A Criação da Luz escrita por André Tornado


Capítulo 9
O salvamento


Notas iniciais do capítulo

"Também para todos nós, ansiosos, o tempo um dia trouxe o auxílio e a vinda de um deus."
in Eneida, Vergílio, Bertrand Editora, 2003



Um estrondo fez estremecer a cela. As paredes abanaram quando a porta se abriu e a vibração estendeu-se pelas pedras. Um torvelinho de silvos agudos e de gritos ecoava pelas passagens sombrias. Aos poucos recuperava a consciência. Sentia o chão frio debaixo de mim.

Voltaram-me de costas, soergueram-me. Abri os olhos.

— Consegues andar?

Acenei que sim. Sentei-me.

— Sim, Luke…

Levantei-me, ele amparou-me.

Ele escutara o meu apelo. Senti que estava salva mesmo que ainda permanecesse dentro da cela.

— Consegues andar? – repetiu.

— Consigo.

Podia não o conseguir, mas iria tentar fazê-lo. Acenei com mais vigor.

Saímos pela porta da cela que tinha sido rebentada por uma carga de explosivos. Luke tinha numa das mãos o seu sabre de luz desligado e com a outra agarrou-me no pulso. Antes observara os meus pés ligados, mas não tecera qualquer comentário. Se olhara para as minhas pernas, descobertas até acima do joelho, não me dera conta.

Puxou por mim e desatámos a correr pela galeria escura, onde se viam portas dos dois lados. Seria a área de detenção do complexo. Subimos uma escadaria de pedra na direção de uma abertura que conduziria ao exterior, por onde entrava alguma claridade. No último degrau apareceu uma criatura esverdeada. Gritei. Luke ativou o sabre de luz e a criatura rebolou pela escadaria abaixo.

— Vamos. Sempre atrás de mim!

Já não puxava por mim, tinha o sabre de luz ativo, pronto para a ação, e segurava-o com ambas as mãos.

Saímos para um dos pátios rodeados pelas torres e escadarias, o mesmo labirinto que eu enfrentara quando tentara fugir no final do dia. Era de noite e havia pouca luz para nos orientarmos num local desconhecido, mas Luke parecia saber exatamente por onde deveria ir. Por outro lado, a espada brilhante que empunhava ajudava a iluminar os nossos passos. Decorara o caminho que o levara do exterior até à minha cela ou simplesmente conhecia como se evadir dali.

Fui sempre atrás dele, sem hesitar, confiante.

Luke ergueu o sabre de luz que faiscava entre as suas mãos. Surgiram três criaturas diante de nós, vindas de uma das torres. Armavam-se com os seus costumeiros bastões arredondados nas pontas. Atacaram Luke. Recuei para lhe dar espaço. Não temia pelo Jedi que brandia com mestria a sua arma mágica. Sabia que ele era um dos melhores e que, a seu lado, eu não correria perigo.

Os silvos enchiam o ar, provenientes da linguagem particular das criaturas e dos movimentos do sabre de luz. Luke descartou-se do trio facilmente. Agarrou-me no pulso, desligou o sabre, recomeçámos a correr. Contornámos duas torres, descemos uma escadaria de degraus corroídos pelo vento do deserto. Uma casa grande apareceu recortada no azul-escuro do céu, pareceu-me ser a localização do salão das escravas. Não gostei do rumo que estávamos a seguir, puxei o braço. Luke olhou para trás.

— O que foi?

— Sabes por onde estás a ir? – quis assegurar-me.

— Claro que sei! Não te preocupes, o meu veículo está perto. Estacionei-o num lugar escondido.

— Está bem.

Passámos um túnel, abriu-se um segundo pátio entre duas torres, toldado pelas sombras noturnas. Os silvos estavam nas nossas costas e aproximavam-se. A perseguição era cerrada, implacável. Mas a minha evasão iria ter sucesso, pensei determinada. Iria ter sucesso porque eu estava com o melhor dos Jedi, porque eu desejava realmente fugir.

— O speeder está debaixo daquela amurada. Vai para lá, rápido!

— E tu?

— Já vou ter contigo. Deixa-me só tratar disto…

Luke correu para trás de mim, ligando novamente o sabre. A luz verde da arma deu à noite uma claridade sobrenatural. Vi-o naquela moldura maravilhosa, trajado de negro a empunhar uma espada radiosa. O poder conseguia ser belo.

