente. Será que ninguém percebia? Começou a se agitar e se incomodar com a presença do conde. E ao ficarem sozinhos, com a permissão dos pais por quinze minutos, ela quis fazer o teste:

─ Mein himmel. Mein paradise ─ disse ela olhando para ele.

─ Como? ─ perguntou ele por um momento. Mas logo acreditou que ela estava declarando-se, por isso respondeu:

─ Fico lisonjeado com suas palavras, senhorita Becker. Devo dizer que...

─ Não era você ─ ela o interrompeu. ─ Não era o senhor quem estava no baile.

Ele a olhou espantando recebendo os olhares duros da moça, que esperava uma resposta. Selina estremecia por dentro e segurava para não chorar na frente do noivo. Era um misto de raiva, decepção e surpresa por constatar no olhar dele que realmente aquilo era verdade.

George resolveu ser totalmente sincero. Contou sobre John e sua relação de amizade com o lacaio e que sua intenção era conhecer um pouco da moça que poderia ser sua futura esposa.

A senhorita Becker estava sem saída. Já fora feito o acordo entre a família e o nobre. E mesmo que contasse ao seu pai sobre a farsa, ele nunca desfaria um contrato tão promissor. Seria em breve desposada por outro homem e nunca mais veria John, já que o conde informara que ele havia retornado ao Reino Unido.

John.

Uma angústia tomou conta de seu ser e quando Alexia veio ao seu aposento questionar sobre o que ocorrera, Selina desabou em lágrimas nos braços da prima, discorrendo os fatos.

─ Oh, minha querida prima! Que desfortúnio! ─ lamentou enquanto embalava-a compartilhando de sua dor.

—-------------AS---

Já se passara três anos desde que Selina Becker se tornara a senhora Campbell: a Condessa de Blanchard. Mas nunca se esquecera de John e de sua voz suave dizendo palavras doces e alegres a ela. Como estaria? Haveria se casado e constituído família?

Estabelecidos em Brno, o Conde George sempre ia sozinho ao Reino Unido. Apenas para resolver negócios e voltava com notícias de lá, inclusive sobre John: seu fiel amigo lacaio.

A condessa nunca pedira para se unir a ele em uma dessas viagens. Apesar da enorme vontade de reencontrar o seu amado, não podia transparecer qualquer ansiedade, pois seu marido poderia desconfiar. Nunca relatara a ele a verdade sobre aquela noite no baile. Apenas mencionou que ela e o lacaio haviam conversado durante uma dança.

Não obstante, tinha medo do que podia encontrar ao chegar. Um John casado e feliz. Isso ela nunca saberia, já que o marido nada comentava sobre essas particularidades.

Mas a chance veio em uma tarde quando conversava com o marido sobre escrever cartas. Ele reclamou que precisava escrever mais regularmente para a mãe, entretanto, não havia tempo. Selina, como se dispunha de tais habilidades e tinha bastante tempo livre, se ofereceu:

─ Eu posso escrevê-las, senhor meu marido, apenas dite-me e eu transcreverei suas palavras.

O marido a olhou demoradamente e ela, constrangida, teve que perguntar:

─ Há algo errado?

Ele aproximou-se e tomou uma das mãos, beijando-a.

─ Apenas contemplando a beleza de minha querida esposa ─ disse.

E com o consentimento do Conde, Selina passou a escrever cartas para a mãe de George, assim como para John, que segundo ele, não poderia deixar de fazer. Afinal, era um grande amigo.

No entanto, na ausência do marido, Selina escrevia uma carta a mais para o lacaio, e foi assim que começaram a se corresponder. Alexia recebia as cartas de John e as entregava à Condessa, conforme recomendações.

 

“Brno, março de 1838.

Caro John,

Não sei como reagirás à minha audácia em escrever-te mesmo sendo uma senhora casada e mesmo sabendo que podes estar na mesma condição.

A verdade é que esperei por muito tempo essa chance e não a desperdiçarei, mesmo que me retornes dizendo que eu não o faças mais.

  Ainda posso ouvir-te dizendo doces palavras a um coração atormentado, mas que também nunca mais foste preenchido como àquela noite. Passe o tempo que for, sempre o terei em meu coração.

Com ternura,

Selina.

Nota: Se achares que mereço uma réplica, escreva para a Casa Becker, em Viena, aos cuidados da senhorita Alexia Becker.”

 

A resposta veio um mês e meio depois:

 

Reino Unido, maio de 1838.

Minha querida Selina,

Não sabes quanto almejei saber de ti. Se achares que mereces ser condenada por tal sentimento, então serei condenado contigo.

Não há um dia sequer que não penso em ti. Não há um dia sequer que eu não olhe o céu e me lembre de ti.

