AMORES VIRTUAIS escrita por Projeto Literário ColetâneaS, Georgeane Braga, Nicoly Simarque, Hanna Martins, Piper Palace, Sr Devaneio, itsmemare, arizonas, Danna Collins, Amauri Filho, Sabrina Azzar, Leeh, Natasha Alves


Capítulo 11
Conto 11- (des) Conhecidos


Notas iniciais do capítulo

Olá, sou a Karen Dorothy e hoje eu quem posto o conto.
Vamos lá, queria deixar um obrigada bem especial a todos(as) que vem acompanhando esse lindo projeto idealizado pela nossa querida Georgeane Braga, muito obrigada à ela também pelo convite e oportunidade de fazer parte do mesmo ♥
Algumas coisas aconteceram, e com isso tive a ajuda de uma pessoa muito especial na elaboração desse conto. Lisa Costa, obrigada por tudo, nega ♥

Sinopse do Conto:
"Henrique conheceu Bianca quando a revista New York Magazine onde trabalhava, assinou contrato de fundição com o jornal Daily News. O relacionamento entre eles depois de um happy hour em que as empresas planejaram um entrosamento bacana entre seus funcionários progrediu de uma amizade e troca de e-mails com ajudas profissionais para um relacionamento sério onde se casaram três anos depois.
Ele, um diretor de artes que se esforçou muito para conseguir o emprego tinha apenas 22 anos, quando conseguiu o cargo, tudo graças ao seus esforços e garra para lutar pelos seus sonhos.
Ela, uma colunista da seção de moda e cultura do jornal em questão, filha de pais dedicados e donos de um restaurante no subúrbio da cidade sempre quis ser jornalista e falar sobre cultura em sua própria coluna em um jornal grande.
Com a correria diária no trabalho, e dedicação que ambos tinham para com o mesmo, sete anos depois eles se veem em uma crise enorme em seu casamento.
A relação esfria sem que percebam, e ninguém quer dar o primeiro passo para que tudo volte ao normal.
O divórcio seria a melhor opção para um amor que um dia fora jurado ser eterno?"

Música tema: Por Enquanto - Legião Urbana
Classificação: 13+




 

 

 

Bianca

Olhando através da janela do meu quarto, eu trazia de volta lembranças de uma época não muito distante. Uma época em que eu andava com borboletas soltas em meu estômago. Época essa, que eu vivia o meu conto de fadas particular.

A chuva caia, e com ela, as minhas lágrimas. Eu ainda me encontrava com uma xícara de café intacta entre as mãos. Minhas lágrimas desciam com a mesma facilidade que o céu deixava cair a chuva lá fora. Impetuosa e triste.

Henrique havia acabado de sair, deixando seu cheiro por todo o quarto. Mas, a sensação de vazio era ainda muito maior do que a ausência física dele. Meu marido não era mais o mesmo. A noite passada confirmara isso.

Quando o conheci em um encontro com os amigos do trabalho, foi amor à primeira vista, eu achava que seria para sempre e mergulhei de cabeça e com tudo. Não sabendo que o “para sempre”, poderia acabar.

Eu ainda olhava para a chuva, mas não via nada além de borrões em minha frente. O toque do telefone me trouxe de volta a realidade.

— Alô — falei sem emoção alguma na voz. Não olhei o identificador de chamada, então, não fazia ideia de quem era.

— Bom dia, Bianca. — A voz animada da minha amiga praticamente cantou do outro lado da linha.

— Oi, Lori. — Enxuguei as lágrimas ainda existentes, e funguei o nariz.

— Você está chorando de novo, Bianca? — Como minha melhor amiga, Lori já não suportava mais me ver sofrendo.

— Acho que estou pegando uma gripe — menti descaradamente.

— Você acha que me engana?

— Lori, por favor, não começa. — Eu não queria ouvir as suas críticas em relação ao meu casamento. Não de novo.

— Eu já disse a você que o Henrique não te merece, mas você insiste em continuar com esse casamento — falou, como se eu não tivesse acabado de pedir que não dissesse nada.

— As coisas não são tão fáceis assim.

— Só porque você não quer — retrucou, impaciente.