Um bando de criaturas ameaçadoras surgiu. Vinham de todos os lados, das torres, das escadarias, de corredores secretos. Rodearam o Jedi e ameaçaram-no com os seus bastões que faiscavam em contacto com o sabre de luz. Luke combatia-os com tenacidade. Corri para o lugar que ele me tinha indicado. Comecei a coxear e a arrastar a perna esquerda. Estava exausta e, pela primeira vez, esfomeada.

Alcancei a amurada. Por debaixo do varandim, a pouca distância, estacionava-se um veículo cinzento, descapotável, escondido atrás de um rochedo. Era um modelo XP-38 de bonitas linhas aerodinâmicas, sobretudo veloz. Empoleirei-me no parapeito estreito e preparei-me para saltar. Os músculos das pernas doeram-me e fiz um esgar. Não iria fraquejar naquele momento, à vista da salvação.

No momento do impulso, alguém me puxou para trás. Caí de costas no pátio, as minhas costelas estalaram. Uma das criaturas lançava o seu bastão. Rebolei para o lado, a tempo de evitar o golpe que rachou o chão, junto ao meu rosto. Cerrei os dentes.

Já não era tão preciosa para eles, já me podiam eliminar.

Olhei para Luke que se desembaraçava dos seus oponentes a golpes de sabre de luz. Ele tinha os seus problemas, eu tinha de escapar daquela situação pelos meus próprios meios. Tornei a rebolar para escapar de um segundo golpe. Fiquei deitada de bruços. Descobri uma pedra. Havia muitas espalhadas pelo pátio, pedaços que se soltavam das torres e das escadarias que se esboroavam por causa da erosão provocada pelas ventanias e tempestades de areia. Agarrei na pedra. Tive de rebolar outra vez. Pontapeei a criatura que tombou com a rasteira. Assentei um joelho no peito mole, bati-lhe no rosto verde com a pedra. Levantei-me e corri para a amurada.

Luke berrou-me:

— Mete o speeder a trabalhar!

— Eu?!

— Sim, miúda! Depressa! Eles são demasiados! Não vou aguentar por muito mais tempo!

Brandiu o sabre de luz e o sangue negro das criaturas espirrou.

Não tinha a certeza se saberia ligar aquele veículo mas não perdi muito tempo a cogitar nessa dúvida. Nem no facto de ele me ter chamado de miúda. Saltei do varandim, aterrei nos bancos. O speeder oscilou com o meu peso. Tentei sentar-me com a maior desenvoltura que conseguia, dadas as dores que sentia por todo o corpo. Olhei para os botões do painel de comando. Nunca tinha visto nada de semelhante, não me lembrava de alguma vez ter acionado o motor de um speeder.

A luz verde do sabre apareceu sobre a amurada, a desenhar riscos luminosos. Luke executava os movimentos de retirada. Silvos, urros, mais sangue negro, que pingava sobre mim como chuva quente.

Humedeci os lábios. A luz verde do sabre ajudou a distinguir as teclas do painel. Não deveria ser muito difícil pôr aquela sucata a funcionar. Bastava seguir o instinto… Fechei os olhos, estendi o braço.

Luke empoleirou-se na amurada, a brandir a espada brilhante sobre os adversários, a cortá-los e a queimá-los. Silvos e urros, sangue. De olhos fechados, puxei uma alavanca, carreguei num botão. O speeder deu um solavanco, estremeceu, o motor chiou. Num salto preciso, o Jedi tomou o lugar aos comandos do veículo. Abri os olhos e arrancámos a toda a velocidade, deixando para trás as criaturas que silvavam cheias de raiva e de frustração.

Estávamos salvos!



Notas finais do capítulo

O Luke respondeu ao chamamento da Cleo e os dois encontram-se a salvo daqueles terríveis raptores, depois de uma curta escaramuça em que vimos o sabre de luz em ação pela primeira vez.
Agora, regressam a casa. Os dois irão ter uma conversa para esclarecer o que falta ser esclarecido... Quem são os raptores? Será verdade que ela não tem uma aura? Como conseguiu ela lançar aquele pedido de ajuda?

Próximo capítulo:
Sob as estrelas.



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