Sei que és a esposa de um Conde e eu não sou mais que um lacaio que ousou se apaixonar por uma dama. No entanto, não posso estar mais exultante ao saber que tenho o seu amor, ainda que distante.

Eu o aceito de bom grado, mein paradise!

Da mesma forma, tens o meu amor.

Estarei ansioso esperando seu retorno, mesmo que sejas em uma folha de papel.

Do seu John.

Nota: não me casei. Se eu o fizer, saiba que nenhuma outra mulher terás o meu amor.”

 -------------AS----

A condessa não podia estar mais radiante e, durante o jantar, o marido percebeu o semblante mais vívido que ainda não presenciara desde que se casaram.

─ Algo se passa, senhora condessa? Sinto-a mais contente, e ao mesmo tempo, distante ─ observou e ela inquietou-se:

─ Não é nada, senhor meu marido. Apenas as visitas de minha prima deixam-me mais alegre. Às vezes sinto-me sozinha.

─ Certamente ─ respondeu George, levando uma colher de sopa à boca. ─ Tentarei ser mais presente. Mas se preferir, convide sua prima para passar uma temporada conosco.

─ Sim. Eu o farei. Obrigada.

Obviamente, Selina não fez o convite. Se o fizesse, não teria como receber as cartas de John. Era muito arriscado recebê-las na Casa Blanchard, em Brno, por não serem direcionadas ao Conde, como de costume.

No inverno de 1840, a condessa deu à luz a uma menina: Layla. A senhora Campbell partira da terra inglesa para fazer companhia à nora. George pedira a John que viesse para estar à disposição de sua mãe e Selina ficou alarmada.

Mas, o lacaio contraíra malária e não pode fazer a viagem. Preocupado com o estado do amigo, o conde partiu para a Inglaterra com a promessa de enviar notícias à esposa e à mãe. Foram dias difíceis, pois, as cartas não chegavam e Anna Selina, temendo o pior, passava os dias em lágrimas.

A sogra, sempre muito prestativa, cuidava dela e do bebê, até que quatro meses depois, George chega com a notícia de que John estava bem, mas preferiu não enfrentar longa viagem.

Relatara que tivera dias de febre alta e delírios. Ainda se encontrava fraco, mas fora de risco.

─ Esse rapaz precisa de uma boa esposa ─ falou a mãe do Conde durante o chá. ─ Ainda é jovem e apessoado. Ninguém merece morrer sozinho.

Ninguém respondeu. O conde apenas bebericou um pouco do seu chá olhando fixamente para um ponto qualquer. Provavelmente pensando. Estava estranho desde que voltou. Notara a esposa.

Mas a declaração da senhora Campbell fez Selina pensar que deveria incentivar John a se casar, mesmo que no fundo seu amor fosse egoísta. Lembrara, certa vez, de sua prima lhe falando:

Ainda que não fosses desposada pelo Conde, nunca poderias ficar com ele, minha querida. Ele é um lacaio. Vossas divergências sociais sempre impedirão que vivam esse amor, de fato.”

E com o coração dilacerado, escreveu:

 

“Brno, fevereiro de 1841.

Meu amado John,

Há muito desejo escrever-te, mas as circunstâncias não me permitiram. Rogo a Deus todos os dias para que fiques bem. Muitas foram as minhas preces em seu favor, juntamente com minhas lágrimas diante de sua enfermidade.

Tive medo de perdê-lo. E estás tão sozinho... Devido a isso, há algo que preciso lhe dizer, ainda que com grande dor.

Não és justo que estejas só, mas antes deves encontrar uma boa esposa e com ela, constituir família. Afinal, tenho a minha.

Não significas que não tenho mais amor por ti. Esse, eu levarei por toda a vida. Guardarei sua voz e suas palavras; suas cartas e seu amor como uma jóia intocada, preservada nas profundezas da minha alma e do meu coração.

Despeço-me em lágrimas, mas não posso ser egoísta. Quero que sejas feliz!

Talvez, um dia, possamos viver nosso amor em outra dimensão. No nosso céu. No nosso paraíso.

Sejas feliz, John. Eu o amo e amarei eternamente.

Selina.”

 

 

“Reino Unido, maio de 1841

Minha doce e amada Selina,

Não pude esconder o descontentamento com que li sua carta. Não posso permitir essa despedida, entendes? Não posso viver sem suas palavras, pois é o que me move.

Consideras que preciso de uma esposa para que eu me vá bem? Pois digo, minha Selina, que não troco nosso amor distante pela presença de qualquer mulher.

Por favor, não me peças para partir. Fiz uma promessa: esperar-te-ei nessa vida ou na outra.

Mein himmel. Mein paradise.

John.”