— Amiga, hoje eu não estou a fim de ouvir essas coisas, ‘tá? — Obriguei as lágrimas a cessarem, para que um soluço desesperado não saísse de minha garganta.

— Desculpa, mas é que eu fico triste em te ver triste, amore.

— Eu sei. — Suspirei alto.

— Quer uma carona?

— Eu adoraria!

Apressadamente, me troquei para mais um dia de trabalho. O banho morno levou embora um pouco da minha angústia, e o frio que fazia lá fora seria um aliado para o meu nariz vermelho. Em menos de uma hora, já estávamos tomando as ruas de NY, só não imaginávamos que enfrentaríamos um congestionamento daquela proporção.

Um mar de guardas chuvas passavam apressados pelas calçadas e entres os carros parados. Já havia quarenta minutos que estávamos paradas no mesmo lugar. Lori não parava de mexer no celular, e entre uma risada e outra, ela olhava o carro em sua frente para ver se ele havia avançado.

— O que tanto você olha para esse celular? — Eu já estava ficando incomodada.

— Amiga, achei um site de relacionamentos fabuloso! — Ela estendeu o celular e eu pude ver a quantidade enorme de mensagens que ela estava recebendo. — Estou amando.

— Até parece que você vai encontrar alguma coisa que preste em um site de relacionamentos — desdenhei o que ela estava me mostrando.

— Pior do que está, não pode ficar.

— Ai, Lori, às vezes eu acho que você não saiu da sua fase de adolescente. — Revirei meus olhos, ela realmente parecia uma menina de quinze anos, na maior parte do tempo.

— Você devia se cadastrar. — Me olhou sugestivamente e eu arregalei os olhos para ela.

— Você se esqueceu que eu sou casada? – Mostrei a aliança em meu dedo. Lembrando-me imediatamente com uma tristeza sem tamanho de que há semanas Henrique não usava mais a sua.

— Como eu disse. Pior não pode ficar. – Ignorando completamente o que eu disse, completou: — Vou mandar o link para você.

— Eu não vou me cadastrar em uma coisa dessa, Lori. Pode desistir.

Senti meu celular vibrando dentro da bolsa. Eu sabia que era o link do tal site, então, apenas ignorei.

— Você ainda vai me agradecer por isso.

O trânsito voltou a andar, e minha amiga louca não tocou mais no assunto. Ao que agradeci fervorosamente.

Mas ele insistiu em se infiltrar em meus pensamentos por todo aquele longo dia, que parecia que nunca mais teria fim.

 

Henrique

 

O dia finalmente chegou ao fim e eu, enfim, respirei aliviado. A semana havia sido puxado na revista, depois que um layout fora enviado errado para a gráfica. Já era mais de oito da noite e eu não queria de forma alguma voltar para casa. Eu sabia que havia ferido Bianca com minhas palavras rudes, mas no momento em que ela me fez aquela maldita pergunta, a resposta veio de imediato e eu nunca fui um cara de omitir a verdade apenas para não ferir a outrem.

Não entendia como foi que aconteceu de nos perdermos tanto em nossa rotina, mas agora éramos dois estranhos que dormíamos na mesma cama e fazíamos sexo casualmente, uma vez por mês. Não sabia que atitude tomar em relação a isso, colocar um fim nesse casamento mal sustentado era a coisa mais sensata a fazer, mas sempre que me determinava a seguir essa linha, algo me fazia mudar de ideia. Algo não, lembranças, lembranças de uma época que no fundo, mesmo eu não querendo admitir, me fazia falta.

Meu celular emitiu o som de uma mensagem e sorrio ao ver o conteúdo. Era a @malu_ruiva, do site de relacionamentos. Não me sentia um cara sem caráter por manter uma conta ativa em um site de namoros, desde que eu me dignava a não marcar encontros e sim, somente manter paqueras furtivas e sem compromisso algum, eu achava saudável. Quem é que não gosta de receber cortejos? Um elogio sempre cai bem no ego.

 

@malu_ruiva: Enfim acabou a semana, sexta é dia de encontros, que tal vc enfim me deixar te conhecer, Sr. Misterioso?

 

Sim, Sr. Misterioso era meu username no site, e já era de costume em sextas-feiras receber esse tipo de mensagem das mulheres com quem eu às vezes falava. Respondi com uma carinha triste, falando que ainda não. Ajeitei minhas coisas na maleta e saí, chamando o elevador em seguida

Ao entrar naquele cubículo metálico sozinho, lembranças da noite passada me invadiram a mente como um soco no estômago, o rosto impassível de emoções de Bianca me fez fechar os olhos.

O que você sente quando estamos transando, Henrique?

Perguntara-me ela.

Não sei, é como se fosse algo que meu corpo já tivesse planejado e soubesse como funcionaria, desde o começo. Não sinto nada, na verdade.

A resposta que lhe dera ainda me amargava a boca, mas não me fazia ter peso na consciência. Eu fui sincero, mas então, porque infernos aquilo ainda estava me incomodando? Bianca sempre fora uma mulher atenciosa e carinhosa, e sinceramente eu não conseguia entender toda essa aversão que se instalara em nossas vidas.

Meu celular apitou novamente, mas agora era uma mensagem de texto da minha esposa.

 

Bianca:

~Vai demorar para vir para casa? Preparei o jantar.~

 

O elevador se abriu e eu saí, caminhando rumo ao meu carro, já dentro dele, acomodei minhas coisas no banco do passageiro pensando no que responder.

 

~Provavelmente não irei para casa hj, não estou a fim de falar com vc, não hoje. Não ainda, há muito no que preciso pensar. Quando der, volto para conversarmos.~

 

Enviei já ligando o carro e pegando a avenida rumo a casa de Marcus, meu melhor amigo e parceiro no trabalho.

Precisava realmente colocar a cabeça no lugar e tomar uma decisão sobre essa situação. Não dava mais para continuar amarrado a alguém, a quem eu não me sentia bem em estar por perto. Não dava mais para continuar tendo transas sem emoção ou sentido, uma vez por mês. Eu precisava voltar a viver de verdade.

...

Já era quatro da manhã e eu não havia sequer conseguido fechar os olhos, minha mente trabalhava inquietantemente em busca de uma saída para meu casamento fracassado por mais que eu soubesse que a única saída para aquela situação era o divórcio. Esperei inutilmente que Bianca me mandasse qualquer sinal de que essa não era a decisão certa, mas nenhuma mensagem dela chegou. Apenas o pessoal costumeiro do site. Marcus que sempre fora meu amigo, desde quando éramos solteiros, me aconselhou a pensar se realmente era o divórcio que eu queria, e mesmo eu achando que sim, uma coisa lá no fundo dizia que não.

Que ainda não.

Meu celular tocou chamando minha atenção, uma nova pessoa me adicionou em sua lista de interesses. A foto de perfil era pés pequenos de uma criança de não mais que oito anos em sapatilhas de balé. Não entendia o porquê, mas aquela imagem me prendeu atenção mais do que eu seria capaz de admitir em voz alta. O nome do perfil era Srta. Enigmática e isso também me chamou atenção, cliquei em seu perfil e fui conhecer mais sobre ela.

 

Idade: 32 anos

Cor: Verde

Comida Preferida: Chocolate

Fuma: Não

Tem filhos: Não, mas pretendo ter, quando encontrar o cara certo.

Hobbie: Namorar, escutar música, ler e assistir séries.Programas Preferidos para o fim de semana

 O que procura no site: Ainda não sei, mas pretendo descobrir.

 

Também a coloquei em meus interesses e em seguida recebi uma mensagem sua.

 

Srta. Enigmática: Problemas para dormir, Sr. Misterioso?

 

Ao que respondi:

 

Semana ruim, gostei do seu perfil, gata Enigmática...

 

Srta. Enigmática: Haha, tbm curti sua foto. Gosta de praia?

 

Minha foto de perfil era de um lindo pôr do sol na praia. Fora tirada em uma das muitas viagens para o litoral que fiz com minha esposa, em nossa época de recém-casados. Eu gostava muito daquela foto, fora Bianca quem a tirara, apenas cortei a parte em que eu aparecia de costas.