 

—-------------AS----

Brno. 1866. A Condessa viúva, olhava pela janela a neve cair. Seu semblante impassível não dizia muita coisa, mas seus pensamentos iam do seu falecido marido à carta que segurava.

Há seis meses o Conde deixou sua casa para se instalar no Regimento próximo a Prússia. Uma grande guerra estava sendo travada contra a Alemanha e George era um dos generais.

A notícia de sua morte chegara junto com uma carta endereçada à sua esposa. Impactara a todos, principalmente a seus filhos Layla e Michael, ambos já casados e vivendo em Viena.

A vida com George tinha sido boa. Era um homem agradável, às vezes, impulsivo demais, no entanto, sempre procurando agradar a esposa e os filhos. Quando partia, sempre voltava com presentes e no Natal, nunca deixava de montar a árvore junto com as crianças, enquanto ela tocava Sonata Nº 11 in A maior**, sua canção favorita e que fazia lembrar-se do dia do baile em 1835.

Mas nem todos os esforços do marido ou alegria de ser mãe preenchera o vazio que sentia pela falta de John. Aquela falta deixada depois daqueles poucos minutos de conversa entre eles. Pelas cartas trocadas durante trinta anos e a cumplicidade nos momentos bons e ruins. Palavras que acalentaram e aqueceram os dias dos dois.

Agora, estava ali, com a carta do marido nas mãos, que ainda não tivera coragem de abrir e outra para ser enviada a John. Quebrou o selo e a abriu. Suspirou fundo antes de ler aquelas palavras arrastadas no papel, certamente pelo cansaço físico e mental com que lidava todos os dias no acampamento de guerra.

 

“Minha querida Condessa de Blanchard,

O que escrevo aqui poderá ser, ou não, uma surpresa para ti. Mas antes, quero agradecer pela esposa e mãe dedicada que sempre fostes; pelas palavras de apoio em momentos difíceis e a sabedoria com que sempre conduziu nossa família e nossa casa.

De minha parte, sempre tentei dar o meu melhor, contudo, sei que nunca pude suprir parte de seus anseios. Confesso minha parcela de culpa quando pedi a John que tomasse meu lugar há trinta e um anos atrás, pois foi naquele dia que destinos foram selados e nenhum de nós pode ser feliz completamente.

Você, por amar John; ele, por amar-te; nós dois pela amizade, e por fim, eu, por vê-la todos os dias olhando pela janela, esperando uma carta chegar, ou tocando divinamente seu piano com os olhos fechados desejando estar em outro lugar.

Eu também te amei, Selina, mas não posso culpá-la por não conseguir sentir o mesmo por mim. E também, não culpo John. Mas diante das nossas obrigações e imposições, não pude abrir mão de ti.

Agora, o faço. Vá ao encontro dele e viva seu grande amor! Ele espera por ti. Tens a minha benção.

 Minha missão finda aqui: como marido, como pai, como militar, como conde. Diga a meus filhos que eu os amo, com amor profundo. São minhas maiores dádivas!

Quanto a John, já lhe enviei uma carta.

Espero que não hesite, Selina. Apesar das circunstâncias, fui feliz ao teu lado. Quero que sejas também!

Com amor e gratidão, me despeço.

George Miller-Campbell – Conde de Blanchard  -1865.”

As lágrimas molhavam o papel. E a condessa levou-o ao peito deixando esvair todos os sentimentos mistos que compunham aquele momento.

─ Ah, George... Eu sinto muito!

—---------AS---

A carruagem que deveria chegar a Londres na tarde de outubro de 1866, mais precisamente na Casa Blanchard da Rua 15, tomou outra direção. Havia outra propriedade da família a 300km dali. Uma casa de campo com apenas um casal de caseiros e ele: John.

Ao descer da carruagem, ela o viu. Ali, parado à sua frente, pode contemplar pela primeira vez, aquele rosto que tantas vezes imaginara. Ele sorriu e foi em sua direção.

─ John! ─ o chamou como se quisesse confirmar que não era apenas um sonho. Lágrimas teimosas não puderam ser contidas quando ele a abraçou ─ John!

─ Eu estou aqui! Sempre estive! Sempre estarei! ─ sussurrou beijando o topo de sua cabeça.

Era a voz dele! Tantas vezes quisera ouvi-la, ao menos por um segundo.

Estavam, enfim, juntos. Completos. Olhou para ele e sorriu, depois disse:

─ Mein himmel!

E ele completou:

─ Mein paradise!

Fim

 

Notas:

*Mein himmel. Mein paradise (alemão): Meu céu. Meu paraíso.

** Obra musical composta por Mozart, em Viena, por volta de 1793.

 



Notas finais do capítulo

E então... gostaram?
Comentem, tá?

Beijo a todos! ♥



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