Sim, um bom lugar para se esquecer um pouco os problemas. Me fale um pouco mais sobre você, estou ansioso para te conhecer melhor...

 

E de fato estava mesmo, uma ansiedade estranha começou a me deixar aceso enquanto via que ela digitava algo, e a cada nova mensagem recebida da Srta. Enigmática mais e mais eu queria saber sobre ela, descobri muitas coisas a seu respeito, inclusive que vinha enfrentando um momento complicado em sua vida conjugal, assim como eu. Descobri que seus cabelos são loiros e que é dona de incríveis olhos azuis, tem 1,68 e que além de chocolate, ama lasanha e adora desfrutar de um bom vinho. Era surpreendente a forma como minha mente trabalhava em busca de uma imagem para ela. Eu via uma mulher linda, de boca carnuda e lábios macios, uma pele sedosa e branquinha. Sempre gostava de pedir descrições para quem eu estivesse conversando, gostava para caramba desse jogo de criar pessoas na minha cabeça.

Contei a ela um pouco sobre mim também, e, mesmo estando cadastrado nesse site há mais de dois anos e ter uma lista incontável de interesses e fazer parte de uma infinitamente maior na do sexo oposto, eu nunca tive tanta afinidade com uma mulher como estava tendo com a Enigmática.

Sorrindo, às sete da manhã, quando ouvi os passos de Marcus e sua esposa pela casa, enfim, consegui dormir. Me sentindo feliz e com o coração leve. E decidido.

Eu queria o divórcio.

Eu sabia que essa decisão seria algo doloroso, porque, mesmo estando em uma situação totalmente incabível, eu tinha um grande carinho pela Bianca, e sabia o quanto ela ainda me amava. Eu precisava apenas criar coragem e dizer a ela a verdade. Que não a amo mais, não o suficiente para continuarmos sendo marido e mulher.

Bianca

 

Eu esperava poder conversar com Henrique essa noite, porém eu tive mais uma desilusão.

A mensagem que meu marido me mandou tirou completamente a minha vontade de continuar lutando pelo meu casamento. Eu estava jogando a toalha, estava enfim, entregando os pontos.

Minha cama parecia estar repleta de espinhos. Eu não conseguia ficar deitada. Procurei algo na internet algo que prendesse minha atenção, mas nada conseguia ser uma distração para mim. Inevitavelmente lembrei-me de minha amiga Lori. Andei até o quarto, e procurei meu celular dentro da bolsa. Com o aparelho em mãos, abri o link da mensagem.

Era isso, eu me aventuraria pela madrugada com um desconhecido qualquer. Isso seria melhor do que passar a madrugada com seu conhecido travesseiro, e minhas lágrimas insistentes. Me cadastrar no site foi fácil. As inúmeras opções de pessoas eram de impressionar. Havia muitos homens bonitos, mas eu tinha certeza que a maioria das fotos eram fake. Uma foto em questão me chamou muito a atenção por ser uma foto de pôr do sol. Isso me lembrava de Henrique, e por mais que eu estivesse desistindo do nosso relacionamento, meu subconsciente ainda procurava por detalhes dele para se apegar, então, logo adicionei o contato daquele homem, e uma ânsia de conhecê-lo me fez enviar-lhe uma mensagem, seu nome era Sr. Misterioso, e isso era no mínimo intrigante. Sua resposta não demorou e essa troca de mensagens se seguiu por toda a madrugada, e eu gostei.

Gostei da atenção, gostei do papo, gostei daquele homem misterioso que salvou a minha noite.

Mesmo sem ter a menor ideia sobre isso.

...

Quando o dia amanheceu, eu não me sentia cansada.

A falta de sono, e a conversa da madrugada não fizeram com que eu seguisse meu dia de mau humor, pelo contrário, meu dia estava radiante. As palavras do tal Sr. Misterioso ainda me deixavam em estado de torpor. Como isso poderia ser possível, afinal eu ainda era uma mulher casada, mesmo com todas as dificuldades. Então por que me sentir tão bem com o cortejo de outro homem?

— Que cara é essa? – Lori debruçou-se em minha mesa, eu nem havia reparado em sua presença.

— Cara de quê? – Tentei disfarçar o inevitável. O límpido sorriso em meu rosto denunciava o meu estado de espírito.

— Você fez as pazes com o Henrique?

— Henrique não tem nada a ver com isso. Nem para casa ele voltou ontem. – de certa forma, um aperto no meu peito era constante por causa disso.

— Então o que foi? – Ao meu silencio, os olhos de Lori se arregalaram, e ela sorriu daquele jeito moleca que só ela tinha quando constatava algo do qual ela se orgulharia. — Você entrou no site? É isso que te fez ficar com essa cara de boba?

— Entrei. – Sorri como uma adolescente ao me lembrar do Sr. Misterioso. – E encontrei alguém lá.

— Me conta tudo!

Passei a hora seguinte contando para minha amiga tudo que ela queria saber. Cada palavra que eu lhe contava sobre aquele homem que me prendeu na tela do celular a madrugada toda, fazia com que uma chama se acendesse dentro de mim. Era como me sentir desejada novamente, mesmo que fosse uma ilusão da minha cabeça, apenas um faz de conta inventado por mim. Afinal, quem no mundo encontra amor de verdade na internet? Era em momentos como esse que eu percebia o quanto meu relacionamento com Henrique desgastou meu emocional, o quanto me sentia sozinha e carente.

...

Quando percebi já havia se passado uma semana e meia desde que conheci o Sr. Misterioso, e a cada dia a vontade de conhecê-lo aumentava cada vez mais, não paramos de nos falar pelo site de relacionamentos e varamos muitas outras madrugadas trocando piadas idiotas ou confidencias seguras de nossas vidas.

Henrique ainda não havia voltado para casa, e a distância entre nós já não era mais um pequeno buraco, ela já havia se transformado em um enorme e obscuro abismo.

Mas, eu sentia falta do meu marido, no fundo eu queria que todas as palavras ditas pelo homem do outro lado da tela pudessem de alguma forma serem do meu marido. Porém, eu sabia que isso nunca seria possível, tinha consciência de que o Henrique pelo qual me apaixonei havia desaparecido dentro daquele novo homem frio e insensível.

...

 A última conversa que tive com o Sr. Misterioso na noite passada me deixou tensa e apreensiva.

Ele queria me conhecer.

Mas, por mais que eu desejasse isso, ao mesmo tempo não queria. Eu estava confusa. Me sentia atraída por um homem que eu sequer sabia quem era, porém, me fazia bem como há muito não me sentia.

Mas ele não era real. Eu sequer sabia o seu nome, Sr. Misterioso era só alguém sem rosto com palavras bonitas, e naquele momento eu estava extremamente tentada a mandar uma nova mensagem cancelando o tal encontro. Nem entendia como havia aceitado aquela ideia ridiculamente maluca.

Meus pensamentos estavam longe, e nem percebi que alguém estava abrindo a porta. Henrique estava de volta, mas pelo visto não era para ficar. Ele subiu para o quarto sem ao menos dizer um oi, e isso me quebrou por inteira. Naquele momento eu percebi que ainda o amava, e nem mesmo o Sr. Misterioso poderia arrancar aquilo de mim.

Fiquei ali sentada, absorvendo sua imagem. Os olhos negros que me encararam com pesar, os lábios que um dia tanto amei beijar estavam presos em uma linha rígida. Tive vontade de tocar seus cabelos e me agarrar a ele, ficar com a cabeça deitada em seu peito como sempre era quando nos abraçávamos por causa da nossa discrepante diferença de altura, quis sentir seu perfume e o roçar leve da barba de alguns dias que cobria seu rosto anguloso, mas me obriguei a ser realista e encarar que acabou. O homem pelo qual fui apaixonada todos esses anos não me queria mais.

— Vim pegar algumas roupas. – Ele desceu depois de algum tempo com duas malas nas mãos. — Estou alugando um apartamento para mim.

— Tudo bem. – Sentei-me em uma das enormes cadeiras que decorava a nossa sala e o observei.

— Eu quero o divórcio, Bianca. — Seu tom de voz não transparecia emoção alguma e as lágrimas escaparam sorrateiramente dos meus olhos. — Meu advogado já cuidou de tudo.

Meu, agora, ex-marido tirou um envelope de papel de dentro de sua pasta que estava em cima da mesa e me entregou. Eu me recusava a acreditar que meu casamento estava acabando.

— São os papeis do divórcio — prosseguiu, parecendo sem graça e coçando a nuca. Henrique só fazia isso quando estava nervoso. — Leia e depois mande de volta para mim. Pode ser pelo motoboy da revista mesmo.

— Tudo bem. – Tentei sorrir, mas sei que ao contrário disso uma careta horrível se formou em meu rosto.

— Adeus, Bianca.

— Adeus, Henrique.

— Eu sinto muito por tudo essa situação. — E saiu pela porta, me deixando perdida.

Mas aquilo era mentira, ele não sentia merda nenhuma, se sentisse mesmo, teria sentado comigo e conversado. Teria me dito onde foi que eu errei para ele querer sair assim da minha vida, como se eu nunca tivesse significado nada.

...

Depois da partida de Henrique da minha vida, eu não o vi mais. Sentia falta dele como nunca havia sentido antes. Li aquele monte de papeis que não fazia sentido algum para mim e os encaminhei para o advogado da revista, para que me ajudasse a entende-los, depois de me explicar cada cláusula e o tempo que levaria até eu estar divorciada, eu os assinei e imediatamente os enviei para Henrique, sentindo que se eu ficasse com eles perto de minhas vistas por mais alguns poucos segundos, eu poderia enfiá-los na fragmentadora.

Eu ainda tentava encontrar onde foi meu erro no nosso casamento e estava com o coração devastado, e acreditava que ninguém conseguiria consertá-lo. O Sr. Misterioso continuava investindo em mim, e insistia que tivéssemos um encontro, mas não era mais a mesma coisa. Minha vida não fazia sentido sem meu marido nela.

E por mais que eu tenha tentado fugir disso, Lori me encheu tanto que no fim, acabei cedendo e hoje era o dia do tal encontro, mas não seria algo para engatar um romance fora da tela do mundo virtual. Eu aceitei o convite de encontrá-lo para agradecer a ele pelos momentos furtivos de felicidade que havia me proporcionado com seus cortejos e piadas, era uma coisa bem besta, mas naquele momento da minha vida, significava muito para mim. Queria também, dizer a ele pessoalmente que mesmo que eu quisesse, não poderia amá-lo.

Meu coração já tinha dono e assim seria para sempre, por mais que ele não estivesse mais ao meu lado.

Coloquei o vestido que Henrique mais gostava e que havia descrevido ao Sr. Misterioso para que ele pudesse me localizar no restaurante, ele era azul petróleo de uma alça só e seu comprimento ia até o meio das coxas. Em meu pescoço, de onde nunca saiu desde nosso casamento onde ele havia me presenteado com ele, o colar com nossas iniciais entrelaçadas estava bem posicionado entre o vão dos meus seios. Deixei meus cabelos soltos e não exagerei na maquiagem, apenas o batom vermelho que também era referência para o homem virtual me encontrar.

Ao pegar as chaves do carro e de casa e me colocar em pé, na garagem observando meu reflexo na janela fechada do meu carro, eu sentia uma estanha sensação borbulhar o sangue em minhas veias, era a mesma sensação que senti na primeira vez que sai para jantar com meu ex-marido.

Ignorando o coração que batia forte no peito, respirei fundo, liguei o carro e segui, rumo ao desconhecido.

 

Henrique

 

Aos poucos, eu estava conseguindo pensar cada vez menos que eu ferira Bianca, apesar da sua expressão arrasada quando lhe entreguei os papéis do divórcio.

Aquele véu escuro que cobria o brilho de seus olhos fora como uma facada em meu peito, só que eu não podia mais, de forma alguma prendê-la a mim, sendo que eu não tinha mais por ela os mesmos sentimentos de anos atrás, quando nos casamos.

Porém, nesses dias em que me mudei para o apartamento alugado e tenho trocado mais e mais mensagens com a Srta. Enigmática, sem que eu pudesse evitar, associava muitas manias, gostos e sonhos de uma, à outra.

Me esmurrava mentalmente a cada vez que fazia isso, mas era automático. Não tinha como não associar o gosto por balé da Srta. Enigmática, ao sonho de infância Bianca de ser bailarina. Ou a preferência por um hambúrguer com fritas a uma salada e arroz com filé da minha nova paquera virtual, com a paixão pelo mesmo prato do MC’ Donalds que minha ex-mulher nutria secretamente, por mais que todos achassem que ela era uma pessoa que não curtia um fast food por sempre ser apta a esportes.  Enfim, tudo nessa mulher que eu só conhecia por mensagens e pelas imagens infinitas que minha cabeça criava, me remetia à Bianca. E eu nem sequer conseguia controlar essa merda.

Recebi os papeis do divórcio e os joguei, com raiva, dentro de uma gaveta para entregar depois ao meu advogado. O relógio já marcava sete e meia e em breve conheceria a Srta. Enigmática. Ela estava distante por esses dias e suspeitei de que estivesse se entendendo com seu marido, já que ela não entrava em muitos detalhes nesse departamento da sua vida, mas pensou muitas vezes em cancelar nosso encontro, e isso só podia significar que estava conseguindo superar a fase ruim de seu relacionamento.

O que intimamente me deixava com inveja.

Eu não tinha intenções sexuais em mente para esse encontro, só queria mesmo conhecer pessoalmente a mulher que me encantou em meio ao caos que estava minha vida conjugal.

Enquanto ajeitava a gravata azul marinho e me encarava no espelho, vi que ainda usava a pulseira de couro negro com as iniciais H&B intrincadas uma na outra em letras cursivas. Fiquei encarando meu pulso esquerdo no espelho por um longo tempo que não sei precisar quanto foi, só sabia afirmar com toda a certeza do mundo que, apesar de eu ter enfiado meu casamento ladeira abaixo e nem sequer cogitar a hipótese de sentar com Bianca e resolvermos tudo, juntos, concertarmos os pontos em que cada um estava negligenciando o outro e enfim vivermos nosso casamento em paz novamente, eu a amava.

Caralho, eu amo minha esposa, e acabei convencendo a mim mesmo o contrário disso!

Como pude ser tão estúpido e ignorante a tal ponto?

Senti o ar fugir dos pulmões enquanto os olhos tristes e transbordando lágrimas da minha Bia me assombrava a mente, quando foi mesmo que deixei de chamá-la de Bia? Nem sabia dizer, e de repente, tudo o que eu mais queria era apenas tomá-la nos braços como na noite do nosso primeiro encontro depois que nos conhecemos naquele happy hour. Beijar seus lábios macios e sempre doces pelo gloss de cereja que sempre usava para proteger os lábios. Sentir seu corpo no meu, não naquele modo automático que deixei ser por todos aqueles malditos meses e sim, com o corpo transpirando amor e paixão.

Apenas as lembranças dos nossos tempos de namoro me fizeram ficar duro e dolorido...

Olhei no relógio e constatei que se demorasse um minuto a mais me atrasaria, então, determinado, saí de casa. Passaria no restaurante e diria a Srta. Enigmática que eu sentia muito, mas teríamos que esquecer tudo que rolou entre nós, que na verdade não era nada, apenas estávamos nos conhecendo, mas eu sentia que tinha que colocar um ponto final nessa história e cancelar a porcaria do cadastro naquele maldito site para enfim, tentar reconquistar o amor da minha esposa. Rasgaria aquela merda de papelada de divórcio no dia seguinte, depois de falar com a Bia.

Passei depressa pela floricultura do bairro e comprei uma rosa azul para que a minha acompanhante me reconhecesse, e segui até o restaurante. Entreguei a chave ao manobrista e entrei, esbaforido, louco para ir logo atrás da minha Bianca.

Sentia que cada minuto longe dela, depois de enxergar a grande merda que eu cometera, era uma perca de tempo, que outro homem poderia estar tentando conquistar a mulher que é minha.

Entrei no ambiente todo a luz de velas e segui até a parte dos fundos, onde era mais reservado e caminhei entre as mesas, apressado. Coloquei a rosa no bolso do paletó e parei na porta do local reservado para dar uma olhada no lugar e encontrar a Srta. Enigmática, vários casais estavam desfrutando de um bom jantar naquela noite de sexta e eu continuei varrendo com os olhos o local, até que meus olhos pararam na figura pequena e encolhida na mesa, seus olhos demonstrando tanta surpresa por me ver ali que lágrimas silenciosas e sorrateiras lhe cobriam a face. Ela se levantou e eu caminhei até ela. Meus próprios olhos desobedecendo meus comandos e derrubando lágrimas de saudade, de amor e inclusive de culpa. Eu estava tão fodido dentro da minha própria cabeça e da porcaria do meu ego que nem sequer associei todas as características da Srta. Enigmática com a minha Bianca.

Deus, como deixei isso acontecer? Como me deixei cegar a tal ponto?

A culpa era como um lutador de MMA me levando a um nocaute sem chance alguma de revanche. E doía para caralho aquela sensação queimando no peito.

Ela usava os saltos altos que lhe dei de presente no seu último aniversário, o vestido azul petróleo que eu amava em seu corpo por deixar em evidencia cada curva, no pescoço, escondido entre os seios, nossas iniciais, como na pulseira em meu pulso. Eu a conhecia o bastante para saber que queria tudo, menos estar ali, e me peguei pensando em como essa doce mulher foi se cadastrar naquele site. As respostas eu teria depois porque no momento, só queria ela. A minha mulher.

Sem dizer palavras, assim que me aproximei o bastante, a tomei em meus braços, pouco me importando que estávamos no meio de um restaurante. A beijei com tudo de mim, tentando mostrar a ela com aquele beijo desesperado, todo meu arrependimento, toda minha angústia por tê-la ferido tanto. Me sentia um homem miserável naquele momento, sentia que não era nem um pouco merecedor daquela mulher, mas mesmo assim, era egoísta demais para abrir mão dela.

Como pude cogitar a ideia de que conseguiria viver sem essa mulher?

Meu Deus, como fui burro!

Bianca correspondia meu beijo com a mesma intensidade, seus braços delicados apertados em meu pescoço.

— Senhor, desculpa, mas vocês não podem é... se beijar dessa forma aqui. — Senti uma mão tocar meu ombro e só então, descolei meus lábios dos dela.

Ela sorria tão lindamente que tive que controlar meus impulsos de beijá-la de novo.

— Eu quem peço desculpas, cara. Acabei de me acertar com a mulher mais maravilhosa do mundo, me excedi. — Sabia que podia estar sendo precipitado e considerar aquele beijo nosso acerto, mas o sorriso da minha Bia não se desfez então meu peito se encheu ainda mais de esperanças e o garçom apenas acenou, pedindo desculpas por ser obrigado a nos interromper.

— Srta. Enigmática... — ela fechou os olhos e suas bochechas ganharam uma cor escarlate que eu senti muita falta de ver ali. Escondeu o rosto em meu peito e continuou me apertando forte contra si.

— Meu Sr. Misterioso. — Puxei seu rosto para mim e salpiquei alguns beijos em seus lábios, ainda sorrindo.

— Vamos jantar, Bia, depois a gente conversa. Por você tudo bem? — Podia ver em seus olhos todas as perguntas que queria me fazer, eu também tinha milhares delas dentro da minha cabeça, mas ela apenas assentiu, assim como eu, querendo apenas desfrutar da companhia um do outro naquele momento de reencontro dos nossos corações.

Entrelacei nossos dedos e caminhamos juntos até a mesa que havia reservado para aquele jantar, sem sequer imaginar que encontraria a pessoa que amo, e por quem eu estava determinado a lutar para conquistar.

Lutaria de agora em diante para que nunca mais nos tornássemos dois desconhecidos dentro do nosso casamento.



Notas finais do capítulo

E aí, o que acharam? Não deixem de comentar contando qual seu veredicto sobre meu conto hehehe.
Mais uma vez, obrigada a todos por acompanharem e nos apoiarem nesse Lindo Projeto ♥



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